Edição 529 | 01 Outubro 2018

“Enquanto houver dominação e exclusão vão continuar surgindo pedagogias dos oprimidos”

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João Vitor Santos

Danilo Streck retoma a célebre obra escrita por Paulo Freire durante seu exílio no Chile

Especialmente em setembro, Paulo Freire é lembrado por ser o mês de seu nascimento. Neste ano, as celebrações têm um gosto especial: há 50 anos, o professor escrevia Pedagogia do oprimido, durante o período que esteve exiliado no Chile. Num Brasil ainda mergulhado no regime militar, a obra de 1968 só foi lançada aqui em 1974. Contexto político que também impregna o texto. “A Pedagogia do oprimido é um dos melhores lugares para identificar as fontes teóricas de Paulo Freire”, acrescenta o professor Danilo Streck, ao recordar o pluralismo teórico que vai de Marx a Mounier e Rousseau, também passando pelo cristianismo. “Por mais que se tente, é muito difícil enquadrá-lo teoricamente. Uma das grandes lições que ele deixou foi exatamente a de lidar ao mesmo tempo com seriedade e leveza com nossas referências”, destaca Danilo.

E 50 anos depois, por que lembrar esse livro? “É importante destacar o peso simbólico do ano de 2018”, diz o professor. Segundo ele, um ano em que muitas lutas são lembradas, como Maio de 68, Reforma de Córdoba e até os 200 anos de Marx. “Resumindo, enquanto houver dominação e exclusão vão continuar surgindo pedagogias dos oprimidos”, pontua, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Mas esse é um tempo em que o próprio Freire é questionado, sob a máxima de que inspira a chamada “educação ideologizante”. “Precisamos partir do pressuposto de que em uma escola republicana de fato não cabem proselitismos, nem de igrejas nem de partidos políticos”, dispara.

Assim, Danilo ainda acrescenta que o atual e “o novo na pedagogia de Freire não é que ele tenha criado uma pedagogia para os pobres e oprimidos”, pois outros já haviam feito. “O novo em Freire é que se trata de uma pedagogia do oprimido, ou seja, gestada na prática com ele. E esse oprimido tem muitos rostos: o desempregado, o negro, a mulher, o índio etc. Por isso, hoje talvez fosse apropriado falar em pedagogias da opressão, no plural”, sintetiza, ao conectar com dramas ainda vivos em nosso tempo.

Danilo Romeu Streck é graduado em Letras pela Unisinos, possui mestrado em Educação Teológica pela Princeton Theological Seminary, de Nova Jersey nos Estados Unidos, e doutorado em Fundamentos Filosóficos da Educação - Rutgers - The State University of New Jersey, também nos Estados Unidos. Ainda realizou estágio de pós-doutorado na Universidade da Califórnia, Los Angeles, e no Max-Planck Institute for Human Development, em Berlim. É professor da Unisinos e coordena o grupo de pesquisa Mediações Pedagógicas e Cidadania. Entre seus livros, destacamos Educação e Igrejas no Brasil: Um Ensaio Ecumênico (São Leopoldo: Sinodal, 1995), A Educação Básica e o Básico na Educação (Porto Alegre: Sulina, 1996) e Pedagogia no encontro de tempos: ensaios inspirados em Paulo Freire (Petrópolis: Vozes, 2001).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compreender o contexto em que Paulo Freire escreve Pedagogia do oprimido ? Por que seu ensaio é publicado no Brasil somente seis anos depois?
Danilo Streck – O livro Pedagogia do oprimido deve ser situado tanto na trajetória do autor quanto do contexto histórico no qual foi escrito. Paulo Freire inicia o seu trabalho educativo na década de 1940 e cronologicamente este é o seu terceiro livro, sendo o primeiro Educação e atualidade brasileira (1959 – embora publicado posteriormente) e o segundo Educação como prática da liberdade (1967). Os primeiros livros retratam o momento de “trânsito” que Paulo Freire, junto com muitos outros intelectuais da época, especialmente aqueles vinculados ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros - Iseb, via na sociedade brasileira.

