Edição 531 | 17 Dezembro 2018

Etty Hillesum e a criação diante do abismo

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João Vitor Santos | Edição: Patricia Fachin

Segundo a socióloga Gabriela Acerbi, os diários de Etty Hillesum são um apelo à criação e uma recusa a condicionar a experiência ao abismo

A catástrofe, seja como condição de vida ou como mote para a produção intelectual de Etty Hillesum, é o que desperta o interesse da socióloga Gabriela Acerbi para a obra dessa jovem judia, que narrou em cartas e diários a sua experiência durante a Segunda Guerra Mundial. “Etty é uma descoberta recente para mim e o que eu sei sobre ela, no sentido daquilo que me instiga em relação ao seu trabalho e sua vida, é que ela foi uma escritora na catástrofe. Na catástrofe, enquanto uma condição de vida e de produção intelectual, mas também sobre a catástrofe, enquanto um tema a ser abordado, que está refletido nos seus escritos de um modo muito particular, por outras vias. E é por isso que seu trabalho me afeta tanto”, diz.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Gabriela Acerbi menciona que, através dos diários de Etty, “somos convidados a um percurso onde fronteiras entre o íntimo e a noção de humanidade, entre o homem e a natureza, entre nós e a metafísica divina estão borradas, se atravessam e são constantemente redefinidas”. Nos escritos da jovem judia, que foi “embalada pelo estado de guerra e políticas de morte”, também é possível encontrar a sua “crença na criação, de que é possível criar mesmo sem escrever uma palavra ou pintando um quadro, mas moldando uma vida interior”, pontua.

Gabriela também encontra a potência criativa dos poemas de Etty na vida cotidiana, ao acompanhar experiências em moradias populares e em ocupações ciganas da etnia callon na região do sul de Minas Gerais para o desenvolvimento de suas pesquisas. “Em uma das pesquisas que trabalhei direcionada às políticas de financiamento social e moradia popular, passei bastante tempo tentando redimensionar a vida e as formas de resistir nesse campo social da habitação que é também financeiro e que está imerso num sistema de crédito, dívida e estruturações do mercado”, observa. “Aos poucos mergulhando em políticas públicas e lógicas de gestão, se entende que a vida é feita, sim, a partir do que o Estado oferece, mas também a partir de todas as coisas e situações nas quais ele se ausenta. E nesse sentido, a vida é muito criativa. Podemos usar o mesmo raciocínio para pensar nas ocupações indígenas, quem sabe nas ocupações urbanas na cidade, ou nos movimentos campesinos. São tantas as ausências institucionais (sejam elas de esquerda ou direita), são tantas as derrotas quase corriqueiras – de um ponto de vista estrutural – que a vida vai sendo promovida por outros meios: um tal modo de fazer retalhado, também com tudo aquilo que falta. E isso tudo é muito produtivo, como eu já falei anteriormente, é tecido também a partir dos abismos colocados”, afirma.

Gabriela Acerbi é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC. Atualmente é mestranda em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que você conhece acerca de Etty Hillesum e sobre a sua forma de resistência à dor, ao sofrimento e à amargura gerados pela guerra?
Gabriela Acerbi – Etty é uma descoberta recente para mim e o que eu sei sobre ela, no sentido daquilo que me instiga em relação ao seu trabalho e sua vida, é que ela foi uma escritora na catástrofe. Na catástrofe, enquanto uma condição de vida e de produção intelectual, mas também sobre a catástrofe, enquanto um tema a ser abordado, que está refletido nos seus escritos de um modo muito particular, por outras vias. E é por isso que seu trabalho me afeta tanto.

