Edição 530 | 16 Outubro 2018

Da mistura de dois mundos, emerge a arquitetura missioneira

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João Vitor Santos | Tradução: Henrique Denis Lucas

Norberto Levinton analisa como as edificações e organizações espaciais das missões revelam mais do que uma supremacia de um povo sobre outro

Quando se visitam ruínas de reduções jesuíticas, tem-se a impressão de que tudo aquilo foi erguido pelo trabalho forçado de indígenas que tinham sua alma cooptada pelos religiosos. De fato, a relação mudou a forma de vida originária. “O contato com o europeu significou para o índio muito mais perdas do que ganhos. Eles tiveram que renunciar a muitos de seus valores culturais devido à incompreensão dos religiosos”, aponta o arquiteto e historiador Norberto Levinton. “A principal característica da arquitetura missioneira é ser uma arquitetura de composição”, destaca. Em seu trabalho, observa nas organizações e edificações do espaço de missão essa fusão cultural. “Nos referimos a uma arquitetura tipológica porque trabalha com esquemas prévios em planta, mas de grande flexibilidade e adaptação, o que permitiu incorporar elementos das culturas indígenas e até mesmo da grande diversidade de linguagens arquitetônicas das regiões europeias”, explica.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Levinton evidencia como o indígena traz elementos de sua cultura originária ao projeto que vai sendo concebido na missão. “O mais importante foi o fato de que o indígena de língua guarani impôs sua concepção de espaço para a habitação familiar única, restrita pela concepção dos jesuítas europeus em termos da separação das famílias do cacicado por meio de uma parede fina que, antes, a oga guasu macrofamiliar não tinha. A igreja, a tuparoga, como casa de Deus, foi principalmente uma mudança de escala no mesmo esquema”, analisa. É o que diferencia, por exemplo, uma organização franciscana de uma jesuíta, pois enquanto a primeira tem a centralidade na Igreja, a segunda está num complexo que tem junto o colégio e a residência dos religiosos.

Norberto Levinton é arquiteto, doutor em História e especialista em História e Crítica de Arquitetura e Urbanismo, pesquisador na Universidad del Salvador, em Buenos Aires, na Argentina. Entre suas publicações, destacamos La Arquitectura Jesuitico-Guarani: Una Experiencia De Interaccion Cultural (Buenos Aires, Argentina: SB, 2008); El espacio jesuítico-guaraní: la formación de una región cultural (Asunción: Centro de Estudios Antropológicos, Universidad Católica Nuestra Señora de la Asunción, 2009) e San Ignacio Miní: la identidad arquitectónica (Buenos Aires, Argentina: Contratiempo, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual o espaço da missão jesuítica na América Colonial?
Norberto Levinton – É importante vincular a definição de espaço com o contexto no qual a Província Jesuítica do Paraguai se organizou desde o final do século XVI até a expulsão da Companhia de Jesus dos territórios espanhóis. Isto está relacionado com o papel da ordem religiosa formada de acordo com as ideias políticas da Coroa Espanhola em relação à gestão da fronteira de seus territórios com Portugal e a utilização de índios para a formação de “presídios” ou postos fronteiriços. Dentro dessas políticas, insere-se o propósito jesuíta de evangelizar os índios e introduzi-los na sociedade colonial a médio prazo.

Por isso, acredito que o espaço da missão jesuítica na América Colonial Espanhola, diferententemente do que houve na América Colonial Portuguesa, teve uma inserção plena nas fronteiras da Província Jesuítica do Paraguai e também nas outras cidades espanholas, através do mercado comum constituído pela produção de povos indígenas e vendida nas cidades mais importantes da América espanhola: as mulas criadas nas estâncias dos povoados e dos colégios das cidades, vendidas na região de Potosí; a erva-mate enviada a Santiago do Chile, Lima e Potosí; e os que percorriam as cidades mais importantes do Rio da Prata através da gestão das Procuradorias dos Colégios. No século XVIII, também o couro.

