Edição 530 | 16 Outubro 2018

Estâncias missioneiras como horizonte de relações

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João Vitor Santos

Helenize Serres pesquisou esse espaço que servia como local de produção, ponto de encontro e também de disputas e tensões dentro das reduções jesuíticas

As reduções jesuíticas situadas entre o que é hoje o sul do Brasil e o Uruguai eram verdadeiros complexos que reuniam diversos povos indígenas, religiosos e também espanhóis e portugueses. Dentro dessas grandes áreas se desenvolveram as chamadas estâncias. “Foram importantes por serem espaço de criação, mas também porque nelas foi desenvolvida uma vida que estava além do povoado, espaço ao qual permaneciam interligadas a partir de diversas questões, entre elas, administrativas, econômicas ou, ainda, de ordem religiosa”, explica a historiadora Helenize Soares Serres. Ou seja, era a paisagem rural da redução, responsável também pela produção de alimentos que subsidiaria as ações dentro desse grande complexo gerido pela Companhia de Jesus.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Helenize observa que essa definição já revela que a estância vai muito além do espectro religioso. “A fundação dos povos e conversão de seus moradores provocou transformações de vários níveis. Os padres jesuítas promoveram mudanças no âmbito religioso, na política e na sociedade, por exemplo”, acrescenta. Mas isso não se dava de forma homogênea, o que vai fazer da estância, além de ponto de encontro entre culturas, um local de disputa. “As estâncias missioneiras foram horizontes de relações, em diferentes níveis, com grupos chamados ‘infiéis’, com espanhóis fugitivos e mesmo portugueses em busca de gado. Essa situação mostrou o trânsito que havia na área rural a partir dos pontos: invasões e roubos de gado e laços de parentesco ou acolhida como forma de refúgio”, analisa. Assim, a historiadora propõe um olhar desde a perspectiva de fronteira, de troca e de influências mútuas, num espaço que hora permite passagem e hora promove contenções.

Helenize Soares Serres é doutora em História pela Unisinos, tendo realizado estágio doutoral no Instituto de Historia Argentina y Americana Dr. Emilio Ravignani, em Buenos Aires. Também é mestra em História pela Universidade Federal de Pelotas - UFPel, graduada e especialista em História pela Universidade da Região da Campanha - Urcamp. Entre suas publicações, destacamos: Os “pueblos de índios” e suas estâncias. Litígios de fronteira no espaço missioneiro (In: Fronteiras e identidades: reunião de artigos do III EIFI. Pelotas: Edição do autor, 2017) e Jesuítas e espanhóis na construção do espaço da Estância de La Cruz (In: Missões em Mosaico: Da Interpretação à prática: um conjunto de experiências. Porto Alegre: Faith Ltda, 2011).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No que consistiam e como se configuravam as estâncias missioneiras? E em que se diferenciavam das demais missões e reduções jesuíticas?
Helenize Soares Serres – As estâncias missioneiras ocuparam um papel imprescindível na história das missões jesuíticas. Foram importantes por serem espaço de criação, mas também porque nelas foi desenvolvida uma vida que estava além do povoado, espaço ao qual permaneciam interligadas a partir de diversas questões, entre elas, administrativas, econômicas ou, ainda, de ordem religiosa. Elas compõem o que pode ser considerada como “paisagem agrária” das reduções, as quais foram sendo construídas pela intervenção humana nos ervais, áreas de cultivo e onde se vai criar gado.

A partir de cartas e crônicas dos jesuítas, sabemos que a produção e distribuição de alimentos para os índios reduzidos era um grande desafio. Os períodos de fome costumavam ter consequências muito negativas como fugas e decréscimo populacional. Por isto, pode-se compreender a necessidade que os jesuítas tinham de garantir uma produção alimentícia capaz de sustentar grupos de indígenas das missões, que podiam ser consideravelmente grandes. Nesse sentido, a carne de gado constituía uma fonte essencial de comida.

