Edição 529 | 01 Outubro 2018

Por uma filosofia rigorosa e distante de uma linguagem barroca

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges | Edição: Ricardo Machado | Tradução: Vanise Dresch

Patrick Wotling destaca que a produção filosófica de Nietzsche se expressa em um modo de escrever que foge dos tecnicismos e de um desejo de erudição retórica

A tarefa filosófica por excelência, nos termos de Nietzsche, é a de erradicar a evolução patológica do que seria uma apreensão do mundo a partir do niilismo do pensamento engendrado pelo senso comum. O tensionamento desta perspectiva se dá, inicialmente, pela construção de um diagnóstico. Nesse contexto, o cristianismo, interpretado como alvo principal da crítica nietzschiana, é, no fundo, apenas um tipo de vetor moralizante dentro de um “ideal” ascético. “Para explicar em outras palavras, o cristianismo é apenas um elemento religioso e moral de um tipo de cultura mais ampla, mais vasta, o tipo ascético – sendo, portanto, uma cultura cujos valores defendem e privilegiam a existência de realidades suprassensíveis, exigem que a vida humana se organize a partir da busca desse suprassensível, evitando e neutralizando, assim, as condições da vida sensível que, por sua vez, é desvalorizada”, destaca Patrick Wotling, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Mais do que um provocador, Nietzsche desenvolve uma forma rigorosa de pensar filosoficamente, pautando-se por reflexão no mais das vezes minuciosa, precisa e coerente, expressa na retórica de seu texto. “A reforma do modo de pensar deve vir acompanhada por uma reforma completa do modo de usar a linguagem. Isso explica as armadilhas e as dificuldades constantes que a leitura do texto de Nietzsche apresenta. As dificuldades são ainda maiores porque Nietzsche parece escrever de maneira corrente, límpida, usando muito pouca terminologia técnica, contrariamente à maioria dos outros filósofos”, ressalta Wotling.

Patrick Wotling é professor na  Université de Reims Champagne-Ardenne. Fundador e diretor do Groupe international de recherche sur Nietzsche - GIRN, que realiza eventos anuais sobre o pensador.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Genealogia da Moral é uma espécie de aríete contra a moral cristã e a civilização ocidental. Nietzsche atinge seu objetivo com a crítica proposta?
Patrick Wotling – Genealogia da Moral (São Paulo: Companhia das Letras, 1998) é um livro complexo no qual Nietzsche faz várias coisas ao mesmo tempo. De um lado, ele mostra o problema que a moral traz exatamente para a filosofia, ou seja, o que deve ser investigado a respeito disso e qual metodologia a investigação filosófica deve seguir para tanto. É nesse contexto que se insere a ideia extremamente inovadora da genealogia, definida pelo parágrafo 6 do prefácio e aplicada nos três tratados que constituem o corpo da obra. Ora, como mostra Nietzsche de maneira muito detalhada, os filósofos têm se enganado até hoje quanto a essa questão. Eles pensaram que o problema era fundamentar a moral, mas Nietzsche afirma que o verdadeiro problema da moral não está em sua fundamentação (empreitada ilusória pela sua natureza interpretativa), mas em seu valor ou, em outras palavras, em suas repercussões sobre o desenvolvimento e o estado da vida humana. Isso já fora claramente destacado no livro V da Gaia Ciência (São Paulo: Companhia das Letras, 2001).

Em seguida, é preciso aplicar essa metodologia de investigação para mostrar, a partir de uma investigação sobre o sentido e as origens produtoras das noções de “bem” e “mal”, na realidade, de “bom” e “mau/ruim”, que existem várias maneiras totalmente diferentes de elaborar uma moral, as quais foram de fato experimentadas pela humanidade em diferentes períodos de sua história. Nietzsche estuda os dois tipos observados com maior frequência na história das sociedades humanas: o tipo de moral que tem como valores fundamentais o “bom” e o “ruim” baseados na autoglorificação e no pathos da distância (as sociedades dominadas por aristocracias militares em épocas muito antigas são um bom exemplo); e outro tipo que tem como par de valores fundamentais, ao contrário, o “bom” e o “mau”, em que prevalece um modo de afetividade agressiva, com o ódio e a vontade de vingança em relação aos fortes da primeira moral orientando a compreensão do bem e do mal (a moral veiculada pelo cristianismo). Por essa análise, Nietzsche mostra, em primeiro lugar, que a moral do cristianismo é apenas uma forma de moral entre outras e, em seguida, que ela possui origens produtoras (oriundas de certos afetos), não sendo, portanto, absoluta. Compreende-se por que o problema do fundamento desmorona.