Etty foi uma jovem judia que viveu intensamente a atmosfera da Segunda Guerra Mundial e seus desdobramentos mais violentos e íntimos, aqueles que afetaram os corpos durante o avanço das ocupações nazistas. É nesse contexto do holocausto, dessa matança de mais de oito milhões de pessoas consideradas “indignas de viver” que Etty começou a escrever o primeiro dos seus oito diários, isso em 1941, na Holanda, dois anos antes de ir para o campo de concentração. E é nesse contexto também que ela se produziu enquanto escritora e intelectual. É nesse universo tirânico que ela se formou e se fez enquanto uma mulher que estava ali elaborando, criando e reformulando os desdobramentos políticos do seu tempo à sua maneira. Elaborações éticas, estéticas, políticas, poéticas e místicas sobre o caos instaurado, também sobre si mesma e dimensões da experiência e do ser, num sentido mais filosófico e tecidas nesse estado de guerra total. Um estado de guerra que refletia a consolidação de uma racionalidade científica, totalitária, instrumental, que atuou sobre natureza, vidas, territórios e corpos, numa realidade de violência tão intensa que dificulta qualquer reflexão no sentido de reparações. E se você se dedicar aos escritos de Etty, vai encontrar ali forças imponderáveis, muito sutis, mas também potentes, de uma capacidade de seguir acreditando diante de toda barbárie. E isso causa bastante estranhamento e ao mesmo tempo admiração.

Etty é uma mulher que vai morrer no campo de extermínio e que tem uma escrita embalada pelo estado de guerra e políticas de morte, mas que ao mesmo tempo está cavando fugas para o corpo capturado em Auschwitz. E sua poética vai sendo costurada entre esses dilaceramentos, de corpos, de subjetividades, de cidades, de organizações comunitárias, de famílias, de relações, da espiritualidade... Mas diante disso, ela está oferecendo algo que é mais do que um testemunho diante do horror e do abismo.

Crença na criação

Em um de seus famosos trechos, Etty reforça sua crença na criação, de que é possível criar mesmo sem escrever uma palavra ou pintando um quadro, mas moldando uma vida interior, o que nos faz pensar muito nessa situação dos campos de concentração onde há uma paralisação do corpo, que aprisionado, não pode fazer muita coisa diante do horror. E ela está atenta a essa dimensão menor, que é também por onde compartilha a sua dor. Quando escreve, Etty vai povoando essa vida confinada e perseguida com outras forças, como, por exemplo, as forças da natureza a quem ela sempre se refere. Lendo seus diários, fico com a impressão de que Etty redimensiona sua vida capturada, por exemplo, quando insiste em dizer que em seu corpo correm largos rios, situam-se altas montanhas. Ou que nos matagais do seu desassossego – palavras suas – há largas planícies rasas do seu sossego e entrega. “Todas as paisagens estão dentro de mim. Há igualmente lugar para tudo. Em mim há a Terra e também o céu”.

Etty morreu antes de completar 30 anos, em setembro de 1943. Ela também teve todos os seus familiares, pais e os dois irmãos exterminados pelo nazismo e o momento em que começou a escrever foi exatamente quando o domínio nazista se intensificou na Holanda, não muito distante de onde a pequena Anne Frank também escrevia.

Ainda sobre seus diários em tempos de guerra, tenho a impressão de que somos convidados a um percurso onde fronteiras entre o íntimo e a noção de humanidade, entre o homem e a natureza, entre nós e a metafísica divina estão borradas, se atravessam e são constantemente redefinidas. Lendo alguns trabalhos de análises sobre a produção de Etty, enquanto uma tradição também espiritual e um percurso de resistência e libertação, há autores que destacam o distanciamento de Etty de um olhar autocentrado, assim como o abandono de representações convencionais da vida e do eu. Tzvetan Todorov (2016) vai defender que Etty se afasta progressivamente da tradição do pensamento ocidental, do predomínio do sujeito, onde a sua recusa e resistência propõem um caminho em que não há a prevalência do eu centralizador, nesses termos que estamos eurocentricamente familiarizados. E também, que ela propõe um direcionamento outro para que a vida pudesse ser salvaguardada, com novos parâmetros, como um recomeçar do zero na Europa pós-guerra. Nesse sentido, é mais do que uma oposição ao nazismo, mas uma recusa de lugares e modos de agir. Desses lugares afogados nos poços de ódio – em suas palavras – onde as retidões não vão vir em benefício de um “eu” autocentrado e nem apenas por ele. E nessa dimensão existencial que é outra, Etty estava sempre recrutando os elementos da natureza, experimentando árvores enquanto bosques inteiros, hospedando em si as flores, trazendo a terra. Trazendo-as para esse território existencial que afrontava os muros dos campos de concentração perseverando na vida pacientemente, de forma recolhida e até mesmo esvaziada, que era íntegra e criativa.