Então, o espaço missioneiro compreende o assentamento urbano de cada povoado e toda a estrutura produtiva das fazendas e estâncias que geralmente não formam um espaço contínuo, mas que estão divididas em porções territoriais repartidas historicamente devido à mobilidade e relocalizações das Missões Jesuíticas, além da extensão de cada cidade no mercado jesuítico-indígena comum. Isso quer dizer que, acerca deste assunto, é necessário analisar cada caso em particular e não é possível separar o espaço missioneiro do espaço jesuítico das cidades.

IHU On-Line – Como se dá a organização do espaço dentro do “mundo missioneiro”? Que relações podemos estabelecer entre essa organização e as atividades sociais, políticas, econômicas e culturais dentro das missões?
Norberto Levinton – A organização do espaço missioneiro é um processo histórico. Sobre este assunto, as relocalizações, os litígios entre povos e o que foi observado em 1657 pelo Ouvidor Valverde ou Balverde, fazem parte da documentação fundamental. De vez em quando, algumas informações importantes surgem em memoriais. A questão mais importante é o reconhecimento dos direitos consuetudinários dos índios por parte dos jesuítas. Isto pode ser claramente observado nos escritos produzidos sobre os litígios entre povos.

Um tópico que considero muito importante é o direito dos índigenas ao lucro quilombola sobre o gado selvagem e os ervais silvestres, bem como sobre a aquisição de terras por parte da Companhia de Jesus na região do Iberá, na Argentina, e na Banda Oriental uruguaia, algumas delas literalmente compradas ou cedidas de diferentes maneiras por governadores ou outros funcionários. Estudamos as estâncias da Banda Oriental e as existentes entre os rios Corriente e Miriñay, que também passaram por um processo histórico que reduziu suas extensões. É preciso salientar a composição identitária de cada povoado que, em muitos casos, reúne os caciques de vários povoados dissolvidos, o que implica a existência de direitos consuetudinários que passam a fazer parte dos direitos consuetudinários dos índios da aldeia.

Devemos também levar em conta os direitos dos índios de origem nômade que estão integrados aos povos missioneiros, como os Yaros e os Charrúas, em Yapeyú, ou os semissedentários, como os Guaianás de Santa Maria e Corpus. As estâncias e chácaras constituem uma história à parte, nas quais houve feitos muito particulares, como a cessão das terras de Concepción ao novo povo de Trinidad, como presente de casamento de um cacique Ñeenguirú à sua própria filha com um cacique procedente de San Carlos e que passava a fazer parte do novo povoado.

Então, acho que não é possível falarmos apenas sobre algo jesuítico-guarani, mas de uma cultura missioneira muito complexa, com grande diversidade cultural. Isto é claramente reafirmado com a fundação de povoados em Gran Chaco e em outros lugares, como a Província de Buenos Aires, com índios de grande diversidade étnica.

IHU On-Line – Quais são as principais características da arquitetura nas missões?
Norberto Levinton – A principal característica da arquitetura missioneira é ser uma arquitetura de composição. O que significa isto? Nos referimos a uma arquitetura tipológica porque trabalha com esquemas prévios em planta, mas de grande flexibilidade e adaptação, o que permitiu incorporar elementos das culturas indígenas e até mesmo da grande diversidade de linguagens arquitetônicas das regiões europeias, de onde procediam os arquitetos coadjutores da Companhia de Jesus. Por isso, a arquitetura da Companhia de Jesus segue as mesmas tipologias nas cidades e nos povoados missioneiros, mas ao mesmo tempo é totalmente diferente em cada local por conta das implicações culturais, dos materiais, da mão de obra e dos chefes de obra.

