Edição 534 | 15 Abril 2019

O amor é central na mística feminina de Etty Hillesum

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João Vitor Santos

Ceci Mariani observa como, pela entrega amorosa, a jovem chega a um Deus que habita nela e reconhece nele a face do outro, daqueles que a cercam

De uma forma muito simplificada, podemos afirmar que os místicos, segundo a teóloga Ceci Maria Costa Baptista Mariani, são aqueles que por uma experiência subjetiva alcançam o divino. Mas esse não é apenas um divino celestial, distante. É algo próximo, capaz de habitar em si e nos que estão em nosso entorno, como apreende Etty Hillesum na sua experiência mística. “Essa mulher descobre, no silêncio atento aos seus movimentos interiores, os caminhos para o encontro com Deus que vai inspirar uma vivência profunda do amor no cotidiano da vida”, destaca a professora. Sem promover separações polares, Ceci destaca que essa mística em Etty é ainda carregada de nuances femininas. “Quando nos atemos aos testemunhos femininos, percebemos que eles refletem uma forma própria de relação com a realidade”, aponta. E explica: “o corpo feminino é marcado por uma dinâmica centrípeta, movimento de atração, sedução, desejo de ser penetrada, tornar-se fecunda; diferente do corpo masculino, que tem uma dinâmica centrífuga que corresponde ao movimento de penetração em relação ao objeto desejado”.

Assim, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Ceci detalha em que consistem esses movimentos de amor. “Os relatos místicos femininos refletem, em geral, uma forma de entrega amorosa própria. Lendo os escritos de Etty Hillesum, temos a sensação de que ela vai trabalhando a cada dia o mundo que recebe em seu corpo. Com seu seio aberto, deixa-se penetrar pela vida”, constata. Para ela, a jovem judia vive não só o encontro consigo. Parte de si, mas busca uma relação com o mundo. “A mística de Etty Hillesum é uma mística relacional, ela chega a Deus na relação com o mundo e com o outro, lidando com a realidade que recebe em si e a inquieta. Não é apenas autoconhecimento, um conhecimento de si para si mesma. É um trabalho interior, um conhecimento de si para o outro”, explica.

Ceci Maria Costa Baptista Mariani é professora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Campinas e da faculdade de Teologia. Ainda integra a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião - Soter. Possui bacharelado e Licenciatura em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora de Medianeira, graduação em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora de Assunção, mestrado em Teologia Dogmática pela Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora de Assunção e doutorado em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Entre suas publicações, destacamos Mística e Teologia: Desafios contemporâneos e contribuições. Atualidade Teológica (PUCRJ, 2009, v. 33) e Teologia e Arte: expressões de transcendência, caminhos de renovação (São Paulo: Paulinas, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como o místico e o feminino se revelam na experiência de Etty Hillesum?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – Eu tenho como referência para a compreensão do místico, a caracterização do fenômeno proposto por Velasco . Esse autor vai distinguir na experiência mística os seguintes traços essenciais: (1) é uma experiência subjetiva que afeta o humano como um todo e tem lugar no centro da pessoa; (2) é vivida de forma insuperavelmente obscura e sumamente certa; (3) é uma experiência passiva, recebida como dom; (3) tem caráter extático, supõe descentramento; (4) impõe uma forma específica de uso das faculdades: a razão não atua explicando, compreendendo, mas escutando, e a vontade não intervém dominando, mas fazendo-se disponível e acolhendo; (5) impõe nesse sentido uma nova forma de ser que não se opera com base em possuir ou dominar, mas na disposição para entregar-se e acolher, é uma experiência que tem caráter oblativo .

É certo que encontramos no diário de Etty Hillesum (escritos entre os anos 1941 e 1943), esses traços apontados por Velasco. Tendo inicialmente objetivos terapêuticos, esses cadernos vão narrar o processo que a leva ao encontro com Deus a partir do mergulho ao fundo de si mesma. Aconselhada por Julius Spier – psicoquirólogo com quem começa um acompanhamento – a realizar meia hora de meditação diária, essa mulher descobre, no silêncio atento aos seus movimentos interiores, os caminhos para o encontro com Deus que vai inspirar uma vivência profunda do amor no cotidiano da vida. A meditação, lemos no diário de Etty Hillesum, em registro de 8 de junho de 1941, tem como objetivo converter o mais íntimo do próprio ser em uma vasta planície vazia para que Deus e o amor possam entrar. Não o amor exclusivista que produz deleite indescritível e faz orgulhar-se do sublime que se sente, mas o amor que se pode dedicar às pequenas coisas de cada dia .