As estâncias surgiram, ainda, para solucionar um problema que as vacarias ofereciam por suas vastas extensões de terra, pois evitariam a dispersão do gado pelas pastagens, livres para o consumo e o rapto pelos portugueses e pelos nativos da região, como os Charruas ou Minuanos , bem como pelos espanhóis. Por estarem mais próximas das reduções do que as vacarias, elas proporcionavam um maior controle do gado, que permanecia reunido e próximo aos cuidados dos indígenas missioneiros responsáveis pelo trabalho com os animais. Nelas se encontravam capelas, além de casas, currais, galpões e hortas. Tinham, ainda, uma estrutura com afazeres produtivos que eram importantes para a sustentabilidade dos pueblos missioneiros. Formavam, portanto, parte do espaço econômico das missões jesuíticas, constituindo unidades produtivas em que se criava o gado que deveria prover as reduções de animais de abate.

IHU On-Line – Normalmente, se associa a aglutinação dos índios nas reduções apenas sob uma perspectiva religiosa. Como superar essa visão, estendendo o olhar também para perspectivas econômicas, políticas e sociais das reduções?
Helenize Soares Serres – A redução buscava a estabilidade da população indígena para que pudesse, de fato, consolidar-se uma comunidade cristã, a partir, por exemplo, de práticas de trabalho que seguiam uma relação com a organização econômica das sociedades guaraníticas. Nas missões, eles participavam de uma nova vida social, contribuindo na ocupação do espaço e no desenvolvimento da sociedade colonial espanhola.

Ao lado dos objetivos de alcance espiritual e moral que os jesuítas tinham para as reduções, estavam focados também em construir uma sociedade que pudesse progredir na mesma proporção da dos colonos, com uma vida social, política e econômica organizada, porém, sem ser administrada diretamente pelos espanhóis. Esta era uma alternativa dentro do mundo colonial, a qual, segundo Bartomeu Melià (1997), mostrou-se utópica. Desse modo, os jesuítas no espaço reducional buscavam conduzir os indígenas a viver concentrados, ou seja, em povoados sobre o controle do Estado e da Igreja, interferindo em aspectos sociais, políticos e econômicos de suas sociedades, em um esforço de ocidentalização.

Assim, ela deve ser entendida como algo mais que um fenômeno religioso, uma vez que a fundação dos povos e conversão de seus moradores provocou transformações de vários níveis. Os padres jesuítas promoveram mudanças no âmbito religioso, na política e na sociedade, por exemplo. Não resta dúvida que também as pautas econômicas indígenas deveriam ser transformadas.

IHU On-Line – Qual o papel dessas estâncias missioneiras no processo de colonização da América?
Helenize Soares Serres – As missões na antiga Província Jesuítica do Paraguai , das quais fazem parte os povoados missioneiros, iniciaram-se no século XVII e se desenvolveram sem interrupções até 1767. Foram uma “instituição de fronteira” em que, pela ação dos jesuítas, para desenvolver a “polícia civil e cristã” junto aos povos indígenas, buscava-se contribuir para o controle colonial destes territórios. Isto implicava “reduzir a pueblos”, ou seja, interferir no padrão de assentamento disperso dos índios para concentrá-los de forma a facilitar a catequese e o controle sobre eles. As estâncias das missões orientais abarcavam uma vasta área do atual território do estado do Rio Grande do Sul e da República do Uruguai. Trata-se das fundações jesuíticas localizadas na margem oriental do rio Uruguai: estância de San Borja; estância de San Lorenzo; estância de San Luis, estância de San Nicolás; estância de Santo Ángel; estância de San Juan Bautista; estância de San Miguel.

Foram estabelecidas no período conhecido como “segunda entrada” dos jesuítas na região, haja vista que eles haviam iniciado suas atividades apostólicas nesta área anteriormente. As fundações das reduções e suas respectivas estâncias ocorreram entre o final do século XVII e início do século XVIII, período de expansão dos povoados. O maior legado das estâncias missioneiras é sua importância na história das missões jesuíticas, pois foram agentes propulsores do desenvolvimento das reduções, vindo a ser uma parte essencial dos povoados.

IHU On-Line – Como compreender as estratégias sociais, políticas e econômicas dos jesuítas na condução das estâncias missioneiras?
Helenize Soares Serres – A criação das estâncias, como forma de organização e desenvolvimento, possibilitou um crescimento e valorização do espaço onde se situavam. Por exemplo, as estâncias, que se encontravam como reservas econômicas e territoriais das reduções. Assim, também tinham a função de vigiar as fronteiras servindo de barreira para o avanço de invasores, além, ainda, da tentativa de evangelização com objetivo de conversão e integração das parcialidades indígenas e mais a manutenção e exploração dos recursos naturais do espaço povoado.

