Edição | 01 Outubro 2018

A navalha da consciência na carne do tempo

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Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado

Antonio Edmilson Paschoal sustenta que o projeto moral nietzschiano busca resgatar no sujeito a autoconsciência como forma de superar o ideal ascético da culpa em nome da potência de vida

O processo que transforma alteridades em diferenças, isto é, a versão domesticada do outro, pode ser explicado pelo mesmo fenômeno que homogeniza a potência humana de invenção de si e de novas formas de vida, sobretudo as resistentes ao status quo. Produzir rupturas significa “‘colocar a faca na carne de seu tempo’, mostrando que a mesma moral que prega o rebanho pacificado, que promete retirar do homem o perigo que ele poderia representar, retiraria dele também aquilo que é nobre nele, tornando-o patético e um motivo de desprezo”, pondera Antonio Edmilson Paschoal, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Se há sofrimento, o homem e tão somente ele próprio é o responsável, como se a ele não houvesse a agência de uma série de forças políticas, sociais e religiosas. Nesse sentido, Nietzsche abre um debate que coloca em cena a possibilidade de superação do “ideal ascético, vinculado à figura do sacerdote ascético que produz no homem que sofre uma espécie de letargia, um efeito hipnótico que faria com que esse homem pudesse suportar o sofrimento sem, de fato, atentar para as suas causas”, sugere.

Uma das contribuições de relevo do pensador alemão que encontra ressonância em nossas sociedades do século XXI é pensar a noção de justiça a partir de outro lugar. “Outro benefício é considerar possibilidades de se pensar a justiça, diria, “para além do ressentimento”, ou seja, não apenas como punição, o que seria próprio da justiça entendida como vingança, mas de se tomar a justiça, assim como a moral, como meio para constituir formas mais elevadas de vida. A justiça como meio e não como um fim”, ressalta.

Antonio Edmilson Paschoal é graduado em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC-PR, mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP e doutor em Filosofia pela Universidade de Campinas - Unicamp, com pesquisa desenvolvida na Freie Universität-Berlin. Além disso, realizou estágios pós-doutorais na Universität Leipzig e na Ernst Moritz Arndt Universität Greifswald.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Tomando em consideração Genealogia da Moral, qual é o nexo entre sujeito, má consciência e ressentimento?
Antonio Edmilson Paschoal – Vou responder as perguntas sempre em termos muito amplos e genéricos, pois precisaria de tempo e muito material em mãos para dar o tratamento preciso que cada questão merece. Sendo assim, sobre essa primeira questão, devo dizer o seguinte.

Em linhas gerais, podemos dizer que na Genealogia da Moral em seu conjunto temos uma dura crítica de Nietzsche à noção de sujeito. Por exemplo, na Primeira Dissertação é evidente a sua contraposição à ideia de um sujeito livre e responsável. De um agente que seria anterior à ação e responderia por ela, como se observa na seção 13, quando ele afirma que um “sujeito” atuante é uma ficção e arremata dizendo que “a ação é tudo!”. Uma contraposição que, na Segunda Dissertação, ganha contornos de uma crítica à ideia de “culpa”, visto que a noção de culpa está associada diretamente àquela ideia de sujeito.

Por sua vez, observar o nexo dessa crítica ao sujeito com os conceitos de má consciência e de ressentimento exige considerar alguns aspectos preliminares desses conceitos. Provisoriamente, podemos concordar que o ressentimento seria uma sede de vingança, uma reação de alguém que sofreu um dano contra o seu agressor. Contra essa pessoa, que na opinião daquele homem que sofre é a causa do seu sofrimento, ele volta todo o ódio e o rancor produzido por aquela desdita. Porém, na medida em que a sua fraqueza o impede de reagir de fato, ele termina por voltar aquele rancor que não é descarregado sobre o seu agressor para o seu mundo interior, que se torna, assim, um palco de sentimentos hostis.

A má consciência, por sua vez, também traz consigo a ideia de doença, mas seria uma doença que teria acometido o homem no seu processo de sociabilização. Uma doença que não surge em função da introdução do homem no âmbito da sociedade e da paz, quando o homem não pode mais descarregar sua violência para fora, contra seus inimigos externos, e a volta contra si próprio, produzindo a interiorização do homem e ampliando seu mundo interior. Nesse ponto, cabe observar que Nietzsche se refere inicialmente (em GM II 16) à má consciência como a uma doença, ou uma fatalidade da qual o homem não poderia escapar no seu processo civilizatório. Uma doença entendida como se fosse possível pensar a gravidez como uma doença. Uma doença que permitiria, assim, o futuro do homem e tornaria o homem um animal interessante.

