Edição 529 | 01 Outubro 2018

O genealogista contra a moral de cartilha

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Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado

Clademir Araldi analisa como Nietzsche, ao construir sua Genealogia da Moral, coloca em causa um tipo de moralidade que esgota a humanidade e leva ao niilismo radical

Muito longe de uma visão simplista de Nietzsche como um sujeito melancólico, que tem entre suas alcunhas a de “pensador solitário”, sua obra tem como eixo um desejo vitalício, expresso em suas posições filosóficas. “O genealogista Nietzsche não possui uma postura neutra: ele se engaja para fomentar valores afirmativos da vida, e exige de seus leitores engajamento efetivo (e também disposição afetiva) para superar a moral cristã e propor novas maneiras de sentir, de pensar e de valorar”, pondera Clademir Araldi, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Combativo em relação ao niilismo, que é outra leitura enviesada do autor, no fundo ele buscava novas configurações para a existência humana muito além da moral de cartilha. “A moral desenvolveu-se ao longo da nossa história através de três formas de niilismo: o ressentimento, a má consciência e o ideal ascético. O niilismo é o modo próprio como Nietzsche interpreta a história da moral: quanto mais a moral determina os modos de vida do ser humano mais o niilismo se radicaliza, tornando o ser humano mais doente”, explica. “O niilismo é a doença do homem moral. Suas gêneses estão no judaísmo (uma rebelião dos escravos na moral, que teve êxito), no platonismo (desvalorização do mundo sensível) e no cristianismo (platonismo para o povo, o desenvolvimento do movimento de negação da vida pulsional por meio de valores antinaturais)”, complementa.

Clademir Araldi é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição, com aperfeiçoamento em Filosofia pela Universidade Técnica de Berlim, Alemanha. Cursou mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, com a tese O niilismo na moral. Investigação sobre a crítica da moral em Nietzsche, e doutorado na Universidade de São Paulo - USP, com a tese A radicalização do niilismo na obra de Nietzsche: acerca da posição de um novo sentido de criação e de aniquilamento. Realizou estágio pós-doutoral na Universidade Técnica de Berlim. É autor de Niilismo, criação, aniquilamento. Nietzsche e a filosofia dos extremos (São Paulo: Discurso Editorial, 2004). Atualmente, leciona na Universidade Federal de Pelotas - UFPel, onde é coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como se pode entender o contramovimento à tradição moral articulado em Genealogia da Moral?
Clademir Araldi – Ainda quando era adolescente, Nietzsche já fez seus primeiros ensaios para criticar e superar a moral. A obra Genealogia da Moral (São Paulo: Companhia das Letras, 1998) – doravante mencionada como Genealogia – é a culminância de sua longa caminhada crítica, de exploração do “grandioso país da moral”. No início dessa trajetória, Nietzsche estava um tanto incerto e vacilante em relação ao problema do mal moral. Ele ainda colocava a origem do mal em Deus, para além do mundo natural. Mas foi um ponto de partida imoral, bem afastado da filosofia moral moderna, em especial do imperativo categórico kantiano.

Com os estudos de história, de psicologia e de fisiologia, o pensador Nietzsche desenvolveu um projeto radical de naturalização da moral. Humano, demasiado humano, de 1878, é a primeira expressão vigorosa desse movimento de contraposição à moral da tradição cristã e filosófica ocidental. No tempo em que descrevia a origem dos sentimentos e preconceitos morais presentes em nossa cultura, o jovem professor da Basileia enveredou pela vida de filósofo errante. Já em Humano Nietzsche delineou a “dupla pré-história” dos valores de bem e mal: nos domínios dos nobres antigos, e no grande domínio da moral dos escravos. Tem início o filosofar histórico, o aprimoramento das observações psicológicas, a partir das leituras dos moralistas franceses e do confronto com o filósofo pessimista Schopenhauer . A maior pedra, ou problema, que ele encontrou em seu caminho de pensador solitário foi a moral. E como esse filósofo-genealogista levou a sério o problema da moral! Ou melhor, das muitas morais que efetivamente existiram e moldaram a vida dos indivíduos e grupos humanos. Para essa tarefa enorme, o discurso contínuo, na forma do tratado, a articulação de três temas principais em três dissertações foi o melhor método escolhido para dar conta dessa investigação genealógica e naturalista da moral.

