Edição 542 | 30 Setembro 2019

Implicações políticas das categorias teológicas. A sacralidade e o sacrifício

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Ricardo Machado

 Castor Bartolomé Ruiz versa sobre as apropriações em torna de conceitos caros à obra de Giorgio Agamben em torno da biopolítica

O imperativo de que “há que se fazer sacrifícios” é o modo cínico de dizer que os pobres devem pagar a conta dos desastres políticos, sociais e climáticos de quem detém o poder. Não raro, o discurso vem investido de uma fé no futuro, quando não sustentado em nome de um governo que roga para si o status de representante divino. “O ídolo sobrevive dos sacrifícios humanos enquanto Deus os rejeita. O paradigma deste conflito está visível na figura de Deus que para a mão de Abraão quando este pretende lhe oferecer seu filho Isaac em sacrifício”, postula Castor Bartolomé Ruiz, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Tudo converge para que através de grandes e perenes sacrifícios humanos o mercado possa manter os indicadores mínimos de lucratividade necessária para que o sistema possa funcionar como um todo. Caso contrário, entraremos em uma crise caótica muito próxima à imagem do fim dos tempos”, complementa.

O apocalipse do sistema, como se ele representasse nossa tábua de salvação, converte-se em uma espécie de teologia sem religiosidade, sem religação com valores humanistas, transformando-a em mero pragmaticismo, cujo sua dobra é absolutamente efetiva politicamente. “A religião oferece-se para o poder como um dos instrumentos ideológicos de maior influência, por isso é instrumentalizada permanentemente. Na maioria dos casos, esse uso instrumental da religião produz uma perversão dos próprios princípios religiosos que diz defender”, descreve Castor. “Por dar um exemplo externo, Trump, que nunca foi especialmente religioso, que se saiba, está agora favorecendo a promoção de discursos televisivos de pastores evangélicos que o apresentam como um enviado de Deus. Ele seria o enviado de Deus para neste momento salvar América do desastre que está pro vir. Parece que este discurso também está sendo promovido dentro do Brasil, com diversos matizes”, compara o pesquisador.

Castor Bartolomé Ruiz é professor nos cursos de graduação e pós-graduação em Filosofia da Unisinos. É graduado em Filosofia pela Universidade de Comillas, na Espanha, mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS e doutor em Filosofia pela Universidade de Deusto, Espanha. É pós-doutor pelo Conselho Superior de Investigações Científicas. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos: La mímesis humana. La condición paradójica de la acción imitativa (Frankkfurt: OmniScriptum Management, 2016); Os paradoxos do imaginário (São Leopoldo: Unisinos, 2003); Os labirintos do poder. O poder (do) simbólico e os modos de subjetivação (Porto Alegre: Escritos, 2004); e As encruzilhadas do humanismo. A subjetividade e alteridade ante os dilemas do poder ético (Petrópolis: Vozes, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – É muito comum no discurso neoliberal a defesa ao sacrifício, que tende a ser apresentado como um sacrifício de todos, embora seja seletivo. Como o sacrifício e a sacralidade se convertem, no século XXI, em uma categoria política?
Castor Bartolomé Ruiz – A contemporaneidade se pensa a si mesma como um tempo secularizado. O que significa um tempo secularizado? A resposta mais óbvia que os pensadores modernos deram, em geral, é que estamos num tempo em que o religioso não mais explica as causalidades históricas ou sociais, um tempo em que se abandonaram as categorias religiosas para explicar o funcionamento das instituições e até muitos dos comportamentos pessoais. Inclusive há uma vertente da secularização que combate toda forma de vestígio religioso nas instituições públicas ou até privadas como reminiscência de um processo de alienação ou até de dominação da religião ou igrejas sobre os espaços públicos.

Certamente que desde o século XVII houve um processo de secularização que separou as esferas da política e da religião, do Estado e das igrejas, e que tornou nossas culturas muito mais “vazias” do discurso religioso. Contudo, há uma outra perspectiva, diria que mais profunda, que preocupa-se em compreender os estreitos nexos que vinculam a teologia com o poder, seja este o poder político, econômico ou de outro tipo. Esses vínculos excedem com muito a mera roupagem superficial dos signos religiosos, já que existem como elos que articulam as concepções teológicas do sagrado com as práticas do poder.

