Edição 530 | 16 Outubro 2018

A missão jesuítica: as complexas relações que vão além da expansão do cristianismo

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Carlos D. Paz | Tradução: Henrique Denis Lucas

“As missões certamente foram um ponto de encontro mútuo entre práticas e saberes próprios dos nativos e dos evangelizadores. Tratou-se de um processo social, em constante retroalimentação - embora nem sempre de maneira notável à primeira vista -, onde as populações nativas tiveram um papel protagonista na forma como os jesuítas elaboraram conhecimentos sobre eles. Foram os próprios nativos que, por meio de expressões de uma política que reagia à invasão evangelizadora, condicionaram a forma em que a Companhia de Jesus escreveu sobre eles”, escreve Carlos Paz. E acrescenta: “para os próprios jesuítas, as missões eram muito mais do que uma simples expansão do cristianismo. As missões supunham um desafio por si só e para aqueles que, com o passar dos anos, exerciam seu ministério cheios de dúvidas, retomando dessa forma aquele ‘segundo momento’ em que suas escolhas os devolviam à profundidade da confirmação de suas vocações jesuítas, as missões foram uma experiência que marcou significativamente suas vidas”.

Carlos D. Paz é argentino, doutor em História pela Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires, na Argentina. Realizou pós-doutorado em Sociologia, no Brasil, pesquisando os modos guaranis de administração da alteridade. Atualmente, pesquisa as transformações cosmopolíticas dos grupos chaquenhos e a construção e circulação de uma ideia de barbárie realizada pela Companhia de Jesus. Ainda está desenvolvendo uma investigação, com Eliane Fleck, da Unisinos, sobre a censura de obras jesuítas.

Eis o artigo.

Definir uma missão jesuíta é uma tarefa simples em comparação com o grande esforço despendido para esclarecê-la. Para podermos refletir sobre as missões, devemos primeiramente considerar as mesmas como: A) um sistema de organização social de uma complexidade diferente daquela existente entre os nativos americanos antes da chegada da Companhia de Jesus à América; B) como uma forma de governo das vontades, que impunha certa hierarquização que alterava as posições sociais no mundo indígena – as mesmas que eram definidas sociologicamente pela dinâmica social; C) um complexo emaranhado econômico implantado pela Ordem Inaciana na América e no resto do mundo. Era um projeto de transformação das bases sociais, políticas, ideológicas e simbólicas, que com diversos graus de sucesso, tentou-se aplicar em diferentes partes do globo.

O correto, na América, é falar em reduções. Isto é, o que conhecemos como missões é o resultado da política de concentração de grupos populacionais que possuíam padrões de mobilidade sazonal de complexidade variável, chegando a quase alcançar o status de uma autarquia econômica. Uma mobilidade sobre um território extenso que definia espacialidades, entendendo-as como formas sociais de relacionamento e aproveitamento do território e dos bens que o próprio território era capaz de prover para suprir as necessidades daqueles que o transitavam.

A Companhia de Jesus tentava reduzir os grupos, no sentido de aglutinar a população, em um território que já poderia ser delimitado e representado posteriormente por meio de uma razão gráfica que proporcionaria sustento a uma cartografia encarregada de disponibilizar informações necessárias para o controle dos territórios, os espaços e as populações. Junto a isso, buscava-se inserir naquele conjunto de indivíduos um personagem central, que fosse oficializado como cacique, e que ordenasse e controlasse a vontade daqueles ali reduzidos, e que também atuasse como subordinado – ou pelo menos era isso o que se pretendia originalmente.