São tentativas de pensar a educação brasileira em um contexto histórico no qual se antecipavam muitas mudanças na sociedade brasileira com a emergente participação popular. O Programa Nacional de Alfabetização do qual Paulo Freire foi nomeado coordenador geral pelo presidente João Goulart tinha o objetivo de promover o acesso ao voto a uma enorme parcela de adultos analfabetos e de inseri-los no novo mercado de trabalho.

O golpe civil-militar de 1964 significou a ruptura com este processo no Brasil e Paulo Freire e muitos outros intelectuais buscaram o exílio. Depois de uma breve passagem pela Bolívia, ele chegou ao Chile onde encontrou terreno fértil para continuar pondo em prática as suas ideias e onde aprofundou e ampliou o caráter revolucionário da ação educativa, no sentido da radicalidade das mudanças. Com isso, acredito que esteja respondida a pergunta por que tardou tanto a publicação de Pedagogia do oprimido no Brasil. Com a repressão e censura, alguns exemplares em espanhol – depois inglês – eram trazidos clandestinamente. Meu contato com o livro foi na versão em inglês, no ano de 1973.

IHU On-Line – Teoricamente, onde Paulo Freire apoia as concepções da “pedagogia do oprimido”? E como ele vai relacionar com a prática corrente na relação entre professor e aluno?
Danilo Streck – Temos hoje uma profusão de estudos que buscam a relação de Paulo Freire com Marx , com Mounier , com Dewey , com Rousseau , com o cristianismo, entre muitos outros. A Pedagogia do oprimido é um dos melhores lugares para identificar as fontes teóricas de Paulo Freire. E elas são abundantes, indo de Hegel a Buber , de Niebuhr a Mao Tsé-Tung , de Erich Fromm a Martin Luther King . Esse pluralismo teórico, no entanto, nada tem a ver com diletantismo, como muitas vezes se supõe. Isso foi muito bem captado pelo prefaciador do livro na versão inglesa, Richard Shaull , um teólogo presbiteriano, professor no Princeton Theological Seminary, com importante passagem pela Colômbia e pelo Brasil, e um dos precursores da Teologia da Libertação.

Segundo este teólogo, Paulo Freire usou os insights desses homens para desenvolver uma perspectiva educacional que é autenticamente sua e que procura responder aos desafios concretos da realidade latino-americana. Por mais que se tente, é muito difícil enquadrá-lo teoricamente. Uma das grandes lições que ele deixou foi exatamente a de lidar ao mesmo tempo com seriedade e leveza com nossas referências. Em um estudo em andamento no grupo de pesquisa identificamos um total de mais de 500 referências, incluindo gente simples do povo e de movimentos sociais, cuja influência não pode ser menosprezada em sua reflexão. Pelo contrário, esses saberes e essas práticas podem ser considerados o motor da teoria pedagógica freireana. E a partir dos desafios da prática ele vai ao marxismo, ao existencialismo, ao personalismo, ao pragmatismo da Escola Nova e outros ismos – se assim o quisermos – e não o caminho inverso, no sentido de enquadrar a realidade em um esquema teórico.

IHU On-Line – Quais as maiores transformações de práticas pedagógicas desde a década de 1960 e quais seus avanços no campo na Educação? Qual a influência da “pedagogia do oprimido” nessas transformações?
Danilo Streck – Nas cinco décadas a Pedagogia do oprimido (refiro-me aqui ao livro) correu o mundo e está traduzido em algumas dezenas de idiomas. Paulo Freire figura entre os intelectuais brasileiros e latino-americanos mais reconhecidos e citados no exterior e Pedagogia do oprimido ocupa um lugar especial neste reconhecimento. No entanto, seria demais esperar que um livro ou uma proposta pedagógica tivesse o poder de transformar a educação como num passe de mágica. Freire tampouco tinha essa ilusão, reconhecendo que estando a educação imbricada na sociedade em que se realiza, ela sozinha não tem o poder de transformar essa realidade, mas ao mesmo tempo acentuava que sem a educação não haverá verdadeira mudança.

Além disso, a “pedagogia do oprimido” é apropriada de formas diferentes em cada contexto. Por exemplo, em alguns lugares Paulo Freire é uma referência em termos de metodologia de pesquisa. Isso vale tanto para várias vertentes da pesquisa ação na Europa quanto para a pesquisa participante e a sistematização de experiência na América Latina. Ou seja, fundamenta-se nele a ideia de produzir o conhecimento com o outro como um sujeito que é capaz e não objeto a ser “conhecido” por experts.

