Edição 538 | 05 Agosto 2019

O amor, a vida e o encontro com as mulheres rosianas

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

Adair de Aguiar Neitzel, professora e pesquisadora da obra de Guimarães Rosa, discute o papel das mulheres em Grande sertão: veredas

Riobaldo, o narrador protagonista de Grande sertão: veredas, é um personagem que só percebe sua complexidade e passa a compreendê-la melhor no encontro com as mulheres. “É nas mulheres que ele [Riobaldo] encontra energia para se reconhecer, uma espécie de ritual, e por isso todas elas contribuem para a construção do masculino. Essa é uma obra que fala sobretudo do amor e da vida, e o encontro de Riobaldo com essas personagens femininas o fertiliza”, pondera Adair de Aguiar Neitzel, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Mulheres fortes, temidas, cuja aparência física muitas vezes causa asco, que detêm o verbo, símbolos de resistência no sertão, sua positividade está nas rezas que praticam, e, ao mesmo tempo que provocam medo, anunciam a boa nova, são também protetoras”, complementa.

 Nesse universo, Diadorim é talvez a personagem feminina mais central da obra. “É pelas mãos de Diadorim que Riobaldo passa do estado físico para o estético e deste para o Moral. Mas é uma relação marcada pela ambiguidade, contradição, angústia de estar se envolvendo com um homem. Essa tensão que se estabelece entre ambos, por conta de uma paixão impossível na jagunçagem, torna esse amor uma neblina. Diadorim é a personagem que consegue lidar com o feminino e o masculino, sem que um sufoque o outro”, explica.

Adair de Aguiar Neitzel é doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. É professora titular da Universidade do Vale do Itajaí, onde orienta pesquisas no Mestrado e Doutorado em Educação, e líder do Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora. É autora de Mulheres Rosianas (Florianópolis: UFSC Univali, 2004).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quem são e como se caracterizam as mulheres rosianas?

Adair de Aguiar Neitzel – Trago no livro Mulheres Rosianas uma análise das figuras femininas de Grande sertão: veredas e nesse sentido o título revela uma “traição”, não são todas as mulheres rosianas, certo? Falo de um grupo de mulheres sensuais, que desfilam na obra de forma erótica, mulheres dadivosas que são “fêmeas no fogo do corpo”, como fala Guimarães Rosa na obra Urubuquaquá, no Pinhém: Miosótis, Rosa’uarda, Nhorinhá, Maria-da-Luz e Hortência. Há um outro grupo poderoso que contribui para a ascensão de Riobaldo pelo poder da palavra que lhe é conferido, são Izina Calanga, Maria Leôncia, Maria Mutema, Ana Duzuza e a Mulher do Hermógenes. Otacília eu relaciono ao mito Marial porque por ela Riobaldo mantém uma devoção exacerbada, construindo-se uma erótica celeste ao seu entorno. E busco em Diadorim entender a força erótica (afinal por ela Riobaldo também sente desejo carnal) das mulheres dadivosas do primeiro grupo, assim como o poder da palavra que a aproxima do segundo grupo.

 IHU On-Line – Qual a relação de Riobaldo, protagonista de Grande sertão: veredas, com as mulheres especialistas em “artes mágicas”?

Adair de Aguiar Neitzel – Benedito Nunes fez um estudo sobre essa obra em O dorso do tigre (São Paulo: Editora 34, 2009) que aponta para a escalada ascensional de Riobaldo em sua travessia pelo sertão, e é nas mulheres que ele encontra energia para se reconhecer, uma espécie de ritual, e por isso todas elas contribuem para a construção do masculino. Essa é uma obra que fala sobretudo do amor e da vida, e o encontro de Riobaldo com essas personagens femininas o fertiliza. Mesmo com as mulheres que não encantam pela voluptuosidade do corpo, Riobaldo enxerga nelas a energia espiritual que necessita para reordenar o caos, e esse movimento ascensional de Riobaldo se dá no encontro, no respeito, na relação, e quando não é assim, ele busca afastar-se das suas memórias, como aconteceu com Miosótis.

 

IHU On-Line – Maria Mutema, Ana Danuza, Izina Calanga e Maria Leôncia são todas personagens de Grande sertão: veredas. Como elas se aproximam e se distanciam entre si, como elas compõem o mosaico de mulheres rosianas?

Adair de Aguiar Neitzel – Mulheres fortes, temidas, cuja aparência física muitas vezes causa asco, que detêm o verbo, símbolos de resistência no sertão, sua positividade está nas rezas que praticam, e, ao mesmo tempo que provocam medo, anunciam a boa nova, são também protetoras. Em um lugar como o sertão, cheio de superstições e crenças (diz Riobaldo já na primeira página do livro que o povo de lá é prascóvio) essas mulheres são poderosas pela aura de sacralidade que as envolve. Seus poderes são encantatórios. E mesmo Maria Mutema que não é rezadeira exerce grande poder sobre os homens com quem se relaciona porque os abate, sem dó nem piedade, e o faz sem motivos explícitos, como uma feiticeira consegue convencer o padre de uma culpa que não tem. O ódio é o ingrediente que a nutre. Mas, como tudo é e não é e viver é muito perigoso, essas mulheres também se metamorfoseiam e do mal surge o bem e vice-versa. Eis o mosaico feminino de Grande sertão: veredas.