Em outras palavras, “não existem fenômenos morais, mas somente uma interpretação moral dos fenômenos”, diz o parágrafo 108 de Além do Bem e do Mal (São Paulo: Companhia das Letras, 2001). A moral, portanto, não é um campo particular, autônomo, que possui seus próprios objetos (o bem, o mal, o agir bem, a responsabilidade, o dever...); sequer é um campo, mas antes uma maneira de interpretar – erroneamente – certos aspectos da vida humana que leva a considerar instâncias imaginárias como reais e autônomas: as morais são interpretações. E as possibilidades de elaborar essa interpretação são muito variadas. Para o filósofo, é um caso muito esclarecedor de ilusão interpretativa.

Em terceiro lugar, para finalizar a empreitada genealógica, trata-se de evidenciar o caráter nocivo, para o equilíbrio e a realização da vida humana, de certas formas de moral. É especialmente o caso das morais ascéticas que desvalorizam a vida sensível e desprezam o corpo, dentre as quais o cristianismo é um exemplo representativo. Nenhuma moral é “verdadeira”, nem intrinsecamente legítima. No entanto, no plano prático, algumas se mostram propícias à saúde, enquanto outras destroem o vivente, adoecendo-o. Trata-se, portanto, de um trabalho de relativização, de pluralização e, por fim, de crítica. O filósofo deve compreender, segundo Nietzsche, conforme o modelo do médico: não deve refutar teoricamente, mas erradicar uma evolução patológica. Isso começa por um diagnóstico.

IHU On-Line – Além da moral, há uma crítica profunda à cultura tributária dessa matriz valorativa. Qual é a intenção de Nietzsche com essa desconstrução e qual é a novidade dessa proposta?
Patrick Wotling – As coisas estão relacionadas, pois toda moral é, na verdade, um elemento particular de um conjunto muito mais vasto que Nietzsche chama tecnicamente de “cultura” (também se poderia dizer “civilização”, se Nietzsche não reservasse essa palavra para designar outra coisa). Ora, uma cultura, isto é, o conjunto das atividades próprias de uma comunidade humana (arte, saber, ciência, política, religião, moral, economia etc.) não tem nada de arbitrário e está arraigada em valores particulares. Valores são preferências que fixam o modo de viver e, consequentemente, de pensar de um ser humano, isto é, condições de vida. Para explicar em outras palavras, o cristianismo é apenas um elemento religioso e moral de um tipo de cultura mais ampla, mais vasta, o tipo ascético – sendo, portanto, uma cultura cujos valores defendem e privilegiam a existência de realidades suprassensíveis, exigem que a vida humana se organize a partir da busca desse suprassensível, evitando e neutralizando, assim, as condições da vida sensível que, por sua vez, é desvalorizada.

A novidade fundamental da posição nietzschiana está justamente em mostrar que toda vida é fundada na posição de valores e que toda a atividade do vivente, inclusive o pretenso saber teórico desinteressado, é condicionada por essa axiologia. É, portanto, a análise dos valores, em particular, a apreciação de seus efeitos nocivos ou benéficos – o famoso “valor dos valores” do qual fala o prefácio de Genealogia da Moral – que se torna o cerne da empreitada filosófica, não mais a busca da verdade. E, uma vez lançada, a investigação leva à descoberta do fato de que os valores sobre os quais se baseou a cultura europeia, desde o platonismo, são, na verdade, valores de morte, valores que denigrem as próprias condições da vida orgânica e conduzem inevitavelmente ao desejo de deixar a vida.