Em termos pedagógicos, Paulo Freire é referência obrigatória na educação popular, que valoriza os saberes da prática e assume a não neutralidade da educação. É uma proposta pedagógica que se recria nos movimentos sociais, nas ONGs e também nas escolas sempre que se busca produzir conhecimento de forma dialógica para, como diria ele, tornar o mundo “menos feio”. Isso evidentemente não é visto como “avanços” por todos. Pelo contrário, em tempos de avaliações em larga escala que medem a todos com a mesma régua e de ranqueamentos de toda ordem vê-se um revigoramento de práticas bancárias, muitas vezes postadas em modernas plataformas digitais e comercializadas como qualquer outro produto.

IHU On-Line – De que forma a “pedagogia do oprimido” pode inspirar as práticas pedagógicas em nosso tempo, em que somos atravessados pelas lógicas pós-modernas?
Danilo Streck – Paulo Freire foi um pensador da educação no melhor sentido da palavra – tanto no sentido horizontal em termos de abrangência quanto no sentido vertical em termos de profundidade. Tudo o que diz respeito à educação lhe interessava e a todos os temas tratava com respeito e responsabilidade profissional, desde o currículo à disciplina, da criança ao adulto. Nesse sentido, ele pode inspirar sobretudo a maneira de se pensar a educação. Ele foi alguém que soube se reinventar em contextos sociais, culturais e históricos diferentes.

Basta olhar alguns títulos de seus livros. No início da década de 1990 ele publica Pedagogia da esperança (1992) como contraponto às políticas neoliberais que se firmavam em todas as partes do mundo; alguns anos depois em Pedagogia da autonomia ele reafirma o papel do sujeito – no caso, o professor/educador e o aluno/educando – como criador de conhecimento e como agente histórico. Em Pedagogia da esperança, por exemplo, há um visível diálogo com as teorias pós-modernas, o que pode ser verificado já no uso frequente da metáfora da trama (não uma linearidade e monocausalidade). Em uma passagem ele diz explicitamente que tempos diferentes exigem modos de agir diferentes, que se deveria aprender a ser “pós-modernamente progressista”.

Inédito viável

Gostaria de introduzir aqui um dos conceitos mais caros a ele – o de “inédito viável” – como expressão de práticas educativas emergentes que apontam novos horizontes. E essas práticas existem em muitos lugares. Ainda esses dias, tive a oportunidade de visitar a experiência dos bachilleratos populares na Argentina – uma escola autogestionada funcionando em prédio de uma fábrica recuperada e que se inspira em Paulo Freire na gestão e na prática educativa.

Aliás, o novo na pedagogia de Freire não é que ele tenha criado uma pedagogia para os pobres e oprimidos. Isso já temos, por exemplo, em Pestalozzi ou em Makarenko . O novo em Freire é que se trata de uma pedagogia do oprimido, ou seja, gestada na prática com ele. E esse oprimido tem muitos rostos: o desempregado, o negro, a mulher, o índio etc. Por isso, hoje talvez fosse apropriado falar em pedagogias da opressão, no plural.

IHU On-Line – Quais foram os maiores equívocos na interpretação e na aplicação da teoria de Paulo Freire? Como superá-los?
Danilo Streck – Um dos maiores equívocos que se pode fazer em educação é tentar “aplicar” uma teoria. Teorias estão aí para compreender, orientar e mudar as práticas. Alguns dos equívocos estão, a meu ver, relacionados exatamente com essa maneira equivocada de compreender o papel da teoria. Por exemplo, uma interpretação superficial de Paulo Freire levou alguns educadores identificados com sua teoria a confundi-la como um conjunto de técnicas: sentar em círculo, com o professor como um mero facilitador do diálogo. Deixou-se de compreender a “diretividade” que Freire via no ato educativo derivada da autoridade do docente. Aliava-se a isso a “rigorosidade metódica” que ele cultivava em seus escritos e em suas falas, tomando o objeto de conhecimento em suas mãos (quase literalmente), virando-o de um lado ao outro para ter uma compreensão – o mais acurada possível – de seu significado.

