Edição 538 | 05 Agosto 2019

A trama conceitual antimetafísica de Nietzsche

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Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado

Wilson Antonio Frezzatti Jr. relaciona Genealogia da Moral em perspectiva com temas relacionados às ciências

Da miríade de leituras e aproximações possíveis em Genealogia da moral, de Nietzsche, suas relações com a Ciência ensejam uma forma profunda de relacionar os temas. “Nietzsche não utiliza simplesmente os elementos científicos, mas os rumina, digere e assimila conforme suas necessidades filosóficas, ou seja, eles são transformados e articulados em sua trama conceitual antimetafísica”, pondera Wilson Antonio Frezzatti Jr., em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Ávido leitor, Nietzsche desenvolveu o conceito de fisiopsicologia a partir de conhecimentos baseados em diversos autores ligados às ciências naturais em perspectiva com seus interesses filosóficos. “A fisiopsicologia investiga, através de seus sintomas (as produções culturais), a condição impulsional (morfologia) e suas transformações (desenvolvimento) de indivíduos e de culturas. Em outras palavras, trata-se de diagnosticar, criticar e apontar saídas para a decadência que Nietzsche acreditava atingir a cultura europeia de sua época”, explica o entrevistado.

Articular os principais conceitos nietzschianos, e fisiopsicologia é um deles, apesar de aparecer uma única vez em sua obra, amplia a compreensão de noções como vontade de potência, tão características do pensamento do filósofo alemão. “Talvez possamos dizer que o eterno retorno e mesmo a vontade de potência, em seu estatuto filosófico, estão mais próximos da physis dos pré-socráticos do que da ciência do século XIX. O motivo é que alguns dos filósofos pré-socráticos, segundo Nietzsche, não teriam uma concepção moral de verdade absoluta e suas teorias apresentariam distintas perspectivas sobre o mundo”, pontua.

Wilson Antonio Frezzatti Jr. é graduado em Farmácia e Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP, onde também realizou mestrado e doutorado. Atualmente é professor na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - Unioeste. Também é professor colaborador do mestrado em Filosofia da Universidade Estadual de Maringá - UEM. É autor de Nietzsche contra Darwin (São Paulo: Edições Loyola, 2014) e A fisiologia de Nietzsche (Ijuí: Editora Unijuí, 2006).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são os principais elementos científicos presentes na Genealogia?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – Nietzsche sempre foi um ávido leitor de textos científicos, e, em Genealogia da moral (1887), a presença da ciência é axial, embora ela não apareça apenas em uma única forma, sendo que há até mesmo uma situação paradoxal. Se, por um lado, o filósofo alemão critica a ciência de sua época por ela ser perpassada pelo ideal ascético, pois não consegue se livrar da verdade e do bem como valores supremos e absolutos, por outro, essa mesma ciência é utilizada na construção não só do procedimento genealógico, mas também nas concepções de vontade de potência e eterno retorno do mesmo. Porém, devemos ter em conta algo muito importante nesse uso de temas e teorias científicas: Nietzsche não utiliza simplesmente os elementos científicos, mas os rumina, digere e assimila conforme suas necessidades filosóficas, ou seja, eles são transformados e articulados em sua trama conceitual antimetafísica.

No século XIX, para alguns temas, não havia uma separação nítida entre filosofia e ciência. Um exemplo disso é o pensamento do filósofo Paul Rée : embora tenha se formado em medicina apenas em 1890, ele já escrevia sobre temas considerados científicos desde pelo menos 1875 (Observações psicológicas). De qualquer forma, considera-se que o procedimento genealógico assenta-se sobre o tripé psicologia, história e filologia, entretanto também é bastante nítida, na obra, a presença de aspectos da fisiologia, da biologia, da medicina e da antropologia.

Não podemos deixar de mencionar a exortação que Nietzsche faz no final da Primeira Dissertação em uma nota: “a filosofia, a fisiologia e a medicina em uma troca de perspectivas as mais amigáveis e fecundas”, pois “todas as ciências têm agora que preparar a tarefa futura do filósofo, sendo essa tarefa entendida como: o filósofo deve resolver o problema do valor, ele deve determinar a hierarquia de valores”. Portanto, os valores deveriam passar por uma investigação fisiológica ou fisiopsicológica, isto é, pela perspectiva da dinâmica da vontade de potência, para revelar qual seu valor, se servem para a elevação da cultura ou para a conservação no imobilismo.