A modo de ilustração mencionaria, de um lado, a análise que Walter Benjamin faz em sua primeira tese sobre o conceito de história, na qual, a modo de aforismo, compara a história a um tabuleiro de xadrez em que há um boneco que movimenta as fichas, porém escondido no interior da mesa, há um “anão corcunda e feio” que é quem realiza, de fato, os movimentos. Esse anão corcunda e feio, diz Benjamin, é a teologia que nos dias de hoje ninguém valoriza pensando que é um saber ultrapassado, sendo que ela contém a potencialidade de pensar a história com outras categorias que nos ajudariam a reconsiderar possibilidades de ação que, em muitos casos, a mera razão instrumental não percebe. Categorias como por exemplo, pensar um tempo messiânico e não um mero tempo cronológico, significa apostar numa temporalidade em que a irrupção do imprevisível na história (o messias) é uma possibilidade política da ação, que nos libera da mera programação naturalizada dos acontecimentos. Ou pensar que há possibilidade de experienciar politicamente um tempo kairotico no qual o passado não é algo perdido no tempo cronológico, senão que, como um lampejo nos tempos do perigo, o passado pode iluminar o presente incendiando-o com as possibilidades do que deveria ter sido e não foi. O passado das vítimas injustiçadas que pode retornar para nós como exigência de um presente que ainda deve reconstruir aquilo que ficou por fazer no tempo. Esse tempo kairotico é profundamente teológico porque redime o passado da sua injustiça, mas também contém uma potência política que pode revolucionar o presente. Estes são uns breves exemplos dos nexos profundos que, em Benjamin, a teologia pode costurar com a ação política.

Desde uma outra perspectiva, poderíamos mencionar os estudos de Rene Girard a respeito da relação entre o sacrifício religioso e o sacrifício político. Girard toma como referência o Deus bíblico, Yahveh, o qual se revela como um Deus da vida em contraposição aos ídolos da morte. Também Yahveh, como os ídolos, são intangíveis para a empiria humana, por isso, na prática, pode se utilizar o nome de Deus para legitimar uma prática idolátrica. Nem todos os que falam em nome de Deus agem como Ele. Então como diferenciar Deus dos ídolos? O que diferencia o Deus verdadeiro, Yahveh, dos ídolos, na revelação bíblica, é que Deus é sempre a favor da vida e contra qualquer tipo de sacrifício humano, enquanto o ídolo é precisamente o contrário, ele só pode subsistir alimentando-se do sacrifício humano. O ídolo sobrevive dos sacrifícios humanos enquanto Deus os rejeita. O paradigma deste conflito está visível na figura de Deus que pára a mão de Abraão quando este pretende lhe oferecer seu filho Isaac em sacrifício.

Esta tensão sacrificial que marca a teologia bíblica é o elo condutor de toda a revelação bíblica, culminando na própria vida de Jesús que antes que sacrificar a ninguém, ele mesmo se oferece como sacrifício para abolir todo e quaisquer forma de sacrifício.

Os desdobramentos e implicações políticas desta tensão teológica do sacrifício atravessam todas as formas contemporâneas do poder. Por exemplo, se pensamos na figura do mercado como entidade que regula as relações econômicas, que determina muitas das políticas atuais e que rege a vida de todos nós, poderemos identificar que o discurso moderno e contemporâneo retrata o mercado como uma entidade transcendente porque é algo naturalizado, ele é onipresente já que encontra-se em todas as relações humanas, é onisciente porque nada escapa à sua racionalidade operacional, é todopoderoso porque ele regula as lógicas operacionais das transações em todo o planeta, é justiceiro porque premia aqueles que seguem suas leis (o adoram) com altos índices de lucratividade e riqueza e castiga aqueles que se obstinam em não obedecê-lo. Além destes rasgos teológicos, o mercado tem uma racionalidade muito estrita que exige os sacrifícios de maiorias, com enxugamentos salariais, grandes jornadas de trabalho, endividamentos creditícios, ajustes fiscais nas políticas de saúde, educação, trabalho, etc., tudo converge para que através de grandes e perenes sacrifícios humanos o mercado possa manter os indicadores mínimos de lucratividade necessária para que o sistema possa funcionar como um todo. Caso contrário, entraremos em uma crise caótica muito próxima à imagem do fim dos tempos.

