Edição 530 | 16 Outubro 2018

As ações missioneiras e a formação da identidade moderna

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João Vitor Santos | Tradução: Henrique Denis Lucas

María Elena Imolesi se detém na escrita jesuítica para observar como, pela autorrepresentação de suas ações, a Companhia de Jesus vai marcando a mudança de pensamento que ocorre na saída do medioevo

A historiadora María Elena Imolesi destaca que os jesuítas, membros de uma ordem religiosa constituída na transição entre o tempo medieval e o moderno, acabam, especialmente na América Colonial, realizando uma espécie de hermenêutica. “Transportaram ao Novo Mundo a interpretação cristã e ocidental das coisas”, pontua. Mas isso não se dá só por uma imposição, sendo muito mais uma via de mão dupla. “Ao mesmo tempo incorporaram toda a experiência multicultural dos territórios missionários distantes, estranhos e estrangeiros”, completa Imolesi. Essa será uma das marcas dessa ordem que viabiliza conexões globais. “É importante ampliar o olhar do jesuíta e entender a inserção do funcionamento da Companhia de Jesus em um contexto global e em suas relações com outros poderes tanto religiosos quanto civis, com os quais houve profusos e frequentes conflitos”, provoca.

Analisando por essas perspectivas, segundo a professora, é interessante observar como as ações desses religiosos vão gerar tantas críticas, pois ora eram aliados do rei, ora eram problema para coroa, assim como para Igreja. “Nenhuma outra ordem religiosa suscitou tantas paixões opostas quanto a Companhia de Jesus, onde tanto a leyenda dorada quanto a leyenda negra tiveram grande força, e o fogo das paixões é algo que os jesuítas sempre se encarregaram de reavivar”, analisa, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para Imolesi, reavivar os escritos dos jesuítas, especialmente relacionados a missões, pode ser fundamental para novas compreensões acerca do período de colônia. “Não se pode negar que a experiência missioneira é um componente fundamental do colonialismo”, diz. Mas acrescenta: “é necessário abandonar o paradigma da ‘conquista-resistência’, que considera os índios como seres impotentes sobre os quais eram descarregados os desejos e as vontades do poder colonial”.

María Elena Imolesi é doutora em História e professora de História Latino-americana na Universidad de Buenos Aires, Argentina, e integrante do Programa de História da América Latina. Entre suas publicações, destacamos Soluciones jesuitas en entornos misionales: la aplicación del probabilismo en la resolución de dudas en torno a matrimonios en las reducciones de guaraníes (Historia y Grafía, Universidad Iberoamericana, ano 25 n.49 julio-diciembre/2017).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que ideia de índio pode ser construída a partir dos escritos dos jesuítas? Como essa concepção vai se transformando ao longo da história da Companhia de Jesus e como ela chega até nossos dias?
María Elena Imolesi – É difícil responder a essa pergunta sem cometer generalizações apressadas. Na verdade, não podemos falar dos "jesuítas" como um todo, como um corpo indiferenciado. Os missionários eram consideravelmente diferentes em suas apreciações, que variavam de acordo com a sociedade que estavam observando e com as quais interagiam. Mas, em linhas gerais, como salientou Bronislaw Malinowski , podemos dizer que os jesuítas "sabiam colocar a rede no lugar certo", ou seja, eles eram bons observadores.

No entanto, deveríamos estabelecer diferenças quanto aos relatos missioneiros dos primeiros dias. No Paraguai, por exemplo, surgem as primeiras descrições etnográficas do século XVII, onde as observações em torno da sociedade indígena são mais agudas e o sistema missionário estava em formação. A avaliação correta do terreno era de vital importância, porque o sucesso da missão dependia disso. Em contrapartida, ao longo do século XVIII, com um sistema missionário consolidado, mas ao mesmo tempo em crise a partir das críticas feitas na Europa e na América sobre o papel da Companhia de Jesus, as descrições são mais estereotipadas, predominando a ideia – bastante contraditória – de que, apesar do sistema missionário ser um sucesso, os índios ainda necessitavam de tutela permanente e de isolamento ante a sociedade espanhola.