Deste modo, as reduções supõem uma transformação radical nos modos nativos de existência. Estabelecer-se em um lugar, com fronteiras parcialmente definidas e que constantemente tinha tentativas de tomada de controle por distintos meios, afetou os ciclos de mobilidade sazonal – que permitiam satisfazer as necessidades econômicas, sociais, políticas e simbólicas da população – e, com isso, os nativos começaram a experimentar de maneira lenta, gradual e progressiva algumas mudanças em suas formas de relação e organização, tanto social quanto política. Junto a isso, o que houve foi que essa mesma concentração de população necessitava de um personagem que funcionasse como um comissário das vontades de todos que residissem "dentro" das reduções, para os propósitos administrativos exigidos pela Companhia de Jesus e pela administração espanhola e portuguesa. Antes das reduções, diferentes povos indígenas permitiam que alguns sujeitos, conhecidos como cabeças, conduzissem, temporariamente, algumas ações políticas. A transformação radical que tinha de ser imposta, ou que ao menos tentou-se levar adiante, é que a pessoa escolhida como cacique cumprisse esta função em tempo integral, ou seja, mesmo quando não houvesse nenhum evento específico que reivindicasse a centralização do processo de tomada de decisão. Indubitavelmente, essa foi uma mudança significativa na vida dos nativos que gerou muitas discrepâncias entre aqueles que, antes das reduções, possuíam cotas de prestígio, mas que não concordaram com o cargo de caciques e foram colocados em uma posição subordinada.

Cada redução era autônoma, possuía sua própria organização social e econômica, e todas tinham como objetivo abrigar indivíduos que se reconhecessem como participantes de um mesmo grupo étnico – uma nação, na forma em que se referiam a uma população parcialmente homogênea, naqueles tempos. Então, as reduções se articulavam entre si por meio de uma rede de estradas que tentavam fixar um novo traçado sobre o território. As missões ajudavam-se mutuamente para lidar com as adversidades econômicas ou para conter ocasionais inimigos. Esta função de cordão fronteiriço, articulado entre si por meio da circulação de distintos bens, é o que, sem dúvida, pode definir as missões como um espaço de transformação social ao mesmo tempo que demonstra uma clara funcionalidade política.

Missão, além da religião, envolve questões políticas e culturais

As missões jesuíticas são associadas, certamente de maneira quase mecânica e reducionista, à atividade evangélica desenvolvida por "corajosos" missionários entre os distintos grupos nativos do continente. Essa ideia forte, para além dos avanços que a historiografia especializada pode oferecer em termos de desvendar a lógica interna dos diferentes grupos que aceitaram a instalação das reduções em seus territórios, baseia-se, estimo, na eficácia simbólica que possuem os filmes A missão , Hábito Negro , assim como, recentemente e em menor medida, Silêncio , outro filme cult. O que o público observa nesses filmes é a postura evangélica encarnada por um sacerdote que realiza ações que colocam sua própria integridade em risco por conta da salvação da comunidade que tenta aproximar-se do rebanho cristão .

Sem dúvida, a postura missionária tinha como finalidade promover a cristianização das populações com as quais se tinha contato – ainda que, na verdade, para fazer uma avaliação justa, temos de fazer referência à ideia de ocidentalização –, mas o religioso não foi o único aspecto pelo qual as missões se destacaram na América, assim como no resto do ecúmeno. As missões certamente foram um ponto de encontro mútuo entre práticas e saberes próprios dos nativos e dos evangelizadores. Tratou-se de um processo social, em constante retroalimentação – embora nem sempre de maneira notável à primeira vista –, onde as populações nativas tiveram um papel protagonista na forma como os jesuítas elaboraram conhecimentos sobre eles. Foram os próprios nativos que, por meio de expressões de uma política que reagia à invasão evangelizadora, condicionaram a forma em que a Companhia de Jesus escreveu sobre eles. É bem verdade que a Ordem tinha regras claras para a confecção desse texto que mostrava – e também encobria – a realidade nativa. Mas foram os próprios indígenas que habilmente permitiam aos padres o acesso ao conhecimento que lhes interessava ser divulgado, manipulavam medos e/ou as expectativas dos inacianos ou, então, geravam divergências entre estes e as autoridades coloniais, a fim de obter maiores rendimentos ao negociar aspectos de seu interesse.

