Edição 540 | 02 Setembro 2019

O alerta de Hans Jonas para uma ciência sem “limites éticos”

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Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

Robinson dos Santos analisa alguns perigos trazidos pelo autor, muitos já presentes em nossa época

O filósofo e professor Robinson dos Santos toma como central a questão da ética nas reflexões de Hans Jonas, mas ressalta que o autor avança numa problematização que vai além da ética. “Jonas aponta para os perigos (alguns dos quais já se aproximam de nossa época) de uma ciência desprovida de quaisquer limites éticos. Neste sentido, Jonas entende que não se pode fazer concessões”, observa, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. O desafio, segundo o professor, posto pelo pensador é “compatibilizar ou reconciliar ética com o avanço científico”. E nesse ponto está contido o avanço reflexivo.

Robinson ainda chama atenção para o fato de que não se trata de considerar que a ciência age, em nome do progresso, à revelia de princípios éticos. “Não estou querendo dizer que simplesmente não há ética na ciência, pois é claro que existem certos limites que orientam a prática em todas as áreas. Algo que está implícito na perspectiva de Jonas”, reitera. Para ele, a questão que se coloca a partir de Jonas é se há uma ética, ou se apenas com a ética é possível conceber um avanço científico com responsabilidade. “Vale lembrar que a proposta de Jonas não implica em uma demonização do progresso científico, mas sua posição é apenas de crítica e de questionamento radical sobre os perigos que a liberdade sem regras na ciência traz (como contrabando) invariavelmente consigo”, observa.

Assim, é possível concluir que, além da adoção de princípios éticos, é preciso vigilância constante para avaliar se tais princípios vão dar conta da realidade em que se está inscrito. Afinal, a ciência avança e com ela novos problemas. “Não temos outro planeta de reserva para dar conta do nosso consumo, o que, portanto, atesta definitivamente o limite dos recursos naturais. Por outro lado, a população tende a aumentar. Como equacionar isso? Devemos ou não considerar os interesses das gerações futuras neste cálculo? É precisamente em torno de tais questões que a obra de Jonas nos convida a refletir”, aponta.

Robinson dos Santos é graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo, possui mestrado em Educação pela mesma instituição e doutorado em Filosofia pela Universidade de Kassel, na Alemanha. Atualmente, é professor no Departamento de Filosofia e no Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Pelotas - UFPel e professor visitante na Rheinische Friedrich-Wilhelms-Universität Bonn, na Alemanha. Entre suas publicações, destacamos Dossiê Hans Jonas e a Bioética (Pelotas: Universidade Federal de Pelotas, 2018), Ética da responsabilidade e ética do discurso: as propostas de Hans Jonas e Karl-Otto Apel (Revista Dissertatio de Filosofia, v. 32, p. 139, 2010) e Problema da técnica e a crítica à tradição na ética de Hans Jonas (Revista Dissertatio de Filosofia, v. 30, p. 269, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Do que trata o “princípio responsabilidade”, tema que dá nome a uma das obras mais importantes do autor?
Robinson dos Santos – O tema da responsabilidade moral é um dos principais tópicos no campo da ética e, ao longo da história do pensamento ocidental, aparece de modo direto ou indireto nas diferentes tentativas de resposta à pergunta sobre como devemos agir. Hans Jonas anuncia no início da obra que pretende fazer uma crítica às éticas da tradição e também incluir um aspecto que ele considera novo e, que segundo sua opinião, não foi considerado até então no âmbito da reflexão moral: o futuro distante da humanidade.
Para ele, tal futuro é progressivamente ameaçado na mesma proporção em que cresce o poder que a técnica moderna conferiu ao ser humano. Temas como a ação humana, compreendida a partir do paradigma da técnica, a relação do conhecimento real e ideal na perspectiva do futuro, a noção de dever e imperativo face às gerações futuras, se a natureza persegue fins em sua atividade, questões de fundamentação do dever, responsabilidade como relação assimétrica, as implicações de uma confiança desmedida em relação ao progresso e a crítica ao pensamento utópico são alguns dos temas que Jonas analisa afim de justificar e demarcar sua posição.
Esta obra, publicada em 1979, deu a Jonas uma popularidade surpreendente nos anos 80 na Alemanha e lhe rendeu entre outras condecorações importantes o prêmio da paz, concedido pela associação do comércio livreiro alemão (Friedenspreis des Deutschen Buchhandels). Filosoficamente, Jonas teve forte influência de Heidegger e é tido como uma de suas crianças, ao lado de Karl Löwith , Hannah Arendt e Herbert Marcuse , como lembra o estudioso Richard Wolin , em sua obra Heidegger’s Children (2001).