Outro equívoco comum é confundir a criticidade do ato educativo com a transmissão de conteúdos críticos, não raro da mesma forma bancária como se transmite qualquer outro conteúdo. Esquece-se que a essência do método – se assim o quisermos chamar – é exatamente a problematização do objeto que se coloca para a reflexão intersubjetiva.

IHU On-Line – Como conceber a “pedagogia do oprimido” para além do espaço escolar? Quais os maiores desafios para enfrentar a exclusão do Brasil de hoje?
Danilo Streck – A pergunta que durante muito tempo se colocou foi exatamente o oposto: se a pedagogia do oprimido poderia ser usada também em escolas. Afinal, ela havia surgido no contexto da alfabetização de adultos e se perguntava 1) se ideias como diálogo, conscientização e libertação fariam sentido no trabalho com crianças e jovens e 2) se era viável pensar a educação nestes termos dentro da escola ou da universidade. Essa pergunta era de fato pertinente em tempos de ditadura.

Aos poucos, e não por último pela atuação de Paulo Freire como secretário de Educação do Município de São Paulo e como professor da Universidade de Campinas - Unicamp e depois da Pontifícia Universidade Católica - PUC de São Paulo, foi-se percebendo que a pedagogia do oprimido implica muito mais uma maneira de ser e de agir como educador do que um conjunto de regras ou passos para uma educação de sucesso. É claro que uma postura dialógica com a criança vai exigir estratégias diferentes do que com adultos, a politicidade da educação terá expressões distintas em um movimento social do que em uma escola de educação básica.

Ao mesmo tempo, deve-se reconhecer que há espaços educativos com maior potencial de geração de mudanças. Não é por menos que a teoria pedagógica de Freire encontra um espaço privilegiado nos movimentos sociais populares, ou seja, entre aquelas pessoas e grupos que mais sofrem o impacto das desigualdades sociais e para quem a luta por direitos e por justiça social é um imperativo de sobrevivência e de conquista de dignidade.

IHU On-Line – Vivemos no tempo da chamada revolução 4.0, em que somos atravessados pela tecnologia. Como, nesse contexto, trabalhar para que a tecnologia seja uma ferramenta que diminua e não aumente a exclusão?
Danilo Streck – Tenho a impressão que às vezes se julga a pedagogia do oprimido como sendo avessa aos avanços tecnológicos e que o grande desafio – também educacional – é simplesmente estender esses avanços para aqueles estão à margem do sistema. Esquecemos que Paulo Freire desenvolve a sua prática inicial quando pensadores e cientistas debatiam o impacto da modernização tecnológica, com a introdução de máquinas no campo, de criação de indústrias, com a urbanização etc. O binômio modernização-desenvolvimento estava na pauta do dia. Os projetores “modernos” para a alfabetização – naquela época – tiveram que ser importados da Polônia.

Hoje, com a revolução 4.0, o desafio é muito maior porque significa, por um lado, propiciar o acesso de todos às tecnologias e capacitar para o seu uso. Assim como Freire debatia o uso – ou não – de cartilhas, hoje deve ser debatido o uso de outras tecnologias. No entanto, sem cair na trampa de acreditar que com a simples inovação tecnológica se diminui a desigualdade ou acaba com a exclusão. Sabemos muito bem como o capitalismo de plataforma precariza o trabalho, fazendo de cada trabalhador um empreendedor dentro de um mercado altamente competitivo. A adoção de novas tecnologias não altera a premissa fundamental da pedagogia freireana de que a educação é sempre um ato político, quer usando um quadro de giz ou um moderno smartphone, quer educando em um galpão de chão batido, uma moderna sala de aula ou em plataformas digitais.

IHU On-Line – Recentemente, Paulo Freire tem sido atacado sob o argumento de que essa seria uma perspectiva de educação ideologizante. Dentro do espírito freireano da “pedagogia do oprimido”, como responder a essa acusação?
Danilo Streck – Depois de uma palestra no lançamento do Prêmio Paulo Freire em São Leopoldo, na Câmara de Vereadores, um destes “atacadores” não apenas usou o argumento de que a pedagogia freireana é ideologizante, mas que representava um instrumento para “estuprar a mente” das crianças e dos jovens. Na plateia houve educadores e educadoras muito lúcidos que deram a entender que este cidadão não havia entendido nada de Paulo Freire e tampouco entendia de educação.