IHU On-Line – Qual é a importância do perspectivismo no empreendimento genealógico da moral? Nessa lógica, como se coloca a vontade de potência em relação ao perspectivismo?
Patrick Wotling – O perspectivismo possui, em Nietzsche, um sentido técnico muito preciso e está diretamente ligado à problemática dos valores. Ele consiste em reconhecer o fato de que toda vida é posição de valores – valores que podem percorrer naturalmente um espectro muito vasto – e de que esses valores condicionam todas as atividades do vivente, estabelecendo uma ordem de preferência no real e indicando, portanto, o que deve ser imperativamente buscado, o que deve ser evitado... Viver, encarnando sempre uma possibilidade específica de vida, consiste, assim, em ver e analisar a realidade a partir de um determinado ângulo, em função das preferências e repugnâncias fixadas pelos valores. Não há vida sem perspectiva. Logo, a pretensão de alcançar um ponto de vista absoluto é uma quimera, embora essa sempre tenha sido a ambição dos filósofos.

Convém acrescentar que, na vida e no agir dos indivíduos, as preferências fixadas pelos valores se traduzem praticamente em regulações inconscientes do corpo: pulsões ou instintos, segundo os termos que Nietzsche emprega geralmente. Essas pulsões e esses instintos que nos compelem cegamente a buscar as preferências são todas vontades de potências particulares. Mais exatamente, a vontade de potência nada mais é que essas pulsões inconscientes. Afirmar que se tem o direito de ler a realidade como vontade de potência significa dizer que o real é integralmente constituído por esses processos inconscientes em luta ou em colaboração mútua (e que, então, o “ser” é uma ficção). As pulsões dominantes no humano (por exemplo, a curiosidade, o amor, a benevolência, o ódio, o rancor...) caracterizam sua perspectiva, a maneira como ele será levado a interpretar a realidade.

IHU On-Line – Qual é o nexo entre vitalismo e a psicologia da moral? Quais são as influências teóricas de Nietzsche na formulação de sua genealogia?
Patrick Wotling – “Vitalismo” deve ser entendido aqui apenas como uma imagem. Nietzsche não é absolutamente vitalista no sentido literal do termo. Em contrapartida, o termo pode ser empregado para lembrar que toda análise de fenômenos humanos (a moral, por exemplo) deve partir da lógica da vida como Nietzsche a mostrou, ou seja, deve levar em conta o fato de que o homem é um ser que interpreta. Como acabamos de lembrar, toda forma de vida repousa na posição de preferências inconscientes, de valores específicos. Tais valores se expressam em pulsões, instintos, afetos que são as regulações inconscientes que constituem o corpo. Em Nietzsche, é o estudo dessas pulsões que a psicologia designa. As morais são, consequentemente, o resultado da maneira pela qual um determinado tipo de corpo (uma determinada organização das pulsões) interpreta a realidade, com base nas preferências estabelecidas pelos valores. É por essa razão que Nietzsche declara que “as morais nada mais são que uma linguagem figurada dos afetos” (Além do Bem e do Mal, § 187) – uma moral não é um campo de objetos autônomos. Não existe bem em si mesmo; o que é sentido e interpretado como “bem” (ou “bom”) ou como “dever”, por exemplo, varia em função dos valores que comandam e organizam o vivente.

É exatamente com o mesmo sentimento de necessidade que um indivíduo em quem dominam o senso da hierarquia e distinções hierárquicas, tal qual o nobre das aristocracias militares, sentirá o “bom” como significando “de posição hierárquica” igual à sua, e que o indivíduo em que predominam a vontade de vingança e o rancor sentirá o “bom” como significando “não forte”, “humilde” e, portanto, “desinteressado”. Toda moral expressa necessidades fundamentais de uma forma de vida particular. Ser dominado por pulsões artísticas criadoras, por pulsões de tendência contemplativa, por pulsões guerreiras ou por pulsões ascéticas produzirá, em cada caso, um tipo de interpretação moral diferente, cada uma dessas morais pensando, além disso, ser a única legítima.