IHU On-Line – Pensando ainda a partir da experiência de Etty, como compreender o avanço do individualismo e da intolerância no mundo de hoje? E como, em meio à aspereza das relações cotidianas, acreditar na possibilidade de mudança tanto através do amor quanto da alegria?

Gabriela Acerbi – Entre as várias questões que podemos encontrar nos textos de Etty, vejo seu apelo à criação como uma estratégia de fuga, assim como uma forma de recusa à proliferação de práticas de ódio, tirania e dominação. Etty descreve como a barbárie nazista despertava uma barbárie idêntica, íntima, que se pudesse, empregaria os mesmos métodos de poder para fazer o que está na ordem do seu desejo. De acordo com ela, sobre essa barbárie que seria nossa, pessoal, talvez corporal, deveríamos rejeitar arduamente e interiormente, o que seria um combate a qualquer ódio possível de ser cultivado. Seria necessário manter acesa tal combatividade, coloca Etty, mas nunca, em hipótese alguma, ela poderia passar por um regime de ódio e violência, compartilhando o idioma desses sistemas dominadores, opressivos.

Quando comecei a ler Etty e pensar sobre essas questões de intolerância e sofrimento, lembrei muito de um livro do filósofo italiano Antonio Negri , chamado Jó a força do escravo. Quando escreveu o livro, o autor cumpria seu quarto ano de prisão, que aconteceu em 1979 por questões políticas associadas ao seu envolvimento na causa operária e lutas autônomas italianas. Apesar de abordagens e contexto distintos entre Etty e Negri – que também perdeu o pai assassinado por fascistas – promovi esse encontro, pois ambos remontam questões interessantes sobre tal compartilhamento da dor, as possibilidades da criação e desdobramentos possíveis diante de condições opressivas. É uma ligação imaginária sobre condições de vulnerabilidade que estruturam processos de reinvenção da vida.

Avanço do individualismo e da intolerância

E se a intenção é falar sobre o avanço do individualismo e da intolerância no mundo de hoje, a militância e o trabalho de Negri são bom encontro para reformular as questões desse individualismo, já que o que ele anuncia relaciona-se diretamente com as condições de desigualdade no modo de produção capitalista (que nos é uma condição e muito nos têm feito pensar atualmente em relação aos seus horizontes neoliberais). Penso que a questão da intolerância liga-se a tudo que sustenta esse modo que nos paralisa e esgota, estruturalmente, politicamente, economicamente, afetivamente e que também tem a ver com dimensões da colonialidade do poder, com a fabricação da miséria humana do modo capitalista e as condições materiais e subjetivas que vão fazendo a vida ruir a partir desses domínios e referentes. Diante disso, Negri é bom também porque nos ajuda a pensar a partir das derrotas, com sua análise do sofrimento que é uma chave para resistir.

Voltando a Etty, tenho que ela está produzindo diante do avanço dos campos de extermínio e há aí uma experiência ética da dor (também através do corpo), do domínio nazista sobre o existente – a quem ela responde desmedidamente, em direção ao amor, com sua experiência mística e religiosa. Etty não está recusando falar apenas do horror, ela está recusando condicionar sua experiência ao abismo. Ela cria sobre ele. Em seus diários, toca Deus, a humanidade e a si mesma. No livro de Negri, ele está retomando a história bíblica de Jó e sua experiência com Deus também diante do sofrimento. Jó confronta Deus, mas também se aproxima dele, depois constrói radicalmente um mundo novo. Um mundo liberto – e é sobre essa libertação que Negri vai tecer a ideia de criação, onde a potência forma-se na dor, mas se desenvolve na relação com o ser.

Para mim, todas essas coisas vão sendo articuladas a nos permitirem pensar em modos de fazer que são políticos, onde as crises vão se constituindo como caminhos de luta e reconstrução do ser. E nesse sentido, gosto muito quando o autor contrapõe a incomensurabilidade das dores diante daquilo que ele chama de cultura da medida, um fanatismo instrumental pelo cálculo, esse esforço de racionalização que ao mesmo tempo que se expande, expõe sua decadência e insustentabilidade; uma ruína das leis. É assim que Negri associa sua ânsia por libertação à incomensurabilidade de uma dor que não pode ser medida, e a consequência disso é que só a paixão da criação poderia responder à derrocada da medida. “Lá onde as velhas medidas caíram, era preciso criar novas, e a partir daí a paixão residia inteiramente na capacidade de mover-se com alegria para além da medida.” (Negri, 2002). É a descrição de uma dor ontológica, como destaca Pelbart (2013), o que na lógica negriana é também uma recusa ontológica. Uma forma de pensar as existências por aquilo que dói e também por aquilo que elas constroem recusando, como Etty, que recusa se resignar às condições do extermínio, trazendo em seus diários não só dor, mas também aquilo que florir, que pode enunciar uma nova comunidade.