Neste sentido, não é coincidência que uma das primeiras tarefas empreendidas pelos jesuítas seja a elaboração de vocabulários e gramáticas para a produção de línguas gerais, padronizadas (em quíchua, aimará e guarani, entre muitas outras línguas). A ideia é "traduzir" o cristianismo para os índios, e não hispanizá-los. Os índios são considerados eternos menores de idade, propensos aos vícios e mentiras e, portanto, precisam de vigilância. Devo dizer que isso não era uma exclusividade do olhar jesuíta: muitos homens da Igreja consideravam que os índios, como seres racionais, tinham capacidades em potencial, mas que estas estavam obscurecidas pela educação "bárbara". Consequentemente, a transformação dos índios estava vinculada com a habituação às práticas cristãs no contexto do sistema missionário. É comum encontrar a tríade composta por poligamia, antropofagia e abuso de álcool nas descrições feitas dos indígenas. No entanto – e por isso eu falei antes das contradições –, ao mesmo tempo eles são apresentados como excelentes cristãos, detentores de todas as virtudes, quando o objetivo é mostrar o sucesso do sistema missionário: frequentemente eles tornam-se seres santos, castos e devotos nos relatos jesuítas.

Pós-expulsão

A partir do exílio provocado pela expulsão dos jesuítas, a historiografia dos exilados tendeu marcadamente para o destaque das virtudes dos regimes missionários e isto resultou em um olhar idealizado e estereotipado do mundo indígena. A distância, a nostalgia da América perdida e, claro, a necessidade de defender a obra da Companhia, contribuiu muito para isso.

Um exemplo entre muitos: já no século XX, e herdeiro dessa visão triunfalista, o padre Guillermo Furlong – provavelmente o maior responsável por moldar o olhar de jesuíta sobre a história das missões e autor de centenas de obras biográficas – escreveu na Introdução de sua obra "Missões e seus povos de Guaranis" (1962), que as reduções constituíram um "felicíssimo reino", no qual "menos de cem sacerdotes, espalhados em 30 aldeias, puderam governar sem qualquer obstáculo, com facilidade e felicidade, a 100 mil indígenas que se consideraram felizes ou, até mesmo, felicíssimos, sob a sua ordem, disciplina e amor". Nessas reduções, os devaneios humanitários de Platão e Campanella foram amplamente superados, e isso foi conseguido "com selvagens recém-saídos da mata".

Tais afirmações dão conta de uma escrita pensada para a defesa dos ataques inimigos (uma escrita "obsediada" ou "assediada", chamada por Martín Morales). Em grande parte, podemos considerar que esse olhar sobre os índios é prefigurado nas polêmicas do século XVIII e em escritos como os de José Cardiel ou de Ludovico Muratori , que em meados do século XVIII falava do "Cristianismo feliz" nas reduções do Paraguai.

Perspectiva contemporânea

No que tange ao período mais recente e que chega aos dias de hoje, os historiadores da Companhia, com suas divergências, tiveram o cuidado de apresentar os indígenas como sujeitos históricos, agentes com autonomia cultural e como construtores de seu destino, ao mesmo tempo em que trabalhavam nos mais diversos assuntos da história da Companhia junto com historiadores, linguistas e antropólogos acadêmicos não jesuítas. Os casos dos antropólogos Bartomeu Melià , para o Paraguai, e Xavier Albó , para o Peru, são exemplos disso.

IHU On-Line – Hoje, algumas pessoas consideram a experiência missionária como uma grande operação colonialista. Como você avalia essa interpretação? A experiência missioneira pode ser considerada dessa forma?
María Elena Imolesi – Não se pode negar que a experiência missioneira é um componente fundamental do colonialismo. Deixemos de lado as avaliações que sempre atrapalham a compreensão: se a implementação do sistema colonial foi bem-sucedida, a cristianização era uma ferramenta central para a conversão e a disciplina das sociedades indígenas. Na verdade, essa tarefa de adaptação das orientações cristãs e ocidentais às sociedades locais, preservando – como levantado por José de Acosta – os traços culturais que não afetaram a conversão, é algo pelo qual os jesuítas eram famosos e, do ponto de vista de seus objetivos, muito eficazes. Se todo sistema colonial é, acima de tudo, uma grande operação de controle, não creio que devamos duvidar que os jesuítas tivessem muito êxito nesse sentido.