IHU On-Line – Hegel e Kant são autores aos quais Nietzsche se contrapõe em diversas ocasiões ao longo de sua filosofia. Que pontos críticos a esses dois autores podem ser percebidos na Genealogia?
Patrick Wotling – Na Genealogia da Moral, o alvo é principalmente Kant . Já no prefácio desta obra, Nietzsche se refere a Kant usando um estilo paródico que retoma com ironia algumas das noções ou fórmulas mais célebres da filosofia transcendental: ele fala da “raiz comum” de seus pensamentos sobre a moral (§ 2), em seguida, do “meu a priori”, que ele designa como a priori “novo, imoral e imoralista, no mínimo”, e prossegue afirmando o seu “imperativo categórico tão antikantiano, infelizmente, tão enigmático...” (§ 3). Se, por um lado, Nietzsche se diverte claramente nessas páginas, por outro, a justificação da análise genealógica que ele realiza constitui uma recusa radical da abordagem kantiana. Não só não existe moral única, mas também a moralidade é, como se disse, uma linguagem do corpo, isto é, a manifestação de necessidades próprias de uma forma de vida, e certamente não a expressão de um comando incondicionado da razão. De maneira geral, na visão de Nietzsche, Kant é perfeitamente representativo da cegueira dos filósofos que sempre defenderam, à sua revelia, a moral dominante em sua cultura (no caso, a cristã) que os condicionava, e que imaginavam desvelá-la e lhe dar uma fundação objetiva. É por essa razão que Nietzsche declara mais adiante que “o sucesso de Kant é apenas um sucesso de teólogo”. De resto, não se deve esquecer que, na Genealogia da Moral, ele dirige um elogio aos pensadores britânicos, utilitaristas e evolucionistas, Mill , Spencer , Darwin – e não a Kant – por terem sido os únicos a dar um passo em direção a uma análise genealógica da moral, sem conseguirem ir adiante, infelizmente.

IHU On-Line – Qual é a importância da categoria da moral aristocrática para uma revitalização da cultura e do espírito?
Patrick Wotling – Sua pergunta toca num problema muito complexo. Para responder corretamente, é melhor começar lembrando um ponto essencial da reflexão nietzschiana que os comentadores costumam esquecer, lamentavelmente, porque esse esquecimento falseia toda a compreensão do trabalho efetuado por Nietzsche: no ideal de cultura – ou de organização da comunidade humana – que ele defende, Nietzsche se recusa a impor uma norma única, qualquer que seja o campo considerado, recusa-se, portanto, a impor uma moral única. Isso fica perfeitamente explícito nas análises apresentadas, sobretudo, em Além do Bem e do Mal. A primeira crítica que o filósofo pode dirigir ao platonismo, ou ao cristianismo, antes mesmo de passar à demonstração de seu caráter nocivo para a vida, é o fato de ter concebido um ideal unívoco do bem, logo, do homem bom (homem realizado?), e de ter desejado, de maneira inconscientemente fanática, impô-lo a todos como única norma aceitável. A unicidade é imediatamente traição da lógica da vida, que é sempre múltipla; e um gênero particular de vivente (o homem, por exemplo, mas isso vale para todos os viventes) só pode existir realmente sob a forma de tipos diferenciados simultaneamente presentes. Em se tratando do homem, o que Nietzsche descreve muitas vezes a partir dos termos “artista”, “homem contemplativo”, “padre”, “guerreiro”, “filósofo” representa tais tipos: configurações particulares com um sistema pulsional específico, organizado diferentemente daquele dos outros tipos e regulado por pulsões dominantes específicas (a pulsão de criação no caso do artista, a ação no caso do guerreiro etc.). Nenhum tipo é mais “verdadeiro”, mais autêntico ou mais legítimo que o outro. E não há nenhuma razão para desejar fazer de um deles a forma de vida obrigatória para toda a humanidade.

Consequentemente, a reforma axiológica que constitui a finalidade longínqua do filósofo médico não consiste certamente em querer impor, contra o ideal de moralidade cristã, uma moral de natureza aristocrática que entraria no tipo geral que Nietzsche designou, no parágrafo 260 de Além do Bem e do Mal, como a “moral dos senhores”. Para ser mais sintético, não se trata absolutamente, para Nietzsche, de transformar a humanidade futura em uma humanidade de “senhores” ou de “aristocratas”. Mas também não se trata de deixar impor como única e exclusiva forma de humanidade aceitável o ideal gregário que, segundo ele, generaliza-se na cultura contemporânea. O ideal de cultura sadia a que visa o filósofo médico comportaria necessariamente vários tipos de moral, exatamente pela diversidade dos tipos de vida humana inevitável no seio de qualquer cultura. Nietzsche cita, às vezes, o sistema de castas da Índia bramânica como exemplo da consideração dessa diversidade.