Saindo da dispersão em busca do centro no interior de si, para além das aparências, se descobre a paz que vem do descentramento. No diário ela diz, o importante é deixar de lado o pequeno ego na relação com o trabalho e com as outras pessoas (posição 337), passar do pessoal ao suprapessoal, o mais importante é o todo. Dirigindo-se a si mesma, aconselha: “Hás de permanecer distanciada de tudo aquilo que atrai teu interesse. Não deves aliar tuas forças interiores a nenhuma outra coisa, não deves investir nelas, mas reservá-las para ti mesma. (...) não deves desejar possuir o outro, não exijas dele nada” (posição 343, registro de junho de 1941). Isso proporciona uma grande liberdade. Em muitas narrativas consideradas místicas se observa uma relação íntima entre o descentramento e a liberdade. Dentro da tradição cristã isso é muito presente.

Mística feminina

Esses traços que Velasco distingue, em princípio não oferecem elementos para falar de uma mística feminina, pois são características essenciais que se percebe nos vários relatos místicos independentemente de gênero, através de uma abordagem fenomenológica. No entanto, quando nos atemos aos testemunhos femininos, percebemos que eles refletem uma forma própria de relação com a realidade. Do ponto de vista simbólico, esclarece F. Dolto , o corpo feminino é marcado por uma dinâmica centrípeta, movimento de atração, sedução, desejo de ser penetrada, tornar-se fecunda; diferente do corpo masculino, que tem uma dinâmica centrífuga que corresponde ao movimento de penetração em relação ao objeto desejado . Sendo o relato místico, expressão de uma busca pessoal, ele carrega as marcas da corporeidade.

Os relatos místicos femininos refletem, em geral, uma forma de entrega amorosa própria. Lendo os escritos de Etty Hillesum, temos a sensação de que ela vai trabalhando a cada dia o mundo que recebe em seu corpo. Com seu seio aberto, deixa-se penetrar pela vida. Isso é simbolicamente feminino. Percebemos, em sua narrativa, que ela encontra o mistério de Deus – faz a experiência da totalidade – trabalhando a vida que recebe em si, com suas tensões e seus conflitos.

O seu itinerário espiritual inclui também a valorização da intuição, um aspecto associado à experiência feminina, no sentido que descreve, por exemplo, Edith Stein , quando se refere a uma natureza própria da mulher voltada para o cuidado. Na mulher, ela afirma, existe uma tendência natural à totalidade e integridade em dois sentidos: ela própria gostaria de transformar-se num ser humano completo, total e universalmente desenvolvido, além de querer ajudar também aos outros a serem assim e de ter em vista sempre o ser humano completo quando lida com as pessoas . No seu relato de 7 de outubro de 1941, Etty Hillesum escreve: “Não deves viver baseando-se unicamente em tua inteligência, mas em fontes mais profundas, mais permanentes, se bem que deves estar agradecida à tua inteligência como precioso instrumento para aprofundar os problemas que sua alma suscita. Dito mais sobriamente: o que tudo isso quer dizer-me é que, provavelmente, deveria ter mais confiança em minha intuição” (posição 500).

Dor e amor

Olhando para o profundo de si, Etty Hillesum encontra as palavras apropriadas para falar da passividade que também marca simbolicamente o feminino por estar associada à atitude receptiva própria da corporeidade feminina. Vale ler todo o dolorido registro de 4 de setembro de 1941 onde se encontram reflexões em que a dor de amor provocada pela consciência de não poder ter o homem que ama se mistura às dores experimentadas no enfrentamento dos desafios da realidade social conflituosa em que está imersa. No interior desse relato, ela fala de passividade ativa, uma forma de expressão muito interessante para descrever a síntese operada internamente entre atividade e passividade: “Às vezes sinto que estou em um abrasador purgatório e que estou sendo forjada em outra coisa. Mas, em quê? Somente posso ser passiva, deixar que me suceda. Mas também sinto que todos os problemas de nossa época e da humanidade em geral têm que ser combatidos dentro de minha pequena cabeça. E isso significa ser ativa”.