O objetivo é bem claro e marcante, como consta no § 7 do Prólogo de 1887 da Genealogia: “O objetivo é percorrer a imensa, longínqua e recôndita região da moral – da moral que realmente houve, que realmente se viveu – com novas perguntas, com novos olhos”. Sem querer negar o impacto que as obras mais afirmativas (Assim falou Zaratustra [São Paulo: Companhia de Bolso, 2018] e O nascimento da tragédia [São Paulo: Companhia de Bolso, 2007]) tiveram na vida e no pensamento nietzschiano, a Genealogia é a obra em que mais se expressa o impacto crítico da vertente corrosiva e desconstrutiva de sua obra. Foi então que se abriu para ele uma perspectiva inusitada e colossal, foi então que “uma nova possibilidade dele se apodera como uma vertigem, toda espécie de desconfiança, suspeita e temor salta adiante, cambaleia a crença na moral, em toda moral ”. Assim se expressa o genealogista Nietzsche no Prólogo da Genealogia.

Enfim, com a Genealogia Nietzsche pretende levar adiante a tarefa que ele se propôs em Para além de bem e mal (São Paulo: Companhia de Bolso, 2005), de elaborar uma “história natural da moral”, de modo a romper com os projetos de fundamentação da filosofia moral, e também com as normas da tradição religiosa e cultural do Ocidente. Genealogia da Moral tornou-se mais do que “um escrito polêmico”, mais do que um complemento e esclarecimento à obra Para além de bem e mal. A “genealogia da moral” foi o método que Nietzsche desenvolveu mais longamente para descrever o surgimento e o longo desenvolvimento dos valores morais. Foi o método de que ele se serviu como ferramenta de grande valia para criticar os valores morais que se sedimentaram em nossa cultura e em nossa existência contemporânea. O método genealógico, no entanto, não se detém na radicalização da crítica à moral por suas consequências niilistas. O genealogista Nietzsche não possui uma postura neutra: ele se engaja para fomentar valores afirmativos da vida, e exige de seus leitores engajamento efetivo (e também disposição afetiva) para superar a moral cristã e propor novas maneiras de sentir, de pensar e de valorar. Ou seja, a meta está na construção de novas formas de vida para além da moral. É um desafio voltado ao indivíduo, limitado e moldado ainda pela vida em comunidade: o de ser criador de si mesmo. Esse é o projeto afirmativo básico de naturalização da moral e de modos humanos de viver que move a Genealogia.

IHU On-Line – Em termos estilísticos, essa é uma das únicas obras de Nietzsche que não se vale do estilo aforismático, mas sim de três dissertações que se entrecruzam. Há alguma razão especial para isso?
Clademir Araldi – Humano, demasiado humano (São Paulo: Companhia das Letras, 2000), Aurora (São Paulo: Companhia das Letras, 2000) e A gaia ciência (São Paulo: Companhia das Letras, 2001) são obras em que Nietzsche tratou o problema da moral de modo preponderantemente aforismático. Nesses anos de filosofia do espírito livre já foram estabelecidos os principais focos de sua crítica à moral: a crítica ao altruísmo, ao ascetismo na moral, à renúncia de si, à negação da natureza, da história e dos instintos vitais. Nesses ensaios pré-genealógicos, o filósofo solitário e andarilho já esboça a origem da eticidade do costume (die Sittlichkeit der Sitte), que moldou o caráter da humanidade ao longo de muitos milênios. Embora se dedique a analisar a procedência do sentimento de compaixão, da justiça, do castigo e do altruísmo, Nietzsche não tem ainda uma noção de valor construída de modo metódico e com relevância para a ética filosófica. Na Genealogia ele opera com uma noção de valor bem elaborada, de modo a poder investigar o “valor dos valores”, principalmente na moral cristã. O método genealógico seria o método mais apropriado para dar conta dessa exigência: “Necessitamos de uma crítica dos valores morais, o próprio valor desses valores deverá ser colocado em questão – para isto é necessário um conhecimento das condições e circunstâncias nas quais nasceram, sob as quais se desenvolveram e se modificaram [...] um conhecimento tal como até hoje nunca existiu nem foi desejado” (Genealogia da Moral, Prólogo, § 6). Assim, as três dissertações se entrecruzam em seu propósito crítico, de desmascarar a moral judaico-cristã, assim como os seus desdobramentos modernos na política, na ciência e na cultura, e por seu foco criativo, de propiciar uma transvaloração de todos os valores. Depois de criticar a moral por suas consequências niilistas nefastas, o filósofo solitário quer abrir novamente o caminho para atingir configurações mais elevadas do tipo homem.

