Edição 538 | 05 Agosto 2019

Para romper o mundo com as palavras pegantes de Riobaldo

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Ricardo Machado

Eduardo de Faria Coutinho analisa como Guimarães Rosa inventa mundos e exige dos leitores um pensar ético por meio do desconserto provocado por sua linguagem

Mais do que um escritor que optou pela literatura regional em relação à universal, Guimarães Rosa escolheu inventar mundos com sua linguagem e com ela obrigou o ser humano a pensá-los. “É somente renovando a língua que se pode renovar o mundo, e é com esse intuito que ele se entrega de corpo e alma à tarefa de revitalização da linguagem, que vê como verdadeira missão, ou, em suas próprias palavras, um “compromisso do coração”, pondera o professor e escritor Eduardo Faria Coutinho, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Sufocado por um cotidiano calcado na continuidade, que se expressa pela repetição mecânica de atos e gestos, o homem, e em particular o adulto comum, não percebe a automatização a que se sujeita, cumprindo o inexplicável, sem nenhuma autonomia de raciocínio”, complementa.

As portas do infinito se abrem com as chaves do idioma. “O processo de revitalização da linguagem empreendido por Guimarães Rosa baseia-se fundamentalmente na eliminação de toda conotação desgastada pelo uso, e na exploração das potencialidades da linguagem, da face oculta do signo, ou, para empregar palavras do próprio autor, do ‘ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado’”, ressalta. “Em Rosa, o homem não é mais retratado apenas em seus aspectos típicos ou específicos, mas antes apresentado como um ser múltiplo e contraditório e em tantas de suas facetas quanto possível, e o sertão não é apenas a recriação literária de uma área geográfica específica, mas a representação de uma região humana, existencial, viva e presente na mente de seus personagens”, descreve.

Sobre a atualidade do pensamento do Rosa e a necessidade de encará-lo no Brasil atual, Coutinho é didático. “No Brasil, onde a educação é ainda artigo de luxo e cada vez menos valorizada pelas autoridades governamentais, ela desempenha um papel extremamente relevante, se não mais por chamar atenção para este fato”, frisa.

Eduardo de Faria Coutinho, um dos mais renomados acadêmicos em Literatura Comparada, Ph.D. pela Universidade da Califórnia, Berkeley. É professor titular da disciplina na Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, professor visitante em várias universidades do Brasil e do exterior e pesquisador nível 1A do CNPq. Membro da União Brasileira de Escritores - UBE, consultor científico de diversas agências de fomento à educação CAPES, CNPq, FAPERJ e FUJB, vice-presidente da Associação Internacional de Literatura Comparada - AILC/ICLA, membro fundador e ex-presidente da Associação Brasileira de Literatura Comparada - ABRALIC e ex-vice-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística - ANPOLL. Também foi diretor-adjunto de Pós-Graduação na UFRJ e membro do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a literatura, em sentido mais amplo, produz um nó no fio do tempo e interrompe a ordinariedade do cotidiano?

Eduardo de Faria Coutinho – A literatura tem um poder de revelação extraordinário que desestabiliza o leitor, tirando-o de sua inércia cotidiana e mergulhando-o na dúvida. É como uma semente que, caindo na terra, começa a germinar, gerando uma inquietação que é o passo inicial para possíveis transformações. Daí o risco que ela acarreta para todos aqueles que estão incrustados no status quo. Por isso ela sempre foi vista pelos sistemas totalitários como uma ameaça. E seu poder está centrado na força da palavra, que induz o leitor à reflexão. As palavras são, como afirmou o próprio Rosa, através de seu personagem Riobaldo, no Grande sertão: veredas, “palavras pegantes, que vão rompendo rumo”.

IHU On-Line – Em especial, de que maneira a literatura de Guimarães Rosa opera esse processo de desnaturalização da banalidade do cotidiano?

Eduardo de Faria Coutinho – A desnaturalização da banalidade do cotidiano se dá, na obra de Guimarães Rosa, sobretudo através do recurso do estranhamento (a ostranenie dos formalistas russos), que o nosso autor explora até as últimas consequências. E este estranhamento se verifica na linguagem que ele utiliza. É um recurso da linguagem, um dos principais traços de sua ars poetica, responsável por fazer do escritor um alquimista, ou, apesar de seus protestos ao termo, um grande “revolucionário da linguagem”. Para Guimarães Rosa, é somente renovando a língua que se pode renovar o mundo, e é com esse intuito que ele se entrega de corpo e alma à tarefa de revitalização da linguagem, que vê como verdadeira missão, ou, em suas próprias palavras, um “compromisso do coração”.

IHU On-Line – De que forma a linguagem da prosa de Guimarães Rosa desnaturaliza a forma hegemônica da própria linguagem?

Eduardo de Faria Coutinho – Sufocado por um cotidiano calcado na continuidade, que se expressa pela repetição mecânica de atos e gestos, o homem, e em particular o adulto comum, não percebe a automatização a que se sujeita, cumprindo o inexplicável, sem nenhuma autonomia de raciocínio. Seu discurso, construído de antemão pela comunidade a que pertence, é incorporado por ele sem nenhuma indagação, e sua expressão se revela como a ratificação de uma prática tradicional, que se impõe inexoravelmente, naturalizando o não-naturalizável e camuflando consequentemente o seu caráter de construção. Esta linguagem, a que o autor designa de “linguagem corrente”, expressa, como ele próprio declara em sua famosa entrevista a Günter Lorenz, “apenas clichés e não ideias”, não se prestando portanto à autonomia do raciocínio. Ela está morta, e, ainda segundo o autor, o que está morto não pode engendrar ideias. A fim de poder “engendrar ideias”, é preciso romper com essa linguagem, desautomatizá-la. O idioma, para Rosa, “é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas”. Daí a necessidade de revitalizá-lo, violando constantemente a norma e substituindo o lugar-comum pelo único, a fim de que ele possa recobrar sua poiesis originária e atingir o outro de maneira eficaz. O processo de revitalização da linguagem empreendido por Guimarães Rosa baseia-se fundamentalmente na eliminação de toda conotação desgastada pelo uso, e na exploração das potencialidades da linguagem, da face oculta do signo, ou, para empregar palavras do próprio autor, do “ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado” (Rosa, Sagarana, 1970, p. 238). Os procedimentos para atingir este fim são, contudo, numerosos e distintos, estendendo-se desde o plano da língua stricto sensu ao do discurso narrativo, e chegando em alguns casos a constituir o eixo-motor de todo o texto.

IHU On-Line – Como a estética sertaneja, compreendida como de um autor não litorâneo, de Guimarães Rosa, produz, em certo sentido, uma ética das pessoas simples do interior do Brasil?

Eduardo de Faria Coutinho – Na mesma esteira de desconstrução de tudo o que é fixo ou inquestionável, que constitui uma das linhas mestras da obra de Guimarães Rosa, a dicotomia regional versus universal que ocupou por longo tempo o panorama da literatura brasileira se mostra totalmente improcedente nas narrativas rosianas. Escritor regionalista no sentido de que utiliza o sertão como cenário de suas estórias e os habitantes dessa região como personagens, o autor transcende os parâmetros do Regionalismo tradicional ao substituir a ênfase até então atribuída à paisagem pela importância dada ao homem, pivô de seu universo ficcional. Em Rosa, o homem não é mais retratado apenas em seus aspectos típicos ou específicos, mas antes apresentado como um ser múltiplo e contraditório e em tantas de suas facetas quanto possível, e o sertão não é apenas a recriação literária de uma área geográfica específica, mas a representação de uma região humana, existencial, viva e presente na mente de seus personagens. Nesse universo convivem seres os mais diversos em cuja visão de mundo confluem lógicas distintas, calcadas tanto na racionalidade quanto no mito, e o resultado é um espaço de inclusão, marcado pela pluralidade, onde o discurso hegemônico da lógica ocidental cede lugar à busca de terceiras possibilidades, tão bem representadas pela imagem, síntese talvez de toda a obra do autor, que dá título ao conto A terceira margem do rio (In Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994). As pessoas simples do interior do Brasil são as que povoam suas narrativas e é a visão delas, ao mesmo tempo lógica e mítica, que ocupa um primeiro plano na obra rosiana.

IHU On-Line – De que maneira o leitor, para Guimarães Rosa, transforma-se em uma longa travessia na qual seu sentido último é sempre inalcançável?

Eduardo de Faria Coutinho – Com a renovação constantemente empreendida do dictum poético, através da desestruturação de todo o petrificado, Guimarães Rosa instaura em suas páginas um verdadeiro laboratório de reflexão, que se estende dos próprios personagens ao leitor, reativando o circuito discursivo e transformando o último de mero consumidor num participante ativo do processo criador. Ciente do fato, como ele mesmo afirma, através das palavras do narrador de Grande sertão: veredas, de que “toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada. Palavra pegante, dada ou guardada, que vai rompendo rumo” (Rosa, GS:V, 1958, p. 170), ele fornece ao leitor esta “palavra”, por meio das inovações que introduz, e, ao estimular sua reflexão e consequente participação na construção da própria obra, faz dele um grande questionador, um desbravador de caminhos.

Assim como os personagens de Guimarães Rosa estão frequentemente se indagando sobre o sentido das coisas e muitas vezes pondo em xeque seus próprios atos e visão de mundo, o leitor, para ele, é sempre um perseguidor, um indivíduo marcado pelo signo da busca, imerso, como todos os seres, numa longa travessia, cujo sentido último jamais é alcançado. Não é sem razão que a narrativa do Grande sertão: veredas, por exemplo, se abre e fecha com uma pergunta para a qual não há resposta única ou definitiva: “o diabo existe?” Tal qual seu narrador, que conclui o relato reintroduzindo a dúvida que desde o início o atormentava, o leitor rosiano encerra suas aventuras pelos fios do texto levantando “outras, maiores perguntas”, e configurando-se como elo de uma cadeia que se projeta para além das páginas do livro.

IHU On-Line – De que forma a incerteza nos gestos dos personagens se converte em uma categoria orientadora da escritura rosiana, especialmente em Grande sertão: veredas e no conto Meu tio, o Iauaretê?

Eduardo de Faria Coutinho – A incerteza, a dúvida, é o que impulsiona a narrativa, o que faz com que os personagens mergulhem cada vez mais fundo em seu processo de busca, com o fim de tentar entender o mistério da vida, da existência humana. É essa busca, essa perquirição incansável, que leva Riobaldo, em Grande sertão: veredas, a relatar sua vida de jagunço a um interlocutor com o fim de entender fatos que ele vivenciou na juventude e que não pôde discernir na época em que ocorreram. O personagem narrador é um homem atormentado pela ideia de haver vendido a alma ao diabo, mas ao mesmo tempo não tem certeza se este realmente existe; então decide narrar sua vida a um cidadão urbano culto em viagem pelo sertão com o fim de colocar-lhe a questão no final: o diabo existe? Riobaldo sente-se culpado e responsável pela morte de Diadorim (sua grande paixão), que vê como uma consequência de seu ato; então impõe-se a tarefa de reconstruir os episódios de sua vida que precederam e se seguiram ao pacto com o demônio, na esperança de encontrar alívio para sua consciência, algum tipo de julgamento ou perdão. E tudo em sua narrativa converge para a questão final que, não encontrando nenhuma resposta convincente, é deixada em aberto, à mercê da reflexão do leitor. O conto Meu tio, o Iauaretê tem como eixo a suposta metamorfose de um caçador de onças em um felino, e ao longo do relato a linguagem deste vai-se aproximando cada vez mais à do animal, até converter-se em verdadeiros grunhidos, mas aqui também o que se tem no final é uma situação de forte ambiguidade.

IHU On-Line – Como a percepção – e a perspectiva, se levarmos em conta a retomada das leituras rosianas na antropologia – sobre o mundo, desde os personagens de Guimarães Rosa, revela uma espécie de metafísica da multiplicidade, típica de um país como o Brasil?

Eduardo de Faria Coutinho – A percepção constitui sem dúvida uma das principais chaves do Grande sertão: veredas e está representada na narrativa pelo tema da travessia, presente ao longo de toda a obra, como quando Riobaldo afirma: “Eu atravesso as coisas – e no meio da travessia não vejo! – só estava era entretido na ideia dos lugares de saída e de chegada” (Rosa, GS:V., 1958, p. 35). No plano do enredo, dos acontecimentos vividos por Riobaldo e relatados mais tarde ao interlocutor, a questão se evidencia num dos episódios nodais da narrativa – o momento já próximo ao final em que Riobaldo descobre que Diadorim era mulher. Riobaldo sofrera durante toda a sua vida de jagunço, dilacerado entre a consciência de que amava Diadorim e a não aceitação do caráter ilícito desse amor, e a descoberta de seu verdadeiro sexo só se dá após sua morte, quando não era mais possível qualquer realização afetiva. O personagem perdera a possibilidade de ser feliz por ter sido vítima da aparência, e agora se culpa por não ter tido sequer um pressentimento. É esse sentimento de culpa que permanecerá até o final de sua vida e que ele transmitirá ao interlocutor ao lhe narrar a história. Ciente agora do segredo de Diadorim, Riobaldo procura lembrar-se de todos os episódios que, no passado, indicavam sua identidade feminina, e censura-se, indagando com insistência: “Como é que não tive um pressentimento?” Mas, o mais importante é que a questão se estende ao plano do próprio relato, pois Riobaldo mantém o segredo até o final, só o revelando ao interlocutor no momento em que ele também o descobrira.

Esse recurso, que poderia parecer à primeira vista uma simples forma de manter o suspense da narrativa a fim de assegurar o interesse do interlocutor, tem aqui outra função – a de testar-lhe a percepção – e, por conseguinte, expressar o tema da relatividade. Riobaldo deseja que o interlocutor experimente, através da narração, processo semelhante àquele por que passou em sua vida, de modo a poder constatar se este será ou não capaz de descobrir, antes de lhe ser dito, aquilo que ele próprio não conseguira. Deste modo, fornece-lhe ao longo de toda a narrativa uma série de indícios, e chega ao ponto de quase revelar-lhe tudo. No entanto, como mesmo neste caso se mantém certa ambiguidade, a descoberta do segredo dependerá totalmente do interlocutor e, por extensão, do leitor, podendo variar, assim, de uma pessoa para outra.

IHU On-Line – Qual a importância de ler e reler a obra de Guimarães Rosa no Brasil atual?

Eduardo de Faria Coutinho – A obra de Guimarães Rosa tem como um de seus principais vetores levar o leitor à reflexão, induzi-lo a pensar, que é uma das principais funções da arte, e é neste sentido que ela se faz fundamental em qualquer tempo e lugar. Não é à toa que ela tem sido traduzida para diversos idiomas e tem encontrado leituras em diferentes mídias. No Brasil, onde a educação é ainda artigo de luxo e cada vez menos valorizada pelas autoridades governamentais, ela desempenha um papel extremamente relevante, se não mais por chamar atenção para este fato. ■

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