Mas, é claro, é necessário abandonar o paradigma da "conquista-resistência", que considera os índios como seres impotentes sobre os quais eram descarregados os desejos e as vontades do poder colonial. Longe disso, as sociedades indígenas atuaram ativamente através das mais variadas respostas, que poderiam incluir tanto a rejeição e a guerra, quanto a adoção e adaptação de práticas cristãs. Sabemos, por exemplo, que a aliança dos jesuítas com os guaranis foi fundada na manutenção dos cacicados indígenas e que estes tiveram um papel central na chamada guerra guaranítica , no meio do século XVIII, quando eles agiram de acordo com seus próprios interesses.

Em outro plano, o complexo sistema de funcionamento das províncias jesuítas, com suas redes de colégios como centros organizacionais, as fazendas e estâncias como eixo de produção, abastecimento e intercâmbio comercial, e as missões ou povoados indígenas, eram um modelo muito eficaz de organização colonial. O próprio sistema de comunicação e circulação de informações entre a Cúria Jesuíta em Roma e as províncias, em escala mundial, assegurava o funcionamento do sistema.

Modelo jesuíta

O "modelo jesuíta”, embora representasse aspectos notáveis de novidade, não está separado da realidade mais generalizada do universo colonial espanhol dentro do qual foi concretizado. Ocorre-me um dado muito evidente: a dispensa do trabalho nas encomiendas dos guaranis das reduções era um privilégio obtido em função da defesa militar da fronteira hispano-portuguesa, na qual os Guarani foram peças centrais. Em outra ordem de assunto, os jesuítas eram mediadores econômicos das instituições coloniais espanholas, pois controlavam o produtivo comércio de erva-mate e, em geral, o abastecimento da região.

Certamente, se considerarmos a ação dos jesuítas em outros contextos, não americanos, a pergunta formulada pode ter uma resposta diferente: enquanto na Ibero-América a corte real e as ordens religiosas, como o clero secular, foram o braço de um catolicismo que era religião de Estado e fundação da ordem colonial, em regiões como Japão e China houve um diálogo intercultural muito mais rico. Ali, jesuítas como Alessandro Valignano ou Mateo Ricci fizeram grandes esforços para a adaptação e acomodação frente a outras religiões e sistemas de pensamento dominante contra os quais o cristianismo era uma religião muito minoritária e até mesmo perseguida.

IHU On-Line – De que maneira a supressão e a restauração da Companhia de Jesus impacta a historiografia sobre as missões?
María Elena Imolesi – A supressão e restauração moldaram fundamentalmente a experiência dos jesuítas. No curto espaço de tempo entre as duas datas (1767 e 1814), transcorreu o vendaval da Revolução Francesa e o começo das guerras de independência hispano-americanas. Acima, referia-me ao modo em que o exílio influenciou o discurso jesuíta sobre os índios. Está em debate a ideia de que há uma "restauração" propriamente dita, mas o fato é que o evento fraturou inclusive os arquivos da própria Companhia, atualmente organizados em "antigos" e "novos".

A crise que trouxe a extinção da ordem foi obra de um conjunto de pensadores iluministas – que viam no sistema educacional jesuíta um atraso – e da política judiciária dos Estados europeus – que desejavam retomar o controle político e ideológico frente à igreja. Nesta polêmica, um tópico central foram as reduções do Paraguai, em torno das quais se criticou o autoritarismo paternalista e arbitrário atribuído aos jesuítas, a sua enorme acumulação de poder e riqueza, o seu desprezo pela autoridade real etc. Todos os argumentos que, juntamente com a acusação de laxismo moral, tornaram-se os tópicos clássicos de antijesuitismo.

Também incidiu decisivamente na atitude defensiva que os jesuítas tomaram na publicação de escritos que no século XVIII retomavam velhos argumentos sobre a inferioridade e "degeneração" do mundo americano frente ao europeu, como exemplificado pelos ensaios de De Pauw e do abade Raynal , entre outros. A polêmica com os jesuítas expulsos inaugurou o americanismo como corrente intelectual. Nesse contexto, a produção dos jesuítas hispânicos que estavam no exílio foi prolífica e influente.

