Edição 542 | 30 Setembro 2019

Os alienígenas de nós mesmos

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Ricardo Machado

Erick Felinto aborda o pensamento de Vilém Flusser em perspectiva com a possibilidade de constituição de novos humanismos para um mundo cada vez mais complexo e múltiplo

Todo o ideal de humanismo esculpido por séculos durante a modernidade transformou-se num grande ponto de interrogação após a Segunda Guerra Mundial. Não se trata de admitir, em hipótese alguma, que o humanismo moderno acabou, mas foi colocado em causa, entre outras razões, pelo alcance que a dimensão técnica alcançou. “Como defender valores humanistas, as grandes obras do espírito, a grande tradição ocidental, após Auschwitz? Como elaborar uma proposta para o humano que permita desconstruir nosso privilégio ontológico em relação às outras entidades deste mundo, ao mesmo tempo que preserve determinados princípios basilares?”, provoca o professor doutor Erick Felinto, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Se de um lado a programação de máquinas e de seres humanos, impulsionadas também pela Inteligência Artificial, torna-se cotidianamente algo recorrente, de outro temos sempre a possibilidade de reinvenção humana. “Não existe como voltar atrás e abdicar das transformações radicais que o desenvolvimento tecnológico ocasionou. Entretanto, podemos tentar habitar ao mesmo tempo diversos mundos possíveis. Quando tento lidar com mídias diferentes em pé de igualdade, como o livro e o computador ou a pintura e a videoarte, amplio meu leque de possibilidades cognitivas e emocionais”, salienta o professor.

“O novo humanismo necessita, antes de tudo, desvincular-se da hierarquia ontológica que o humano elaborou face aos outros seres com que dividimos este mundo. Se hoje passamos a prestar cada vez mais atenção aos mundos animais e vegetais, é porque vamos aos poucos tomando consciência de que habitamos espaços múltiplos, maleáveis, instáveis, nos quais não podemos mais assumir que somos os agentes únicos. O tema do ponto de vista tinha importância vital no pensamento flusseriano porque, numa postura próxima ao perspectivismo de Viveiros de Castro, ele cria que o próprio do humano é sua capacidade de reinventar-se, de articular diferentes pontos de vista e entrar em conversação com outros universos existenciais”, complementa.

Erick Felinto de Oliveira é doutor em Literatura Comparada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e tem pós-doutorado em Comunicação pela Universität der Künste, Berlim. É pesquisador do CNPq e professor adjunto na UERJ, instituição em que realiza pesquisas sobre cinema e cibercultura. É autor de, entre outros, A religião das máquinas: ensaios sobre o imaginário da cibercultura (Porto Alegre: Sulina, 2005); Silêncio de Deus, silêncio dos homens: Babel e a sobrevivência do sagrado na literatura moderna (Porto Alegre: Sulina, 2008); O explorador de abismos: Vilém Flusser e o pós-humanismo (com Lucia Santaella. São Paulo: Paulus, 2012); Cibercultura em tempos de diversidade: estética, entretenimento e política (São Paulo: Anadarco, 2013); A vida secreta dos objetos: ecologias da mídia (Rio de Janeiro: Azougue, 2016).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que forma tanto o ser humano quanto as máquinas são seres programados? Como entender essa premissa?
Erick Felinto – Nós tendemos a crer que o domínio do humano é o da pura imprevisibilidade, da liberdade de ação e pensamento como horizontes sempre abertos. Todavia, ainda que exista, sim, essa margem de indeterminação e potencial de criatividade, o ser humano recebe uma série de programas, que são de ordem biológica, social e cultural. A cibernética buscava explorar essa ideia de forma extrema, ao considerar homens, animais e máquinas como sistemas que funcionam a partir de princípios básicos semelhantes.