Estes breves traços de aproximação entre a teologia e o poder moderno mostram como as implicações entre ambos são muito mais profundas, para bem e para mal, do que mera secularização dos modernos pretende entender. Através destas perspectivas críticas haverá que explorar de forma mais incisiva os nexos da teologia e o poder, que não se desfazem por meros voluntarismos jurídicos.

IHU On-Line – Como o conceito de sacralidade é tratado teoricamente na obra de Giorgio Agamben? Como a sacralidade se converte em um problema filosófico, ético e político?
Castor Bartolomé Ruiz – Agamben é um filósofo contemporâneo que levou a sério a tese de Benjamin e vem realizando explorações muito profícuas nas pesquisas genealógicas das relações da teologia e o poder moderno. A sacralidade é uma das categorias teológicas que Agamben destaca. O autor, ao fazer a genealogia do sagrado, constata que o sagrado tem como característica principal a separação das coisas do uso comum para transferi-las a uma outra esfera que excedia ou transcendia o uso comum. Sacrare era o termo latino que os romanos utilizavam para designar a saída das coisas do direito humano. A sacralização opera, desde suas origens, como uma prática que subtrai as coisas, lugares e pessoas do uso comum e as transfere para uma esfera separada. A sacralização seria um dispositivo da separação do uso comum das coisas. A sacralização exige, por sua vez, pessoas especialmente preparadas para poder operar com as coisas que foram sacralizadas, ou seja, separadas para uma outra ordem fora do uso comum.

Agamben é um dos autores que questiona o sentido da secularização moderna, uma vez que as implicações entre a teologia e o poder são muito mais profundas que os meros símbolos ou ritos externos do poder. Neste caso, as instituições modernas pretensamente secularizadas carregam dentro de si a assinatura da sacralização. De modo imperceptível, a maioria, senão a totalidade, das instituições do poder moderno utilizam o dispositivo da sacralidade para retirar do uso comum diversas dimensões da vida. O exemplo anteriormente mencionado do mercado é paradigmático, mas também a lei, por mais que seja formalmente isonômica, carrega em si a assinatura da sacralidade que impede que as pessoas comuns possam lidar com a lei, já que o judiciário, os processos, as sentenças, só estão acessíveis para pessoas especializadas e habilitadas para operar nesse espaço sacralizado. Esta foi, entre outras, a crítica de Kafka à lei. Mas pensemos no Estado ou na política atual, por mais que interferem diretamente no cotidiano das pessoas, são projetados como espaços só aptos para especialistas, técnicos. Só técnicos especializados podem agir nos aparatos do Estado. O cidadão comum não tem essa capacidade. De igual modo a economia aparece totalmente sacralizada, as pessoas comuns lidam com seu orçamento básico, mas as grandes transações financeiras ou os mecanismos do comercio global que rege o mundo estão fora do uso comum das pessoas, por mais que estas sejam afetadas por estes mecanismos.

Em toda sacralização há também um arcano, um mundo incognoscível e não desvelado para as pessoas comuns. Esses arcanos do poder o mantém numa esfera afastada do uso comum e só acessível aos qualificados ou privilegiados para essa função. A sacralização produz, junto com a separação do uso, os arcanos desses espaços como a lei, o judiciário, o mercado, o Estado, a moeda, as finanças, etc. que aparecem misteriosos e inacessíveis para a compreensão das pessoas comuns. Esses arcanos reforçam a legitimidade da separação, da sacralidade desses espaços.

Isso quer dizer, que a sacralização opera como uma assinatura efetiva dos dispositivos do poder contemporâneos. Através da sacralização, as principais esferas do poder são retiradas do uso comum das pessoas, que se mostram como incapazes para lidar com essas realidades sagradas que só técnicos especializados de cada área, a modo de novos sacerdotes do poder, estão habilitados para gerir. Desse modo, através da sacralização, as pessoas perdem a capacidade de decidir e deliberar sobre as questões mais centrais de sua existência, que são definidas por essas esferas do poder que estão fora do alcance do uso comum.

A partir desta genealogia da sacralidade, Agamben propõe uma outra categoria teológica como alternativa política, é a categoria da profanação. A secularização faz uma maquiagem racionalista do religioso na política, porém mantêm o dispositivo da sacralidade no âmago dos dispositivos de poder. Com isso, a própria secularização opera com um fator de encobrimento dos dispositivos sacralizadores do poder moderno que, ao retirar do uso comum o acesso ao poder, contribuem para que este fique confinado como privilégio de umas elites especializadas.