E quando vocês me perguntam, como, em meio à aspereza das relações cotidianas, acreditar na possibilidade de mudança tanto através do amor quanto da alegria, acredito que o caminho seja por aí. Redimensionar a potência da dor e daquilo que ela pode recusar e criar. Dado ao contexto em que vivemos, o desenho desse Brasil que ganhamos agora em outubro de 2018, mas também a partir de toda nossa trajetória histórica, acredito que precisamos redimensionar as criações, a potência da alegria e estar atento ao que vem sendo produzido. Podemos pensar que desde as ocupações portuguesas em nosso território, nossas primeiras experiências coloniais e os processos de escravidão, paixões, alegrias e formas de resistir estão sempre sendo tecidas diante das suas derrotas (que são inúmeras e desiguais, acumuladas historicamente). Mas elas estão aí, cotidianamente consolidando forças escapáveis e muitas vezes imperceptíveis, mas imensamente potentes.

Penso tudo isso num sentido político-prático, nos modos cotidianos de levar a vida, nas alianças comunitárias que seguem as margens e nas bordas, as lutas diárias e o cultivo do estar junto, principalmente frente às desigualdades que se alastram. Podemos pensar nas dimensões coloniais do racismo, nas forças do patriarcado, no campo de desigualdades no mundo do trabalho, no genocídio indígena, das populações pretas e periféricas. Que é um mar de gente, de universos, de corpos e de experiências que não se entregou diante das derrotas. Mas produziu sobre elas, deu sentido à vida, perpetuou modos de ocupar as cidades, os campos, aliançadas localmente em múltiplas experiências produzidas a partir das suas dores incomensuráveis e dos seus mundos, que se mantiveram, que não deixaram de existir. Penso que isso é responder com paixão e alegria, ainda que tudo... Serve pra pensar em todas as vidas matáveis que resistiram...

IHU On-Line – Você viveu intensamente as reivindicações de 2013 e as possibilidades de transformações sociais profundas implicadas nas marchas e manifestações populares. Hoje, cinco anos depois, e com o avanço da extrema direita, como ficam todos aqueles sonhos? E o que resiste num Brasil amargurado pela crise econômica?
Gabriela Acerbi – É sempre difícil falar de Junho de 2013... Acredito que chega a ser uma tarefa ingrata, já que Junho é muita coisa. Isso sem falar de todos os afetos que a lembrança daquelas manifestações mobiliza, uma euforia da ordem do caos... Mas as Jornadas de Junho foram tanta coisa que nós seguimos aqui falando sobre elas, retomando os acontecimentos pra tentar elaborar o que estamos vivendo agora, já que essas coisas parecem estar entrelaçadas. Cinco anos depois das ruas cheias de gente, de exigências inegociáveis, múltiplas, quase incomunicáveis, a gente não sabe bem o que achar daquele emaranhado que era muito potente e também assustador – no sentido daquilo que sentimos diante do desconhecido, como me lembra Clarice Lispector em um de seus poemas: “uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais”.

Mas quando vocês me perguntam como ficam todos aqueles sonhos diante desse atual avanço da extrema direita, e o que resiste num Brasil amargurado pela crise econômica, primeiro gosto de lembrar onde estão enraizadas essas amarguras e também parte daqueles sonhos. Um dos pesquisadores de Junho em que confio bastante é André Fogliano (2018). Em sua cartografia afetiva dos enunciados e imagens do levante brasileiro, ele tratou Junho como um acontecimento-problema, experiências-limite que desestabilizaram o atual estado de coisas e de discursos com o qual a governamentalidade do capitalismo mundial integrado operava no país e no mundo. Sua hipótese descreve como essas insurreições desarmaram estados de percepções estabelecidos, que se convencionou chamar de Antropoceno – e então há no seu trabalho uma abordagem que chama atenção para essa crise do referente, em terras brasileiras e também como um problema geral, de mundo, que traz à tona o confronto de vários mundos e modos de vida que vinham entrando em confronto com parâmetros da governamentalidade vigente. Como já vinha sendo colocado por pesquisadores como Eduardo Viveiros de Castro , Déborah Danowski ...

