Edição 534 | 15 Abril 2019

A mística, uma vivência psíquica ? Não, uma experiência espiritual

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Por João Vitor Santos | Edição Patricia Fachin

A experiência mística de Etty Hillesum foi registrada em seu Diário, que nas primeiras anotações demonstra haver alguma coisa que a incomoda, relata Ricardo Fenati

Os desafios para apreender a experiência mística de Etty Hillesum “decorrem da natureza” da própria experiência mística, que transcende a razão, pontua Ricardo Fenati. Segundo ele, numa cultura como a nossa, “marcada pela onipresença do discurso”, aquelas “experiências que assinalam os limites da linguagem tendem a ser ignoradas ou circular em meios muito restritos”. Em relação às experiências místicas, frisa, “há uma dificuldade adicional, dada a deterioração que a expressão mística vem sofrendo”. Na avaliação do professor, o “uso abusivo” do termo mística tem diluído o seu significado e é “preciso resgatar o seu uso mais apropriado que alude seja ao limite da racionalidade, seja, sobretudo, à presença de uma Alteridade radical”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, Fenati explica que a experiência mística “assinala os limites do humano, numa civilização marcada pela ilusão da saciedade e da autossuficiência” e implica “um afastamento do eu”, “um mergulho no que o excede” e, portanto, “trata-se de uma experiência espiritual, e não de uma vivência psíquica”.

Etty Hillesum, menciona o professor, é um exemplo de quem viveu a experiência mística. “Se formos capazes de acolher esse desconhecimento a que pertencemos, é bem possível que isso nos aproxime de uma experiência religiosa. Esse foi o caso de Etty Hillesum. Mas não se trata de um método. Ou como diz ela: ‘A única coisa que uma pessoa pode fazer é pôr-se humildemente à disposição e deixar-se tornar um campo de batalha. As questões têm de se albergar nalgum lado, precisam encontrar um lugar onde possam lutar e descansar, e nós, míseros humanos, devemos abrir nosso espaço interior a elas e não fugirmos’”.

Ricardo Fenati graduou-se e fez mestrado em Filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, cuja dissertação debruçou-se sobre o tema O mal-estar na epistemologia, a partir de Gaston Bachelard. Fenati integra o Centro Loyola, de Belo Horizonte.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor situa a experiência de Etty Hillesum entre o sofrimento e a sede de infinito. Por quê?

Ricardo Fenati – Se acompanharmos o Diário de Etty Hillesum, veremos, já nas primeiras anotações, o sentimento de que há alguma coisa que a incomoda, alguma coisa a ser enfrentada, ainda que não se saiba exatamente do que se trata. É ela quem diz que “há algo que continua profundamente encarcerado dentro de mim... é como se lá bem no fundo houvesse... algo a prender-me”. E como a ela sobram argúcia intelectual e experiência existencial, o que lhe parece faltar não é oferecido pela vida em torno, que ela experimenta intensamente. Ou seja, o mal-estar a que ela se refere excede os recursos disponíveis no meio à sua volta, alude a alguma coisa ainda não nomeada, mas que, à maneira de uma ausência, permanece presente. Mais do que sofrimento, talvez devêssemos falar de padecimento, de um pathos que invade a existência e que nada, num primeiro momento, parece aplacar. E ela espera que, com o tempo, tudo isso que, por ora, permanece oculto, venha à tona. Tem, então, apenas 27 anos e espera muito do futuro.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para apreender a experiência mística de Etty Hillesum?

Ricardo Fenati – Inicialmente, os desafios que decorrem da natureza da experiência mística, sabidamente opaca às investidas de uma razão bem-comportada. Numa cultura marcada pela onipresença do discurso, experiências que assinalam os limites da linguagem tendem a ser ignoradas ou circular em meios muito restritos. E, no que se refere a experiências de natureza mística, há uma dificuldade adicional, dada a deterioração que a expressão mística vem sofrendo. O uso abusivo dessa expressão – a mística de um time de futebol, por exemplo – dilui o seu significado. Seria preciso resgatar o seu uso mais apropriado que alude seja ao limite da racionalidade, seja, sobretudo, à presença de uma Alteridade radical. Também devemos lembrar que tradição católica entre nós é pouca afeita à dimensão mística da experiência religiosa.