O conceito de má consciência, contudo, sofre alterações no texto de Nietzsche justamente quando é assimilado pela interpretação religiosa do sofrimento, no âmbito da qual não é mais tomado como uma fatalidade, mas é associado à ideia de culpa. No interior da interpretação religiosa, o sofrimento correspondente à má consciência diria respeito ao fato de o homem ter pecado. O homem sofre porque pecou. De fato, temos aqui uma aproximação entre má consciência e ressentimento, pois o homem àquele homem que procura um culpado pelo seu sofrimento (problema do ressentimento), o sacerdote apontará como culpado ele mesmo. É contra ele mesmo que ele deverá voltar sua sede de vingança, porque ele, o próprio sofredor, enquanto pecador, seria o culpado pelo seu sofrimento. E o remédio proposto pelo sacerdote, a ascese, seria uma espécie de vingança do homem contra si mesmo. Um modo de pensar que Nietzsche segue entendendo como uma doença, mas não mais como a gravidez seria uma doença, mas a loucura.

Assim, em linhas gerais, seria possível afirmar que, no âmbito da Genealogia, o conceito de sujeito aparece ligado à ideia de culpa em todo o seu alcance, tanto econômico, quanto moral e religioso, num campo em que se coaduna com as noções de má consciência e de ressentimento.

Toda essa loucura, contudo, não seria a única forma de pensar o tema do sujeito nesse livro. Há outras alternativas. Como é o caso da ideia de um sujeito tomado como produto, seja como caráter, seja como subjetividade, em todo caso, como um resultado da moral, ou de uma determinada moral que produz tipos humanos em termos gerais e homens, subjetividades em termos concretos.

IHU On-Line – Em que aspectos se pode falar em uma superação do ressentimento na filosofia de Nietzsche? Como isso se delineia na Genealogia?
Antonio Edmilson Paschoal – A superação do ressentimento é um tema caro a um grande amigo, o professor Oswaldo Giacoia Junior, que se ocupou em várias ocasiões da ideia da superação e da autossuperação em Nietzsche. Faço aqui uma singela homenagem ao professor Oswaldo, embora não poderei citar diretamente os seus textos nessa nossa conversa que é, a rigor, informal.

Na Genealogia da Moral a ideia de uma superação do ressentimento aparece ao menos em dois momentos. Na segunda dissertação, como uma autossuperação da justiça entendida como vingança e na terceira dissertação, como uma superação daquela ideia de pecado associada ao ideal ascético que mencionamos na resposta da questão anterior.

No primeiro caso, a ideia de ressentimento a ser superada é aquela que vincula a justiça ao ressentimento e que é feita, segundo Nietzsche, em especial por Eugen Dühring , que ao afirmar que a justiça equivaleria à própria sede de vingança, colocaria no mesmo patamar, como sinônimos, a justiça e a vingança. O que equivaleria, nas palavras de Nietzsche, a sacralizar a vingança ao conferir a ela o nome de justiça. Justamente essa ideia de justiça, predominante na modernidade, que tem seu início com a proposição básica de que tudo tem um preço e tudo deve ser pago, teria seu fim não por uma espécie de retrocesso a estágios anteriores ao de sua emergência, mas ao ser levada às suas últimas consequências. O que ocorreria com o crescimento do poder da comunidade e da consciência desse poder. Assim, grande o suficiente para não se preocupar com seus parasitas, essa sociedade que a tudo cobrava, num tal estágio poderia se dar o mais extremo luxo de “deixar passar os insolventes”, o que receberia, nos termos de Nietzsche, o nome de graça ou de autossuperação da justiça, particularmente da justiça saída do subsolo do ressentimento.

A segunda ideia de superação do ressentimento aparece de forma mais sutil no texto. Trata-se do debate aberto pelo filósofo sobre as possibilidades de superação do ideal ascético, vinculado à figura do sacerdote ascético que produz no homem que sofre uma espécie de letargia, um efeito hipnótico que faria com que esse homem pudesse suportar o sofrimento sem, de fato, atentar para as suas causas. A superação, no caso, não seria por meio da ciência ou de outras formas de enfrentamento do ideal ascético que afirmariam o seu ideal da verdade a todo custo e estariam, assim, alinhadas ao ideal ascético, mas por meio dos “comediantes do ideal ascético”. Tais comediantes, como no caso anterior, não corresponderiam a uma negação daquilo que suprimem, mas eles mesmos seriam sinal de um estágio de desenvolvimento dessa moral e busca da verdade no qual o próprio ideal de verdade e moralidade teria sido levado às suas últimas consequências, ao ponto de se poder concluir que também a velha moral “é coisa de comédia”, como afirma o filósofo ainda no prefácio da Genealogia.