Os jesuítas foram os guias dessa empreitada constituída por relações sociais que foram se desenvolvendo com intuito de reunir os povos através de atividades diversas, envolvendo valores de coletividade e ideias do cristianismo, a partir de uma vida social. Porém, é certo que as relações entre os povos ocorreram por vários meios e que muitos foram os conflitos entre os cristianizados e também com os povos infiéis que, mesmo não aceitando a evangelização, tinham acesso a estâncias em aproximações amigáveis ou não.

IHU On-Line – Quais foram as estâncias missioneiras de maior destaque desse período?
Helenize Soares Serres – As estâncias de maior destaque, tanto em extensão de terra quanto de circulação de gado, foram a de Yapeyú e San Miguel. Yapeyú foi a redução mais meridional de todas as da frente missioneira, estando situada à margem direita do rio Uruguai, em frente à desembocadura do rio Ibicuí. Este pode ser considerado como o limite sul do território de ocupação guarani-missioneira. Sua estância, entretanto, estava localizada no lado esquerdo do rio Uruguai. Já a estância e redução de San Miguel, ambas estavam localizadas no lado oriental do rio Uruguai, atual estado do Rio Grande do Sul, Brasil.

IHU On-Line – Como compreender as relações que se estabeleciam nesses espaços?
Helenize Soares Serres – As estâncias missioneiras foram horizontes de relações, em diferentes níveis, com grupos chamados “infiéis”, com espanhóis fugitivos e mesmo portugueses em busca de gado. Essa situação mostrou o trânsito que havia na área rural a partir dos pontos: invasões e roubos de gado e laços de parentesco ou acolhida como forma de refúgio. A historiografia hoje reconhece que, nos povoados missioneiros, havia grupos indígenas que não eram guaranis. Alguns deles, como os Guenoas e Charruas, eram tidos como hábeis em certas atividades desenvolvidas nas estâncias.

Através do Diario de viaje a las vaquerias del mar, escrito pelo Padre Silvestre Gonzalez , por exemplo, conseguimos perceber a participação dos Guenoas atuando como vaqueiros nas áreas rurais. Da mesma forma, hoje também sabemos que reduzidos e não reduzidos encontravam meios de interação, o que verificamos a partir de cartas e pareceres de membros da Companhia de Jesus, encontrados no Archivo General de la Nación, em Buenos Aires, Argentina.

As estâncias oportunizavam o contato com diversos sujeitos que não eram “índios reduzidos”, os “infiéis” visitavam as estâncias para buscar “regalos” ofertados pelos padres que desejavam atraí-los à catequese, e também para promover assaltos e conflitos. Além de outros nativos, há também gente que se subtrai da esfera hispano-colonial da sociedade e se fez presente nesses espaços.
Um dos problemas que se apresentava com constância no cenário das missões diz respeito ao roubo de gado. Via de regra, este era um conflito ocasionado pelos grupos nômades que frequentavam o espaço que os jesuítas consideravam como relacionado às suas estâncias e, corretamente, às suas missões.

IHU On-Line – Como compreender as questões de fundo nas disputas entre indígenas e espanhóis? De que forma a figura do missionário jesuíta se insere nesse contexto?
Helenize Soares Serres – No espaço das missões jesuíticas ocorreram muitas disputas que envolveram diferentes atores sociais. Nos povoados, mesmo havendo prevalência de uma estabilidade no plano interno, não havia ameaças só pelo que vem de fora. A população das missões, de fato, não era homogênea, pois, ao contrário, podemos observar indícios de interações entre diferentes grupos nativos nos povoados. O que existiu foi um território de atuação da Companhia de Jesus, mas não exclusivamente dela. Ele continuou sendo área de vivência de outros grupos indígenas, bem como de novos atores sociais, como espanhóis fugitivos, marginalizados e portugueses da Colônia de Sacramento.

A visão do cenário interno deve ser tensionada, pois houve muitos conflitos que se estenderam a longo prazo. Embora saibamos que relações de tipo diferente devessem ocorrer de diversas outras formas, aquelas em nível “oficial”, tramadas entre os pueblos que formavam o conjunto da Província Jesuítica do Paraguai, no que se refere à figura do missionário, eram estabelecidas através dos seus representantes, que vinham a ser os curas de cada missão. Muitos acordos que foram firmados estreitaram os laços entre eles.