IHU On-Line – Quais são as marcas e características dos chamados místicos contemporâneos? O que os diferem da mística medieval, especialmente no que diz respeito à busca do “eu interior”?

Ricardo Fenati – Essa é uma pergunta muito ampla e seria muito difícil respondê-la. São muitos os místicos contemporâneos, e eles pertencem a tradições religiosas muito distintas, o que inviabiliza uma caracterização mais aguda. Observo apenas dois pontos: o primeiro diz respeito à implausibilidade da experiência mística, cuja natureza assinala os limites do humano, numa civilização marcada pela ilusão da saciedade e da autossuficiência. Nesse sentido, o campo da mística – enquanto experiência e enquanto reflexão – é um lugar efetivo de crítica da cultura. E o segundo ponto é que costumamos nos esquecer que a experiência mística é um afastamento do eu, é um mergulho no que o excede. Trata-se de uma experiência espiritual, e não de uma vivência psíquica.

IHU On-Line – Etty Hillesum busca um Deus na profundidade de nossa singularidade humana. Mas como compreender esse seu movimento em meio à dor de uma guerra gerada pelo que de pior pode haver na perversidade humana?

Ricardo Fenati – Essa é a singularidade da experiência de Etty Hillesum. Se havia, e havia, nela o pressentimento de algo a sua espera, de algo a ser desenterrado em meio a escombros, apenas com a perseguição dolorosa ao seu povo e a si mesma é que esse pressentimento se torna um acontecimento. É ela quem diz: “Trabalho e vivo com a mesma convicção e acho a vida prenhe de sentido, cheia de sentido apesar de tudo, embora já não me atreva a dizer uma coisa dessas em grupo... O viver e o morrer, o sofrimento e a alegria, as bolhas nos meus pés gastos e o jasmim atrás do quintal, as perseguições, as incontáveis violências gratuitas, tudo e tudo em mim é como se fosse uma forte unidade e começo a entender cada vez melhor, espontaneamente por mim, sem que ainda o consiga explicar a alguém como as coisas são”.

Talvez estejamos acostumados a acolher a presença de Deus apenas em circunstâncias pouco adversas, mas convém lembrar que não há gesto humano, nem mesmo a mais absurda e dolorosa das guerras, capaz de extinguir ou mesmo impossibilitar a presença de Deus entre nós.

IHU On-Line – Como o senhor apreende a presença do pensamento de Julius Spier na mística de Etty Hillesum?

Ricardo Fenati – José Tolentino Mendonça , que prefacia a edição portuguesa do Diário, fala de três encontros decisivos na vida de Etty Hillesum: “o primeiro tem o nome de uma pessoa; o segundo tem o nome de um lugar; o terceiro não tem nome: é o encontro com o próprio Inominável”. A pessoa do primeiro encontro é Julius Spier, que se ocupa da psicoquirologia, leitura morfológica das mãos. Spier, à maneira de um tutor, é o primeiro a indicar uma passagem na selva de sentimentos que caracterizava a vida de Etty Hillesum. As palavras dela não poderiam ser mais claras: “ele foi o obstetra de minha alma”. Com ele, ela aprende a orar, a se referir a Deus. Lê a Bíblia, lê Sto. Agostinho . É junto a ele que irá descobrir a singularidade do seu caminho. E é dele que escuta: “Tenho a impressão de ser um estado preparatório para um grande amor teu”. Um pouco mais tarde, Julius Spier morre e ela prossegue o caminho.

IHU On-Line – Julius Spier defendia que corpo e alma estão estreitamente ligados e precisam estar em harmonia. Podemos associar essa perspectiva a uma lógica moderna que articula fé e razão? Por quê?