Por fim, gostaria de apontar que Nietzsche utilizou vários estilos em suas obras (vários modos de escrita aforismática, poemas em prosa, cartas, sentenças, ditirambos, tratados, ensaios...). Enquanto em Bem e mal os aforismos são intercalados com discursos contínuos, na Genealogia as três dissertações estão encadeadas através de textos construídos com maior extensão, procurando salientar o tom da polêmica e da tarefa terapêutica (da transvaloração), em conexão com o teor argumentativo e descritivo da abordagem genealógica dos valores.

IHU On-Line – É possível apontar um fio condutor entre as três dissertações?
Clademir Araldi – Sim, considero que há um fio condutor bem definido, que perpassa e articula as três dissertações da Genealogia: a investigação da moral enquanto movimento de posição, desenvolvimento e autodestruição de valores hostis à vida. Julgo que essa obra é importante, ao mostrar a implicação existente entre religião, moral e niilismo. Ou seja, a moral desenvolveu-se ao longo da nossa história através de três formas de niilismo: o ressentimento, a má consciência e o ideal ascético. O niilismo é o modo próprio como Nietzsche interpreta a história da moral: quanto mais a moral determina os modos de vida do ser humano mais o niilismo se radicaliza, tornando o ser humano mais doente. O niilismo é a doença do homem moral. Suas gêneses estão no judaísmo (uma rebelião dos escravos na moral, que teve êxito), no platonismo (desvalorização do mundo sensível) e no cristianismo (platonismo para o povo, o desenvolvimento do movimento de negação da vida pulsional por meio de valores antinaturais).

Assim, com a Genealogia Nietzsche quer realizar a anamnese e o diagnóstico da doença do homem moral, mostrando como opera o mecanismo psicológico do ressentimento, como surgiu o castigo e a consciência moral (consciência da culpa, as duas formas de má consciência). Depois de analisar a procedência dos valores morais bom e mau, bom e ruim ao longo da história, as consequências do trabalho da má consciência no corpo da humanidade, a tarefa consistiria em prognosticar as formas futuras do niilismo, o sentido do ideal ascético, a partir das ações e prescrições desse estranho “médico”, que foi o padre ascético, ao rebanho doente. Por isso, Nietzsche une a tarefa crítica com a tarefa criativa em seu projeto de genealogia e de naturalização da moral. Não é um trabalho meramente erudito, mas é um “escrito polêmico”, no intuito de interferir na dinâmica do mundo moderno, abalando suas crenças valorativas.

IHU On-Line – Em termos de conteúdo, por que essa obra causou impacto à época de sua publicação? Pode-se dizer que hoje ela é melhor compreendida?
Clademir Araldi – A Genealogia de Nietzsche causou impacto no final do século XIX e, principalmente, no século XX, pelo tom crítico, provocativo e polêmico em relação aos valores que são centrais em nossa cultura e em nossas formas concretas de vida. Os ataques à moral cristã, a seu ascetismo, a seu caráter patológico, a seu ascetismo negador da vida, ao cristianismo como moral e em suas secularizações modernas são elaborados com vigor psicológico e argumentativo, de modo a envolver o leitor nos problemas abordados na genealogia dos valores morais. Entendo que a obra causou impacto também porque abordava um tema que era muito angustiante à época: a crise dos valores, o temor de derrocada das bases religiosas e morais da cultura ocidental, em suma, o problema do niilismo. Nietzsche se insere nesse debate com o diagnóstico sombrio da história do niilismo, propondo uma receita de superação também radical: o estabelecimento de novos valores e de formas de vida para além da velha moral.