IHU On-Line – Quais são as contribuições fundamentais que Nietzsche oferece à filosofia quando propõe essa análise?
Antonio Edmilson Paschoal – A crítica de Nietzsche à moral dificilmente poderia ser tomada de forma a permitir, por exemplo, a confecção de um conjunto de normas de valor universal. Dificilmente se poderia também fundamentar uma teoria da justiça a partir da filosofia de Nietzsche. E isso não ocorre por uma espécie de deficiência do seu pensamento, mas do fato mesmo de que ele não oferece ou defende uma moral que poderia ser popularizada, ou regras que poderiam se tornar universalmente válidas ou algo assim. A grande contribuição de Nietzsche nesse campo, no qual parece que somos condenados a viver com regras e normas comuns, é justamente a desconfiança que produz frente a esse tipo de normatização que leva a uma uniformização e massificação do homem. E é assim que ele atua. Esse é o seu caráter propositivo. Não por afirmar um conjunto de regras de valor universal, mas por avaliar a moral, por colocar em dúvida sua utilidade ou desvantagem em especial para a elevação do indivíduo.

Sua contribuição consiste, assim, em colocar “a faca na carne de seu tempo”, mostrando que a mesma moral que prega o rebanho pacificado, que promete retirar do homem o perigo que ele poderia representar, retiraria dele também aquilo que é nobre nele, tornando-o patético e um motivo de desprezo. Nesse sentido, poderíamos dizer que, ao se tornar possível resumir esse homem a um número, a um dado estatístico, a própria miséria à qual ele é reduzido não parece mais algo inaceitável. Como deveria ser. Creio que essa é uma das contribuições de Nietzsche nesse debate. Outra seria, num sentido oposto, a ideia de tomar a moral como meio para o fortalecimento do indivíduo e para o cultivo de si como obra de arte.

IHU On-Line – Em que medida suas conclusões em Genealogia da Moral compõem o panorama geral de seu diagnóstico acerca do niilismo?
Antonio Edmilson Paschoal – O tema do niilismo é hoje um dos mais controversos na filosofia de Nietzsche. Isso porque a maioria dos textos que normalmente se utilizou para tratar dele encontram-se entre os fragmentos póstumos e anotações do filósofo. Um campo de estudos cercado de incertezas, em especial após o lançamento do volume IX das “Obras completas de Nietzsche” (KGW-IX), em que as anotações do filósofo aparecem de fato, como anotações e não como texto, como normalmente se acostumou a tomar essas anotações. Diante desse quadro, quando nos afastamos da ideia defendida por Heidegger , de que as principais teses do filósofo encontravam-se em seus apontamentos pessoais, ganha relevo o texto da Genealogia da Moral para o estudo do tema, pois esse é um dos escritos de Nietzsche em que o niilismo aparece de forma mais marcante, em se tratando da obra publicada, especialmente na terceira dissertação. Nele encontramos, por exemplo, a ideia do niilismo como um desdobramento da vontade de verdade, como é tematizado, por exemplo, nas seções 27 e 28 do livro, fechando, de certo modo, a argumentação da dissertação e vinculando o tema a tudo aquilo que foi tratado como ideal ascético. Creio que, desse ponto de vista, esse ainda é um tema que se encontra em grande parte em aberto hoje.

IHU On-Line – Em que sentido a vontade de poder é uma proposição moral?
Antonio Edmilson Paschoal – A vontade de poder pode ser entendida como uma proposição moral na medida em que consideramos a possibilidade de pensar a moral não como uma norma válida para todos, mas para um indivíduo, no sentido que mencionamos acima, ao respondermos a terceira pergunta da entrevista. Desse modo, pensada em termos individuais, uma norma, uma moral pode ser entendida como uma forma de afirmação da vida, do poder, de cultivo de si, uma vontade de poder que se refina. O contrário, porém, não pode ser desconsiderado, pois também uma moral de rebanho é produto de uma vontade de poder. Contudo, uma vontade de poder que tem a autodiminuição do homem como regra.