Nesse sentido, Junho de 2013 teria levantado todo um campo de possíveis experimentações e também de incômodos não mais sustentáveis. Experimentações tecidas também diante dos desdobramentos neoliberais que nos atravessam, enquanto Brasil, e diante dos nossos impasses coloniais-capitalistas atualizados, dinâmicas neodesenvolvimentistas muito bem instauradas e todas as tensões produzidas nessa intensificação de modos de exploração e condicionamentos da vida na era do capital financeiro, dos grandes empreendimentos, dos megaeventos, de regimes de endividamento contemporâneo, expropriações e de uma crise política generalizada, quanto aos seus formatos e modos de operar, o esgotamento dessas instituições.

Necropolítica tropical

E pensando no agora, é claro que estamos todos muito preocupados com o que foi consolidado em outubro deste ano no país. Não consigo ver menos do que uma necropolítica tropical alargando passos, ganhando mais braços. Planos explícitos de morte, de medo e um campo de desmontes que intensificarão o soterramento de direitos, dos programas e políticas sociais, enfim, tudo sendo arrastado por horizontes neoliberais e ultraconservadores, a radicalização dessa coisificação da vida, das pessoas, do meio ambiente, das relações de trabalho, do campo educacional, da saúde pública... A política intensificando ares empresariais devastadores, sob a lógica do investimento e da resiliência. E isso tem menos a ver com quem os escolheu, mas mais com as condições que eles vão operar. Achille Mbembe , autor do livro Crítica da Razão Negra, já havia anunciado sobre essa bifurcação entre democracia e capital financeiro, e sobre as ameaças que esse modo de subjetivação neoliberal nos traria às nossas frágeis democracias: uma condição de endividamento da vida similar à lógica perpetuada na escravização das populações negras, horizontes endurecidos e mortais, produtores de sistemas de regimes de sofrimento aliados aos modos de governo.

Dito isso, ainda acredito que nos ajuda a pensar e a respirar, lembrar que esse avanço da extrema direita é também a expressão de um mundo e de um tempo que ruiu. Que está ruindo faz tempo... Por mais que ele se alastre, nas suas variações, contradições, na incoerência dos muitos votos... Ele expressa também o desespero de algo em queda. Não é só isso, mas tem ali algo que insiste desesperadamente, que esbraveja para não deixar outros modos que estão aí prevalecerem. Acontece que todas as forças as quais o Bolsonaro se opõe seguem existindo, sempre! E se agora estamos vivendo uma dimensão de derrota, estamos vivendo também uma dimensão de lutas que se acirram, que não se dobram diante dos insuportáveis que as assolam. E isso não é uma situação só de agora, isso sobrevive historicamente.

Nesse sentido, eu penso com Negri o Brasil de agora e o presidente que ganhamos: criações a partir das próprias condições de sofrimento vivenciadas. Acho necessário lembrar que o que está ruindo diz mais respeito a eles do que a nós. Como não pensar nos impactos do feminismo que corre a ventos rápidos, que produz novas coisas em termos de produção de subjetividade, dimensões de família, de relações, do mundo do trabalho? Novas socialidades implicadas. Ou como não pensar nas vidas aldeadas que não estão historicamente diminuindo? Pelo contrário, são territórios em disputa, aderidos, exigidos, de gente que se dispõe a falar uma língua institucional no sentido de uma traição político-linguística, para garantir seu direito de sobrevivência. Também formas de vidas aquilombadas, pretas, que alicerçam sua ancestralidade às novas formas e caminhos para conquistar direitos, acessos e redimensionar as violências vividas... Uma luta que vem a suor e sangue. Assim, prefiro pensar num campo que se cria a partir das condições menos favoráveis possíveis, mas que se opõe à nossa sensação atual de desmoronamento. Há vidas não arruinadas. Como não olhar para 2018 sem lembrar das candidaturas de mulheres, mulheres-trans, negras, indígenas e quilombolas eleitas este ano? Bancadas populares e coletivas, por exemplo como o MUITAS , a candidata eleita Érica Malunguino que administra o quilombo urbano Aparelha Luzia, a Bancada Ativista no Rio de Janeiro, Áurea Carolina em Minas Gerais anunciando que eles vão aquilombar as instituições?... Se a gente quiser, podemos chamar de política menor – no sentido minoritário, como bem queria Deleuze , e assim, incrivelmente potentes, batalhadas diante das derrotas históricas e diárias.