Então, é primeiramente no sentido da restauração da diversidade tipológica inerente a qualquer vida que conta, em Nietzsche, a descoberta da existência de um tipo de moral “aristocrática” caracterizada por valores outros além daqueles da moral da abnegação, do ascetismo – da condenação do corpo e da desvalorização sistemática da vida sensível – e da utilidade, moral dominante na cultura europeia do século XIX. Eu falaria mais de uma reforma da cultura que de uma regeneração, pois este último termo parece supor um retorno a uma situação anterior que teria sido perdida. Ora, para Nietzsche, não se trata certamente de voltar a uma forma de cultura em que reinava de fato uma moral de tipo aristocrática, como nas sociedades dominadas por uma aristocracia militar da Grécia arcaica, por exemplo. O ponto central é o fato de que a evidenciação da existência real de uma forma de moral “dos senhores” permite quebrar a ilusão de que a moral ascética (cristã ou platônica) seja a moral em si e de que não existiria outra. Isso implica inevitavelmente o reconhecimento do perspectivismo, logo, de uma maneira de pensar e de apreciar totalmente nova, baseada na desqualificação da ideia de absoluto e, com ela, de norma única. Como diz Nietzsche às vezes, “o mundo se tornou mais uma vez infinito para nós”: o que se inicia então é a era da comparação, do perspectivismo, mas também da hierarquia.

IHU On-Line – Pode-se pensar essa revitalização aristocrática se aplicando a esferas como a política, por exemplo?
Patrick Wotling – É numa reforma profunda da cultura que Nietzsche pensa nesse momento. Essa reforma terá (em longo prazo) as mesmas consequências, no plano político, de abertura, pluralização, perspectivismo, mas também hierarquização em termos de benefício ou dano para a realização da vida. Essa maneira de repensar a política – nessas condições, é preciso justamente redefinir de modo radical o seu verdadeiro campo – é tão inovadora que Nietzsche, como sabemos, imagina uma expressão nova para rebatizá-la: a grande política. A grande política não é aquela que imporia uma regulação de tipo aristocrático (aliás, nunca se deve esquecer que Nietzsche considera inelutável a progressão do movimento democrático), mas aquela que “quer que a fisiologia seja a rainha de todas as outras questões”, aquela que “quer criar um poder suficientemente forte para elevar a Humanidade como um todo superior, [...] contra tudo o que há de degenerado e parasítico na vida – contra o que perverte, contamina, denigre, arruína [...]”.

A política, no sentido usual, a “politique politicienne” [política política], dir-se-ia em francês, aquela que gera as sociedades humanas a partir de escolhas ideológicas, parece-lhe, nessas condições, uma empreitada superficial, regional, míope. Superficial por não compreender que ela própria é determinada pelos valores que constituem o alicerce da cultura na qual se situa, sem exercer, portanto, nenhuma influência transformadora profunda. Regional porque é o destino da humanidade que interessa o filósofo médico e não a predominância passageira (política, econômica, militar, diplomática) deste ou daquele povo. Ora, esse destino repousa na escolha de valores propícios à intensificação da vida e na neutralização daqueles que, ao contrário, são nocivos, como mostrou ser o caso dos valores ascéticos impostos pelo platonismo há 2500 anos e retomados pelo cristianismo. Nunca se pode esquecer que Nietzsche não se considera um pensador da política no sentido corrente do termo: o verdadeiro determinismo para o homem, aquele sobre o qual o filósofo dever conseguir agir, é o dos valores e não aquele das ideias e opiniões, as quais não passam de seu epifenômeno. Prima, então, a questão da inversão de todos os valores em relação àquela das doutrinas políticas.