Necessidade de defesa

Ao longo do século XIX, a necessidade de se defender dos ataques inimigos e de criar uma versão própria da tarefa jesuítica no mundo a partir das suas origens, que enfatizasse o trabalho da Companhia nos espaços missionários, na educação através de seus colégios, na ciência e na filosofia, entre outros, levou à enorme compilação documental patenteada em sua maior parte nas Momumenta Historica Societatis Iesu , organizadas por tópicos e por províncias. A ideia era criar uma história com fundamentos de verdade científica a partir dos documentos.

No entanto, esse objetivo coexistiu contraditoriamente com a apologia e o mito do heroísmo. Nesta nova escrita da Companhia restaurada, era dada a continuidade do trabalho dos jesuítas, na concepção historiográfica destes, pela sua participação na formação de novas nações, através de uma valorização do passado colonial em que os jesuítas foram agentes políticos e culturais de primeira magnitude e da contribuição que teriam feito a um processo de independência que seria "catolizado" e "jesuitizado", enfatizando a influência da teologia jesuíta sobre a origem do poder nas origens dos processos de independência.

IHU On-Line – Quais são as mudanças que as missões sofrem a partir da restauração da Companhia?
María Elena Imolesi – A restauração da Companhia ocorreu no início do século XIX e conduziu a uma tentativa de trazer de volta os jesuítas à América, mas o mundo já era outro e as novas condições políticas das nações ibero-americanas impediam o estabelecimento de um sistema missionário semelhante ao da era colonial. Os governos republicanos estavam muito relutantes em compartilhar o poder com a Igreja. Se tomarmos o caso do Paraguai de José Gaspar Rodríguez de Francia e Carlos Antonio López , ou a Argentina de Rosas , tentou-se assimilar os jesuítas aos objetivos do Estado. A Companhia não podia desfrutar de seu antigo status autônomo. Em nenhum caso tornou-se a organizar missões entre índios, na forma antiga.

No entanto, como foi observado por Guillermo Wilde (CONICET, Argentina), muitos dos elementos culturais (políticos, religiosos e linguísticos) criados na época jesuítica continuaram vigentes, na medida em que constituíam uma base para a identidade cultural e religiosa dos povos guaraníticos. Interessante é, em particular, o caso das missões do atual estado do Rio Grande do Sul, que pertenceram à órbita de influência colonial espanhola. Atualmente, os historiadores da região cunharam o termo de missioneirismo como uma definição regional de identidade fundada no passado dos Sete Povos guaranis , famosos por sua violenta oposição à transferência de sua jurisdição ao âmbito português, como resultado do Tratado de Madri de 1750. O passado da presença jesuíta é mantido no imaginário coletivo como uma era dourada e de prestígio. As antigas missões eram vistas por alguns movimentos políticos como um modelo social e de boa governança, digno de ser reeditado.

IHU On-Line – Qual é o papel dos historiadores, ou ainda dos antigos cronistas, jesuítas na narrativa sobre a história da América colonial?
María Elena Imolesi – Creio que se possa e que se deva estabelecer uma diferenciação clara entre, por um lado, a maneira em que os jesuítas escreveram sua própria história, muitas vezes carregada de urgências, necessidade de convencer os seus próprios membros e também a estranhos, defender-se e atacar ao mesmo tempo, e a forma em que realmente atuaram "no campo". Não se pode negar a riqueza do que Wilde chama de "interações" da Companhia, com seus entornos, em um contexto inicial e surpreendentemente global: já em meados do século XVI, logo após a criação da Ordem, temos um punhado de missionários dispersos e ao mesmo tempo conectados ao redor do globo – inicialmente, na Europa, envolvidos na luta contra o protestantismo, assim como no Extremo Oriente, no Brasil e depois por toda a América.

Essa enorme dispersão, cujas distâncias eram contrabalançadas através de um sistema de comunicação epistolar perfeitamente padronizado desde a época do padre geral Claudio Acquaviva , levou à necessidade de adaptar-se (acomodar-se seria o termo mais bem utilizado) e ser capaz de interpretar a alteridade. Frente a essas realidades, os jesuítas faziam um esforço para compreendê-las especialmente com o fim de "converter", controlar, governar e modificar as situações enfrentadas, que sempre foram complexas e contraditórias. No entanto, esta complexidade e riqueza, registradas nas primeiras descrições etnográficas, no estudo das línguas originárias, nas histórias "naturais e morais", nas variadas formas de tradução e de classificação cultural, não se refletiam necessariamente nas operações historiográficas, onde o paradigma moral e o caráter triunfalista, especialmente nos textos do século XVIII, tinham como característica a "redução da complexidade".