Sem dúvida, atualmente temos melhores interpretações e análises da Genealogia do que no início do século XX. Isso se deve ao trabalho filológico e crítico acerca dos textos nietzschianos, publicados e póstumos, bem como ao interesse de comentar e analisar criticamente a Genealogia a partir das fontes que Nietzsche utilizou, de seu método e de seus propósitos. Temos uma tradição rigorosa de interpretações, exegeses e discussões sobre a genealogia que se consolidou nas últimas décadas. Entretanto, não se pode dizer que temos hoje uma interpretação canônica e definitiva da Genealogia. Até porque cada época acaba retomando a obra de uma certa perspectiva, a partir de problemas e de horizontes próprios de cada investigador. O problema do niilismo, principalmente, reaparece em nosso horizonte de início de século, numa perspectiva quiçá ainda mais sombria, com a crescente destruição do mundo humano, com auxílio da tecnociência. São as novas metamorfoses do niilismo na era digital, que já foram antevistas por Heidegger , a partir do diagnóstico nietzschiano.

Chamo a atenção para o caráter incompleto da Genealogia. Nietzsche fez projetos para escrever a quarta, quinta e sexta dissertação... Isso não é novidade para um autor que fez tantos projetos de obras, que pretendeu retomar várias obras! Quando trata do problema do ideal ascético, no final da Genealogia, o Solitário Filósofo menciona que desenvolveria mais essas análises no texto “A história do niilismo europeu”, que faria parte de uma grande obra em preparação: A vontade de poder. Ensaio de uma transvaloração de todos os valores. Apesar dos inúmeros projetos, formulações, retomadas, essa obra nunca foi concluída, sendo abandonada no final de agosto de 1888. Apesar disso, nos últimos dois anos de vida consciente, Nietzsche desenvolveu bastante suas críticas ao caráter ascético e niilista da moral cristã. É verdade que a Genealogia não causou o impacto esperado por Nietzsche. Por isso, em 1888 ele escreve O Anticristo (São Paulo: Companhia das Letras, 2007), em tom ainda mais polêmico e agressivo. Penso que hoje entendemos melhor as implicações das investigações genealógicas da moral no interior da obra de Nietzsche e como esforço de ir além da crise de valores do extenuado século desse inquieto filósofo alemão. Conseguimos distinguir melhor entre o que Nietzsche herdou dos problemas, angústias e ilusões do século XIX, e suas construções originais, que têm valor filosófico mais duradouro.

Não há respostas definitivas ou satisfatórias para seus questionamentos radicais, como por exemplo: o niilismo como grave doença da vontade é a lógica intrínseca da longa história da moral que, por fim, levará à autodestruição do homem moral e de seu mundo? Somente um imoralista pode radicalizar e superar o movimento niilista da moral dos escravos? Ou é preciso um movimento autorreferencial, de assumir em si as consequências dos valores morais cristãos, para poder ultrapassá-los a partir de si mesmos? A arte enquanto boa vontade para a aparência – enquanto santificação da mentira e das ilusões – é o único antídoto ao niilismo? Essas questões, dentre outras, geraram respostas e perspectivas muito promissoras em relação à Genealogia.

IHU On-Line – No que tange à metodologia, Genealogia da Moral influenciou largamente Foucault. Como analisa essa herança nietzschiana nos escritos desse filósofo?
Clademir Araldi – Entendo que essa herança é mais marcante nos escritos de Foucault da década de 1970. É quando Foucault assume as contribuições do método genealógico de Nietzsche, como ferramentas que ele aplica para analisar vários temas e problemas da sociedade ocidental dos últimos séculos: o poder disciplinar, o internamento, as relações de poder na fábrica, na escola, na família, a repressão, o sistema prisional. Essa herança está muito bem expressa no escrito Nietzsche, a genealogia, a história. Foucault, desse modo, é um continuador da genealogia nietzschiana. Enquanto Nietzsche é um tanto especulativo em relação a alguns aspectos da genealogia, como por exemplo, acerca da procedência dos valores cristãos desde o ressentimento, Foucault possui análises genealógicas mais detalhadas e empíricas. Entretanto, o chamado Foucault ético, dos anos 1980, possui uma relação mais distante e indireta com a genealogia nietzschiana. Justamente quando constrói os projetos da ética do cuidado de si e da estética da existência, Foucault retorna ao mundo antigo com preocupações bem diferentes das de Nietzsche. Basta compararmos as análises do cuidado de si de Foucault no cinismo, no estoicismo e no epicurismo antigos com as de Nietzsche. Apesar disso, o pensador francês sempre reconheceu essa herança genealógica de Nietzsche, mesmo quando propõe uma genealogia das artes de viver, e quando propõe uma nova leitura da história da filosofia a partir da coragem da verdade dos cínicos e da estetização da existência. Apesar de serem diferentes, as perspectivas que se abrem a partir da abordagem genealógica dos dois autores são estéticas.