Agamben entende que a política que vem é, principalmente, devolver para o uso comum o poder de deliberação sobre as diversas esferas da vida. O dispositivo da sacralidade do poder moderno carregou junto a legitimidade da apropriação e da propriedade como um outro dispositivo através do qual se vinculam as pessoas com as coisas. A sacralização, além de separar legitima a apropriação por especialistas dos espaços que só eles legitimamente estão aptos para operar. A política que vem teria como tarefa criar uma outra relação de uso e não de apropriação com as coisas.

A profanação opera exatamente nesse duplo vetor da desconstrução da separação propiciada pela sacralização e o retorno para o uso comum das coisas. A profanação profana, primeiramente, a idéia dos arcanos, mostrando que esses arcanos misteriosos escondem um vazio. O arcano que sacralidade esconde é o vazio. Não há nada a ser escondido para legitimar a separação do uso comum, a não ser a própria necessidade de separar para se apropriar. Uma vez desvelado o vazio dos arcanos do poder, este, como aquele exemplo do rei, fica nu perante o olhar comum.

Quando algo é profanado é simplesmente retirado da apropriação feita pelos espaços sacralizados e retornado para o uso comum. Profanar seria a ação política que devolve os dispositivos de poder para o uso comum das pessoas. Quando um dispositivo de poder é profanado significa que ele deixa de ser monopólio o privilégio de uma elite especializada que dele se apropriou, para retornar ao uso comum de todos aqueles implicados no seu uso.

Resulta curioso constatar que a categoria da profanação foi também a acusação feita contra Sócrates e contra Jesús para condená-los oficialmente a morte. Por mais que ambos fossem especialmente religiosos, ambos foram condenados por profanadores. Sócrates exercia sua ação filosófica como uma missão dada pelos deuses para educar a juventude de Atenas, contudo ele foi condenado por perverter a juventude profanando as leis sagradas da cidade. O caso de Jesús é mais conhecido, a acusação formal do Sinédrio foi ter profanado a lei e o templo com sua nova doutrina.

IHU On-Line – Governos conservadores, com políticas conservadoras, tendem a se posicionar publicamente como cristãos. Contudo, como compreender o paradoxo de governos que se dizem cristãos, mas ignoram, do ponto de vista da fé cristã, questões éticas e políticas de defesa à vida?
Castor Bartolomé Ruiz – Esta questão remete a dois aspectos em que operam estas práticas. Numa dimensão mais externa, poderíamos dizer, o uso da religião como ideologia do poder é tão antigo quanto a existência do poder público. A religião oferece-se para o poder como um dos instrumentos ideológicos de maior influência, por isso é instrumentalizada permanentemente. Na maioria dos casos, esse uso instrumental da religião produz uma perversão dos próprios princípios religiosos que diz defender. Isso fica muito evidente nos atuais movimentos religiosos fundamentalistas sejam cristãos, muçulmanos, budistas, hinduístas... Em muitos casos vemos ressurgir, com muita preocupação, os velhos projetos teocêntricos que tentam submeter o espaço público a um determinado credo religioso. Mas isso não significa que aqueles que dizem ser contra toda religião por este motivo estejam isentos de fanatismos secularizados, a modo de religiões racionalistas. Não podemos esquecer que em nome da razão moderna cometeram-se as maiores barbaridades e genocídios, por exemplo todo o colonialismo do século XIX e XX foi feito sem maquiagem religiosa, legitimando-se na necessidade da civilização sobre a ignorância. A deusa razão foi levada em procissão por Paris durante a Revolução Francesa e depois veio o reino do terror jacobino como causa necessária.

Uma outra perspectiva deste problema atual pode ser aferida da tensão teológica entre o Deus da vida e os ídolos da morte, que analisamos anteriormente. O fato de alguém utilizar um discurso religioso não significa, em absoluto, que a pessoa seja coerente com os princípios dessa religião. Por dar um exemplo externo, Trump , que nunca foi especialmente religioso, que se saiba, está agora favorecendo a promoção de discursos televisivos de pastores evangélicos que o apresentam como um enviado de Deus. Ele seria o enviado de Deus para neste momento salvar América do desastre que está pro vir. Parece que este discurso também está sendo promovido dentro do Brasil, com diversos matizes. Em qualquer caso, nestes debates históricos o ponto crítico de discernimento será sempre a tensão agonística entre as práticas que propiciam e melhora da vida dos mais pobres e injustiçados e as práticas que continuam a legitimar os interesses das elites. O velho embate entre o Deus da vida e os ídolos da morte reaparece na nossa contemporaneidade como critério político para discernir estes “falsos profetas religiosos”. Nunca podemos esquecer que os principais adversários de Jesús, que o condenaram a morte, foram os homens (varões) mais religiosos de Israel: escrivãs, fariseus e sacerdotes.