IHU On-Line – Como você entende as críticas que ainda hoje continuam a impactar o modelo missionário empregado pelos jesuítas?
María Elena Imolesi – As críticas do modelo missionário jesuíta são tão antigas quanto sua instalação e tiveram as mais diversas procedências. Com certeza, a aspiração isolacionista e a concentração de uma mão de obra que estava fora da órbita de controle da sociedade civil, especialmente no caso das missões guaranis, foram motivo de críticas e conflitos desde muito cedo. As mesmas cartas dos padres gerais à Província do Paraguai revelam esses conflitos e críticas: os jesuítas parecem vinculados a um interesse excessivo nos negócios, inclusive com participação nos contrabandos.

Também no Brasil, as aldeias tornaram-se verdadeiras empresas econômicas, sobretudo produtoras de açúcar, competindo com o poder real e, por essa razão, as críticas se intensificaram, tanto das autoridades civis quanto dos proprietários de terras. Havia ações judiciais permanentemente entre jesuítas e as autoridades civis e eclesiásticas. O famoso conflito entre o bispo Bernardino de Cárdenas e os jesuítas – que levou ambos a uma breve expulsão, em 1649 – revela um problema fundamental que reflete a difícil relação entre autoridades eclesiásticas e jesuítas, pela sobreposição de privilégios pontifícios concedidos à Companhia de Jesus, que permitia a seus membros manterem-se à margem do controle da Igreja diocesana. Pior ainda foram os conflitos entre jesuítas e um setor predominante de crioulos durante a chamada Revolução de Antequera (1717-1735), conflito que colocou em xeque o próprio sistema missionário, causando uma crise da qual ele nunca se recuperou.

Críticas do século XVIII

Durante o século XVIII, as críticas ao sistema missionário foram alinhadas a uma nova constelação de temáticas, nas quais as missões do Paraguai seriam o argumento principal, especialmente quando, a tudo o que acabamos de mencionar, somou-se a guerra guaranítica, em 1750, em que os índios de várias reduções se levantaram contra a ordem real para entregar sete cidades a Portugal, como produto do Tratado de Madri. Os missioneiros foram acusados de incitar os índios à rebelião. No entanto, são os acontecimentos em outros lugares que provocam as críticas que levarão à expulsão da Ordem, em 1767, e à Supressão, em 1773. As ideias iluministas e o próprio regalismo enxergam na ação dos jesuítas, seu poder e seu sistema educacional, um obstáculo para o progresso das "luzes" e para os objetivos de aumentar o poderio monárquico. Questões de distintas ordens, como a polêmica dos "ritos chineses", que por sua vez estavam inseridas em uma crítica mais ampla do chamado "laxismo" dos jesuítas, derivado da utilização de doutrinas probabilistas, proporcionaram argumentos e razões para a expulsão e a supressão.

IHU On-Line – Em que modelos as missões jesuíticas na América foram inspiradas?
María Elena Imolesi – O sistema missionário, enquanto ideia para concentrar as populações indígenas, especialmente em áreas de fronteira e em povoados, não é uma criação original dos jesuítas. Na verdade, estava nos ordenamentos coloniais, como por exemplo, os do vice-rei Toledo , no Peru da segunda metade do século XVI: a ideia era "reduzir" os índios para a vida social e política, separando-os do resto da população e encarregando os religiosos desta função, mas mantendo sua própria estrutura de governo indígena. Foi Toledo quem encarregou os jesuítas das primeiras paróquias indígenas em Juli (atual Bolívia), consideradas antecedentes das paraguaias.

Antes ainda, tanto Bartolomeu de las Casas , na Guatemala, como Vasco de Quiroga , no México, promoveram projetos para separar os índios dos espanhóis para proteger os primeiros da exploração e da mortalidade, registrados no regime de encomienda, e no brutal declínio demográfico que foi verificado na população indígena desde o início do século XVI, assim, também para evitar o "mau exemplo" dos espanhóis. Tudo isto deu origem à normativa jurídica da separação das duas repúblicas.