Ainda sobre esses caminhos não resignados e dores que criam, gosto de retomar a pesquisadora bell hooks (2013), que fala da sua trajetória com a produção de conhecimento e as questões do sofrimento – e que no seu caso, associam-se diretamente às violências e desigualdades vividas na segregação racial institucionalizada nos Estados Unidos, que, nos termos de lei, só foi cair depois de 1967. No livro Ensinando a transgredir, a educação como prática de liberdade, bell hooks elabora sobre os efeitos e os caminhos abertos ao se dar nome à dor. O que abarca tanto uma dimensão coletiva da dor, quanto uma muito íntima e individual dos processos de cura ao se nomear os efeitos do sofrimento e trazê-los ao campo educativo, trazê-los ao lugar de elaboração.

Quando penso nessas campanhas, quando olho para o que temos em termos de Brasil, as dinâmicas comunitárias que se perpetuam e as amarguras dos processos políticos que passamos, gosto de lembrar que historicamente nossas condições nunca foram fáceis. Há anos e anos, populações indígenas, xamãs, anunciam que as catástrofes e fins de mundo não cansaram de chegar. Temos aí Davi Kopenawa , Ailton Krenak , Sônia Guajajara que saiu como candidata a vice-presidente do país. A verdade é que nunca foi muito favorável e que as dimensões da dor e da catástrofe sempre estiveram aí. E nesse sentido, penso que é importante a gente reforçar e lembrar os projetos e iniciativas que estão e sempre estiveram sendo produzidos por aqueles que podem dar nome à sua própria dor, que podem criar a partir dos seus abismos. Isso tudo são políticas de localização. São políticas não ressentidas, são expressões de amor, de potência, de guerra, de festa e de vida. Também é poético, estético, místico e é político.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para se conceber uma reinvenção da política no Brasil através da alegria?
Gabriela Acerbi – Acho que gostaria de direcionar a intenção da reinvenção para a própria pergunta em vez de respondê-la. Ainda tenho dúvidas de se não seria necessário a gente parar de perguntar sobre a reinvenção da política, mas reinventar os olhos de quem olha para ela (e também os olhos que definem o que é política). Às vezes fico com a impressão de que não estamos preparados parar enxergar aquilo que está sendo inventado, essas produções cotidianas, comunitárias, que talvez sejam “pequenas” demais para quem concentrou-se apenas numa lógica de partidos – ou de um determinado lugar da “esquerda” nacional. Existem modos de vida, modos de organizações coletivas que estão aí constantemente se atualizando e que talvez a gente não consiga encaixá-los naquilo que esperamos que seja um modo de resistir ou de agir politicamente.

Em uma das pesquisas que trabalhei direcionada às políticas de financiamento social e moradia popular, passei bastante tempo tentando redimensionar a vida e as formas de resistir nesse campo social da habitação que é também financeiro e que está imerso num sistema de crédito, dívida e estruturações do mercado. Após acompanhar experiências cotidianas em moradias populares e também em ocupações ciganas da etnia callon na região do sul de Minas Gerais, me esforcei para tentar percorrer com mais cuidado as articulações e negociações que produzem formas de habitar distintas e também particulares. Aos poucos mergulhando em políticas públicas e lógicas de gestão, se entende que a vida é feita, sim, a partir do que o Estado oferece, mas também a partir de todas as coisas e situações nas quais ele se ausenta. E nesse sentido, a vida é muito criativa. Podemos usar o mesmo raciocínio para pensar nas ocupações indígenas, quem sabe nas ocupações urbanas na cidade, ou nos movimentos campesinos. São tantas as ausências institucionais (sejam elas de esquerda ou direita), são tantas as derrotas quase corriqueiras – de um ponto de vista estrutural – que a vida vai sendo promovida por outros meios: um tal modo de fazer retalhado, também com tudo aquilo que falta. E isso tudo é muito produtivo, como eu já falei anteriormente, é tecido também a partir dos abismos colocados. E no nosso contexto atual, penso que isso tudo é sobre criação de condições de sobrevivência, como para a pesquisadora Verônica Gago (2014) que vai falar de um neoliberalismo desde baixo, que são os modos de dar conta da dinâmica social, política e econômica, que resiste à exploração e à despossessão e que se desprega desse espaço do cálculo, das leis de medida.