É por isso que a política e a cultura nativa sobrevivem nos diversos escritos que foram realizados por inúmeros membros da Companhia de Jesus e, como um aspecto necessário a ser ponderado, não apenas naqueles que dão conta "exclusivamente" de algum grupo étnico em particular. É impossível não reconhecer que as etnografias culturais, redigidas durante a experiência reducional ou naquelas já formuladas em Exílio, estejam repletas de uma quantidade incomensurável de dados: fórmulas de expressão sobre o mundo natural – um mundo em que os nativos deveriam ser realocados, na tentativa de fugir de questões próprias da correção política daquele momento; conceitos e preconceitos sobre a realidade americana; debates intelectuais e até difamações, manifestadas pelos próprios sacerdotes do passado, sobre formas filosóficas típicas dos ameríndios.

Todas as declarações contidas nesses escritos precisam ser lidas novamente e não apenas com o auxílio de expressões teóricas, por exemplo, do célebre Michel de Certeau , mas também é preciso concentrar-se em um verdadeiro exercício de historie régressive , sobre as proposições que os indígenas colocaram diante dos olhos de seus evangelizadores. Isto se deve ao fato de que cada um deles – missionários e indígenas – avaliava constantemente as ações de seus outros com o claro interesse de obter a maior quantidade de benefícios quanto fossem possíveis, em função do que lhes interessava. Nesse processo de interação entre as perspectivas, não devemos esquecer a historicidade da cultura e a forma em que os indígenas modificavam os seus próprios traços culturais, que precisavam ser reorganizados para assim poder exercer uma accomodatio ainda maior do que aquele que alguns estudos sugerem ser possuída pelos jesuítas como fórmula para alcançar o sucesso em seus empreendimentos reducionistas.

A vivacidade do pensamento político ameríndio, possível de ser abordada a partir da mitologia, da arte verbal, do grafismo, de suas noções cosmológicas, das formas parentais e dos ciclos de vingança, bem como pelos diferentes rituais que retratavam sua sociabilidade e socialização, são ângulos dos quais o sujeito se reposiciona frente a sua própria história. Os nativos confrontavam ativamente as tentativas de aculturação promovidas pelos sacerdotes, que eram auxiliados, em alguns casos, por outros dispositivos de poder coloniais, tentando conter os ânimos indígenas.

A Companhia de Jesus, por outro lado, como instituição, empenhava-se em fornecer respostas para as tribulações que seus membros experimentavam entre os indígenas. Para este auxílio, compunham-se escritos que tentavam inspirar os sacerdotes acerca de alguns pontos-chave, para que, a partir da espiritualidade inaciana, fossem alcançados bons governos por parte daqueles que atuavam de forma missionária. Junto a isso, e com o objetivo de alargar a base social necessária para a ampliação do alcance da empresa reducional, buscou-se incentivar, por meio da escrita etnológica, novas vontades missionárias em Colégios e institutos de formação europeus. Vontades que eram traduzidas em novos jesuítas chegando ao continente. Portanto, mantendo a lógica de ler aquela forma de “escrever para mostrar”, formas ultrapassadas, em seu ritmo, em como conceber os indígenas e suas ações.

Para os próprios jesuítas, as missões eram muito mais do que uma simples expansão do cristianismo. As missões supunham um desafio por si só, e para aqueles que, com o passar dos anos, exerciam seu ministério cheios de dúvidas, retomando dessa forma aquele "segundo momento" em que suas escolhas os devolviam à profundidade da confirmação de suas vocações jesuítas, as missões foram uma experiência que marcou significativamente suas vidas. Em descrições variadas, especialmente naquelas redigidas após a Expulsão, encontramos traços de nostalgia pelo tempo compartilhado na América, bem como momentos de desentendimento que nos dão indícios sutis sobre o que aconteceu durante a experiência reducional e como essas experiências eram reformuladas posteriormente pela escrita que deveria ser enviada aos Superiores.

