Edição 538 | 05 Agosto 2019

João Guimarães Rosa, a Travessia

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Ricardo Machado

Existe é homem humano. Travessia. Assim se encerra Grande sertão: veredas (São Paulo: Companhia das Letras, 2019), de Guimarães Rosa, uma das maiores obras da literatura nacional. Menos que uma resposta à questão existencial do livro, a Travessia entrelaça filosofia e literatura, mística e política, vida e ficção. Guimarães Rosa é um daqueles autores capazes de fundir a tradição da literatura ocidental ao regionalismo do sertão brasileiro. O lançamento da primeira edição do livro foi em 1956, e em janeiro do ano seguinte Afonso Arinos de Melo Franco publicou, no Suplemento da Tribuna da Imprensa, o seguinte texto.

Cuidado com este livro – dizia eu a um traumatizado legionário do Norte –, cuidado. E completei a advertência com esta imagem: Grande Sertão é como certos casarões velhos, certas igrejas cheias de sombra. No princípio, a gente entra e não vê nada. Só contornos confusos, movimentos indecisos, planos atormentados. Mas, aos poucos, não é luz nova que chega: é a visão que se habitua. E, com ela, a compreensão admirativa. O imprudente ou sai logo, e perde o que não viu, ou resmunga contra a escuridão, pragueja, dá rabanadas e pontapés. Então arrisca se chocar inadvertidamente contra coisas que, depois, identificará como muito belas.

Apresentar Guimarães Rosa não é tarefa para apenas uma ou duas páginas. Por isso o que fazemos neste breve texto é trazer à tona elementos introdutórios sobre esse escritor brasileiro que rompeu fronteiras geográficas, literárias e teóricas. Melhor apresentação fazem os oito entrevistados da edição que, ao abordar Grande sertão: veredas, em particular, e a obra rosiana, em sentido amplo, dialogam com as múltiplas dimensões do autor.

Breve biografia

Guimarães Rosa: Foto: Wikimedia Communs


João Guimarães Rosa nasceu na pequenina cidade de Cordisburgo, em 27 de junho de 1908. Multifacetado e erudito, falava português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo. Além de escritor de contos, novelas e romances, foi médico e diplomata brasileiro, tendo trabalhado na Europa e na América Latina.

Os contos e romances escritos por Guimarães Rosa ambientam-se quase todos no chamado sertão brasileiro. A sua obra destaca-se, sobretudo, pelas inovações de linguagem, sendo marcada pela influência de falares populares e regionais que, somados à erudição do autor, permitiram a criação de inúmeros vocábulos a partir de arcaísmos e palavras populares, invenções e intervenções semânticas e sintáticas.

Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras em 6 de agosto de 1963, sendo o terceiro ocupante da cadeira nº 2, que tem como patrono Álvares de Azevedo. Morreu na cidade do Rio de Janeiro em 1967.

Obras

1936: Magma
1946: Sagarana
1952: Com o Vaqueiro Mariano
1956: Corpo de Baile: Noites do Sertão
1956: Grande Sertão: Veredas
1962: Primeiras Estórias
1964: Campo Geral
1967: Tutaméia – Terceiras Estórias
1969: Estas Estórias (póstumo)
1970: Ave, Palavra (póstumo)
2011: Antes das Primeiras Estórias (póstumo)

Edições da Revista IHU On-Line sobre literatura

- João Simões Lopes Neto: força da literatura brasileira e latino-americana. Edição 73, de 1-9-2003.

- Érico Veríssimo. Vida, obra e atualidade. Edição 154, de 5-9-2005.

- Sertão é do tamanho do mundo. 50 anos da obra de João Guimarães Rosa. Edição 178, de 2-5-2006.

- Jorge Luis Borges. A virtude da ironia na sala de espera do mistério. Edição 193, de 28-8-2006.

- Fiódor Dostoiévski: pelos subterrâneos do ser humano. Edição 195, de 11-9-2006.

- Cem anos de solidão. Realidade, fantasia e atualidade: os 40 anos da obra de Gabriel García Márquez. Edição 221, de 28-5-2007.

- Rûmî. O poeta e místico da dança do Amor e da Unidade. Edição 222, de 4-6-2007.

- Clarice Lispector. Uma pomba na busca eterna pelo ninho. Edição 228, de 16-7-2007.

- Carlos Drummond de Andrade: o poeta e escritor que detinha o sentimento do mundo. Edição 232, de 20-8-2007.

- Antônio Vieira. Imperador da língua portuguesa. Edição 244, de 19-11-2007.

- O belo e o verdadeiro. A tensa e mútua relação entre literatura e teologia. Edição 251, de 17-3-2008.

- Machado de Assis: um conhecedor da alma humana. Edição 262, de 16-6-2008.

- Macunaíma: 80 anos depois. Ainda um personagem para pensar o Brasil. Edição 268, de 11-8-2008.

- Monteiro Lobato: interlocutor do mundo. Edição 284, de 1-12-2008.

- A secura do sertão nos versos de João Cabral de Melo Neto. Edição 310, de 5-10-2009.

- Euclides da Cunha e Celso Furtado. Demiurgos do Brasil. Edição 317, de 30-11-2009.

- Direito & Literatura. A vida imita a arte. Edição 444, de 2-6-2014.

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