Nesse sentido, eu lembro que todas as vezes que eu preciso falar sobre reinvenção política, gosto de usar o mesmo trecho de uma poeta que gosto muito. Matilde Campilho , em uma breve entrevista sobre arte, música e poesia, insiste que essas coisas não salvam o mundo, mas salvam o minuto e isso é suficiente. Depois ela reforça que estamos aqui para “dançar um pouquinho sobre os escombros. Não deixar que a poeira dê alergia nos olhos”. E nessa dança, cada um faz como pode... “A gente vai tentando salvar os segundinhos — da minha vida, da vida de todos meus amigos e de alguém que lê uma estrofe. E já é bom.”
A dança sobre os escombros de Matilde me lembra a política cotidiana, constantemente reinventada. Me lembra que as dimensões do que é política e resistência são mais largas do que definem os teóricos. Uma discussão que vem sendo amplamente tecida por uma antropóloga em que confio e admiro, a Alana Moraes , em suas pesquisas a partir da atuação das mulheres no movimento de luta por moradia, o MTST... Alana me ajudou a retomar os desafios epistemológicos de uma pesquisadora que lemos bastante, e que nos ajuda a reconfigurar o olhar para o que seria o campo da ação política. Donna Haraway (1995) enfatiza tal possibilidade de ver a partir dos abismos, a partir dessa localização que é periférica. E quando convocou os abismos, a autora me levou automaticamente para experiências que constantemente atualizam o campo das resistências que estamos querendo nos referir e enxergar, das reinvenções. Sejam jornadas do mês de Junho , sejam pequenos e estrondosos ganhos no campo da política institucional, seja na amplitude de um quilombo ou de uma terra ocupada frente as não demarcações oficiais, é preciso também querer enxergar esses lugares por onde a vida está constantemente produzindo. Essas localizações onde é necessário um fazer particular e até mesmo táticas de visibilidade, também formas de cuidar da vida e mantê-la vivível, já que, de onde se situa, as condições nem sempre ou quase favoreceram. É como uma perseverança ainda que tudo – e que nos dias atuais é atravessada, joga junto e dribla modos de fazer neoliberais e as condições institucionais que se avivam nesses contextos.

Fiquei pensando que eu podia encerrar o trecho dessa pergunta retomando Etty Hillesum e tudo aquilo que ela fez com as condições de extermínio, me perguntar quais as condições de resistência e invenção política no contexto do nazismo... E aí, penso que eu teria que tentar focar no que Etty criou.

IHU On-Line – De que forma a arte e a cultura podem se configurar como alternativas de resistência ao totalitarismo, sendo capazes de abrir perspectivas para o diálogo?
Gabriela Acerbi – Acho que um pouco dessa resposta está dissolvida em tudo que tenho falado até agora. Queria apenas sugerir que a gente trouxesse para a palavra cultura uma dimensão de “modo de vida” e então me sinto mais à vontade pra falar, no sentido de perceber, de estar sensível a captar a inventividade desses modos, aquilo que eles estão produzindo, em variados aspectos que compõem suas “culturas”... Penso que, diante dos totalitarismos, estão em jogo também os inegociáveis dos modos de existir, ainda que eles estejam sob ameaça de serem triturados. Talvez a arte seja sim uma dimensão por onde é possível que algo escape, mas assim como tantas outras coisas que estão implicadas nas tais culturas. Não sei se falar em formas de diálogo, mas daquilo que vai ser mantido, que vai ser comunicado de alguma maneira – nem que seja inventando uma maneira nova. Se for pra pensar a arte, então pensar uma dimensão de perpetuação, de comunicar, de fazer falar aquilo que diz respeito aos modos de vida. E isso também tem a ver com formas de se relacionar, de se alimentar, as práticas religiosas, as dimensões rituais, afetivas e festivas que são mantidas, as formas como educamos as crianças, como se cura, como se trata do corpo...