No meio acadêmico brasileiro o interesse por sua obra vem se ampliando progressivamente. Há inclusive um grupo de trabalho (GT) na Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia - Anpof que se dedica à pesquisa e recepção da obra de Jonas (leitura, interpretação e crítica das obras), bem como também à tradução de seus escritos.

IHU On-Line – Há distinção entre ética e ética aplicada em Hans Jonas? Se sim, quais? Como se caracterizam?
Robinson dos Santos – De fato, a distinção é clara do ponto de vista da divisão das suas obras. Enquanto em O princípio responsabilidade (PR) Jonas apresenta suas reflexões e seus argumentos na direção de uma justificação de sua proposta, em Técnica, medicina e ética (TME) , obra também traduzida para o português, ele se propõe a refletir sobre as possibilidades de aplicação de sua proposta.
Com efeito, em TME Jonas avalia e se posiciona com relação a alguns dos problemas mais importantes e também mais polêmicos da bioética, isto é, casos como a eutanásia, eugenia, morte cerebral e transplante de órgãos. Sua posição pode ser considerada como conservadora (para os moldes contemporâneos) por conta de sua convicção fundamental acerca do fenômeno da vida. No entanto, isso não deveria ser motivo, como frequentemente acontece, para simplesmente descartar de antemão sua posição.

Cabe ressaltar, quanto a isso, que sem uma leitura prévia de outra obra sua, intitulada O princípio vida: fundamentos para uma biologia filosófica (PV) , a compreensão de PR e de TME fica comprometida. Na contramão do relativismo e colocando o peso da justificação sobre uma concepção ontológica robusta resultante de sua biologia filosófica, Jonas aponta para os perigos (alguns dos quais já se aproximam de nossa época) de uma ciência desprovida de quaisquer limites éticos. Neste sentido, Jonas entende que não se pode fazer concessões.

Em muitos problemas de ética aplicada seus argumentos e observações permanecem pertinentes ao debate, mesmo que sob alguns aspectos sejam passíveis de réplica. Então, como é de praxe na Filosofia, não estudamos os filósofos para incensá-los. Pelo contrário, seu pensamento pode ser estimulante justamente na mesma medida em que pode ser criticado.

IHU On-Line – De que modo questões tais como o desastre climático, a migração forçada e as guerras, para ficar em apenas três exemplos, convertem-se em problemas morais, na abordagem levada a termo por Hans Jonas?
Robinson dos Santos – Bem, esta pergunta é bastante complexa e não sei se podemos encontrar uma resposta conclusiva na obra de Jonas para ela. No entanto, eu destacaria que a primeira questão que você menciona, isto é, o desastre climático, é justamente o objeto direto da reflexão moral de Jonas, ao passo que a segunda não chega a ser abordada de modo direto e a terceira pode ser inferida a partir de sua posição política, que por sua vez também não teve um posicionamento sistematizado, isto é, não foi exposto em forma de obra específica. Por outro lado, Jonas viveu as duas coisas: migração forçada, para fugir do nazismo na Alemanha, e também viveu as consequências da guerra. Vou me limitar à primeira das questões.