IHU On-Line – Como a biopolítica (ou seria necropolítica?) produz paradoxos em torno da noção de sacralidade?
Castor Bartolomé Ruiz – As pesquisas de Agamben a respeito da sacralidade tiveram como ponto inicial o homo sacer que era uma figura do direito romano arcaico, do qual temos poucos vestígios. Na Roma antiga, quando alguém que era cidadão e cometia um crime tão grave que nem sequer merecia a pena de morte, nesses casos de gravidade extrema se decretava sobre essa pessoa a condição de homo sacer. Ao ser declarado sacer essa pessoa era colocada imediatamente fora de qualquer direito. Nesse caso ocorria um grave paradoxo, de um lado, por estar fora do direito e não ser cidadão não se lhe podia condenar oficialmente a nada, nem sequer à morte. Não podia sequer ser sacrificado oficial ou legalmente. Mas, concomitantemente, ao ser declarada sacer a pessoa que estava fora do direito encontrava-se também sem direito nenhum. Isso quer dizer que qualquer que o violenta, rouba ou fizesse qualquer mal contra o sacer, não cometia delito. Ou seja, o homo sacer é uma vida exposta à total violação com absoluta impunidade. O homo sacer estava exposto a toda violência sem nenhum direito, sua vida é o paradigma da vida abandonada, da vida nua. Quem matar o homo sacer não comete delito, pois sua vida não tem valor para o direito, logo não é pessoa no sentido jurídico do termo. A vida do homo sacer é uma vida condenada ao abando e à total matabilidade com plena impunidade.

A questão que Agamben analisa nas suas pesquisas é que esta figura do homo sacer longe de ser algo histórico que passou, é absolutamente atual, pois o dispositivo da exceção possibilita desde a origem do direito que este seja utilizado na forma de captura e exclusão. A vida humana é capturada pelo direito que a protege, mas também a ameaça com a possibilidade de suspender os direitos fundamentais quando esta vida seja perigosa para a ordem social, excluindo-a para um espaço de anomia, sem direitos. Neste caso, a exceção operará sobre aquelas pessoas consideradas perigosas, ou simplesmente indesejadas, para a ordem social suspendendo, total o parcialmente, os direitos fundamentais, e nessa condição passarão a ser novos homini sacri.

Já Michel Foucault , na sua última aula do curso Em defesa da sociedade, 1976, mostrou como a biopolítica moderna irá matar em nome da defesa da vida. Agora, no poder biopolítico, não se mata mais por ser simplesmente inimigo do soberano, agora se legitima a morte de milhares de pessoas como recurso necessário para a defesa da vida de outras pessoas. Esta lógica biopolítica está presente, por exemplo, nas novas guerras. Pensemos que as guerras que ocorreram depois da queda do muro de Berlim, nenhuma delas teve uma declaração formal de guerra, e todas foram legitimadas para defender a ordem mundial do perigo que supunha a presença de determinados regimes ou governantes políticos. Assim foi na guerra da Organização do Tratado do Atlântico Norte - OTAN contra a Iugoslávia, na guerra contra Kuwait, na invasão do Iraque, na invasão de Afeganistão, na guerra contra Líbia e por último na guerra contra a Síria. Agora vemos preparar um cenário parecido para uma possível guerra contra Ira.

Todas estas guerras foram realizadas por interesses estratégicos maiores, sejam econômicos (petróleo), comerciais (desovar estoque da industria da guerra dos EEUU), influências geoestratégicas das potências, etc. Mas em nenhum dos casos se legitimou por algum destes motivos. Sempre se argumentou que aqueles regimes eram uma ameaça para a vida de todos os cidadãos de bem e que mereciam morrer. Ocorre que os efeitos colaterais incluíam a morte prevista de centos de milhares de outras pessoas, sem contar os milhões de refugiados que até hoje perambulam pelo planeta por causa destas estratégias bélicas. Todas essas vidas sacrificadas são um outro exemplo atualizado de homini sacri, vidas matáveis com total impunidade. Eles podem morrer, serem violentados, sofrer toda sorte ignomínia sem que nenhum direito lhes socorra. São os novos homini sacri que podem ser violentados com impunidade pelas estratégias do poder.