Talvez, em alguns lugares, Paulo Freire de fato seja transformado em “santo” e suas ideias em “doutrina”. Isso faz parte de leituras equivocadas pelas quais os autores não têm responsabilidade. E é claro que ser homenageado como o Patrono da Educação Brasileira o torna mais visível e também expõe as vulnerabilidades que ele, como qualquer outra pessoa, tem. No entanto, isso vale para a recepção de outros intelectuais como Rousseau, Marx, Freud , Foucault ou quem quer que seja. Uma coisa é ter alguém ou um conjunto de pessoas como referência, como mestres com os quais se aprende e reconhecendo também os seus limites; outra coisa é adotá-los como portadores de verdades derradeiras.

Acredito que na América Latina nós, educadores e educadoras, temos boas razões para nos apoiar em pensadores como Mariátegui , Martí e Freire e pensadoras como Sor Juana Inés de la Cruz , Nísia Floresta e Gabriela Mistral para, em diálogo com pensadores de outras partes do mundo, avançar no processo de construção de um pensamento pedagógico que dê conta de responder aos desafios de nossa realidade.

IHU On-Line – Como avalia as propostas em discussão no Congresso Nacional acerca da chamada “escola sem partido”? De que forma a pedagogia da libertação se perfila como alternativa diametralmente oposta?
Danilo Streck – Não acredito que seja uma alternativa diametralmente oposta porque a primeira é simplesmente impossível dentro da história, que sempre se move entre contradições, interesses, tensões e conflitos. Precisamos partir do pressuposto de que em uma escola republicana de fato não cabem proselitismos, nem de igrejas nem de partidos políticos. É por isso legítimo que as igrejas tenham os seus espaços para a formação de seus fiéis e que os partidos políticos criem lugares para a formação de seus quadros. A escola e a universidade deveriam ser o lugar onde pessoas com posicionamentos diferentes se encontram e analisam as suas ideias, confrontam seus preconceitos e exploram alternativas.

Este naturalmente não é um exercício fácil nem para professores nem para alunos. A solução para eventuais problemas não está em fazer de conta que na porta da escola cada um se despe de suas ideias e entra na sala apenas para fazer contas, estudar fatos históricos, e aprender a ler e escrever. Sempre tem um “o quê” e tem um “porque” (se lê, se estuda isso ou aquilo etc.). E isso passa por escolhas. Cabe ao professor explicitar as suas escolhas e a sua perspectiva, mostrando alternativas em uma atitude problematizadora, inclusive de suas posições e de suas ideias. Deve-se ter cuidado, como alertava Freire ao falar do “pensar certo” que se temos demais certeza de nossas certezas podemos estar nos distanciando da busca da verdade. O remédio para eventuais distorções da democracia (que inclui a livre expressão do pensamento) não é menos liberdade de expressão, mas o desenvolvimento de um clima respeitoso das diferenças. Ao separar a educação (que seria responsabilidade da família) e ensino (que seria responsabilidade da escola) cria-se um instrumento de censura que nenhuma democracia pode aceitar.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Danilo Streck – É importante destacar o peso simbólico do ano de 2018. Há alguns meses, lembramos a rebelião dos jovens em maio de 1968 , que por sinal é lembrada em extensa nota de rodapé de Pedagogia do oprimido. São os 100 anos da Reforma de Córdoba quando os universitários daquela universidade argentina se rebelaram com os métodos autoritários de ensino, o academicismo vazio e a distância da universidade dos problemas da sociedade. E os 200 anos do nascimento de Karl Marx que nos ajudou a ler e transformar o mundo na ótica dos oprimidos. Resumindo, enquanto houver dominação e exclusão vão continuar surgindo pedagogias dos oprimidos.■

Leia mais

- Paulo Freire. Pedagogo da esperança. Revista IHU On-Line número 223, de 11-6-2007.

- Dicionário Paulo Freire: mais que instrumento para facilitar a busca de informações. Entrevista com Danilo Streck, publicada na revista IHU On-Line, número 282, de 17-11-2008.

- Reinventando Paulo Freire. Entrevista com Danilo Streck, publicada na revista IHU On-Line, número 281, de 10-11-2008.

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