Porém, assim como havia acordos, também encontramos distanciamentos e desavenças entre os povoados. Isso pode ser observado, por exemplo, em pleitos que mostram que havia competitividade. Esses pleitos geralmente se resolviam em longo prazo e costumavam envolver disputas por recursos como terras e gado. Em meio a esses problemas internos, atuavam Provinciais, Superiores e Curas, tentando resolver os litígios, sendo que, em algumas situações, até mesmo o Padre Geral veio a se manifestar. Assim, a atenção a este tipo de ocorrência assinala a necessidade de relativizar a compreensão prevalecente que acentuou aspectos da solidariedade entre os povos.

IHU On-Line – No que a experiência de missão na colonização da América espanhola pode nos inspirar a, hoje, pensar acerca da relação entre povos originários e o contato com culturas mais “ocidentalizadas”?
Helenize Soares Serres – A experiência de missão na colonização da América é mais uma forma de apresentar a importância desses diferentes grupos indígenas na história da nossa sociedade, a partir de um processo de aculturação que mostra as trocas que ocorreram. De fato, o colonialismo provocou, para os índios reduzidos, diversas rupturas no seu sistema tradicional, mas não há como negar que os jesuítas buscaram elementos de apoio nas formas de vida destes índios, sempre que elas não entravam em choque com os preceitos religiosos, morais e civilizacionais do ocidente cristão.

Desse modo, as referidas rupturas não são um sinal do fim de uma cultura, tanto que, em algumas áreas, as características da organização missioneira levaram em conta as práticas indígenas. O regime de trabalho e de produção é uma destas esferas, sendo que se mantiveram, em parte, a organização coletiva do trabalho e a posse comunitária dos seus frutos.

IHU On-Line – Quais os desafios para se pensar numa ideia de missão no nosso tempo, num mundo em que vivemos a chamada crise migratória?
Helenize Soares Serres – A migração segue acontecendo principalmente por questões políticas e econômicas, exemplos contemporâneos é a guerra na Síria, levando milhões de pessoas a deixarem o país em busca da própria sobrevivência, ou ainda, a crise na Venezuela com alta inflação, escassez de alimentos e de produtos de necessidade básica, que também impulsionaram uma forte onda migratória. A relação com a ideia de missão vem a partir da acolhida, da possibilidade de integração entre diferentes culturas, estabelecendo relações em prol da sobrevivência, que busca enfatizar a humanização e a não violência. Acredito que carece as nações pensarem e agirem com maior tolerância e coletividade, e talvez recorrerem aos legados da história de formação da nossa sociedade como um todo, em prol de dias melhores.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Helenize Soares Serres – A pesquisa sobre as estâncias missioneiras foi realizada através do estudo da historiografia das missões jesuíticas a partir de diferentes abordagens que contemplassem de alguma forma as estâncias. Na tentativa de buscar, desse modo, subsídios que lançassem luzes sobre elas, uma vez que raros foram os trabalhos que trataram especificamente desse tema. Paralelamente, foi analisado um conjunto de documentos elaborados pelos jesuítas, assim como outros, provenientes da administração da colônia espanhola, referentes ao período das reduções, girando em torno das estâncias e envolvendo questões internas e externas a elas.

Os documentos utilizados foram prospectados a partir de pesquisas feitas em Buenos Aires, no Archivo General de la Nación, onde foram encontradas várias informações sobre a Companhia de Jesus, entre esses, Memoriais com dados sobre a situação dos povoados, o funcionamento das estâncias e a presença nelas dos indígenas missioneiros através de atividades laborais. Os Memoriais também traziam elementos sobre os grupos residentes nas estâncias, bem como sobre o tipo e a quantidade de animais que nelas se podiam encontrar.

A partir da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, a consulta à Coleção de Angelis permitiu encontrar fontes importantes como Memoriais dos Superiores das Missões do Paraná e do Uruguai. Também, no acervo do Instituto Anchietano de Pesquisa na Unisinos, foram encontrados os Manuscritos da Coleção de Angelis, isto é, documentos que foram editados da referida Coleção, bem como obras que constituem a literatura clássica sobre as missões jesuíticas.■

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