IHU On-Line – Quais são os pontos de correlação entre a genealogia e a vontade de poder em Genealogia da Moral?
Antonio Edmilson Paschoal – Eu começo a responder essa questão lembrando que a primeira formulação de Nietzsche da doutrina da vontade de poder, que encontramos em Assim falou Zaratustra (São Paulo: Companhia de Bolso, 2018), diz respeito apenas à vida: “onde encontrei vida, encontrei vontade de poder”. Mais adiante, em especial em Além do Bem e do Mal (São Paulo: Companhia de Bolso, 2005), constatamos uma ampliação do conceito, que passa a compreender não apenas o campo do que é orgânico, mas também do que é inorgânico. Desse modo, podemos dizer que o conceito se expande quando o filósofo afirma que “O mundo é vontade de poder!”, no aforismo 36 de Além do Bem e do Mal. Lembro contudo, que também em Além do Bem e do Mal, no aforismo 22, ele já introduzira a possibilidade de também o discurso ser apenas vontade de poder e nada além disso, o que é reiterado de forma veemente na seção 12 da segunda dissertação da Genealogia da Moral. Ali, especialmente ligada à ideia de interpretação como imposição de significados, a vontade de poder pode ser associada ao próprio discurso que fala o mundo. Mais ainda, ela permite inferir que o discurso do genealogista é parte do mundo – entendido como vontade de poder. Desse modo, diferente de alguém que olha o mundo de fora, o genealogista se coloca nele como parte interessada, com um discurso que não é neutro, mas que o interpreta, que se apodera do passado, por exemplo, a partir de certos interesses de poder. Creio que esse é o ganho que se tem na Genealogia quando pensada em associação à ideia de vontade de poder. Esse também é o motivo pelo qual se torna um tema interessante a genealogia de si, pois ela corresponde justamente à necessidade de mapear e identificar esse ponto, o do autor que fala, nos jogos de poder.

IHU On-Line – No que tange à ética e filosofia política, como as ideias de Nietzsche sobre uma moral revitalizada, aristocrática e que transcende o ressentimento podem abrir novos espaços para a ação no nosso tempo?
Antonio Edmilson Paschoal – Nietzsche é um filósofo muito profícuo para os debates contemporâneos, em especial numa época em que se acentua justamente o desaparecimento do indivíduo e o aumento das técnicas de massificação e de produção de sujeitos, no sentido em que o termo remete a sujeitado, subjugado massificado e pacificado, ao mesmo tempo. Nesse contexto, o seu interesse por colocar em relevo o indivíduo é de extrema importância. Não como uma valorização do indivíduo do individualismo moderno, dos interesses individuais que dariam a sustentação a uma economia de mercado, mas do indivíduo enquanto obra de arte, enquanto uma peculiaridade que precisa ser preservada e cultivada. Esse é o primeiro ganho da leitura de Nietzsche.

Outro benefício é considerar possibilidades de se pensar a justiça, diria, “para além do ressentimento”, ou seja, não apenas como punição, o que seria próprio da justiça entendida como vingança, mas de se tomar a justiça, assim como a moral, como meio para constituir formas mais elevadas de vida. A justiça como meio e não como um fim. Nesse sentido, tendo em vista que uma justiça em si não existe, caberia a pergunta, que concepção de justiça elevaria o tipo homem às alturas, e que concepção produziria o homem desprezível? A justiça como meio, ao modo como eu entendo, foi tomada, por exemplo, por Nelson Mandela e Desmond Tutu , na condução do processo de superação do Apartheid , na África do Sul. A justiça, no caso, não tinha um olhar para o passado, para a culpa e a punição, mesmo que isso não pudesse, em absoluto, ser retirado do horizonte naquele momento. Mas o foco principal era o futuro. A pergunta era pelo tipo de sociedade que resultaria do que era, então, chamado de justiça. Algo próximo da ideia de graça pensada por Nietzsche, que só seria possível por uma sociedade poderosa, ou, como se teve naquele caso, com pessoas com poder suficiente para colocar o futuro do homem acima da sede de vingança. O que não significa, infelizmente, que aquele futuro se cumpriu. Ao menos a curto prazo.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Antonio Edmilson Paschoal – Gostaria apenas de agradecer a oportunidade da conversa e espero que tenha sido boa. Não como respostas, mas como possibilidades de fazer das perguntas possibilidades de debates. ■

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