Tudo isso é o que permite a releitura desse corpo documental impresso. No entanto, as missões, os indígenas e os missionários vão muito além dos espaços que a escrita publicada permite conhecer. Pesquisas recentes estão mostrando que é extremamente importante prestar atenção às obras que não foram publicadas ou que não foram traduzidas do latim para as línguas românicas. Essas leituras, sem dúvida, trarão uma maior complexidade à problemática das missões jesuíticas e, inclusive, nos permitirão explorar com novo ânimo os aspectos que – da mesma forma que o binômio espiritualidade-imagem – esperam por perguntas que façam voltar a florescer aqueles mundos que tanto chamaram a atenção de alguns círculos intelectuais europeus, e, a partir desta afirmação, o que se impõe é a necessidade de nos perguntarmos como a História das Missões Jesuíticas foi lida pelo mundo não europeu.

Estudos sobre Missões Jesuíticas

As Jornadas Internacionais sobre as Missões Jesuíticas é um evento acadêmico, já de longa data na América do Sul, e com uma ampla projeção internacional. Um espaço pioneiro de discussão em seu gênero, criado por Arno Alvarez Kern , Bartomeu Melià , Ernesto J. A. Maeder (†) e Erneldo Schallenberger . Concebido como um momento para a discussão sobre os aspectos mais relevantes da evangelização levada adiante com as populações guaranis, teve sua primeira edição em 1984 em Resistência (província de Chaco, na Argentina) e desde então vem se desenvolvendo bianualmente, de forma rotativa entre Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Chile.

Nas reuniões de trabalho, várias Universidades desses países receberam um grande número de pesquisadores que, com o passar do tempo, formaram sólidos grupos de trabalho. A agenda de trabalho das primeiras edições contemplava, de maneira ampla, o que se conhece na historiografia como o guarani-missioneiro. Uma aliança entre eles gerou a sociedade indígena e foi considerada como um modelo por toda uma historiografia que orientou, em grande parte, pesquisas em outras áreas, embora sempre vinculada ao Guarani ou tomando-os como objeto de investigação que trazia resultados com as quais diferentes modelos de análise poderiam ser confrontados. Apenas alguns dos tópicos abordados nesses encontros: as discussões sobre o caráter da pintura missioneira; a arquitetura e o que refletem as construções que ainda sobrevivem; padrões demográficos; a evolução dos cacicados; a Guerra Guaranítica; a administração de estabelecimentos jesuítas, como estâncias, Colégios e o papel dos escravos; as missões de Chaco, dos Pampas e de Chiquitos; a escrita etnológica da Companhia de Jesus e a redação das Histórias Gerais; a música e imprensa nas missões; o papel do conhecimento médico-botânico como campo de disputa entre nativos e sacerdotes; a questão ritual indígena e como ela se adaptou, transformou e sobreviveu através dos Cabildos indígenas; o papel das milícias guaranis; questões de etnobotânica e a escrita desenvolvida pelos indígenas reduzidos e a leitura que eles também faziam sobre a documentação escrita sobre eles mesmos, em meados do século XVIII. Sem dúvida, esse é um corpus de conhecimento mais do que relevante.

Longe de o guarani esgotar sua capacidade de gerar pesquisas inéditas – e cabe ser mencionado aqui que o evento é uma oportunidade única para discutir avanços da pesquisa em um clima de camaradagem por demais afável e, certamente, despojado de certas formalidades acadêmicas, dando lugar à convivência de aclamados pesquisadores com aqueles que acabaram de iniciar sua jornada –, o desenvolvimento dos inúmeros debates que iam surgindo e o crescente interesse pelas Jornadas atraíram pesquisadores que auscultam o passado de outras porções do mundo, o que gerou lentamente um interesse notável pela natureza global do projeto jesuíta – interesse auxiliado, obviamente, pela ativação das redes pessoais que explicam a orientação que a conferência tomou. É assim que chegamos ao leitmotiv que orienta a presente edição.