IHU On-Line –Qual é a importância de Paul Rée nas ideias desenvolvidas em Genealogia da Moral?
Clademir Araldi – Paul Rée foi um autor e amigo muito importante na vida de Nietzsche. Rée e Nietzsche tiveram uma profícua amizade filosófica nos anos de 1876 a 1882. Nos anos de 1876 e 1877, principalmente, o intercâmbio filosófico foi mais intenso, e resultou na obra Humano, demasiado humano (1878) e na obra A origem dos sentimentos morais (1877). Ambos os autores foram influenciados, com diferentes intensidades, pela filosofia pessimista schopenhaueriana, pelos moralistas franceses e pelo naturalismo de Darwin. Eles recusam a explicação anistórica de Schopenhauer para a moral, buscando construir, cada um com preocupações próprias, projetos de naturalização da moral. O que há de comum nos projetos naturalistas de Rée e de Nietzsche nesses anos é a valorização da observação psicológica (dos moralistas franceses), os estudos de história natural, de fisiologia, de etnologia, de antropologia cultural, da medicina e das demais ciências naturais. A Genealogia é o momento em que Nietzsche rompe radicalmente com o autor de A origem dos sentimentos morais, quando critica o pretenso caráter superficial e errôneo das genealogias de Paul Rée, principalmente em relação ao altruísmo e à compaixão.

Mesmo que em comparação com Rée Nietzsche tenha se tornado um autor com maior relevância na filosofia contemporânea, é importante reconhecer a forte influência do judeu-pomerano para a filosofia de Nietzsche. A Genealogia da Moral é também um acerto de contas com Rée: “O primeiro impulso para divulgar algumas das minhas hipóteses sobre a procedência da moral me foi dado por um livrinho claro, limpo e sagaz – e maroto –, no qual uma espécie contrária e perversa de hipótese genealógica, sua espécie propriamente inglesa, pela primeira vez me apareceu nitidamente, e que por isso me atraiu – com aquela força de atração que possui tudo o que é oposto e antípoda. O título do livrinho era A origem dos sentimentos morais, seu autor, o dr. Paul Rée; o ano de seu aparecimento, 1877” (Genealogia da Moral, Prólogo, § 4). Essa avaliação de Nietzsche é um tanto parcial, pois nos anos de 1876 e 1877 ele partilhava com Rée mais “hipóteses genealógicas” do que ele admite em 1877. O confronto com Paul Rée foi importante para consolidar os estudos de Nietzsche sobre o valor da moral da compaixão e para investigar o valor “natural” do egoísmo.