IHU On-Line – Quais são os autores fundamentais do campo da ciência com que Nietzsche teve contato e que impactam as ideias desenvolvidas nessa obra?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – Nietzsche não explicita suas principais fontes científicas em Genealogia da moral. Os autores citados, com uma única exceção, são criticados: a) o naturalista inglês Charles Darwin , citado quando o filósofo alemão ataca o darwinismo de Paul Rée em A origem dos sentimentos morais (1877); b) o filósofo inglês Herbert Spencer : apesar de ser um cientista, ele foi de central importância para a recepção das ideias de Lamarck e Darwin. Nietzsche critica, em Spencer, a origem da concepção de bem e sua noção de adaptação; c) o médico, antropólogo e patologista polonês Rudolf Virchow tem rejeitadas suas conclusões sobre a composição do povo alemão; d) O biólogo inglês Thomas H. Huxley fala de um certo niilismo em Spencer; e e) Nietzsche, ao tratar do sacerdote ascético, traz do médico americano Silas Weir Mitchell algumas considerações sobre o jejum.

Mais importantes para a Genealogia da moral são suas apropriações que não têm suas fontes citadas. Aqui daremos destaque ao psicólogo e filósofo francês Théodule Ribot , considerado pai da psicologia científica francesa. Há ao menos duas noções de Ribot que aparecem na obra. Ao discorrer sobre o êxtase religioso como hipnose e como aniquilação da vontade, no parágrafo 17 da Terceira Dissertação, Nietzsche traz definições, mecanismos e exemplos que estão em As doenças da vontade (1883). Outra obra de Ribot possui coincidências com o primeiro parágrafo da Segunda Dissertação: As doenças da memória (1881) descreve o esquecimento como uma função ativa.

IHU On-Line – Quais são os ecos da ciência do século XIX na formulação do conceito de vontade de potência?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – Há muitos aspectos da ciência do século XIX que são importantes na construção da concepção de vontade de potência. Podemos citar vários exemplos: o conceito de luta entre as menores partes do organismo animal do embriologista alemão Wilhelm Roux (A luta das partes no organismo, 1881); o organismo como multiplicidade, presente em autores como Roux, Ribot, Virchow e o historiador francês Hippolyte Taine ; o processo orgânico ligado ao transbordamento e não à carência do biólogo alemão William Rolph (Problemas Biológicos, 1882); a concepção energética da natureza e a crítica ao atomismo: William Thomson (Lord Kelvin), Johann Vogt (A força: uma visão de mundo real-monista, 1878), Ruggero Boscovich (Uma teoria de filosofia natural, 1758) e Karl Zoellner (A natureza dos Cometas, 1871); a força interna plasmadora dos organismos do zoólogo suíço Ludwig Rütimeyer ; a consciência como um conjunto de consciências menores do positivista francês Alfred Espinas (As sociedades animais,1877); a ausência de diferenças qualitativas entre o inorgânico, o fisiológico, o psicológico e o cultural: em Ribot, essas diferenças são explicadas por graus de complexidade de estruturas formadas por reações físico-químicas; etc. A rede de influências é realmente muito grande e envolve também teorias do desenvolvimento de cunho lamarckista e a recusa da dualidade corpo/alma. Todas essas influências, de alguma forma, trazem aspectos contra a metafísica da dualidade de opostos absolutos e eternos. Por vezes, termos são desterritorializados e apropriados pelo filósofo alemão; por exemplo: o termo “centro de gravidade” na luta dos impulsos por mais potência foi transposto da disputa entre os arcos reflexos de Ribot e seu efeito como personalidade e vontade.

IHU On-Line – Embora a terminologia fisiopsicologia não seja usada diretamente por Nietzsche, ela é indispensável para entendermos o pensamento desse filósofo. Poderia explicar qual é o significado da fisiopsicologia?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – O termo “fisiopsicologia (Physio-Psychologie)” foi utilizado apenas uma única vez na obra publicada de Nietzsche. O parágrafo 23 de Além de bem e mal define o que, para o filósofo, é uma verdadeira fisiopsicologia: “morfologia e doutrina do desenvolvimento da vontade de potência (Morphologie und Entwicklungslehre des Willens zur Macht)”. A investigação fisiopsicológica infere, a partir das produções culturais (arte, filosofia, ciência, política, etc.), a condição fisiológica ou fisiopsicológica ou ainda impulsional do organismo. Organismo é entendido aqui como qualquer conjunto de impulsos ou forças em luta por mais potência, seja um indivíduo, seja uma cultura ou sociedade. O critério para tipificar a condição impulsional é a própria vida, ou melhor, a vida segundo a concepção nietzschiana: processo contínuo de autossuperação. Se a produção afirma a vida, como, por exemplo, a própria filosofia nietzschiana, ela é sintoma de um conjunto de impulsos potentes e altamente hierarquizados: trata-se de um organismo saudável; se, ao contrário, a produção nega a vida enquanto processo contínuo de autossuperação, como faz, por exemplo, a filosofia socrática, temos um organismo com impulsos pouco potentes e fracamente hierarquizados, ou seja, morbidade. Assim, a fisiopsicologia investiga, através de seus sintomas (as produções culturais), a condição impulsional (morfologia) e suas transformações (desenvolvimento) de indivíduos e de culturas. Em outras palavras, trata-se de diagnosticar, criticar e apontar saídas para a decadência que Nietzsche acreditava atingir a cultura europeia de sua época.

