Edição 529 | 01 Outubro 2018

Filosofia da suspeita

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Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado

Ernani Chaves faz uma análise de como a filosofia nietzschiana, especialmente a partir de Genealogia da Moral, produz novas formas de investigação

Pensar as apropriações da filosofia de Nietzsche – de Foucault aos contemporâneos – em termos de certo ou errado tende não somente ao equívoco, mas também à improdutividade. Nesse sentido, tomá-lo como filósofo da suspeita abre um caminho muito mais amplo de investigação e releituras. “É muito lícito supor que, quem chama a si mesmo dessa maneira, é o próprio Nietzsche e não qualquer outra pessoa, como ele sugere. Além disso, toma a suspeita pelo fato de que a linguagem humana não remete a qualquer transparência em relação ao mundo e às coisas, como Nietzsche já havia mostrado no seu famoso texto de 1873, ‘Verdade e mentira no sentido extra-moral’”, coloca Ernani Chaves, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Na leitura de Roberto Esposito sobre Nietzsche há o reconhecimento de que o autor de Genealogia da Moral tinha uma visão da biopolítica que não se reduzia à sua dimensão negativa, mas que por outro lado não está livre, também, de controvérsias. “A concepção nietzschiana de vida torna possível pensarmos na biopolítica não apenas de modo crítico (como ele julga encontrar em Foucault), mas também uma biopolítica afirmativa. Para isso, Esposito precisou fazer uma interpretação muito geral do conceito nietzschiano de vida. Entretanto, Esposito afirma que em Nietzsche também podemos encontrar uma concepção de vida que pode ser facilmente apropriada pelo nazismo”, descreve.

Ernani Chaves é professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará - UFPA, onde é professor permanente do PPG em Filosofia, do PPG em Antropologia e colaborador no PPG em Psicologia. Realizou estágio de pós-doutorado na Universidade Técnica de Berlim e na Bauhaus-Universität, de Weimar, na Alemanha. Foi pesquisador visitante na Universidade Técnica de Berlim. Autor de No limiar do moderno: estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin (Umarizal: Paka-Tatu, 2003) e Michel Foucault e a verdade cínica (Campinas: Editora Phi, 2016).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Passados 130 anos de sua publicação, qual é a atualidade de Genealogia da Moral?
Ernani Chaves – Genealogia da Moral (São Paulo: Companhia das Letras, 1998) é, certamente, um dos livros de Nietzsche que mais conservam o vigor e a radicalidade, tão necessários em uma época como a nossa. Sua leitura, por exemplo, foi fundamental e inspiradora de vários pressupostos da chamada Teoria Crítica. Horkheimer chegou a dizer que, nesse livro, “a constituição psíquica da burguesia foi revelada”. Atravessado pelas modulações do conceito de ‘ressentimento’, que já aparece desde a Primeira Dissertação e abrangendo todos os domínios clássicos da Filosofia, o teórico, o prático e o poético, esse livro realiza, ao utilizar um método específico, a genealogia, uma das análises mais contundentes de nossa cultura. Se pensarmos que a “atualidade” não é uma “novidade”, na medida em que toda obra está inscrita no seu tempo, mesmo que seu autor pretenda uma “extemporaneidade” – dimensão da qual o próprio Nietzsche tinha inteira consciência – então este livro continua atual uma vez que nos incita, permanentemente, a questionar nosso presente.

Antonio Edmilson Paschoal, professor da UFPR, em seu livro sobre Nietzsche e o ressentimento, mostra, com muita clareza, o quanto as discussões dessa obra podem nos ajudar a compreender, numa outra perspectiva, o modo como, por exemplo, a África do Sul conduziu as discussões acerca do “apartheid”. Jeanne Marie Gagnebin , por sua vez, associando as questões da memória e do esquecimento que aparecem na Segunda Dissertação às reflexões sobre o mesmo tema em Walter Benjamin , mostra o quanto a contribuição de Nietzsche é absolutamente indispensável para compreendermos as políticas da memória, no caso do Brasil, da ausência de memória, referidas às ditaduras latino-americanas.

IHU On-Line – Em que aspectos a genealogia de Nietzsche influenciou aquela realizada por Foucault e, posteriormente, aquela empreendida por Agamben?
Ernani Chaves – É bem mais fácil, embora não seja simples, entender um pouco melhor hoje em que sentido Foucault se utilizou da genealogia nietzschiana, do que Agamben . Isso porque Foucault nos deixou alguns textos sobre Nietzsche e, algumas vezes, em especial a partir de Vigiar e punir (Petrópolis: Vozes, 2014) designou seu próprio método como genealógico. Não me parece muito produtivo, mais uma vez, tentar mostrar a justeza ou não da interpretação de Foucault. Não que isso não seja importante, mas principalmente porque Foucault é Foucault, e não Nietzsche. Em vez de falar de “equívocos”, o que não nos ajuda muito, prefiro falar em “distâncias”, justamente porque esse termo implica duas coisas: em primeiro lugar, a de “proximidade”, ou seja, para ganhar “distância”, é ou foi preciso estar “próximo”, ser “próximo”; em segundo lugar, entretanto, não se trata de qualquer “distância”, mas de uma “distância crítica”, no sentido de que o intérprete de hoje sabe que o seu tempo já não é mais o do texto que está interpretando.