A questão da preservação do meio ambiente, ao contrário do que se tem ouvido por aí nestes tempos de obscurantismo e insensatez (para dizer o mínimo), é um assunto que diz respeito a todos nós e assume cada vez mais centralidade e relevância, admitamos ou não, nas considerações que fazemos, nas grandes e pequenas escolhas cotidianas que tomamos. Entre os exemplos de questões que podem ser citadas, sobretudo no Brasil, estão: a contaminação do solo e a poluição de mananciais e rios, o uso indiscriminado de agrotóxicos, o desmatamento, a poluição do ar em grandes centros urbanos, bem como as doenças decorrentes de todos estes e outros problemas. Dito de modo simples: não temos outro planeta de reserva para dar conta do nosso consumo, o que, portanto, atesta definitivamente o limite dos recursos naturais. Por outro lado, a população tende a aumentar. Como equacionar isso? Devemos ou não considerar os interesses das gerações futuras neste cálculo? É precisamente em torno de tais questões que a obra de Jonas nos convida a refletir.

IHU On-Line – A dimensão ética defendida por Jonas reforça ou supera o antropocentrismo?
Robinson dos Santos – Esta é uma pergunta que sempre é colocada nos debates sobre o princípio responsabilidade. Se de um lado Jonas critica as éticas que chama de tradicionais pelo seu caráter de simultaneidade (isto é, não consideram o futuro distante) e pelo seu antropocentrismo (isto é, por não incluírem a totalidade da natureza no âmbito da reflexão moral) é, no mínimo, curioso que ao final ele praticamente tenha que colocar a tarefa de realizar a responsabilidade nos ombros do ser humano unicamente. Então, do ponto de vista da implementação da responsabilidade, sim, esta tarefa cabe exclusivamente ao ser humano, já que – como dizia Schelling (e Jonas claramente concorda com esta perspectiva) – “o ser humano é o olho pelo qual a natureza enxerga a si mesma”.
Por outro lado, a proposta não pode ser, só por isso, considerada como antropocêntrica, na medida em que o foco não são mais apenas as relações humanas e sim a preservação da natureza como um todo, uma responsabilidade que tem, digamos, seu espectro ampliado e que, no campo prático, na atualidade já faz parte do novo leque de questões postas por nossa época (trato com os animais, preservação do meio ambiente etc.).

Portanto, embora ela contenha elementos antropocêntricos, ela não reforça a restrição da reflexão moral a questões que dizem respeito única e exclusivamente ao ser humano. Pelo contrário, ela abre o leque das questões, colocando o tema da vida da natureza como um todo no centro. A vida humana é só uma parte desse conjunto. Essa é talvez uma das principais razões da repercussão do PR nos anos 80 na Europa, quando os movimentos em pró-ecologia se fortaleceram.

IHU On-Line – De que ordem são os desafios para se pensar uma ética compatível com nossas sociedades tecnocientíficas?
Robinson dos Santos – Bem, dizer de que ordem ou magnitude são os desafios, implicaria, por um lado, que eu estivesse de posse de dados estatísticos, números e municiado também de alguns cálculos de probabilidades acerca de um futuro medianamente distante, o suficiente para apresentar uma imagem realista do quadro de nossas perspectivas, para em seguida fazer algumas ponderações. Não sendo este o caso, eu limito minha observação apenas ao desafio mais geral e, ao mesmo tempo, também o mais difícil, que já está contido na pergunta, qual seja, compatibilizar ou reconciliar ética com o avanço científico.
Com isso não estou querendo dizer que simplesmente não há ética na ciência, pois é claro que existem certos limites que orientam a prática em todas as áreas. Algo que está implícito na perspectiva de Jonas, no entanto, seria a pergunta se há ética o suficiente. E, neste sentido, vale lembrar que a proposta de Jonas não implica em uma demonização do progresso científico, mas sua posição é apenas de crítica e de questionamento radical sobre os perigos que a liberdade sem regras na ciência traz (como contrabando) invariavelmente consigo.■

Leia mais

- A relevância interdisciplinar de Jonas. Entrevista com Robinson dos Santos, publicada na revista IHU On-Line número 371, de 29-8-2011.

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