Ricardo Fenati – Certamente que Spier defendia a interação entre corpo e alma. Lembremo-nos que a iniciação espiritual de Etty Hillesum junto a seu mentor foi acompanhada de exercícios físicos e de um intenso convívio amoroso. Essa junção de corpo e alma não me parece constituir uma novidade para ela, cuja vida amorosa, desde muito tempo, nunca foi separada da inquietação espiritual. Somos nós, uma vez mais, na nossa tradição católica que temos dificuldade com essa aproximação. Com relação ao restante da questão, não concordo. Aqui não se trata da articulação entre fé e razão, mas do reconhecimento da sacralidade do corpo humano.

IHU On-Line – Etty Hillesum começa sua jornada interior através do exercício da escrita. Podemos compreender esse como um método para acessar o divino que habita em nós? Por quê?

Ricardo Fenati – Etty Hillesum é intelectualmente talentosa. Leitora de Rilke e Dostoiévski , professora de russo, certamente seguiria a carreira acadêmica, não fosse o seu assassinato tão precoce. Escrever, portanto, estava no seu horizonte. Mas a origem do Diário é outra, procede da busca de compreensão de si, quando já está bastante próxima de Jules Spier. É ela quem diz: “Vai ser um momento doloroso e difícil de ultrapassar para mim: confiar o meu ânimo reprimido a um insignificante pedaço de papel quadriculado. Os pensamentos são por vezes muito nítidos e claros na minha mente, os sentimentos extremamente profundos, é, porém, difícil conseguir escrevê-los. Essencialmente, acho, tem a ver com um sentimento de vergonha”.

O Diário, que não foi escrito tendo em vista a publicação, é constitutivo do itinerário espiritual de Etty Hillesum. É um exercício de intimidade, uma forma de atenção a si mesma, um texto que recebemos do desconhecido que há em nós. Se formos capazes de acolher esse desconhecimento a que pertencemos, é bem possível que isso nos aproxime de uma experiência religiosa. Esse foi o caso de Etty Hillesum. Mas não se trata de um método. Ou como diz ela: “A única coisa que uma pessoa pode fazer é pôr-se humildemente à disposição e deixar-se tornar um campo de batalha. As questões têm de se albergar nalgum lado, precisam encontrar um lugar onde possam lutar e descansar, e nós, míseros humanos, devemos abrir nosso espaço interior a elas e não fugirmos”.

IHU On-Line – No seu processo de busca interior, Etty Hillesum descobre a necessidade de respeitar as pausas e os silêncios. O que são essas pausas e silêncios? E como os encontrar hoje, num tempo de muitas falas, ruídos e pouca escuta?

Ricardo Fenati –Pausa e silêncio são formas de combater nossa voracidade. A realidade nunca se oferece ao nosso primeiro olhar, nunca se esgota nas interpretações habituais, não importa o quão compartilhadas elas sejam. A linguagem, o recurso à linguagem, é a primeira estratégia de que dispomos para não nos sujeitarmos aos nossos hábitos, aos nossos costumes e, é claro, à pressão de tudo que é imediato em nós. Mais adiante, também a linguagem e as ideias a que recorremos podem funcionar como um esforço de plenitude, como uma recusa do vazio, do inacabado, do incerto. Ora, esses elementos são ingredientes inescapáveis da existência humana. Nas palavras de Etty Hillesum: “Há alturas em que gostaria de refugiar-me, com tudo o que existe em mim, em meia dúzia de palavras, procurar um abrigo para aquilo que há em mim, em algumas palavras. Mas ainda não há palavras que queiram me abrigar... E eu estou sempre à procura de meia dúzia de palavras”.

Não importa muito, acredito, que o nosso tempo seja esse de muitas falas e ruído e pouca escuta. A aventura da existência sempre ocorre na singularidade de cada um de nós. E como estamos tratando de Etty Hillesum, convém lembrar que a sua experiência, de densidade mística insuspeita, ocorre em circunstâncias as mais desfavoráveis possíveis, em meio a uma violência estonteante.