Essas questões, nas quais está em jogo a temporalidade – a do texto, mas também a do autor e a do leitor – são colocadas pelo próprio Nietzsche, logo no começo do Caso Wagner (São Paulo: Companhia das Letras, 2016). O que interessou, em especial a Foucault na démarche nietzschiana foi a afirmação da história, da historicidade, vista de uma perspectiva anti-historicista. Ao questionar o valor de uma busca da “origem” (sei o quanto alguns intérpretes consideravam abusiva a interpretação de Foucault segundo a qual em Nietzsche encontramos uma “recusa das origens”, mas eu tenho a impressão que essa é uma leitura muito rápida e em alguns aspectos igualmente equivocada), Nietzsche teria inscrito na história as mais elevadas ideias que a metafísica havia cuidadosamente construído, em especial as ideias de verdade, de razão, de sujeito. Para Foucault, Nietzsche tornou possível que ele se lançasse ao desafio de empreender uma história da verdade, tomando como referência “objetos” sem dignidade epistemológica e política. Concebidas como “genealogias” (combinadas, por exemplo, com o modelo francês da história das ciências, eis uma diferença importante entre Foucault e Nietzsche), as histórias da loucura, da medicina, do crime, da sexualidade, poderiam nos revelar o “valor dos valores” que esses objetos acabam por encarnar, valores esses que são, fundamentalmente, ético-políticos. Outra diferença importante: Foucault recupera o aspecto político do pensamento de Nietzsche, que a interpretação nazista havia tornado suspeito e que a recepção nietzschiana do pós-guerra, seja na França, seja na Alemanha, cuidou, de algum modo, de ‘recalcar’. Assim, a genealogia foucaultiana pode desenvolver o que Foucault julgava encontrar em ação na “Genealogia da moral”, qual seja, a concepção do poder como “relação”, e não como propriedade ou ainda como tendo o Estado como local privilegiado do seu exercício.

Quanto a Agamben, penso que uma relação importante com a genealogia nietzschiana pode ser feita pela mediação do pensamento de Walter Benjamin, tão caro a ele. A concepção benjaminiana de história deve bastante a Nietzsche. Talvez seja por isso – não conheço Agamben suficiente para fazer qualquer afirmação nesse sentido – que Agamben possa, aqui e ali, referir ao seu próprio trabalho como genealogia. De todo modo, poderíamos assinalar aqui que os desdobramentos operados por Agamben nos levam numa direção bem diferente da de Foucault e da de Nietzsche, na medida em que ele explora um viés muito especial, que é o dos fundamentos teológicos de nossa cultura. Nesse aspecto, o trabalho de Agamben não é só um exercício impressionante de erudição, mas de revelação igualmente extraordinária, das implicações teológicas das grandes ideias de nossa cultura. Ressalto, para evitar mal-entendidos, que distingo teologia e religião, embora entre ambas exista, é óbvio, um liame muito forte. Para mim, a teologia é um discurso tão importante quanto o da ciência e o da filosofia e, nessa perspectiva, não opera exclusivamente no registro da fé, como é o caso da religião. De todo modo, essa ligação subterrânea entre Foucault, Benjamin e Agamben encontra, no seu nascedouro, algumas propostas de análise desenvolvidas por Nietzsche.

IHU On-Line – Ao lado de Marx e Freud, Nietzsche é considerado um dos mestres da suspeita. O que isso quer dizer?
Ernani Chaves – Em primeiro lugar, quem primeiro “suspeita” disso é o próprio Nietzsche. Usando uma estratégia retórica bastante comum nos seus textos, ele escreve logo na seção 1, do “Prefácio” de 1886, ao primeiro livro de Humano, demasiado humano (São Paulo: Companhia das Letras, 2000): “Man hat meine Schriften eine Schule der Verdachts genannt” (“Chamaram meus escritos uma escola da suspeita”). É muito lícito supor que, quem chama a si mesmo dessa maneira, é o próprio Nietzsche e não qualquer outra pessoa, como ele sugere. Além disso, toma a suspeita pelo fato de que a linguagem humana não remete a qualquer transparência em relação ao mundo e às coisas, como Nietzsche já havia mostrado no seu famoso texto de 1873, “Verdade e mentira no sentido extra-moral”. Assim, quando Foucault, na sua fala no Colóquio Nietzsche de Royaumont, em julho de 1964, se refere ao fato de que em Nietzsche, Freud e Marx algo de novo acontece no que se refere às técnicas de interpretação e que isso pode ser reunido em dois tipos de suspeito, me parece que Foucault está levando adiante uma proposição que já se encontra em Nietzsche e que ele estende aos outros dois, a Freud e a Marx. Entretanto, ele não os denomina, em nenhum momento, de “mestres da suspeita”.