IHU On-Line – De que forma a arquitetura, especificamente na experiência jesuítica-guarani, pode ser compreendida como uma interação cultural?
Norberto Levinton – Escrevemos um artigo intitulado “De la manzana cuadrada a la vivienda-manzana” [“Do quarteirão quadrado ao quarteirão-domiciliar”, em tradução livre] como o processo mais interessante que foi experimentado pelas cidades missioneiras. O mais importante foi o fato de que o indígena de língua guarani impôs sua concepção de espaço para a habitação familiar única, restrita pela concepção dos jesuítas europeus em termos da separação das famílias do cacicado por meio de uma parede fina que, antes, a oga guasu macrofamiliar não tinha. A igreja, a tuparoga, como casa de Deus, foi principalmente uma mudança de escala no mesmo esquema.

O habitante nativo da selva contribuiu com seu conhecimento no uso da madeira, como por exemplo, o uso de vigas mestras e dos enfeites de folhas de palmeira. O jesuíta contribuiu com o uso do barro (os torchis franceses ou o pisée) e, posteriormente, o uso do azulejo, o tijolo de adobe e, finalmente, a pedra sem trabalho adequado com a ñau e a pedra conformada para a alvenaria. Isto é, houve etapas de interação cultural na arquitetura.

Ainda analisamos a questão sobre a habitação indígena circular nos povoados missioneiros. Como esses índios se adaptaram à habitação linear? Do meu ponto de vista, foi percebido um processo em Chiquitos , com os índios dessa etnia, e com os Guaianás , entre os Guarani. Esses grupos étnicos trocaram as residências redondas pelas residências lineares e, de certa forma, pode-se dizer que eles se “guaranizaram”.

IHU On-Line – Há diferenças na organização espacial e arquitetônica entre as missões da América Espanhola e da América Portuguesa? Quais e o que significam?
Norberto Levinton – Em todas as missões, o substrato étnico aparece como grande diferenciador. A questão da identidade cultural dos grupos indígenas participantes é o que diferencia uma missão da outra. É diferente caso seja um grupo nômade ou sedentário. Isso está relacionado com o modo de vida. A isto, também se relaciona o clima de cada lugar, a vegetação arbórea, o tipo de solo, a existência de pedra. Isso é muito claro se compararmos as missões jesuíticas de Chiloé, no Chile, com as da Baixa Califórnia, nos Estados Unidos. Há um grande determinante que é a latitude.

Por sua parte, entre as missões franciscanas e jesuíticas, a diferença está no núcleo principal. Nas franciscanas, a igreja fica no meio da praça. É uma questão simbólica em relação aos Guaranis. Nas jesuíticas, permanecem juntas a igreja e a escola, a residência dos sacerdotes e os ateliês – tal como nas cidades –, além do cemitério. Os jesuítas retomam a ideia dos mosteiros medievais. Entre as missões portuguesas e espanholas, a diferença é uma questão de política de Estado. Estamos falando sobre o papel dos sacerdotes em relação à comunidade indígena. Quer seja uma missão volante ou de um curato.

IHU On-Line – Qual era o espaço das máquinas no mundo missioneiro? Como se dá essa inserção da tecnologia pré-industrial nos modos de produção missioneiro? E qual o impacto disso nos modos de vida de povos originários?
Norberto Levinton – Pensamos que o que os índigenas trazem de sua cultura originária é o que permanece, transforma-se e se torna uma conquista da cultura missioneira. Isto é claramente o resultado da fabricação de lenços e guardanapos. Os índios sabiam como fazer uma rede e os jesuítas introduzem a roda de fiar. Há um processo.

Com a escultura, acontece algo muito particular. Não há registro prévio de uma arte antropomórfica. O indígena produz uma arte barroca que é rejeitada pelos espanhóis das cidades. A escultura mais interessante dos povos indígenas é aquela que sai dos sonhos. São as obras do tipo ingênuas e hieráticas. Essas formas se relacionam com a geometria das cerâmicas e das cestas. Os indígenas rejeitam e não se destacam naquilo que não há vínculos com a cultura originária.