IHU On-Line – Dentro do contexto dos desenvolvimentos da ciência e da filosofia no século XIX, como se pode explicar a dificuldade de estabelecer conexões entre a naturalização da moral e a genealogia da moral nietzschiana?
Clademir Araldi – Nietzsche buscou apoio nas ciências, principalmente na fisiologia, na medicina, na história e na psicologia nascente, para naturalizar a moral. Assim, essas ciências seriam imprescindíveis para naturalizar a genealogia da moral nietzschiana. O projeto nietzschiano de naturalização da moral tem sua elaboração mais consistente justamente com o método e com a obra da Genealogia da Moral. São muitas as dificuldades com que Nietzsche se deparou para construir um projeto naturalista em relação à moral. Em primeiro lugar, os resultados ainda pouco animadores das ciências na época em que o Solitário Pensador escreveu, por exemplo, da biologia, da psicologia, da fisiologia e da antropologia. Vivia-se, contudo, na expectativa de grandes avanços nas ciências naturais, que triunfam na cultura da segunda metade do século XIX. A teoria da seleção natural de Darwin foi o grande avanço naturalista desse século, que causou profundo impacto na filosofia, principalmente na ética. Nietzsche concorda com Darwin que nossos valores morais provêm de nosso passado animal natural. Entretanto, Nietzsche quer propor uma abordagem naturalista em contraposição à de Darwin, como alternativa à luta pela sobrevivência e ao impulso de autoconservação. Tanto a genealogia quanto o naturalismo de Nietzsche dependem de sua concepção de vontade de poder, que é o critério utilizado por ele para criticar os valores morais e para criar novos valores. Apesar das dificuldades de fornecer uma base empírica para a vontade de poder, para a luta sem fim dos impulsos no mundo, a busca por construir uma fisiopsicologia mostra bem o caráter naturalista da genealogia: a união da fisiologia com a psicologia a partir dos métodos das ciências naturais. A genealogia e a naturalização da moral mostram bem esse esforço para articular as tarefas críticas e afirmativas do pensamento maduro de Nietzsche.

IHU On-Line – Nesse sentido, como podemos entender o registro da fisiologia e da fisiopsicologia em seus escritos, que reside por trás dos preconceitos morais?
Clademir Araldi – Desde a obra Aurora Nietzsche entende que os processos fisiológicos são as causas efetivas para nossos valores e juízos morais. Por isso, a fisiologia será muito importante para a genealogia da moral, para investigar o valor dos valores. Ao contrário das especulações metafísicas e idealistas, Nietzsche quer investigar as verdadeiras causas fisiológicas que estão na base de nossos valores e preconceitos morais. Se Nietzsche tivesse desenvolvido a fisiopsicologia dos impulsos humanos por um viés mais empírico (com base na fisiologia e psicologia da época) ele teria se livrado de muitas implicações ontológicas, substantivas. Mesmo que estabeleça o caráter plural das vontades de poder, que lutam para ampliar seu domínio e para hierarquizar os impulsos, a vontade de poder tem a pretensão de definir o que é a “essência” do mundo, a saber, que ela é a natureza primária dos impulsos humanos e cósmicos. Nenhum biólogo importante se esforçou para provar que a vontade de poder é o impulso básico dos seres orgânicos! O autor da Genealogia não conseguiu unir de modo satisfatório a psicologia com a fisiologia. Mas esses ensaios para superar a dicotomia corpo-alma, para propor a noção de uma unificação fisiopsicológica são muito relevantes. A fisiopsicologia é um caminho promissor, pouco desenvolvido por Nietzsche, que permite ir além da concepção de uma subjetividade separada do corpo, em direção a uma análise mais acurada da motivação real de nossas ações, bem como do que determina nossos valores, nossos juízos e nossos modos de vida.

IHU On-Line – Por que o naturalismo em Nietzsche possui uma preocupação sobretudo de cunho ético? A partir disso se poderia pensar em uma superação do niilismo?
Clademir Araldi – Sim, o naturalismo de Nietzsche tem como foco os valores morais. Aliado ao procedimento genealógico, o naturalismo tem um cunho basicamente ético, à medida que pode fornecer as condições fisiopsicológicas para novas formas de agir e de viver. Entretanto, o projeto ético nietzschiano difere radicalmente da filosofia moral racionalista e prescritivista moderna, bem como da compreensão de ética e de natureza humana de Hume . A criação de novos valores e de formas éticas de existir possui um cunho artístico. Assim, a tarefa dos Filósofos do Futuro é de propor novos valores não morais, que expressem seus estados criativos e sua constituição pulsional. As raízes desse naturalismo ético estão na Filosofia do Espírito Livre, principalmente na arte de viver esboçada em A gaia ciência, nos ensaios de estilizar o caráter. A partir de Para além de bem e mal, Nietzsche reforça a preocupação em moldar o futuro do homem como a tarefa mais urgente para o naturalismo ético, em face das ameaças do niilismo, da desvalorização dos valores morais. Com isso, há um vínculo forte do naturalismo com os poderes artísticos humanos. Depois de remover as camadas das falsas interpretações morais e religiosas da natureza, o naturalista com pretensões éticas Nietzsche pretende retroverter o homem à natureza. A naturalização do homem e da moral, contudo, pode ser realizada somente com meios estéticos.