De fato, quando os jesuítas surgiram no México, no Peru e no Paraguai, outras ordens já os haviam precedido na tarefa reducionista. No Paraguai, os primeiros reassentamentos e concentração de indígenas antes dispersos foram realizados pelos franciscanos. Frei Luis de Bolaños , autor da primeira gramática e vocabulário guarani, foi uma referência de prestígio para os jesuítas. No entanto, o sistema social e político desenvolvido pelos jesuítas desde o início do século XVII tinha traços de originalidade: depois de muitas negociações com o governo espanhol, os guaranis foram isentos da encomienda e foram obrigados a tributar apenas ao rei. Por outro lado, enquanto instituição de fronteira e diante dos ataques dos bandeirantes paulistas que dizimavam os povos guaranis, capturando indígenas para escravizá-los, os índios foram autorizados a se armarem e formarem milícias de defesa. Tudo isso foi obtido em uma aliança entre os jesuítas e os caciques indígenas, que mantiveram sua autoridade nos povoados, característica que é considerada uma das principais razões para o sucesso do sistema missionário.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
María Elena Imolesi – Sim, nos últimos 20 anos, os estudos sobre o mundo jesuítico foi notavelmente ampliado com as contribuições da antropologia, da história cultural e da valorização de uma grande quantidade de fontes reservadas, antes pouco ou nada disponíveis para os historiadores acadêmicos de fora do âmbito da Companhia de Jesus. Isto gerou a ideia de uma "jesuitologia" sempre em crescimento que nutre o já dilatadíssimo corpus de fontes jesuíticas a nível global. Historiadores da cultura, das línguas, da arte e da ciência têm se preocupado em estudar as contribuições dos jesuítas. Provavelmente (e o proponho como um desejo e objetivo pessoal) é importante ampliar o olhar do jesuíta e entender a inserção do funcionamento da Companhia de Jesus em um contexto global e em suas relações com outros poderes tanto religiosos quanto civis, com os quais houve profusos e frequentes conflitos.

Além disso, muitas características do processo de conversão, como a tão mencionada adaptação, eram políticas gerais da Igreja Católica desde suas origens, quando procuravam se impor ao paganismo. A ideia de acomodar-se "aos tempos, pessoas, lugares e outras circunstâncias" é atribuída aos jesuítas e, de fato, ainda hoje é utilizada na convocação de acampamentos destinados a jovens leigos, organizados pela Companhia de Jesus. A frase, no entanto, pertence ao cardeal Tommaso de Vio , proeminente figura dominicana da Igreja do início do século XVI. A circulação de ideias e práticas, da e para a Companhia de Jesus, poderia iluminar a compreensão dos fenômenos da conversão, isto sem negar as indubitáveis contribuições que a Companhia de Jesus realizou no mundo moderno.

A Companhia e uma identidade Moderna

Muitos dos assuntos que são atribuídos à criação dos jesuítas, são patrimônio do pensamento e das ações da Igreja. Por que então essa preeminência dos inacianos? Sabina Pavone assinalou que a Companhia de Jesus esteve envolvida em muitos momentos-chave na formação de uma identidade moderna. Michel de Certeau a considera "a mais moderna das empresas de sentido". Eles exerceram uma função hermenêutica: transportaram ao Novo Mundo a interpretação cristã e ocidental das coisas, mas ao mesmo tempo incorporaram toda a experiência multicultural dos territórios missionários distantes, estranhos e estrangeiros.

Nenhuma outra ordem religiosa suscitou tantas paixões opostas quanto a Companhia de Jesus, onde tanto a leyenda dorada quanto a leyenda negra tiveram grande força, e o fogo das paixões é algo que os jesuítas sempre se encarregaram de reavivar... Nenhuma outra ordem religiosa, como diz Pierre Antoine Fabre , foi extinta pelo papa. Os jesuítas fizeram da autorrepresentação e da apologia à sua própria tarefa uma marca reconhecível. Mas essas características da escrita jesuítica constituem, paradoxalmente, uma vantagem para a pesquisa histórica, pois nos deixaram uma riqueza documental verdadeiramente notável.■

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