Nestas vidas matáveis com impunidade é que a biopolítica que gerencia produtivamente a vida humana se transforma em necropolítica ou tanatopolítica, que é uma política da morte. Pensemos como no Brasil lidamos com uma estatística de mais de 50 mil assassinatos por ano, desde faz mais de uma década. A maioria dessas vidas são vidas nuas de homini sacri que se tornam insignificantes para o poder. Mas também pensemos nas dezenas de milhares de mortos no Brasil por falta de um atendimento em saúde. Estes mortos são ainda mais invisíveis, eles poderiam viver se tivessem umas mínimas condições de atendimento em saúde, porém eles morrem abandonados pela gestão pública do enxugamento de gastos públicos para conseguir um superávit primário que permita, talvez, pagar juros dos empréstimos bancários. É nestes acontecimentos que vemos aflorar as categorias teológicas do sacrifício humano demandado para a sobrevivência do ídolo.

IHU On-Line – Como podemos compreender os ataques do atual governo à Filosofia, Sociologia e Ciências Humanas em geral? Que respostas as áreas de humanidades podem oferecer no atual contexto?
Castor Bartolomé Ruiz – Para responder a esta questão, vou me permitir reproduzir uma parte do manifesto elaborado durante o último Colóquio Agamben: interfaces e encruzilhadas do pensamento crítico contemporâneo, celebrado na Unisinos nos dias 13,14,15 de maio último e por esta circunstância coincidiu com a jornada nacional em defesa da educação e da pesquisa no Brasil, celebrada dia 15 de maio.

Durante os últimos quatro meses vêm ocorrendo uma série de declarações e atos de governo que têm por escopo a crítica às universidades no Brasil, em especial as universidades públicas, considerando-as espaços de “balbúrdia”. Em sucessivas declarações do governo, projeta-se sobre os espaços acadêmicos das universidades um discurso negativo para objetivá-las como espaços de algazarra, fora de seu objetivo principal de ensino, pesquisa e extensão.

Consideramos que esse discurso e essa objetivação perniciosa da universidade obedecem não só a um pré-conceito ideológico, mas a uma perversa estratégia política de esvaziar a universidade e a pesquisa de apoio público. Tal discurso de baixo calão sobre a universidade desconsidera, de forma deliberada, o grande esforço acadêmico de ensino, extensão e pesquisa que há décadas vem sendo realizado nas universidades no Brasil, com uma produção de conhecimento de alta qualidade que tem formado os profissionais das diversas áreas do saber, inclusive os atuais governantes do país.

De modo especial, destacamos as declarações do atual ministro de educação, corroboradas pelo presidente da República, de que as áreas das humanidades, como a filosofia e as ciências sociais são saberes inúteis que não mais devem ser promovidos pelo poder público. Consideramos, assim, que tais declarações foram feitas de forma pública e solene para reforçar o sentido simbólico desta declaração política.

Pensamos que o desprezo público do atual governo pelas humanidades mostra, em primeiro lugar, um desconhecimento da importância histórica e crítica que essas áreas do saber tiveram na consecução dos demais saberes, inclusive os científicos e tecnológicos. Ainda, essa afirmação desvela também a ignorância de quem a profere ao mostrar que desconhece os profundos elos que vinculam a ciência e tecnológica com pressupostos filosóficos da epistemologia que constitui qualquer ciência, assim como os princípios metodológicos, de caráter filosófico, que devem estar constantemente pressupostos. Tal afirmação também desconsidera os elos éticos que atravessam toda forma de ação humana, e que só uma reflexão filosófica apropriada pode contextualizar que elas existem como meios para a vida, e não como fins em si mesmos. A negação das humanidades revela um pré-conceito radical com o conhecimento humanístico, cujo valor extrapola o caráter utilitarista que nessas declarações transparece.