 

IHU On-Line – Como se constrói a noção de amor em Grande sertão: veredas? Do que se trata a “erótica celeste” entre Riobaldo e Otacília?

Adair de Aguiar Neitzel – Bom, já falei que há toda uma constelação amorosa criada por Guimarães Rosa nesta obra, nessa constelação o amor é manifestado de várias formas, e Otacília representa um amor mais espiritual. Para Benedito Nunes, “o amor carnal gera o espiritual e nele se transforma”. Nesta lógica, o encontro de Riobaldo com as mulheres dadivosas do sertão o estão revitalizando e preparando-o para o encontro com Otacília. Quando eu falo em erótica celeste estou enfatizando que a relação de Riobaldo com Otacília é de salvação pela purificação, por isso eu a relaciono com o mito Marial. Todas as lembranças de Riobaldo tecidas em torno de Otacília despontam um amor sublime, platônico, mas principalmente total, sensível e inteligível, uno. É Otacília quem devolve a Riobaldo a sobrevida, a possibilidade de reorganização do caos no qual ele se inseriu na jagunçagem, ela é seu porto seguro, manso e com ela busca dar vazão ao seu ser não-jagunço.

 

IHU On-Line – De que forma Diadorim se converte em neblina para Riobaldo? O que isso significa?

Adair de Aguiar Neitzel – A relação de Riobaldo com Diadorim é conflituosa porque esta lhe mostra um mundo sensível que ele já havia esquecido ao entrar na jagunçagem (mas que sua mãe Bigri tão bem soube introduzir). É pelas mãos de Diadorim que Riobaldo passa do estado físico para o estético e deste para o Moral. Mas é uma relação marcada pela ambiguidade, contradição, angústia de estar se envolvendo com um homem! Essa tensão que se estabelece entre ambos, por conta de uma paixão impossível na jagunçagem, torna esse amor uma neblina. Diadorim é a personagem que consegue lidar com o feminino e o masculino, sem que um sufoque o outro. Forte no combate, mas sensível na apreciação da natureza. Esta conjunção do sensível e do inteligível mostra sua fecundidade. Mas Riobaldo ainda não está pronto para ver. Ele não consegue perceber. E por isso Diadorim é sua neblina. Neblina que vai se dissipar apenas na revelação que ocorre na batalha final.

 

IHU On-Line – Riobaldo se move na vida pela sua questão em torno da existência ou não do diabo. Diadorim se move com o desejo de acabar com o Mal do sertão. Como os diferentes propósitos de cada personagem traduzem papéis dos homens e das mulheres nesta obra e fora dela?

Adair de Aguiar Neitzel – Penso que toda a movimentação de Riobaldo e de Diadorim se dá em torno desta questão do mal e do bem. Ao longo da travessia que ambos fazem, do envolvimento dos dois, das descobertas que operam juntos, suas ações traduzem que todos nós somos bons e maus, e que o diabo vive é dentro do homem. O espaço que damos para o bem ou para o mal é que vai delimitar os caminhos que trilharemos. Passados alguns anos que finalizei esta pesquisa em torno das mulheres rosianas, percebo que Diadorim revela-nos como o ser humano necessita se voltar para a sua educação estética, porque o que faz Diadorim junto a Riobaldo é possibilitar que ele perceba o mundo vivido, sua cor, suas texturas, seu cheiro, deixar de moer no áspero, apreciar a belezura do mundo (quem mói no as’pro, não fantaseia, afirma Guimarães Rosa). Neste sentido, talvez os propósitos de Diadorim e Riobaldo sejam iguais porque Diadorim porta o masculino e o feminino e isto permite que, mesmo na aspereza do sertão, ela tenha uma função ordenadora, tal qual a de Riobaldo, mas tem sobre ele uma vantagem: o feminino. E aqui está um ponto a se pensar: não há mulheres que são usadas e homens que são usurpadores de prazeres, o que vemos nesta obra são homens e mulheres que necessitam um do outro e cada um oferece ao outro o que tem de melhor.

 

IHU On-Line – Qual a importância de ler e reler a obra de Guimarães Rosa no Brasil atual?

Adair de Aguiar Neitzel – As questões trazidas por Guimarães Rosa são superatuais e por isso é uma obra-prima que não pode ficar esquecida, e dentre essas questões a que mais me interessa hoje é a da barbárie na modernidade. Estamos cada vez mais sozinhos, esquecidos dos princípios que formam a coletividade (que regiam inclusive a jagunçagem), de costas para a natureza, para a vida. A ganância, o mal, tem tomado conta de nós. Vivemos a constante luta entre o bem e o mal e mais do que nunca precisamos pensar em como nossos sentidos estão embotados. Grande sertão: veredas é um livro que desperta nossa sensibilidade para com o nosso entorno, nos convida a olhar para o mundo vivido, a compreender a natureza humana, a diversidade de pensamento e sobretudo é uma obra sobre o amor e sobre a vida. E em uma época em que o mercado editorial quer publicar aquilo que vende, dando espaço cada vez mais para o best seller (o fast food da literatura), não custa lembrar o que faz esta obra ser tão emblemática: o tratamento que o autor deu à linguagem!

Últimas edições

  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição
  • Edição 538

    Grande Sertão: Veredas. Travessias

    Ver edição
  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição