Edição 538 | 05 Agosto 2019

O homem humano na literatura psicanalítica de Grande sertão: veredas

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Ricardo Machado

A professora e pesquisadora Marcia Marques de Morais analisa a obra de Guimarães Rosa em perspectiva com a psicanálise, ampliando os mundos desse clássico da literatura mundial

Acessar o subterrâneo da obra rosiana, em sua complexa teia subjetiva, é tarefa sempre incompleta, mas iluminadora sobre a força de uma literatura que se traduz na duplicidade entre o regionalismo e o universal. “Guimarães Rosa trata a linguagem, essa sim, a verdadeira protagonista de sua obra. Esse trato, para além de ser um traço lúdico a apresentar desafios para o leitor, piscadelas do autor em direção a seu leitor, é, sem dúvida, propiciador do enlace entre literatura e psicanálise, no privilégio do significante a potencializar significados”, descreve a professora e pesquisadora Marcia Marques de Morais.

Há, contudo, uma chave de leitura psicanalítica que é importante levar em conta, sob pena de enviesar as análises, que é a atenção aos significantes do discurso, não propriamente às ações dos personagens. A professora aponta os dois principais perigos. “Primeiro, reduzir tudo ao complexo de Édipo; já escutamos da crítica literária que ‘se o édipo serve para tudo, não serve para nada’; por isso se frisa que é o objeto ‘material’ que aproxima literatura e psicanálise, isto é, a linguagem é que deve ser lida/interpretada em sua materialidade mesma. Esse cuidado de se ler a linguagem, afastaria o segundo perigo, o de ‘deitar no divã’ os sujeitos ficcionais, as personagens de papel”, explica.

Apesar de todas essas profundas camadas que se sobrepõem ao Grande sertão: veredas, é do pó da terra que constitui o Brasil que a obra é feita. “Ler o povo brasileiro, na obra de Guimarães Rosa, é vivenciar o humanismo e ser tocado pelo acolhimento das diferenças, pela inclusão das minorias, pela compreensão de nossa realidade multifacetada”, pondera. “No entanto, neste momento brasileiro e latino-americano, que se estende, inclusive, ao mundo, não se parece cumprir o que Rosa esperava para o século XXI – a chamada ‘brasilidade’ está ‘em baixa’ num Mundo em que as ações do capital ocupam o lugar da arte e do homem, legando ao esquecimento as últimas frases de Riobaldo no romance: ‘O que vale é homem humano. Travessia’”, complementa.

Marcia Marques de Morais possui graduação e especialização em Letras (Português) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas, mestrado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo - USP. É professora adjunta III da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. É autora de A Travessia dos Fantasmas - Literatura e Psicanálise em Grandes Sertão: Veredas (São Paulo: Autêntica, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como podemos compreender a obra de Guimarães Rosa, em especial Grande sertão: veredas, em chave de leitura psicanalítica?

Marcia Marques de Morais – A interpretação de direção psicanalítica do romance rosiano teria como argumento central o próprio fazer literário, atualizado no cuidado com que Guimarães Rosa trata a linguagem, essa sim, a verdadeira protagonista de sua obra. Esse trato, para além de ser um traço lúdico a apresentar desafios para o leitor, piscadelas do autor em direção a seu leitor, é, sem dúvida, propiciador do enlace entre literatura e psicanálise, no privilégio do significante a potencializar significados. Aí estaria a emersão do inconsciente nas repetições, nos estranhamentos, nas ambiguidades, nas contradições e paradoxos que saltam do discurso do paciente da psicanálise e do narrador do romance, Riobaldo, em seu fingido diálogo virtual com o interlocutor que se nos afigura, de fato, um monólogo interior, um fluxo de consciência, em que se projeta, um outro de si-mesmo. Parece-me não ser exagero e, se o for, vale como raciocínio analógico, associar essa projeção do eu, enunciador em um eu enunciado, ao devaneio, formalmente tratado por Freud em Escritores criativos e devaneios (São Paulo: Companhia das Letras, 2015), numa primeira tradução, e O poeta e o fantasiar, numa tradução posterior. Vamos encontrar, no texto do romance, jogos de palavras, alguns espelhando a dicção oral na escrita, que poderiam ser lidas como alusões indiretas ao mito edípico. Exemplifiquemos, brevemente, essa estratégia linguística. Há um trecho no romance, em que Riobaldo indaga aos jagunços sobre Siruiz, violeiro cantador da balada que inquiria sobre “a moça virgem”. Riobaldo diz assim:

“O que eu queria saber não era próprio do Siruiz, mas da moça virgem, moça branca perguntada, e dos pés-de-verso, como eu nunca tive poder de formar um igual.”

Faz sentido escutar em “pés-de-verso“ a expressão “pés diversos”, numa esperta alusão a Oedipus, o dos pés diversos, diferentes, porque um deles inchado... Acrescente-se a essa “interpretação”, a leitura de “a moça virgem, moça branca perguntada”, que, na ficção lida, seria Diadorim e que, no imaginário de cada ser humano, figuraria como idealização da mãe que barra a possibilidade de se formar um (par) igual. Assim, vai-se desenhando a bastardia de Riobaldo, um rio baldo, “cachorrando” pelo sertão. Assim, na fantasia de Riobaldo, condensa-se o amor proscrito, Diadorim, e a mãe, “apenas a Bigri, era como ela se chamava”.

Há, ainda, outras estratégias autorais, que aproximam Riobaldo do Édipo, atribuindo àquele características do herói tebano; isso, sempre, torne-se a frisar, pelo discurso do próprio Riobaldo. Ouçamos Riobaldo, caracterizando-se como sempre em fuga, vivendo a errância, como vivera Édipo para fugir de seu destino:

“Virei bem fugido. Toquei direto para o Curralim”, pontuando que já localizara Curralinho como Corinto... (“... lá, no Curralim, no Corinto”); ou “Mas eu fui sempre um fugidor. Ao que fugi até da precisão de fuga”, sem esquecer que Riobaldo foge da casa do pai padrinho Selorico Mendes, do acampamento de Zé Bebelo e ameaça desertar do bando muitas vezes...

É preciso sublinhar que tais leituras se fazem através das marcas do discurso do narrador, dos significantes que dele brotam e não de associações que levem em consideração ações/comportamentos lidos no enredo do romance. Essa ênfase é necessária para afastar dois perigos a que se incorre em leituras de vezo psicanalítico. Primeiro, reduzir tudo ao complexo de Édipo; já escutamos da crítica literária que “se o édipo serve para tudo, não serve para nada”; por isso se frisa que é o objeto “material” que aproxima literatura e psicanálise, isto é, a linguagem é que deve ser lida/interpretada em sua materialidade mesma. Esse cuidado de se ler a linguagem, afastaria o segundo perigo, o de “deitar no divã” os sujeitos ficcionais, as personagens de papel.

Mais um argumento em favor da leitura psicanalítica do Grande sertão estaria no próprio gênero da narrativa. Como romance de formação, a fala de Riobaldo a seu interlocutor aponta um processo de constituição de identidades, de inscrição subjetiva para o/a qual, parece-me, o instrumento psicanalítico não pode/deve ser esquecido.

IHU On-Line – Se pensássemos o sertão como uma alegoria ou categoria psicanalítica, de que ordem seria?

Marcia Marques de Morais – O sertão que comporta uma infinidade de entradas, tais como localização geográfica, paisagem natural, cenário de violência, certamente é também o “avesso do homem”, quando pode ser lido como imensidão e desmesura, como fuga e culpa, como o inesperado e o inexplicável e, sobretudo, como interioridade e reflexão. Ouçamos, mais uma vez, Riobaldo:

“Sabe o senhor: sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”; “Sertão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo”; “Sertão é o sozinho. Compadre meu Quelemém diz: que eu sou muito do sertão? Sertão: é dentro da gente”; “Sertão, – se diz –, o senhor querendo procurar, nunca não encontra. De repente, por si, quando a gente não espera, o sertão vem”.

Frise-se, ainda, que já se falou em Grande Ser Tao, no livro A metafísica do Grande sertão (São Paulo: Edusp, 2016), de Francis Utéza , numa remissão ao taoísmo, como também já se experimentou a palavra em uma inversão de sílabas “tão ser”, elucubrações perfeitamente viáveis na “gramática” rosiana.

IHU On-Line – De que maneira Grande sertão: veredas se converte, ele próprio, em uma espécie de grande sessão de análise psicanalítica?

Marcia Marques de Morais – O interlocutor do narrador Riobaldo comporta inúmeras referenciações, como vêm afirmando os estudiosos da obra. Uma primeira já foi aventada nesta entrevista – ele seria o outro de si-mesmo, no monólogo interior. Nessa pauta, o texto permite ler a narrativa como uma grande sessão psicanalítica. Sublinhe-se que o primeiro crítico a “descobrir” tal leitura foi Dante Moreira Leite que, em 1961, publica, no suplemento de O Estado de São Paulo, texto que aponta para a possibilidade de se ler o romance como “a longa e (talvez interminável) sessão psicanalítica de Riobaldo”, republicando esse artigo em seu livro O amor romântico e outros temas (São Paulo: Unesp, 2007), de 1979. A pista inicial estaria logo no início da narrativa quando se lê:

“O senhor é de fora, meu amigo mas meu estranho. Mas, talvez por isto mesmo. Falar com o estranho assim, que bem ouve e logo longe se vai embora, é um segundo proveito: faz do jeito que eu falasse mais mesmo comigo. Mire veja: o que é ruim, dentro da gente, a gente perverte sempre por arredar mais de si. Para isso é que o muito se fala?”.

Pergunta-se: há pista maior que essa para falar da prática psicanalítica? No entanto, a leitura não pode ser reduzida a apenas essa direção, pois que Riobaldo nos adverte sempre: “tudo é É não é”.

Outras alusões matreiras à psicanálise também podem ser percebidas. Julgo que uma delas estaria no Vupes, aquele vendedor ambulante, estrangeiro, que diz a Riobaldo que ele atira bem porque atira com o espírito. Para comprovar um Freud fantasiado na linguagem do narrador, nada melhor que ouvir Riobaldo, ainda que seja longa a transcrição, mesmo porque é a forma que vela, para desvelar, possíveis conteúdos, tal como acontece no discurso analítico.

“Esse um era estranja, alemão, o senhor sabe: clareado, constituído forte, com os olhos azuis, esporte de alto, leandrado, rosalgar – indivíduo, mesmo. Pessoa boa. Homem sistemático, salutar na alegria séria. Hê, hê, com toda a confusão de política e brigas, por aí, e ele não somava com nenhuma coisa: viajava sensato, e ia desempenhando seu negócio dele no sertão – que era o de trazer e vender de tudo (...) e até papa-vento, desses moinhos-de-vento de sungar água, com torre, ele tomava empreitada de armar. (...) Ah, o senhor conheceu ele? Ô titiquinha de mundo! E como é mesmo que o senhor fraseia? Wusp? É. Seo Emílio Wuspes... Wupsis... Vupses. Pois esse Vupes apareceu lá, logo vai me reconheceu, como me conhecia, do Curralinho. Me reconheceu devagar, exatão. Sujeito escovado! Me olhou, me disse: – “Folgo. Senhor estar bom? Folgo...” E eu gostei daquela saudação. Sempre gosto de tornar a encontrar em paz qualquer velha conhecença – consoante a pessoa se ri, a gente se acha de voltar aos passados(...). – “SeoVupes, eu também folgo. Senhor também estar bom? Folgo...” – que eu respondi, civilizadamente. Ele pitava era charutos.”

Percebam-se a presença de um estrangeiro, a alusão à “alegria séria”, considerando que o nome próprio Freud está presente no substantivo abstrato alemão Freude e significa Alegria, a presença do “psi/psis” na enunciação do nome do conhecido e a referência ao hábito de fumar charutos, referenciando célebre foto de Freud.

É o autor “comendo o angu pelas bordas”, hábito mineiro, rodeando, para deixar pistas que levem seu leitor a desvelar o que, velado, clama por revelação.

E a gente acaba rindo “certas risadas” que nem o interlocutor...

IHU On-Line – Levando em conta as pesquisas realizadas na biblioteca de Guimarães Rosa, há obras ou autores da área da psicanálise que influenciaram o escritor?

Marcia Marques de Morais – Confesso não ter feito pesquisas “de campo” sobre as leituras de Guimarães Rosa. Minha pesquisa, por recomendação do orientador, à época, que julgava dificultoso pesquisar o arquivo Guimarães Rosa, ateve-se à leitura cerrada do romance. Mas o que me levou a analisar o texto na pauta psicanalítica, foram mesmo as pistas de leitura, para mim, absolutamente reiteradas, como tento expor. O que também me deu muita segurança foi a afirmação de Rosa na famosa entrevista a Günter Lorenz, publicada como Diálogo com Guimarães Rosa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994), onde se lê “a importância monstruosa, espantosa de Freud”, como o tendo impressionado muito e, “sem dúvida”, tido influência em sua literatura.

Fiquei tentada ainda a ir adiante para perceber releituras lacanianas de Freud no texto, sobretudo, por conta da famosa banda de Moebius e do nó borromeano que enlaça Real/Imaginário e Simbólico e que vejo funcionar no trato do enredo enlaçado à linguagem. O nome Borromeu, o cego, em comitiva com o menino Guirigó e o próprio Riobaldo, me deu algum trabalho de pesquisa: em seminário de leituras de Lacan, na USP, nos idos de 1994, indagando a uma professora a possibilidade de ter havido algum encontro/convívio entre Rosa e Lacan, ela me disse que poderia haver uma convergência entre eles por via de Heidegger . Mas não prossegui a pesquisa, pois urgia que o objeto literário tivesse precedência nela.

IHU On-Line – Em Grande sertão: veredas, como se dá o primeiro destino edípico de Riobaldo e, também, como se dá a segunda prescrição do mito de Édipo com o mesmo personagem?

Marcia Marques de Morais – O narrador Riobaldo, ao longo da narrativa, vai-se desenhando na linguagem, insisto, como personagem mítica que precisa experimentar destinos traçados. Se Édipo viveu o duplo destino que o constituiu, o assassinato de Laio, o parricídio e o casamento com Jocasta, o incesto, também Riobaldo, pela linguagem, no simbólico, “ordenaria” seu imaginário e domaria destinos fantasmáticos. De novo, é preciso que o leitor assuma uma atitude de “escuta”. Então, encontrará o episódio da Guararavacã do Guaicuí, no meio do livro, onde lerá:

“A Guararavacã do Guaicuí: o senhor tome nota deste nome. Mas, não tem mais, não encontra – de derradeiro, ali se chama é Caixeirópolis; e dizem que lá agora dá febres. Naquele tempo, não dava. Não me alembro. Mas foi nesse lugar, no tempo dito, que meus destinos foram fechados. Será que tem um ponto certo, dele a gente não podendo mais voltar para trás? Travessia de minha vida. Guararavacã – o senhor veja, o senhor escreva. As grandes coisas, antes de acontecerem. Agora, o mundo quer ficar sem sertão. Caixeirópolis, ouvi dizer. Acho que nem coisas assim não acontecem mais. Se um dia acontecer, o mundo se acaba. Guararavacã. O senhor vá escutando.”

Riobaldo pede ao interlocutor e a nós, leitores, que atentemos para um lugar e tempo passados, atentemos, com nossos muitos sentidos, anotando, vendo, escutando tanto o que ali se passou como sentindo o ecoar daquele nome tão alongado pela nasal que fecha uma sequência de vogais claras, altas e abertas. Terá sido mesmo para ele um ponto certo e definitivo.

E, estranha, mas familiarmente, Riobaldo narra, ordenando, as duas experiências vividas naquele lugar mítico, que já não há mais: a assunção, pela linguagem, do amor por Diadorim, “Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim de amor mesmo amor, mal encoberto de amizade”; e, segundo, expresso em ordinal bem despistado pelo discurso matreiro de Rosa/Riobaldo, toma conhecimento, fica sabendo do assassinato de Joca Ramiro, pai de Diadorim e chefe do bando.

Em termos de leitura literária, essas “constatações”, esses “saberes” poderiam deslocar-se ou condensar-se, como a matéria dos sonhos, para figurar, no primeiro caso, o amor por Diadorim, um amor, portanto, proscrito; no segundo, um assassinato de pai, portanto, o parricídio. O amor proscrito por Diadorim poderia ser lido na pauta do incesto, tantas são, durante o romance, as “misturas” Bigri/Diadorim, ainda que (e até porque) denegadas. Tais misturas se operam basicamente pelo olhar, pelos olhos verdes, “já de domínio público”: “esmartes, esmerados (de ex+merus = retirados do mero, do comum, desmisturados) olhos, botados verdes”. Os olhos de Diadorim se misturam, indubitavelmente, na fala de Riobaldo, a ponto de ele confessar, no plural: “Os afetos.” E prosseguir: “Doçura do olhar dele me transformou para os olhos de velhice da minha mãe. Então, eu vi as cores do mundo.” E é Riobaldo ainda que confessa a seu interlocutor (e a nós) esse processo que cola uns olhos aos outros, quando, lembrando-se dos olhos de Nhorinhá, exclui os olhos da “prostituriz” da cadeia significante que une Diadorim e a mãe: “Hoje é que penso. Nhorinhá, namorã, que recebia todos, ficava lá, era bonita, era a que era clara, com os olhos tão dela mesma...”

Ainda há outros argumentos em favor da mistura da mãe e do amor proibido, sempre apoiados na discursividade do narrador protagonista. Percebamos o duplo Diadorim, fantasmático, na cena da Guararavacã, sob o efeito de se saber amando Diadorim. Então, se ouve/se lê:

“O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor...” Como era que eu podia dizer aquilo? Explico ao senhor: como se drede fosse para eu não ter vergonha maior, o pensamento dele que em mim escorreu figurava diferente, um Diadorim assim meio singular, por fantasma, apartado completo do viver comum, desmisturado de todos, de todas as outras pessoas – como quando a chuva entre-onde-os-campos. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim – que não era de verdade. Não era?”.

A gente se pergunta: que vergonha maior o atormentaria antes e além daquela assunção da relação amorosa homoafetiva? A gente lê o duplo Diadorim, nas tensões a afirmar e denegar: meio singular versus plural; desmisturado versus misturado; só para mim versus não só meu, não só para mim; mente versus corpo; era de verdade versus não era de verdade, com uma interrogação final que suspende toda e qualquer certeza.

E, impossível, ainda, não perceber como uma “manha” autoral, um Diadorim por fantasma, a ecoar com muita nitidez o pro fantasma/profantasia (ou protofantasma/protofantasia), na terminologia freudiana.

Se essa operação de leitura que ousa dizer um nome – incesto – se vale de tantas mediações, a morte de Joca Ramiro, metaforizando a morte do pai, é bem mais direta.

Nessa leitura, a Guararavacã é travessia de um duplo destino e naquele lugar mítico se inscreve uma subjetividade que, construída na e pela linguagem, permitirá que Riobaldo marche mais “senhor de si”, submetido, como ele dirá, na saída da Guararavacã à “lei de rei”. Ouçamos, dialogando com a linguagem do episódio:

“Acertei minha idéia: eu não podia, por lei de rei (Que rei? Édipo, rei?), admitir o extrato daquilo. Ia, por paz de honra e tenência, sacar esquecimento daquilo de mim. Se não, pudesse não, ah, mas então eu devia de quebrar o morro: acabar comigo! – com uma bala no lado de minha cabeça, eu num átimo punha barra em tudo (mais psicanalítico, impossível...). Ou eu fugia – virava longe no mundo, pisava nos espaços, fazia todas as estradas” (a fuga, como marca importante do herói tebano, como se viu em respostas anteriores).

Torne-se a frisar que o episódio da Guararavacã do Guaicuí se localiza no meio do romance, e essa metade marca o fim da “apontação principal”, desordenada, associativa, “pulsional”, bem “mãe”, bem “natureza” e o início da segunda parte, mais ordenada, mais encadeada e cronológica, mais “pai”, mais “lei”, mais “cultura”.

Reitera-se, assim, “a forma do meio”, expressão cunhada por Clara Rowland para nomear seu livro, como estratégia importante do processamento de sentidos na obra rosiana.

Acrescente-se, para fechar a resposta a essa instigante pergunta, que nosso crítico maior, o saudoso Antonio Candido , lega à plateia do Seminário Internacional Guimarães Rosa. Grande sertão: veredas e Corpo de baile – 50 anos, ocorrido na USP, “confissão” que lhe fizera Guimarães Rosa ao dizer que na Guararavacã do Guaicuí “estaria uma chave para a leitura do romance” (as aspas se justificam por estar me valendo de palavras da pesquisadora Maria Célia Leonel , que deu mais precisão à observação de Candido).

IHU On-Line – Como o “pacto”, enquanto categoria psicanalítica, aparece em Grande sertão: veredas? Como poderíamos descrever a personalidade de Riobaldo antes e depois do pacto?

Marcia Marques de Morais – O pacto me parece um mergulho em si mesmo – um desnascer para renascer. Uma viagem de volta para acertar ponteiros e prosseguir. São inúmeras as marcas linguísticas desse processo de regresso para o impulso, impulso, inclusive, criador, num pacto com o daimon grego.

“Ah, acho que não queria mesmo nada, de tanto que eu queria só tudo. Uma coisa, a coisa, esta coisa: eu somente queria era – ficar sendo!”, é bastante audível o Das Ding freudiano, que vai tornar presente, pela gradação dos determinantes, a coisa impossível de se dizer, a busca por um alhures... e que se reitera mais à frente com “isso não é falável”....

em:

“Não. Nada. O que a noite tem é o vozeio dum ser-só – que principia feito grilos e estalinhos, e o sapo-cachorro, tão arranhão. E que termina num queixume borbulhado tremido, de passarinho ninhantemal-acordado dum totalzinho sono.”, a figura da noite como ninho, como um primeiro abrigo do ser nos seus primórdios;.

em:

“Só outro silêncio. O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”, o mergulho no eu, o tentar estar possuído por si mesmo e, no silêncio, perscrutar-se a si mesmo e ter forças para invocar: -“Ei, Lúcifer! Satanás, dos meus Infernos!”, chamando, etimologicamente as luzes (lux- lucis = luz), o condutor da luzes (fero, fers, tuli, latum, ferre = conduzir), as luzes do seu interior, das suas transgressões, do seu inferno, a partir do que se manifestará a criação, pactuada com o daimon;

e, por fim:

“E foi aí. Foi. Ele não existe, e não apareceu nem respondeu – que é um falso imaginado. Mas eu supri que ele tinha me ouvido. Me ouviu, a conforme a ciência da noite e o envir de espaços, que medeia. Como que adquirisse minhas palavras todas; fechou o arrocho do assunto. Ao que eu recebi de volta um adejo, um gozo de agarro, daí umas tranqüilidades-de pancada. Lembrei dum rio que viesse adentro a casa de meu pai.” (insistindo no rio, “pau enorme” do final do romance, fálico, que penetra adentro a casa do pai, metaforizando, sexual e eroticamente, a volta às águas maternas, para um outro nascimento, no caso, o nascimento do narrador do romance).

Essa análise se reitera, ainda, no trecho seguinte: “Porque a noite tinha de fazer para mim um corpo de mãe – que mais não fala, pronto de parir, ou, quando o que fala, a gente não entende? Despresenciei. Aquilo foi um buracão de tempo.”

Nessa pauta, a busca do pacto para se igualar ao Hermógenes e ascender à chefia, no enredo do romance, possibilita, com sua forma metaforizada, o pacto com o daimon da criação, implicando a transgressão a partir de um “falso imaginado”: o desnascer para nascer de novo.

Riobaldo sai do suposto pacto enfraquecido como homem de ação para se fortalecer como ser de reflexão que se nos apresenta como narrador do romance – o próprio Grande sertão: veredas que se vem escrevendo ao longo de toda a narrativa nas cadernetas do interlocutor, o outro-de-si e que se vale da experiência do narrador épico, o narrador oral.

Não por acaso, o cenário do pacto, as Veredas Mortas (letras mortas?) ou Veredas Altas (alta cultura?) ou Veredas Tortas (linhas tortas?), descrito como entre dois rios, evoca a Mesopotâmia, lugar do nascimento da escrita, em uma das várias versões, lembrando a escrita como condição imprescindível ao gênero romance.

IHU On-Line – Qual a importância de ler e reler a obra de Guimarães Rosa no Brasil atual?

Marcia Marques de Morais – Importância fundamental. Se se insinuam o conservadorismo do escritor e sua resistência a manifestações de cunho político, é importante proclamar que seu fazer literário faz as vezes de seus manifestos, substituindo-os com enorme vantagem. Como a inclusão de vozes, até então apenas referenciadas ou mesmo “arremedadas” na literatura, é feita, a obra rosiana, através de trabalho criativo, cuidadoso e sensível, preservando-lhes dicção e tom e respeitando-lhes pontos de vista, ler o povo brasileiro, na obra de Guimarães Rosa, é vivenciar o humanismo e ser tocado pelo acolhimento das diferenças, pela inclusão das minorias, pela compreensão de nossa realidade multifacetada.

Frise-se o efeito profundo dessa transformação do leitor – uma “transformação pesável”, como experimentou Riobaldo na travessia com o Menino. Isso porque o processo de “representação” da realidade, mediado artisticamente, torna o efeito da leitura duradouro e permanente, como ensina Antonio Candido no texto Direito à Literatura, quando diz que a experiência com a forma implica, necessariamente, a organização do caos interior, inerente à condição humana.

Para além disso, o privilégio ao paradoxo que o autor tanto preza desenha um mundo, uma sociedade bem mais “real”, o que faz o leitor experimentar contradições inerentes à vida humana e, dessa forma, exercitar “o ser E não ser” que nos constitui.

Por outro lado, um lado bem pessimista que marca os tempos sombrios deste Brasil contemporâneo, de 2019 e suas adjacências, parece ficarem cada vez mais distantes os prognósticos do escritor sobre o Brasil, quando, no diálogo com Günter Lorenz, acontecido em Gênova, em 1965 e já aqui referido, Guimarães fala em “brasilidade” e na nossa inserção no contexto da América Latina.

Ouçamos Rosa, quando perguntado sobre “brasilidade”:

“Falemos da ‘brasilidade’: nós os brasileiros estamos firmemente persuadidos, no fundo de nossos corações, que sobreviveremos ao fim do mundo que acontecerá um dia. Fundaremos então um reino de justiça, pois somos o único povo da terra que pratica diariamente a lógica do ilógico, como prova nossa política. Esta maneira de pensar é consequência da ‘brasilidade’.”

E tornemos a ouvi-lo sobre nosso país e a América Latina:

“Sou um homem que viu muitas coisas no mundo, que entende muito de literatura mundial. Não quero pecar por presunção, mas comparando quantitativa e qualitativamente o que se escreve, por exemplo, na Europa, com o que se escreve entre nós, sinto-me um tanto orgulhoso. Entre nós, não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração, há muitos que justificam as maiores esperanças, e permitem que encaremos tranquilamente o futuro. A América Latina tornou-se no terreno literário e artístico, digamos em alemão, Weltfähig (“apto para o mundo”). E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. (...) Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que no ano 2000 a literatura mundial estará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madrid ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado pelo Rio, Bahia, Buenos Aires e México. O século do colonialismo terminou definitivamente. A América Latina inicia agora o seu futuro. Acredito que será um futuro muito interessante, e espero que seja um futuro humano.”

No entanto, neste momento brasileiro e latino-americano, que se estende, inclusive, ao mundo, não se parece cumprir o que Rosa esperava para o século XXI – a chamada “brasilidade” está “em baixa” num Mundo em que as ações do capital ocupam o lugar da arte e do homem, legando ao esquecimento as últimas frases de Riobaldo no romance: “O que vale é homem humano. Travessia”. ■

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