Nesse sentido, tanto Flusser como Norbert Wiener (um dos pais da cibernética) produziram um tipo de pensamento que se situava nos interstícios entre o humanismo e uma espécie de pós-humanismo. Por um lado, se apegavam à ideia do humano como esse lócus de riqueza interior e liberdade; por outro, consideravam com seriedade o papel dos programas e formas de inscrição social/cultural nos comportamentos dos indivíduos. A ideia de alma como a dimensão divina e indeterminada do humano sofreu seguidos golpes por via de disciplinas como a psicanálise e a antropologia. Mais recentemente, Friedrich Kittler e a teoria da mídia alemã, em geral, levaram essa crítica da interioridade criativa a um extremo. Para Kittler, era necessário “expulsar o espírito” das ciências humanas – isso porque, em alemão, “ciências humanas” se diz “ciências do espírito” (Geisteswissenschaften). E o espírito, como imaterialidade pura, desconsidera todas as experiências e condicionamentos que as materialidades do mundo produzem em nós. Para ele, nossas tecnologias e meios de comunicação determinam de forma radical nossa subjetividade. A ideia de programa associado ao ser vivo e ao homem, mais particularmente, vem ganhando tração renovada nos últimos anos e esse vasto campo de estudos que têm sido definido como “pós-humanismo” dá testemunho disso.

IHU On-Line – Como pensar o humanismo em uma sociedade cuja dimensão tecnocientífica é a ponta de lança?
Erick Felinto – Esse é um dos grandes dilemas com que Flusser se defrontou. Como defender valores humanistas, as grandes obras do espírito, a grande tradição ocidental, após Auschwitz ? Como elaborar uma proposta para o humano que permita desconstruir nosso privilégio ontológico em relação às outras entidades deste mundo, ao mesmo tempo que preserve determinados princípios basilares? O que normalmente esquecemos é que não existe propriamente um modelo único, intemporal e universal do que é o humano. Essa noção é historicamente definida, e já teve diferentes significados ao longo do tempo. Parece-me que o grande perigo que enfrentamos na sociedade hipertecnológica não é exatamente a desaparição do humanismo lato sensu, mas o desafio de pensar um humanismo capaz de responder às demandas específicas de nosso tempo.

É possível que Shakespeare , Michelangelo ou Cervantes possam seguir nos ensinando coisas importantes sobre a experiência do humano? Eu creio que sim, pois mesmo habitando um mundo radicalmente diferente, existem núcleos dessa experiência que se mantêm relevantes. Nesse sentido, a frase de Terêncio com que Flusser abre o Vampyroteuthis Infernalis (São Paulo: Anablume, 2011), talvez seu livro mais singular, é emblemática: “Homo sum: nihil humani a me alienum puto” (“sou humano, e nada do que é humano me é alheio”). Não existe como voltar atrás e abdicar das transformações radicais que o desenvolvimento tecnológico ocasionou. Entretanto, podemos tentar habitar ao mesmo tempo diversos mundos possíveis. Quando tento lidar com mídias diferentes em pé de igualdade, como o livro e o computador ou a pintura e a videoarte, amplio meu leque de possibilidades cognitivas e emocionais. O que Siegfried Zielinski chamou de “psicopatia medialis” – a imposição de determinados padrões fechados e unívocos por meio da indústria da comunicação – é um perigo real que autores como Flusser sugeriam combater com uma postura de experimentação e versatilidade, ou seja, uma atitude vital eminentemente estética. Minha atitude pessoal, se é que posso falar disso, baseia-se num misto de pessimismo filosófico (uma noção bem expressa no ensaio de Thomas Ligotti , “The Conspiracy against the Human Race”, ou seja, na constatação de que sofremos de um danoso “excesso de consciência”, com a esperança de que essa percepção possa nos lançar numa espécie de compaixão schopenhaueriana de comunidade com o outro.