Embaixada política e mediação cultural em um cenário mundial

Esta nova edição das Jornadas continua com a discussão de um problema que vem sendo desenvolvido desde, pelo menos, a edição de 2006, realizada na PUCRS e que, posteriormente, em 2008, em Buenos Aires, tornou-se mais intensa. A natureza global do projeto jesuíta é inegável e evidentemente é um ponto que necessita ser discutido em profundidade e por vários ângulos.

Este ano o lema que organiza as discussões é A ação global da Companhia de Jesus: embaixada política e mediação cultural em um cenário mundial. O que pretendemos discutir não é mais apenas como essa ação global foi construída – como os sacerdotes e toda a estrutura da Companhia de Jesus se lançou sobre o mundo. O interesse desta edição das Jornadas está focado em uma questão que, embora pareça muito específica, na verdade, como o resto dos estudos missionários em si, é uma desculpa metodológica para melhor desvendar as atitudes dos agentes – considerando aqui os sacerdotes e os nativos – cumprindo um papel de intermediários entre sociedades distintas que se relacionavam entre si por meio de embaixadores que carregavam consigo suas formas culturais como referência sobre o sim , assim como a categorização daqueles considerados como outros.

Um exemplo claro desta questão global e o papel dos embaixadores culturais são encontrados nos Pampas, em meados do século XVIII. José Cardiel , S. J., em sua Carta Relação, assinada em Buenos Aires em 20 de dezembro de 1747 e dirigida a seu "amado mestre", Pedro Antonio de Calatayud – que então encontrava-se em Valladolid –, fez um relato dos pormenores que ocorriam nas latitudes nas quais realizava seu trabalho apostólico. No entanto, e além da riqueza da descrição de caráter etnológico feita por ele, o notável é como ele fornece chaves para que, a partir da Espanha e da própria Companhia de Jesus, as lógicas nativas fossem compreendidas, assim como sobre de que maneira a postura política dos hispano-crioulos influenciavam as políticas que estavam sendo desenvolvidas. Cardiel, então, é o embaixador que torna possível desvendar o funcionamento das redes políticas aqui na América e, é claro, quem tem o ofício como mediador dos interesses da Companhia de Jesus em solo americano. Este papel de Cardiel ainda não está suficientemente explorado, assim como nem mesmo em seus outros companheiros.

Dentro deste conjunto de ações, de ilustres missionários como Cardiel, devemos então situar a prática do ofício como embaixador político e mediador cultural com a clara intenção de informar sobre um personagem como Calatayud, que se destacou por seu trabalho de produção de textos doutrinários orientados a, por exemplo, acompanhar a "prática da vida doce e racional do cristão" [1782], assim como um "modo fácil e prático de fazer uma confissão" [1762]. A pergunta que devemos fazer, e que em mais de uma ocasião deve estar presente nos diferentes Simpósios e Mesas-Redondas que compõem esta edição das Jornadas, é o quanto dessa escrita jesuítica produzida na América, ou em qualquer uma das posses ultramarinas da Europa, encontra-se em tratados e escritos doutrinais? Até que ponto a espiritualidade inaciana tomou nota das formas locais de espiritualidade e fez uma reacomodação da maneira pela qual deveria abordá-las? Como a informação provida dos confins do ecúmeno se transformou, pela própria ação da escrita jesuíta, em imagens consolidadas que compunham e nutriam a formação daqueles que mais tarde solicitariam sua passagem para a América, por exemplo? Como um pequeno exemplo sobre a força inercial dessas imagens e sua ampla aceitação na Europa, podemos constatar que as imagens criadas pela escrita da Companhia de Jesus possuíam tal vigor que o próprio Júlio Verne , em sua obra Os Filhos do Capitão Grant, no volume dedicado à América, reproduz de maneira quase textual o que um dos membros da Ordem iria esboçar sobre os Pampas e seus habitantes. Aspectos que, ainda hoje, certamente de maneira bastante ingênua, discutem uma historiografia preocupada com os indígenas que aceitaram se reduzir nos Pampas, em meados do século XVIII.

