Edição 534 | 15 Abril 2019

Sonho marxista de verão

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Zeca Oliveira

“Matéria-prima possível pela exploração de braços operários e forjada pelo enlevo artístico burguês, a estátua sustenta exatamente aquilo sem o qual não teria sido possível erguer-se e que não lhe cabe dar um alento maior do que um momentâneo descanso na frieza dos seus braços de pedra”, escreve Zeca Oliveira, geólogo, pesquisador da Unisinos.

 

Jose Manoel Marques Teixeira de Oliveira, o Zeca Oliveira, é graduado em Geologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e mestre em Geociências pelo Convênio UFRGS/PETROBRAS. Ainda possui pós-graduação em Regulação de Mercados de Petróleo e Gás Natural pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Especialização em Geologia do Petróleo pela Universidade Corporativa da Petrobras. Atualmente é pesquisador na Unisinos, participando do projeto Sistemas Continentais: Desenvolvimento de Rotinas Numéricas para Simulação de Sedimentação e Diagênese Siliciclástica e Carbonática.

Eis a reflexão.

A convivência perturbadora e ilusoriamente pacífica entre opressor e oprimido. Tal é a minha impressão imediata da criança dormente aos braços da estátua. Aquela, envolta na ilusão confortadora do abraço impessoal e momentâneo; esta, em sua maternidade pétrea e figurativa, insensível a um provável sonho libertário. Matéria-prima possível pela exploração de braços operários e forjada pelo enlevo artístico burguês, a estátua sustenta exatamente aquilo sem o qual não teria sido possível erguer-se e que não lhe cabe dar um alento maior do que um momentâneo descanso na frieza dos seus braços de pedra. Visto assim, o repouso tímido da criança contém em si toda uma práxis revolucionária, uma crítica velada das contradições do capital. Verdadeiro monumento dialético, a serenidade do cenário deixa transparecer, contudo, um fervilhante debate de opostos. A estátua e a criança. O Burguês e o operário. A inconsciência e o sonho. A tese e a antítese. Dorme, pequena suja, dorme. Dorme como dormem aqueles que te oprimem, alheios ao colapso que se avizinha. O teu despertar haverá de ser o prenúncio do levante dos oprimidos para a construção de um socialismo fraterno e de um mundo de irmandade solidária. Inebriado por este sonho possível detenho-me por uma última vez na imagem da criança em seu insólito berço e na penumbra da tarde que se esvai quase posso ver a estátua beijar-lhe a fronte enegrecida de carvão.■

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