Embora o termo “fisiopsicologia” apareça apenas uma vez na obra publicada, acreditamos que o procedimento genealógico é um desenvolvimento direto do que é proposto no parágrafo 23 de Além de bem e mal. E não apenas a Genealogia da moral: pensamos que O caso Wagner, “O problema de Sócrates” e “Considerações de um extemporâneo” de Crepúsculo dos ídolos e mesmo O anticristo são aplicações da investigação fisiopsicológica conforme uma morfologia e doutrina do desenvolvimento da vontade de potência.

IHU On-Line – Em que medida a fisiopsicologia ajuda a explicar o caráter fisiológico da vontade de potência, mas também sua abertura a um outro agir, não determinado?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – A palavra “fisiologia”, no contexto da vontade de potência, tem um sentido propriamente nietzschiano: a dinâmica da luta dos impulsos ou forças por mais potência. Isso quer dizer que o significado propriamente nietzschiano de fisiologia não implica, de forma alguma, em um reducionismo material, biológico ou físico-químico, pois um impulso ou força é um quantum de potência que é, ao mesmo tempo, uma tendência ao crescimento dessa quantidade. O Trieb e a Kraft nietzschiana não existem de forma isolada, efetivam-se apenas na relação com outras quantidades de potência. Portanto, a fisiologia nietzschiana é marcada pelo processo, pela relação e pela multiplicidade, ou seja, um vir-a-ser sem direção e finalidade. Os aumentos e as diminuições de potência e a configuração de impulsos ocorrem ao acaso, não são predeterminados. O eterno retorno do mesmo é resultado desse acaso: como, para Nietzsche, as quantidades de potência e de forças são finitas e o tempo é infinito, necessariamente, depois de um tempo incrivelmente longo, as configurações de forças se repetirão na mesma ordem infinitas vezes. Assim, com essa concepção, Nietzsche imbrica acaso e necessidade.

Voltando aos termos “fisiologia” e “fisiopsicologia”, percebemos que, muitas vezes, na doutrina da vontade de potência, eles se referem à dinâmica da luta dos impulsos por mais potência. O mesmo ocorre com o termo “psicologia”. Assim, os termos “fisiologia”, “psicologia” e “fisiopsicologia”, em seus sentidos propriamente nietzschianos e no contexto da vontade de potência, são sinônimos. Contudo, parece-nos que “fisiopsicologia” indica algo muito importante: os impulsos ou forças não são nem corporais nem anímicos, ou seja, não são nem res extensa nem res cogitans, pois são processos de crescimento de quantidade de potência. Enfim, a composição “fisio + psicologia” mostra a superação, ou ao menos a tentativa, da dualidade corpo/alma. Destarte a nossa preferência por esse termo.

IHU On-Line – E quanto à questão do eterno retorno, em que sentido Nietzsche dialoga com a ciência antiga e aquela de seu tempo ao propor essa ideia?

Wilson Antonio Frezzatti Jr. – Nietzsche dialoga, em sua construção da noção de eterno retorno, com tradições filosóficas antigas, tais como Empédocles, Heráclito, o estoicismo e o hinduísmo. Talvez possamos dizer que o eterno retorno e mesmo a vontade de potência, em seu estatuto filosófico, estão mais próximos da physis dos pré-socráticos do que da ciência do século XIX. O motivo é que alguns dos filósofos pré-socráticos, segundo Nietzsche, não teriam uma concepção moral de verdade absoluta e suas teorias apresentariam distintas perspectivas sobre o mundo. Na ciência de sua época, podemos destacar, além das leituras sobre as concepções energéticas da natureza, o historiador e filósofo alemão Otto Caspari (A conexão das coisas, 1881) e o francês Louis Auguste Blanqui (A eternidade pelos astros, 1872). ■

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