Além de crítico-genealogista, que colocou em questão o valor de todas as morais, Nietzsche é sobretudo o pensador com um projeto singular de naturalismo de cunho ético-estético que, no limite, extrapola o âmbito da moral. Entretanto, é problemático o modo como ele transpõe conceitos dos domínios da biologia e da estética para o domínio da ética. Mais incompleto ainda é o ensaio de fundir a ética com a estética. O sentido ético-estético afirmativo do naturalismo nietzschiano é projetado para um tempo futuro, ao caráter próprio dos novos valores naturalistas, que seriam criados a partir de novas configurações fisiopsicológicas dos Filósofos do futuro. Nesse sentido, é preciso coragem para assumir as tarefas preliminares de crítica dos valores, para poder abrir espaço para novas formas de valoração. O novo tipo de homem, com sua “grande saúde” ou, no mínimo, com modos mais saudáveis de vida, é quem estaria em condições de superar o niilismo. Lembremos que o niilismo teria adoecido o corpo inteiro da humanidade moderna, em certo sentido o próprio Nietzsche, que se considerava “o mais moderno entre os modernos”.

IHU On-Line – Quais os pontos de contato entre a naturalização da moral e a arte em Nietzsche? Em que medida a arte preenche o espaço da criação pelos filósofos do futuro?
Clademir Araldi – Não há em Nietzsche um naturalismo moral, em sentido forte, como supõem algumas abordagens naturalistas contemporâneas de Nietzsche, como a de Brian Leiter . Isso porque a naturalização dos valores morais pode ser efetivada somente com meios artísticos. Nietzsche não faz uma distinção relevante entre ética e estética em seu projeto de naturalização, nem justifica como ocorreria a identificação da ética com a estética. A partir de 1887, ele propõe a Fisiologia da arte, segundo a qual a arte e todas as criações artísticas possuem pressupostos fisiológicos, determinantes para o agir e para a formação do caráter. Penso que os projetos da “fisiologia da arte”, da “vontade de poder enquanto arte” permitem uma conexão promissora entre a naturalização da moral e a arte. Aplicado à arte, o método genealógico naturalista está a serviço das tarefas criativas do Filósofo Nietzsche.

Como vimos acima, são os Filósofos do futuro os tipos de homem com condições para criar novos valores e novas formas de vida ético-estéticas. As experiências éticas e valorativas dos nobres do passado podem ser instrutivas para essas novas formas de vida. Mas a nobreza do futuro criaria novos valores a partir das novas condições de vida, que emergem da crise dos valores morais. Nietzsche é um antirrealista em relação ao valor, porque não podemos prever ou determinar com justeza quais serão esses ‘novos valores’. O niilismo moral tem consequências relativistas, pois, após a ruína dos valores morais e da interpretação moral do mundo, parece que nada mais possui valor. A filosofia perspectivista dos valores de Nietzsche tem o desafio de mostrar que não recai também no relativismo e no solipsismo. São enormes os desafios de Nietzsche para mostrar que a transvaloração dos valores não é apenas uma tarefa individualista, de indivíduos singulares que querem libertar-se da tradição e superar a si mesmos.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Clademir Araldi – Gostaria de concluir dizendo que temos interpretações muito boas da Genealogia da Moral de Nietzsche no Brasil. Refiro-me aos trabalhos de Scarlett Marton, de Antonio Edmilson Paschoal, de Vânia Dutra de Azeredo e de Oswaldo Giacoia Junior, que contribuíram muito para compreender bem as implicações e as pretensões da abordagem genealógica nietzschiana dos valores morais. ■

Referência

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral. Uma polêmica. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Leia mais

Hölderlin e Nietzsche e o trágico como denominador comum. Entrevista com Clademir Araldi, publicada na revista IHU On-Line, nº 475, de 19-10-2015.

O niilismo como doença da vontade humana. Entrevista com Clademir Araldi, publicada na revista IHU On-Line, nº 354, de 20-12-2010.

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