Penso que a vida – todas essas que são negadas pelos regimes que definem os matáveis, os aniquiláveis – já é em si foco de resistência, e são vários focos... É claro que podemos falar em circuitos artísticos, mas podemos falar em todos os circuitos produtivos que propagam modos de estar no mundo e suas formas de extravasar e driblar as forças que os oprimem... E assim eles garantem perpetuação... Gosto de pensar quais são as histórias que estão sendo cantadas num samba de roda, que histórias estão sendo dançadas, por exemplo, por um grupo de afoxé, no maracatu, no jongo, que mundo é cantado no rap. Que mundos esses gestos, essas letras, esses modos de fazer estão convocando? E nesse sentido, de contar histórias que não as narrativas oficiais, de achar modos pra fazer vazar uma vida, isso é sim muito potente, necessário, urgente! E ao mesmo tempo, isso é o que se faz, há anos e anos... Nessas horas gosto de pensar a própria vida enquanto obra, uma estética da existência. Estética, ética, política...

Fico pensando que com Bolsonaro ou sem Bolsonaro, por exemplo, candomblecistas vão seguir guardando as sextas-feiras, vestindo o branco, não comendo determinados alimentos naquele dia. Ou que a pajelança indígena vai continuar existindo, que a congada mineira ocupará as ruas em maio pra São Benedito, que é um Santo negro. Ou que os Yanomami vão seguir enxergando os espíritos xapiri, fazendo eles dançarem para o céu não cair, ainda que a mineração coma seus territórios aceleradamente e os contamine com suas epidemias.

IHU On-Line – A truculência da ditadura no Brasil fez aflorar movimentos artísticos que são reconhecidos até hoje, a dor da Shoá fez emergir a poesia de amor nos escritos de Etty Hillesum, e nas dificuldades da vida nas periferias das grandes cidades do Brasil surgem o samba, o rap e outras tantas manifestações culturais e artísticas. É em momentos-limite que o ser humano pode ser capaz de revelar o seu melhor? Por quê?

Gabriela Acerbi – Acredito que a resposta dessa pergunta pode ser encontrada em tudo que falei até agora, e para não me repetir, chamo atenção apenas para essa questão do que “melhor pode ser revelado” do ser humano. Não sei se alcança essa condição do melhor ou do pior, mas aquilo que pode ser feito, produzido frente a todas essas dificuldades, as violências vividas e aos problemas estruturais que assolam. Acredito que estamos falando então da capacidade de produzir um possível. E frente a todas essas truculências, nessa ação artística ou qualquer outra que seja, há um possível que se abre, que vem desse encontro de forças. Um possível esse que se liga a uma feitura do mundo, um modo de fazer diante dos escombros, como disse acima, e que está vinculado a um modo de vida e às formas que ele encontra para perseverar suas concepções, seus conceitos, sua ação.

IHU On-Line – Que histórias você gostaria que sua geração narrasse aos que virão?
Gabriela Acerbi – Se for pra falar em histórias que deixaremos, gostaria que a gente conseguisse trazer a força das contranarrativas. Histórias a contrapelo, num sentido benjaminiano talvez (para usar as ideias de alguém que também morreu no colapso da Segunda Guerra Mundial e seus extermínios, como Etty). Gostaria que deixássemos uma multiplicação de histórias do ponto de vista dos vencidos, aquelas que até então existiram, mas não ocuparam as narrativas oficiais. Aquelas que não são encontradas no idioma institucional, e se estão, foram retorcidas. Contranarrativas, no plural, que furem as bolhas, as identidades, as noções de sujeito dominantes e também as pretensões modernas de modos ocidentais, europeus, masculinos, brancos, da mercadoria de criar, escrever e produzir.

Na verdade, tenho a impressão de que essas contranarrativas não param de se multiplicar, de ocupar os espaços, e principalmente, sem precisar dobrarem-se à gramática da sujeição, da servidão e da subalternidade instaurada. ■

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