Essa síntese a partir da vivência feminina da passividade que Etty Hillesum percebe tão bem, talvez seja uma das melhores contribuições que a mulher possa dar no resgate da possibilidade de uma atuação no mundo fundada na comunhão e não na dominação.

IHU On-Line – O que mais o encanta da experiência mística de Etty Hillesum? Por quê?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – O que me toca nos escritos de Etty Hillesum é a transparência. Seu esforço sincero de falar sobre si mesma, convicta do bem que as suas descobertas espirituais podem proporcionar a outras mulheres. O trabalho de enfrentar-se a si mesma buscando palavras apropriadas: “Não há remédio: terei que resolver meus próprios problemas. Sempre tenho a sensação de que se os resolvo para mim mesma, também os resolverei para outras mil mulheres. Por isso tenho que enfrentar-me a mim mesma. Mas a vida é, certamente, muito difícil, sobretudo quando não se encontram as palavras apropriadas”.

Sua experiência espiritual é, de fato, eucarística. O relato de sua dura busca pessoal não é apresentado como modelo de superação a ser seguido, mas como oferta de si. Vale destacar esse belo extrato: “Sigo buscando fora a confirmação do que se oculta em meu interior, sabendo que só posso obter claridade empregando minhas próprias palavras. Tenho que acabar com essa preguiça, e em particular com minhas inibições e minhas inseguranças, se quero encontrar a mim mesma e, desse modo, encontrar aos demais. Devo obter claridade e aprender a aceitar-me” .

IHU On-Line – Como Etty Hillesum chega ao seu Deus e de que forma isso se reverte na relação com o outro?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – A mística de Etty Hillesum é uma mística relacional, ela chega a Deus na relação com o mundo e com o outro, lidando com a realidade que recebe em si e a inquieta. Não é apenas autoconhecimento, um conhecimento de si para si mesma. É um trabalho interior, um conhecimento de si para o outro. Isso é extremamente atual e necessário em uma sociedade narcisista que entende o conhecimento de si como autoajuda para um bem viver superficial e não como duro trabalho de aprofundamento. Sua tarefa espiritual é encontrar palavras apropriadas que deem sentido à vida em ebulição – em tensão, em contradição – e oferecê-las (sabe que o que resolve em si, resolve para mil outras mulheres).

É certo que esse seu esforço de encontrar palavras apropriadas que refletem o sentido das coisas é a melhor dádiva, um grande ato de amor que alcança a todos, atravessa o tempo e chega a nós com grande poder de atuar em novas sensibilidades. Escrever sobre a sua relação com o mundo é sua missão sagrada. Vale destacar a força do que escreve no registro de 26 de agosto de 1941: “Estou sumamente incomodada, com um estranho e infernal desassossego que poderia ser produtivo se soubesse o que fazer com ele. Uma inquietude ‘criativa’. Não do corpo – nem sequer uma dezena de apaixonadas noites de amor poderia mitigá-la. É quase uma inquietude ‘sagrada’. ‘Oh, Deus, toma-me em tuas grandes mãos e converte-me em seu instrumento, permite-me escrever...’” .

IHU On-Line – Como a Modernidade impacta na experiência mística?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – Os registros de Etty Hillesum podem ser considerados bons exemplos de uma mística que se configurou com as transformações modernas. Ela pode ser caracterizada como uma mística dos olhos abertos, para usar a expressão de Metz . Uma mística que conta com o desenvolvimento de uma consciência histórica crítica adquirida na modernidade e que tem no seu centro a compaixão. Uma hermenêutica histórico-crítica possibilita ver mais claramente que o olhar messiânico de Jesus que não se destina aos pecados dos outros, mas aos seus sofrimentos. Descobre-se com isso, no olhar de Jesus, “a paixão por Deus como empatia pelo sofrimento alheio, como mística prática de compaixão” .