IHU On-Line – O senhor é autor de Le vocabulaire de Nietzsche e Dictionnaire Nietzsche. Qual é a importância de se elucidar com precisão as ideias e terminologias desse pensador?
Patrick Wotling – Esta pergunta é a questão determinante em se tratando de Nietzsche. Ela toca no aspecto mais importante, mais difícil de entender: o rigor de sua reflexão. Nietzsche não é um filósofo como os outros. Ele modifica radicalmente a própria maneira de pensar em filosofia (não apenas as doutrinas habitualmente aceitas), e essa reformulação total da lógica da reflexão filosófica anda de mãos dadas com uma reforma também radical da maneira de se expressar: com a constituição de uma “nova linguagem”, como ele mesmo diz para descrever sua escrita. Nietzsche não pensa como os outros filósofos, mas também não escreve como eles. Esse modo de pensar, pelo fato de se basear na detecção das deficiências que afetam a abordagem dos filósofos que o precederam, pretendendo saná-las, é de extremo rigor. Esse ponto é desconsiderado muitas vezes, porque a atenção é atraída por outros aspectos da originalidade do seu pensamento, mas Nietzsche é certamente o pensador mais rigoroso da tradição filosófica, aquele que constrói (ele constrói de fato e não é um pensador essencialmente crítico, como ele mesmo destacou várias vezes) uma reflexão com o máximo de minúcias, precisão e coerência. A ausência de rigor observada por ele e denunciada nos filósofos anteriores vem de uma falta de probidade intelectual (a desonestidade dos filósofos, inconsciente muitas vezes, é frequentemente evidenciada por Nietzsche), mas também da influência exercida pela linguagem. Nietzsche mostra, de fato, que a linguagem não é absolutamente instrumento neutro de expressão, que ela veicula e difunde sugestões que se tornam rapidamente verdadeiros preconceitos e que exercem uma profunda influência em nossa maneira de pensar e de apreender o mundo. Por isso, a reforma do modo de pensar deve vir acompanhada por uma reforma completa do modo de usar a linguagem. Isso explica as armadilhas e as dificuldades constantes que a leitura do texto de Nietzsche apresenta. As dificuldades são ainda maiores porque Nietzsche parece escrever de maneira corrente, límpida, usando muito pouca terminologia técnica, contrariamente à maioria dos outros filósofos.

Foi no intuito de fornecer ao leitor um instrumento que lhe permitisse aprofundar verdadeiramente o questionamento nietzschiano, isto é, entender e acompanhar o rigor com o qual se constrói o pensamento de Nietzsche, e para explicar detalhadamente como funciona sua nova linguagem, que realizei, com Céline Denat, o Dictionnaire Nietzsche (Paris: Bouquins, 2017), absolutamente único em seu gênero. Devido à dificuldade do seu modo de expressão, que o próprio Nietzsche reitera, ele se sente obrigado a fornecer, por vezes, indicações preciosas, mas muito dispersas em sua obra, sobre a lógica que a estrutura. Baseando-nos exclusivamente no próprio texto nietzschiano, indicamos, no prefácio da nossa obra, em que aspectos e por que sua linguagem é específica e não pode ser decifrada adequadamente se nos contentarmos em lê-la de maneira direta, literal, referencial. Quisemos reunir então, em relação à questão do léxico, as principais notas nas quais Nietzsche indica como proceder para uma leitura do modo como ele quer que o texto seja lido ou, na sua própria expressão, para lê-lo bem. O Dictionnaire Nietzsche analisa também, sempre com base nessa atenção voltada para as especificidades do modo de expressão nietzschiano, cerca de cinquenta noções que têm papel fundamental na construção de sua investigação. Esforçamo-nos para descrever, sempre citando os textos essenciais, a maneira pela qual essas noções, totalmente diferentes daquelas que podemos encontrar em outras corporas filosóficas não explicáveis a partir delas, elaboram-se, às vezes se desenvolvem e se ramificam para gerar outras noções, a maneira pela qual se constroem por oposição a certas doutrinas clássicas da tradição filosófica e também – ponto essencial, como dissemos – por que razão são assim designadas.

Com muita frequência, de fato, as noções-chave de Nietzsche são apresentadas em perífrases (vontade de potência, bom europeu, inversão de todos os valores), em imagens, metáforas, citações, empréstimos a línguas estrangeiras (amor fati, gaya scienza, por exemplo) que obedecem a uma determinada estratégia de sugestão: a designação já indica algo sobre o conteúdo da noção. Constata-se também – esse ponto é capital – uma lógica de significação não por designação direta, mas por remissão e multiplicação, levando à construção de uma rede metafórica que é a própria trama da expressão de Nietzsche. Uma consequência disso é o fato de que ele nunca emprega um termo único para designar uma coisa, mas sempre uma pluralidade de termos relacionados, cada um revelando um aspecto que faz parte da coisa evocada. Tivemos então que compilar e explicitar as principais referências às quais o termo definido remetia. Vejam que o trabalho que tivemos de realizar para compor essa obra é bem mais elaborado do que aquele previsto geralmente para um dicionário em que um vocábulo único remete a uma coisa única e a descreve. Ler Nietzsche verdadeiramente, esforçando-se para apreender tudo o que ele quis dizer, sem descuidar das nuanças que nele são essenciais, é uma operação de decifração extremamente complexa.