Creio que pensar sobre como essa intertextualidade é composta e, obviamente, tentar sustentar nossas proposições com exemplos claros da vida reducional, pode ajudar-nos a percorrer novos rumos de pesquisa, mas sem perder de vista a realidade americana e como as reduções da Província Jesuítica do Paraguai – missões que excedem o que é meramente guarani – são na verdade uma lente vigorosa de observação que nos permite questionar outras experiências missionárias, inclusive aquelas missões realizadas por outras ordens e em outras regiões do império espanhol, como foi o caso das missões erguidas pelos franciscanos para grupos Apache, no longínquo Texas do século XVIII. Os jesuítas não foram apenas os embaixadores e mediadores entre as populações locais e a administração imperial, mas também eram objeto de considerável interesse para os savants (cientistas) daquela época, assim como os membros de outras ordens que disputavam com os jesuítas a construção de, por exemplo, uma nova ordem científica que claramente se manifestava na escrita e em diferentes publicações impressas que tinham de cumprir certas normas para ver a luz de um maneira que excedesse o clandestino. Um ponto que também requer mais explorações. Como mencionamos, nem tudo o que foi escrito foi publicado e até mesmo alguns jesuítas foram expulsos da Ordem pelo teor de seus escritos.

Repensar caminhos

As missões jesuíticas, além de um campo de pesquisa já consolidado, são uma excelente desculpa metodológica para pensar o tempo presente e, acima de tudo, le temps à venir da disciplina histórica tal e como a conhecemos. Em uma publicação recente, Serge Gruzinski (2018 [2015]), quando se refere a Para que serve a História, lança uma sentença por demais correta. Ele afirma que “os debates entre historiadores, por mais indispensáveis que sigam sendo, frequentemente discutem mais a redefinição de territórios e antigas reservas do que atacam as rotinas acadêmicas”. Nesse sentido, as Jornadas marcharam, durante os últimos anos, pelo caminho do questionamento de determinadas rotinas acadêmicas.

Nas últimas edições, foi proposto afastar-se um pouco da questão fundadora que animava a conferência, mas sem deixar de lado, é claro, o problema nodal do qual pensamos a problemática central. Já não podemos apenas discutir o Guarani ou a postura evangélica construída com e para eles. Por isso, as Jornadas têm albergado em sua discussão outras áreas onde o experimento social jesuíta foi realizado. Foram incorporados para discussão os espaços do norte do México e da Pimería. Da mesma forma, a área do Pacífico, bem como os debates sobre a China e o Japão. Talvez algo que ainda precise ser acrescentado com maior força seja o modo em que a Companhia de Jesus dialogava com um interlocutor muito difícil de evitar tanto no passado quanto no presente. Aqui refiro-me ao Islã como força política e base filosófica que ganha visibilidade e presença no atual mundo europeu, mobilizando debates sobre a condição das pessoas. Debates que já tiveram expressões notáveis durante o período colonial.

Aqui, por exemplo, é onde os estudos sobre os processos sociais que ocorreram com os nativos americanos podem nos dar pistas sobre como nos relacionarmos com um outro que, a partir de uma percepção nitidamente ocidental, reforça todos os nossos preconceitos sobre aquele que consideramos estranho, alheio, disruptivo de uma condição de mesmice que necessita certamente ser revista de maneira urgente e, mais ainda, atual. É neste ponto quando, por mais paradoxal que pareça, devemos então refletir novamente sobre o caso Guarani e como ele foi pensado nas primeiras edições das Jornadas. Por que eu levanto essa questão? Porque considero que a História – e para ser justo na afirmação devemos fazer referência aos historiadores – deve fugir das ‘novidades’ e de certos temas à la mode. Não é uma afirmação atrasada. É o oposto. Deve-se pensar seriamente sobre os fundamentos que deram origem a essa relação concomitante entre jesuítas e guaranis para, a partir desse ponto, identificar como se constituiu uma historiografia e como é que essas bases ainda sobrevivem na forma como pensamos determinadas problemáticas sociais.