Metz fala a partir do cristianismo, mas podemos observar esse espírito também em outras tradições. No judaísmo, por exemplo, temos os escritos de Heschel que tem um sentido profético muito forte. No livro intitulado O Schabat. Seu significado para o homem moderno (2002), ele faz uma crítica à civilização técnica que fez do trabalho lugar de exploração: “A despeito de nossos triunfos, caímos vítimas do trabalho de nossas mãos; é como se as forças que conquistamos nos tenham conquistado”, ele escreve. Para ele, o sábado, dia de abstenção do trabalho, é um dia de resistência, “dia para estarmos conosco, um dia de separação do vulgar, de independência de obrigações externas, um dia em que nós deixamos de adorar ídolos da civilização técnica, um dia que não usamos dinheiro, um dia de armistício na luta econômica com nossos semelhantes e com as forças da natureza (...)”.

Também Moltmann , resgatando a tradição judaica do cristianismo, em sua obra A fonte da vida: O Espírito Santo e a teologia da vida (2002), vai refletir sobre a santidade como testemunho de vida que implica liberdade e justiça. Deus santifica o povo, ele afirma, caminhando junto com ele e promovendo um aprendizado de liberdade e justiça: “Como companheiro de Israel na caminhada e também no sofrimento, Deus santifica o povo que elegeu, fazendo dele a ‘luz das nações’, porque desse povo hão de vir o conhecimento de Deus, a liberdade e a justiça, ou seja, a salvação do shalon para todos os povos” (p. 54). Para os cristãos, ele acrescenta, santificação é seguir a Jesus que vivenciou a contradição entre a vontade de santificação divina e o sentido humano da santidade como privilégio.

Etty

A mística expressa nos registros do diário de Etty Hillesum tem esse mesmo sentido de uma espiritualidade engajada na realidade e marcada pela compaixão e pelo cuidado. Diante da dura realidade da Shoá que toca a sua própria pele, Etty Hillesum reza a Deus, dizendo: “Pretendo enfrentar o seu mundo, oh Deus, não fugir da realidade para os meus belos sonhos – embora eu acredite que belos sonhos possam coexistir com a realidade mais horrível – e continue a louvar sua criação, oh Deus, apesar de tudo.” Quer olhar tudo de frente, inclusive os piores delitos, e “descobrir o pequeno ser humano nu em meio aos restos monstruosos provocados pelas absurdas ações do homem” .

Em seu diário, ela expressa um compromisso espiritual com a ação. Quer ajudar a Deus, pois entende que Deus só pode nos ajudar se nos dispomos a ajudá-lo. E ajudar a Deus significa para ela, fundamentalmente, proteger o que há de Deus em nós e nos outros. No registro de julho de 1942, anotação intitulada “Oração matutina de domingo”, podemos ler: “E tudo o que podemos fazer nesses dias e o que realmente importa é proteger esse pouco de ti, oh Deus, em nós. (...) devemos defender a sua morada em nosso interior até o final” .

Podemos dizer que Etty Hillesum é de fato contemplativa na ação, pois os seus registros vão mostrar um esforço cotidiano de concentrar-se no que é fundamental, fazer com que cada dia seja uma pedra a mais na construção do futuro que se mostra tão incerto. No mesmo registro de 12 de julho de 1942, ela escreve: “Oh Deus, tenho a suficiente força para sofrer em grande escala, mas existem mais de mil preocupações diárias que me assaltam sem aviso prévio como se fossem pulgas. Assim que, por hora me coço e me digo: ‘Já recebi suficiente atenção neste dia, os muros protetores de um lugar acolhedor ainda me rodeiam como uma roupa gasta e familiar, há suficiente comida para hoje, e a cama, com lençóis brancos e cobertores quentes, me aguarda essa noite, então não permitas que desperdice um átomo de minha força em mínimas preocupações materiais. Faça que eu use cada minuto e o converta em um dia proveitoso, uma pedra a mais nos cimentos sobre os quais construir nosso futuro tão incerto’” .

IHU On-Line – Podemos compreender a mística como uma crítica ao estado de opressão que se vive? Por quê?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – Olhando para as narrativas místicas, percebe-se muito bem a sua dimensão crítica. Em vista de uma aproximação mais íntima a Deus e almejando um contato mais direto com o Absoluto, o místico, por um lado, vislumbra o essencial, central na existência. Rubem Alves , um teólogo brasileiro de quem eu gosto muito, falecido em 2014, fala que na profundidade do humano habita uma grande ausência, um desejo imenso que indica que não estamos limitados a essa vivência imanente e que somos destinados à transcendência.