IHU On-Line – Podemos afirmar que a Companhia de Jesus, a partir da experiência de missões, imprime a constituição do cenário urbano como estratégia apostólica? E como compreender essa estratégia?
Norberto Levinton – No caso das cidades, estamos falando da proposta dos jesuítas para os espanhóis. Sua postura é fundamentalmente cultural. Eles atraem as pessoas por conta do alto nível de conhecimento de seus sacerdotes. Na verdade, em essência, é a mesma ideia que está no substrato dos povos de índios missioneiros. Aproximar-se de Deus a partir da realidade mental de cada um. Um templo em Montevidéu deveria ser construído com uma linguagem arquitetônica que pertencesse aos habitantes do lugar. Essa é a ideia que o mudéjar sustenta para as pessoas que vêm das ilhas espanholas do Atlântico, as Ilhas Canárias.

Em Buenos Aires, Assunção e Santa Fé deve haver abóbadas e cúpulas, feitas de madeira ou tijolos, de acordo com a capacidade do arquiteto.

IHU On-Line – Ainda sobre o cenário urbano, podemos afirmar que as reduções jesuíticas seguem um modelo de cidade europeia entre o final da Idade Média e o início da Modernidade? Por quê?
Norberto Levinton – As reduções jesuíticas não seguem um modelo europeu. Somente o núcleo arquitetônico da igreja e o colégio têm algo associado com a Idade Média e os primórdios da Modernidade. O traçado urbano do povoado missioneiro é o resultado de uma negociação entre o esquema original da cultura indígena Guarani e as leis das Índias. A ideia de uma praça como conjunção da comunidade vem das aldeias indígenas. O bairro é cacical. A habitação linear é a oga guazu. O cabildo ou o cotyguazu não é de origem indígena. Tampouco o cemitério.

IHU On-Line – O que a relação entre jesuítas e índios nômades, como os Abipones , pode revelar acerca das resistências de povos originais às estratégias missioneiras? Que outros povos também apresentaram resistências às ações missioneiras?
Norberto Levinton – Para os índios nômades, os espaços foram encolhendo e por isso eles tiveram que aceitar a redução no meio do caminho. Os jesuítas estavam conscientes de seu fracasso com esses índios. Os nômades amavam a liberdade. Escrevemos um artigo sobre isso .

IHU On-Line – Quais os principais limites do aldeamento missioneiro?
Norberto Levinton – O contato com o europeu significou para o índio muito mais perdas do que ganhos. Eles tiveram que renunciar a muitos de seus valores culturais devido à incompreensão dos religiosos. E tiveram que manter certos hábitos e crenças em sua intimidade, que subjazem em cultos populares como o San La Muerte . Os europeus trouxeram consigo doenças como a varíola. No conhecimento sobre os avanços tecnológicos, poucos indígenas participaram.

Após a expulsão dos jesuítas, eles perderam suas terras e foram utilizados como mão de obra barata para os exércitos. Somente alguns que aprenderam ofícios puderam entrar na sociedade crioula e conseguiram sobreviver mudando seus sobrenomes indígenas.

IHU On-Line – Como essa relação com a cultura de povos originários estabelecida no espaço de missão vai influenciar nossa perspectiva atual sobre povos indígenas? E que relações podemos fazer entre as disputas nos territórios de missões com as lutas pela demarcação de terras indígenas do nosso tempo?
Norberto Levinton – Sua cultura continua sendo assassinada, suas terras são usurpadas e seu modo de ser é desprezado ou menosprezado. Nesse sentido, a divulgação da língua guarani é muito importante, pois envolve a inserção da questão cultural. Hoje, na América, a vida e a morte como continuidade é um conceito que nos aproxima mais dos indígenas do que dos cristãos, judeus ou muçulmanos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Norberto Levinton – Em um contexto de degradação humana suscitado pelo liberalismo econômico, o ressurgimento das filosofias dos povos originários significa o aprimoramento de um caminho alternativo para aqueles que desejam um modo de vida distante do consumo e da luta por ascenção social através do dinheiro.■

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