IHU On-Line – Como Etty Hillesum compreende o amor e de que forma esse amor a conecta ao divino?

Ricardo Fenati – A experiência amorosa, nas suas diversas dimensões, sempre esteve presente na vida de Etty Hillesum. No seu Diário, ela diz que “Eroticamente sou refinada, e quase diria suficientemente experiente para figurar entre o número das boas amantes”. E devemos lembrar que manteve, durante muito tempo, uma dupla ligação amorosa, com Jules Spier e com Han Wegerif , em cuja casa morava. Mais adiante, após a sua aproximação mais intensa com a experiência religiosa, a disposição amorosa caminhará em mais direções. O seu trabalho como enfermeira no campo de Westerbork, o lugar do segundo encontro a que se referia Tolentino, e o terceiro, o seu encontro com o Inominável. E aí o que ela escreve e vive é inesquecível: “Vou ajudar-te, Deus, a não me abandonares”. Mais tarde escreverá: “Às vezes, pergunto-me, num momento difícil como esta noite, quais são os planos que tens para mim, tu Deus... Hoje, vendo bem, vivi coisas grandiosas e esta noite, também, meu Deus, agradeço-te por eu poder suportar tudo e por haver poucas coisas que não ponhas no meu caminho”. Ou ainda: “Dentro de mim há um poço profundo. E lá dentro está Deus. Às vezes consigo lá chegar. Mas acontece mais frequentemente haver pedras e cascalhos no poço, e aí Deus fica soterrado. Então é preciso desenterrá-lo”. A história, tão curta, tão intensa, de Etty narra uma crescente disponibilidade, uma crescente entrega e, mesmo, um progressivo repouso inquieto em Deus.

IHU On-Line – Etty Hillesum transforma a dor em potência alegre de resistência. O que essa sua experiência pode nos dizer acerca de nosso tempo?

Ricardo Fenati – Etty Hillesum, mais de uma vez, referindo-se aos alemães ocupantes do território holandês, diz que não deveríamos nos deixar aprisionar pelo ódio. Resistir ao que avilta a condição humana, o que procura banalizá-la, será sempre um dever. Foi o que ela fez em circunstâncias mais do que difíceis. Entretanto, nenhuma dor, é ainda com ela que aprendemos, deve nos tomar a tal ponto que nos esqueçamos do que há de infinito na potência amorosa. Resistimos porque é nosso dever, resistimos porque nada é mais real do que aquilo que gera nossa esperança. Para terminar com palavras de Etty Hillesum: “... a vida é grandiosa e boa e interessante e eterna, e quando uma pessoa coloca a tônica sobre si própria e se debate e se enfurece, a pessoa ignora a grande e eterna corrente que é a vida... Então aparece de repente, batendo as asas com grande envergadura, um pedaço de eternidade sobre mim”.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Ricardo Fenati – Recomendo vivamente a leitura do Diário e das Cartas de Etty Hillesum. Estão editados em Portugal, pela Assírio e Alvim. No Diário, há um prefácio notável de José Tolentino Mendonça. E lamento que uma mística da grandeza de Etty Hillesum seja, do ponto de vista editorial, pouco difundida entre nós, ausente mesmo das editoras confessionais, o que talvez seja explicado pela quase ausência da tradição mística no catolicismo brasileiro. Contamos apenas com um volume publicado pelas Paulinas (15 dias de oração com Etty Hillesum). Tenho notícia de uma edição do Diário no Brasil, editora Record, 1981, mas trata-se de um volume difícil de ser encontrado. Em sites, é mais fácil encontrar material sobre Etty Hillesum. ■

Leia mais

- O trânsito da mística no espaço do conhecimento. Entrevista com Ricardo Fenati, pulicada na revista IHU On-Line número 435.

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