Acredito aqui que a problemática da "etnia" não parou de crescer em intensidade e visibilidade em quase todos os debates políticos atuais que propõem o étnico – fazendo referência a uma origem e condição comuns, sem se distanciar da clássica categorização de ethnos – como quase definitivo das ações dos sujeitos. O que não está sendo discutido intensamente é o que essa etnicidade significa e que valor ela possui na intencionalidade da escrita, que reflete um momento particular de uma relação social. Se revisarmos então as primeiras abordagens sobre os guaranis temos de encontrar ainda muitas chaves para entender o futuro da disciplina, assim como dos sujeitos que dão musculatura à História.

Todos, ainda a partir de uma visão extremamente presentista, onde o imediatismo parece reger a urgência de uma tomada de posicionamento, temos noções históricas sobre nós mesmos que não são ingênuas em si próprias. No entanto, o que ainda precisa ser incorporado em maior medida ao debate acadêmico "fora dos muros" são as lógicas não ocidentais de situar-se no mundo e diante dele. Ou seja, algumas dessas lógicas estão sendo divulgadas, como por exemplo, a proposta cosmopolítica, as ontologias nativas e o perspectivismo ameríndio como posicionamento filosófico, mas, apesar disso, ainda existem poucas pesquisas que propõem investigar o passado, e já não mais apenas os ameríndios, partindo dessas correntes de pensamento e tomando-as como formas internalizadas e complexas de olhar o mundo, de refletir sobre o mesmo. A circulação de objetos e ideias, proclamada pela corrente da história global, não implica uma adoção acrítica dos mesmos e muito menos sem uma clara intencionalidade histórica com vistas ao futuro de quem adota este ou aquele objeto, inserindo-o em uma matriz cognitiva que tenta conjurar o devir. Pensemos em como a estrutura mitológica ameríndia possuía um lugar para incorporar alteridades radicais.

Não esqueçamos de que o discernimento é um dos pilares da formação e prática jesuíta. Pratiquemos um pouco disso. Embora não possamos encontrar a presença dessas filosofias à primeira vista, não podemos presumir que elas não estejam presentes nas ações empreendidas pelos missionários, ainda que, é claro, habilmente disfarçadas pela internalização das Instruções para a escrita que regia as formas de registro dos eventos que seriam considerados notáveis e, portanto, plausíveis de serem mostrados. Da mesma forma em que as políticas nativas conseguiram travestir-se, até quase tornarem-se muito difíceis de identificar claramente pelos sacerdotes – e talvez por isso se refira quase sem mudanças notáveis a algumas práticas comunais ao longo dos séculos XVII e XVIII – as atuais políticas de alguns grupos considerados marginais – ou marginalizados – têm uma dinâmica semelhante.

Dentro desse processo de transformação, não devemos apenas identificar as mudanças como uma forma de questionar as formas de organização que se pretendiam impor sobre eles, mas talvez devêssemos estar atentos ao fato de que essas expressões estejam direcionadas para o seu próprio coletivo e a estrutura de dominação seja utilizada para seu próprio benefício sob uma forma de linguagem que só podemos identificar, mas, como alguns jesuítas de antigamente, não dominar mais do que rudimentarmente e, portanto, intuir os riscos que isso implica. É por isso que os estudos sobre as missões jesuíticas ainda têm muito a oferecer. Vamos pensar em tudo o que supomos conhecer de uma cotidianidade nativa, que só conhecemos por referências indiretas. ■

Leia mais

- Silêncio - Cinema e sua relação com a História Pública. O reconhecimento da pluralidade das formas de ação dos sujeitos. Entrevista especial com Carlos Paz, publicada nas Notícias do Dia de 9-9-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

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