Todos nós compartilhamos da dor e das excruciantes contradições implicadas na experiência do humano. O diálogo era parte fundamental da filosofia de Flusser, pois ele cria que só podemos existir plenamente na relação com a alteridade. Eu sou o outro, não existo sem ele. Como ele escreveu belamente, numa evocação de aspectos da tradição judaica, “nós sobreviveremos na memória dos outros”. Numa era de conexões distantes e mediações técnicas, elaborar essa consciência de proximidade e dos espaços de encontro me parece essencial para construirmos um humanismo capaz de responder aos desafios da nossa era.

IHU On-Line – Flusser sugere uma noção de humanista diferente da perspectiva clássica. Do que se trata esse novo humanista pensado por Flusser?
Erick Felinto – O novo humanismo necessita, antes de tudo, desvincular-se da hierarquia ontológica que o humano elaborou face aos outros seres com que dividimos este mundo. Se hoje passamos a prestar cada vez mais atenção aos mundos animais e vegetais, é porque vamos aos poucos tomando consciência de que habitamos espaços múltiplos, maleáveis, instáveis, nos quais não podemos mais assumir que somos os agentes únicos. O tema do ponto de vista tinha importância vital no pensamento flusseriano porque, numa postura próxima ao perspectivismo de Viveiros de Castro , ele cria que o próprio do humano é sua capacidade de reinventar-se, de articular diferentes pontos de vista e entrar em conversação com outros universos existenciais. Essa capacidade, como sugere Katherine Hayles citando Flusser, é um elemento compensatório que necessitamos para contrabalançar nossas tendências antropocêntricas. O exercício imaginativo de ocupar o lócus existencial de outras entidades e outras visões de mundo é o que pode nos salvar de nosso fechamento natural em nossa condição humana.

IHU On-Line – Nesse sentido, como o pensamento de Flusser nos ajuda a pensar os dilemas atuais?
Erick Felinto – Com todas as limitações e contradições que apresenta, o pensamento de Flusser é rico de intuições para o enfrentamento dos dilemas contemporâneos. A problemática da identidade, uma questão central para nós no contexto da cultura das redes, foi tratada por Flusser de forma bastante instigante. Mas acho que se trata menos de buscar repostas em Flusser do que encontrar perguntas interessantes. Penso que devemos confrontá-lo com outros autores e questões mais próximas de nossa situação, e ver o que é possível extrair desse confronto.

IHU On-Line – De que maneira o pensamento cibernético, ou melhor dizendo, pensamento sobre a cibernética, era uma preocupação central para Flusser?
Erick Felinto – Flusser tinha um entendimento da cultura que passava pela perspectiva cibernética. Nesse sentido, está curiosamente próximo da recuperação da cibernética efetuada por vários autores da chamada “teoria da mídia alemã”, como Claus Pias ou Friedrich Kittler. Depois de vários anos de obscuridade, a cibernética parece agora conquistar uma sobrevida no pensamento desses autores. Para Flusser, um sistema (seja um ser vivo ou uma máquina, por exemplo) é basicamente um processador de informações. Tais sistemas funcionam numa permanente busca de equilíbrio e renovação com o meio ambiente circundante. Os processos culturais podem ser traduzidos em termos informáticos, como armazenamento, transmissão e processamento. O mundo aparece como uma rede de relações de codependência entre diversas entidades. Em tal perspectiva, o self flusseriano manifesta-se como nó em uma rede de relações dirigida por uma diversidade de forças e fluxos sempre em movimento. Esse sujeito se adapta constantemente ao meio do qual participa e precisa produzir continuamente novas informações de modo a garantir o funcionamento dos sistemas. Lutamos permanentemente contra a entropia, contra a perda de energia que aflige o cosmos, e nesse processo a criação do novo é um elemento fundamental.