Vislumbrando o absoluto, o místico capta, por outro lado, a relatividade de todas as coisas. Ora, o poder da opressão está muitas vezes associado à idolatria, ao fato de se atribuir valor absoluto ao que é relativo, transformar o que é mediação em fim último. Esse é o grande debate empreendido por Paulo na Carta ao Romanos em torno do tema da Lei. Absolutizar a lei religiosa ou moral, absolutizar um sistema político, absolutizar uma forma de organização social etc. é estar sob o risco da escravidão. O místico descobre a quem pertence e a partir disso ordena a sua vida.

Nessa medida, é livre, resiste a toda forma de opressão. Uma espiritualidade mística, como vemos nos relatos de Etty Hillesum já citados anteriormente, confere centralidade ao sujeito porque nutre a partir mesmo da fonte, do Mistério Santo, do “De onde” e do “Para Onde” de nossa existência.

IHU On-Line – Qual o espaço da mística numa sociedade pós-moderna? Que caminhos a mística pode nos abrir para encararmos os desafios de nosso tempo?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – Estamos caminhando sobre os escombros da Modernidade e vendo a religião transformada em um conjunto de quinquilharias e sendo oferecida como mercadoria barata. Lipovetsky , em sua obra A felicidade parodoxal (2007), descreve muito bem a espiritualidade do consumo. Na sua interpretação, o retorno do religioso é, na verdade, uma reconfiguração do cristianismo mais adequado aos ideais de felicidade hedonista do capitalismo de consumo. Essa espiritualidade de consumo se constitui, ele afirma, sobre um fundo “de enfraquecimento das capacidades organizadoras das instituições religiosas, a tendência forte é para a individualização do crer e do agir, para a afetivização e a relativização das crenças” (p. 132). Faz parte da última fase do capitalismo de consumo a penetração dos princípios do hiperconsumo no interior da alma religiosa.

Por outro lado, observam-se ainda posturas que recorrem a um outro polo, vemos claramente o crescimento do fundamentalismo religioso. Num contexto de relativismo promovido pela multiplicação de ofertas religiosas, muitos vão buscar socorro em propostas em geral dogmáticas e moralistas, que ofereçam respostas claras e seguras. Os caminhos da mística em contraposição a essa onda de superficialidade ou ao enrijecimento tradicionalista, é busca de liberdade apoiada no encontro com esse Mistério Santo com o qual nos deparamos quando ousamos, na vida, empreender mergulhos mais profundos, inspirados nos testemunhos desses que, como Etty Hillesum, trilharam esse itinerário e encontraram as palavras apropriadas para comunicar a beleza das suas descobertas espirituais.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Ceci Maria Costa Baptista Mariani – Quero agradecer ao IHU por ter me convidado a debruçar sobre a experiência espiritual dessa mulher nesse momento de celebração do advento, de contemplação do Mistério da Encarnação. Seus escritos são realmente inspiradores, frutos de intensa convivência com essa Presença amorosa que armou sua tenda nesse mundo. Espero que esse trabalho de vocês contribua muito para tornar essas belas palavras mais conhecidas entre nós. Lamentavelmente temos apenas uma edição em língua portuguesa do livro Uma vida interrompida, publicada em 1981 pela editora Record e de muito difícil acesso. Quem sabe, por conta de uma maior divulgação desses escritos, possamos ganhar uma nova edição em português aqui no Brasil.■

Referências:

DOLTO, Françoise. No jogo do desejo. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1984.
HILLESUM, Etty. Escritos esenciales. Introducción y edición: Annemarie S. Kidder. Santander: Sal Terrae, 2011. (Ebook)
HESCHEL, Abraham Joschua, O Schabat. Seu significado para o homem moderno, São Paulo, Perspectiva, 2000.
LIPOVETSKY, Gilles. A felicidade paradoxal: ensaio sobre a sociedade do hiperconsumo. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
METZ, J. B. Mística de olhos abertos. São Paulo: Paulus, 2013.
MOLTMANN, A fonte da vida: O Espírito Santo e a teologia da vida. São Paulo: Loyola (2002).
STEIN, Edith. A mulher. Sua missão segundo a natureza e a graça. Bauru, SP: EDUSC, 1999.
VELASCO, Juan Martin (org.). La experiência mística. Madrid: Ed. Trotta, 2004.

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