Dentre os atos de governo que atingem a pesquisa há que se destacar, de um lado, o recorte feito pela CAPES nas bolsas de pesquisa e, de outro lado, o contingenciamento orçamentário nas universidades públicas. Ambos atos atingem de forma sensível a produção de conhecimento em todas as universidades do Brasil, em especial nas universidades públicas. Estes atos de governo significam uma posição pública do atual governo contra a pesquisa e contra a produção de conhecimento no Brasil. A despeito dos falsos argumentos de que esses contingenciamentos são necessários, fica evidente que eles são uma decisão política que tem como projeto de (des)governo sufocar o apoio público à pesquisa, talvez considerando que ela deva ser entregue aos interesses corporativos.

Acreditamos que as restrições orçamentárias para o desenvolvimento da pesquisa pode atingir de forma muito sensível a qualidade, a quantidade e o acesso da produção científica nas diversas áreas do conhecimento que ao longo de décadas foi desenvolvido com grande esforço e competência. O desenvolvimento da pesquisa no Brasil também possibilitou a formação de profissionais qualificados e a aplicação de inovação em várias áreas da produção. Tememos que uma vez iniciado o processo de deterioração da pesquisa no Brasil, ele se torne irreversível em muitos aspectos e em qualquer caso de difícil recuperação que demorará mais de uma geração para poder atingir o atual patamar novamente.

Em uma sociedade na qual o conhecimento se desenvolve a longo prazo, contingenciar a pesquisa significa sacrificar o povo brasileiro e mantê-lo no papel de subserviência econômica como mero produtor de matérias-primas, sendo dependente em escala global da pesquisa e conhecimento desenvolvidos em outras latitudes. Ao contingenciar a pesquisa, o Brasil perderá, mais uma vez, o trem da história que se anuncia como uma sociedade do conhecimento onde a qualidade de vida e a produção de riqueza está associada à capacidade de produção de conhecimento e inovação. Sem estas duas potencialidades, o povo brasileiro continuará a ser dependente do conhecimento produzido alhures, atingindo todas as áreas.” ■

Leia mais

- A produção de violência e morte em larga escala: da biopolítica à tanatopolítica. Entrevista de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 521, de 7-5-2018.

- A filosofia como forma de vida V - O Officium: o dever que separa a vida de sua forma. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 471, de 31-8-2015. 

- A filosofia como forma de vida (IV). A regra da vida (regula vitae), fuga e resistência ao controle social. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 468, de 29-6-2015.

- A filosofia como forma de vida (III). Do cuidado de si ao deciframento de si. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 467, de 15-6-2015.

- A Filosofia como forma de vida (II). Michel Foucault, o cuidado de si e o governo de si (enkrateia). Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 471, de 1-6-2015.

- A Filosofia como forma de vida (I). Pierre Hadot, a filosofia antiga e os exercícios (askesis) do espírito. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 471, de 23-3-2015.

- A verdade, o poder e os modelos de subjetivação em Foucault. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz publicado nas Notícias do Dia, de 25-9-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos.

- Giorgio Agamben, genealogia teológica da economia e do governo. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz na Revista IHU On-Line edição 413, de 1-4-2013.

- O trabalho e a biopolítica na perspectiva de Hannah Arendt. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 393, de 21-5-2012. 

- O advento do social: leituras biopolíticas em Hannah Arendt. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 392, de 14-5-2012.

- A economia e suas técnicas de governo biopolítico. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 390, de 30-4-2012. 

- Objetivação e governo da vida humana. Rupturas arqueo-genealógicas e filosofia crítica. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 389, de 23-4-2012.


- A bios humana: paradoxos éticos e políticos da biopolítica. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 388, de 9-4-2012.

- Genealogia da biopolítica. Legitimações naturalistas e filosofia crítica. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 386, de 19-3-2012.

- A vítima da violência: testemunha do incomunicável, critério ético de justiça. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 380, de 14-11-2011.

- A testemunha, o resto humano na dissolução pós-metafísica do sujeito. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 376, de 17-10-2011.

- A testemunha, um acontecimento. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 375, de 3-10-2011.

- A exceção jurídica e a vida humana. Cruzamentos e rupturas entre C. Schmitt e W. Benjamin. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 374, de 26-9-2011.

- O estado de exceção como paradigma de governo. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 373, de 12-9-2011.;

- O campo como paradigma biopolítico moderno. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 372, de 5-9-2011.

- Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Artigo de Castor Bartolomé Ruiz, publicado na Revista IHU On-Line, edição 371, de 29-8-2011.

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