Em segundo, essa denominação não é atribuída por qualquer desvario pós-moderno. Ao contrário: ela se encontra formulada em 1965, no grande livro de Paul Ricouer sobre Freud, justamente para sinalizar os profundos e radicais deslocamentos operados por Nietzsche, Freud e Marx no interior do pensamento e da cultura ocidentais. Os valores mais altos, as ideias mais importantes e mais caras a nós sofreram uma crítica decisiva por parte desses autores, de tal modo que a questão da interpretação não pode mais ser a mesma, depois dos diversos tipos de “inversão” de modelos paradigmáticos da metafísica e do idealismo, que os três produziram. Como ficamos sabendo pelo próprio Ricouer, embora seu livro tenha sido publicado apenas em 1965, ele se constitui de conferências proferidas alguns anos antes na Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Assim, sem que tivessem nenhum contato, Foucault e Ricouer estavam pensando na mesma direção.

Em terceiro lugar, uma interpretação análoga se encontra em um texto de Louis Althusser , “Freud e Marx”, de 1965, alinhado a Lacan e para livrar Freud de qualquer revisionismo, Althusser acrescenta o nome de Nietzsche ao lado de Marx e Freud, chamando-os de “filhos bastardos do século XIX”. Os móvitos são semelhantes aos de Foucault e Ricouer.

É importante notar que o pano de fundo comum dessa associação entre Nietzsche, Freud e Marx é a crítica que Foucault, Ricouer e Althusser dirigem à fenomenologia existencial de Sartre. Se a fenomenologia francesa do pós-guerra se constitui sob o signo dos três “Hs” – Hegel , Husserl e Heidegger – a oposição a ela se dá agora por “NFM” – Nietzsche, Freud e Marx.

Em suma, como se diz no jargão popular, “o buraco é mais embaixo”, ou seja, a associação entre Nietzsche, Freud e Marx – já feita anteriormente por Benjamin, Adorno e Horkheimer – na França do pós-guerra tem um sentido muito singular e se refere, antes de mais nada, a uma questão “paroquial”.

Meu propósito com isso é chamar atenção para o fato de que sem a inserção dessas questões na moldura histórica, nos embates políticos que animaram a Europa do pós-guerra, sua compreensão resta incompleta e insuficiente. Mas muita água ainda vai rolar sob essa ponte, uma vez que no próximo ano, 2019, as aulas de Foucault sobre Nietzsche, na Universidade de Lille, em 1954-1955, serão finalmente publicadas.

IHU On-Line – Qual é a importância do legado nietzschiano no debate acerca da biopolítica hoje? E quais são os desafios de se pensar a biopolítica tendo a obra filosófica de Nietzsche no horizonte?
Ernani Chaves – Foi Roberto Esposito , o filósofo italiano, que em seu livro Bios: filosofia e biopolítica (Lisboa: Editora 70, 2010) colocou em primeiro plano o papel de Nietzsche no debate sobre a questão da biopolítica. Partindo do famoso último capítulo do volume 1 da História da sexualidade (São Paulo: Graal, 2009), de Foucault, Esposito dá prosseguimento ao debate iniciado por Giorgio Agamben, mais de 10 anos depois (o volume 1 do “Homo sacer” é de 1993). Ambos discutem os limites da proposição de Foucault e ambos concordam que a separação entre ordem da soberania e ordem da biopolítica que Foucault postula, é equivocada.

Entretanto, é a inserção de Nietzsche no debate que separa Esposito de Agamben. E essa inserção, absolutamente central e necessária segundo ele, é porque em Nietzsche encontramos não só o acabamento, mas também o ultrapassado do círculo imunitário criado pela filosofia política dos séculos XVII e XVIII. É sempre para “imunizar” os súditos, que o soberano tem o direito de matar. Ora, diz Esposito, com Nietzsche esse tipo de modelo é implodido e, ao mesmo tempo, a concepção nietzschiana de vida torna possível pensarmos na biopolítica não apenas de modo crítico (como ele julga encontrar em Foucault), mas também uma biopolítica afirmativa. Para isso, Esposito precisou fazer uma interpretação muito geral do conceito nietzschiano de vida. Entretanto, Esposito afirma que em Nietzsche também podemos encontrar uma concepção de vida que pode ser facilmente apropriada pelo nazismo.

Para além de Esposito e a partir dele, encontramos os trabalhos de Vanessa Lemm. Se, na continuidade de Esposito, Lemm também atribui a Nietzsche um papel decisivo nessa discussão, ela vai se contrapor a Esposito no que se refere ao diagnóstico da possível apropriação da concepção de vida em Nietzsche pelo nazismo, fazendo, em diversos trabalhos e mais especialmente em sua tese de doutorado A Filosofia do animal em Nietzsche (2009), ao propor uma interpretação das relações entre cultura e civilização em Nietzsche.

O importante, ao meu ver, é que para ambos é possível pensar uma biopolítica afirmativa. O objetivo de minha intervenção, repito, é apresentar essa questão, tomando como horizonte a discussão sobre a questão das “raças” na “Genealogia”. Uma discussão absolutamente necessária, uma vez que Foucault afirmou que todo Estado é racista e que o ponto máximo de toda biopolítica é redefinir o racismo como sendo um racismo de estado, o racismo como modo de vida. É absolutamente terrível. A questão é: qual o papel de Nietzsche nessa questão?

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