IHU On-Line – Como se dá o diálogo e o intercâmbio de saberes e o debate acerca do legado de Nietzsche no Groupe international de recherche sur Nietzsche - GIRN e outras associações de pesquisadores de diferentes nacionalidades?
Patrick Wotling – O Groupe international de recherche sur Nietzsche, fundado por mim e por Giuliano Campioni , nasceu de uma cooperação franco-italiana duradoura sobre o filósofo. Trata-se de uma estrutura inédita, em muitos aspectos, que não tem os mesmos objetivos e não funciona da mesma forma que a maioria dos grupos de pesquisa filosófica. Apoiou-se na constatação da escassez ou mesmo da ausência de um verdadeiro diálogo internacional na pesquisa universitária sobre Nietzsche, ao passo que existiam, por outro lado, principalmente na Europa, tradições comentaristas muito fortes e prestigiosas, mas muito diferentes quanto à metodologia e às finalidades. Existiam certamente contatos regulares entre diferentes países, mas cada um tendia a permanecer isolado no seu próprio trabalho, dentro de sua tradição nacional. Pareceu-nos então benéfico criar um espaço que oferecesse mais que a justaposição de linhas de pesquisa e que favorecesse fortemente a leitura mútua aprofundada, ou seja, o estudo sistemático dos trabalhos estrangeiros provenientes dos espaços onde está presente uma escola ativa de pesquisa nietzschiana. Queríamos então facilitar – quase provocar, eu diria – o diálogo entre especialistas em Nietzsche, entre tradições nacionais que, convencidas de seu prestígio, tendem a permanecer fechadas em si mesmas.

O segundo objetivo é produzir uma pesquisa do mais alto nível de qualidade científica sobre o pensamento de Nietzsche. E a cooperação internacional, pela precisão e pelo encontro da diversidade de ângulos de análise que ela promove, é estimulante e propícia a produzir semelhante resultado. A principal condição para a realização de tal projeto é o multilinguismo, como podem imaginar. Para ser membro do GIRN, é preciso aprender a ler nas línguas dos outros pesquisadores. É certamente uma árdua tarefa, pois o GIRN possui seis línguas de trabalho, dentre as quais o português. Em compensação, todo membro é livre para apresentar o seu trabalho na sua língua materna, como garantia da precisão científica das análises apresentadas. Um congresso anual reúne os membros do grupo e, entre outras coisas, é uma oportunidade de apresentar e discutir – sempre em várias línguas – conferências sobre uma questão ou uma obra escolhida. O último congresso foi em Nice, no mês de junho, e teve como tema os textos de 1888. Pisa, Madri, Paris, Basileia, Louvain são algumas das cidades que receberam os encontros anteriores. Uma sessão de cada congresso é dedicada à apresentação das obras publicadas pelos membros no ano anterior. O congresso é um momento solene, mas os membros do grupo mantêm conversas permanentes em função de seus temas de pesquisa do momento. O ganho desse compartilhamento de perspectivas e competências diferentes é considerável. O GIRN já publicou sete obras – todas multilíngues, insisto – que reúnem os trabalhos realizados nesses congressos. O primeiro livro teve como tema A Gaia Ciência; depois vieram volumes dedicados ao Crepúsculo dos Ídolos (São Paulo: Companhia de Bolso, 2017), a Aurora (São Paulo: Companhia de Bolso, 2016), aos textos sobre Wagner , aos primeiros textos sobre os gregos, ao Humano demasiado humano, etc. Penso que Nietzsche, promotor da ideia do “bom europeu” (que não é necessariamente europeu), teria apreciado essa maneira supranacional de proceder.