IHU On-Line – Como o sentido da comunicação, nos termos de Flusser, se converte em uma dimensão humanista?
Erick Felinto – Para Flusser, a Comunicologia deveria ser a rainha dos saberes, dado que os processos comunicacionais são componentes fundamentais da própria natureza. Comunicação é troca de informação; é processamento (Verarbeitung). Isso não significa dizer que o novo humanismo deva ser uma abordagem tecnicista do homem. Se nos confrontamos o tempo todo com aparelhos, técnicas e programas, é porque necessitamos confrontar esses programas de forma criativa, ultrapassar suas limitações por meio da “arte” – ou seja, formas de pensamento criativo capazes de introduzir o novo em todos os campos da experiência cultural. Essa centralidade da arte no pensamento flusseriano é digna de nota. Para Flusser, portanto, o humano em sua dimensão artístico-criadora constitui elemento central dos sistemas culturais.

IHU On-Line – O que é o conceito de Comunicologia de Flusser? Em que sentido tal perspectiva teórica pode ser compreendida como uma ciência universal nos moldes do que foi a teologia para a Idade Média, segundo a defesa do próprio autor?
Erick Felinto – Como explicado acima, em Flusser a Comunicologia é a rainha das ciências, e a competência da teoria da comunicação deve se estender a todas as formas culturais, científicas, políticas, artísticas, econômicas etc. – já que em todos esses campos se trata fundamentalmente da transmissão de mensagens simbólicas. O homem é essencialmente um ser codificador, que codifica para dar ordem ao mundo. E trazer ordem ao mundo é também um projeto eminentemente artístico, daí a centralidade da arte no pensamento flusseriano. A Comunicologia é uma espécie de teoria geral de todas as disciplinas humanas, pois sua meta é investigar aquilo que é caracteristicamente humano (a produção de símbolos e códigos). E se a comunicação realmente pode ser traduzida num processo de negação da entropia, da morte, como sugere Flusser, ela é a radical negação da biologia e da física. Desse modo, especula ele, a Comunicologia pode tornar-se, futuramente, o domínio de uma nova crença pós-religiosa (eines neuen postreligiösen Glaubens).

IHU On-Line – Por que o ser humano, diferente das máquinas, mesmo sendo programado é capaz de torcer, subverter, o imperativo de sua própria criação? O que isso significa em termos de construir novas ontologias e, por isso mesmo, novos humanismos?
Erick Felinto – O filósofo alemão Peter Sloterdijk pensa o ser humano a partir da ideia de uma “diferença natal” ou “natalidade”. Essas expressões definem o fato de que estamos continuamente nos estendendo e nos engajando com campos tecnológicos, políticos, artísticos e sociais. Somos criaturas abertas e em constante transformação. É isso que caracteriza o humano, e em Flusser essa capacidade se traduz na habilidade de subverter os programas (a partir de uma atitude lúdico-estética).

Na esfera da arte, no domínio da criação, o homem talvez seja capaz de transcender sua própria “programação”. Vale lembrar que Flusser não tinha nenhum pudor quanto a imaginar futuros pós-humanos e modelos de manipulação nos quais os homens pudessem inclusive alterar seus corpos. A obra de arte total seria, nesse sentido, uma transformação de nós mesmos – através da tecnologia, da manipulação genética etc. Por que não podemos, por exemplo, ter um cérebro completamente esférico em vez de semiesférico, pergunta ele. Construir novos humanismos significa, assim, a capacidade (e mesmo a necessidade) do humano de reinventar-se, de se recriar, de inventar novos espaços existenciais e novos corpos. Desse modo, ao falar de pós-humanismo não estamos entrando somente na zona dos delírios da ficção científica, mas lidando com um aspecto vital e histórico do ser humano. Somos sempre outros, somos sempre os alienígenas de nós mesmos. ■

Leia mais

- A invenção de um mundo pelas imagens sintéticas. Entrevista com Erick Felinto publicada na Revista IHU On-Line, nº 419, de 20-5-2013.

- Um futuro complexo, híbrido, incerto e heterogêneo. Entrevista com Erick Felinto publicada na Revista IHU On-Line, nº 375, de 3-10-2011.

- A era da memória total e do esquecimento contínuo. Entrevista com Erick Felinto publicada na Revista IHU On-Line, nº 368, de 4-7-2011.

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