IHU On-Line – Quais são as particularidades do debate acerca da Genealogia na tradição interpretativa francesa? Quais são os pontos de convergência e divergência principais com outras tradições como a alemã, a italiana e inclusive a anglo-saxã?
Patrick Wotling – Foi principalmente na França que a tradição interpretativa foi marcada, durante muito tempo, pela pregnância da ideia de genealogia e pela obra de 1887 com esse título. Quanto à noção nietzschiana de genealogia, isso se deve a dois fenômenos. Seu prestígio contribuiu para manter a atenção voltada para o autor de Assim falou Zaratustra (São Paulo: Companhia de Bolso, 2008) e para a originalidade de sua abordagem, mas também para orientar a compreensão, ocultando ao mesmo tempo, infelizmente, algumas de suas dimensões. De um lado, o comentário de Gilles Deleuze trouxe para a França a ideia de que o pensamento de Nietzsche se identificava como o procedimento genealógico; de outro lado, Michel Foucault apoiou-se largamente, em sua reflexão, em certos esquemas da investigação nietzschiana, mas o fez para repensá-los ou para transpor seu espírito para um campo de análise diferente. A noção de arqueologia, por exemplo, resulta diretamente da noção de genealogia, mas não pretende se identificar com ela, pois Foucault nunca quis retomar Nietzsche pura e simplesmente, por mais que se tenha inspirado nele.

Foi, sobretudo, o primeiro fator, a leitura deleuziana ligada a fortes opções interpretativas, que marcou o debate sobre a genealogia dentro dos comentários nietzschianos franceses. Em parte, porque Deleuze tende a interpretar a genealogia, que é um procedimento em dois tempos (busca das origens produtoras de um fenômeno, e depois apreciação do valor dessas origens produtoras em termos de valor benéfico ou nocivo para o desenvolvimento da vida – o objetivo da genealogia é justamente axiológico), limitando-o ao primeiro tempo, o que reduz o modo de investigação axiológica elaborada por Nietzsche a um simples procedimento histórico. Além disso, porque Deleuze se apoia maciçamente, para sua interpretação, nos Elementos para a genealogia da moral (traduzindo com exatidão o título original), em detrimento da maior parte das outras obras de Nietzsche, com exceção de Assim falou Zaratustra.

Na França, Elementos para a genealogia da moral foi tratado de fato, durante muito tempo, como um resumo, uma síntese, para não dizer uma Bíblia, do pensamento nietzschiano. Além disso, privilegiava-se muito o primeiro tratado somente, mais propício a explorações ideológicas. Isso levava inevitavelmente a deformações na compreensão da abordagem global de Nietzsche e à criação de certos mitos. Esquecia-se principalmente do que estava escrito com todas as letras na capa da obra: sua subordinação a Além do Bem e do Mal, texto do qual são retomados alguns resultados (apenas alguns) para dar uma descrição mais desenvolvida dos mesmos, como, por exemplo, os do parágrafo 260. Isolada da lógica geral da empreitada nietzschiana – a problemática da cultura – e lida de maneira um tanto simplificadora, a obra pode facilmente se prestar a uma posição maniqueísta (os fortes contra os fracos, o ativo contra o reativo, o aristocrata contra o plebeu, o guerreiro contra o padre etc.), ou seja, a uma forma de dualismo: um preconceito cuja recusa está justamente no fundamento da empreitada nietzschiana! A renovação profunda dos estudos nietzschianos na França, a partir do final da década de 1980, modificou completamente a situação, passou a impor que se considerasse o corpus em sua totalidade e exigiu um esforço maior de rigor filosófico. Comparadas à França, a Itália e a Alemanha não foram expostas ao mesmo fascínio pela obra de 1887 e a abordaram com base em sua própria tradição, em ambos os casos, muito mais histórica e filológica. Por essa razão, foram muito mais as pesquisas de fontes e de eventuais influências que mobilizaram a atenção.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algum aspecto não questionado?
Patrick Wotling – Eu gostaria de salientar que meus comentários não são exaustivos, fornecem apenas algumas indicações – esclarecedoras, espero – sobre um pensamento muito sutil e complexo para poder ser resumido em poucas linhas. Gostaria também de agradecer pelo generoso convite. ■

Últimas edições

  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição
  • Edição 528

    China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

    Ver edição