Edição 528 | 17 Setembro 2018

Da união do privado com o Estado, uma outra ideia de império

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Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

Para Elias Jabbour, a receita do sucesso da China está na soma de esforços que permite a socialização do investimento que constitui um império sem imposições imperialistas

O fato de a China ter passado pela crise econômica mundial de 2008 sem grandes problemas não se dá ao acaso. Para o professor e geógrafo Elias Marco Khalil Jabbour, um dos motivos é o país ter conseguido “todas as condições para que pacotes de estímulo fiscal e intervenções em massa do Estado na economia ocorram em paralelo com o setor privado”. Ou seja, houve uma soma de esforços entre Estado e iniciativa privada para manter a robustez chinesa, sem medo nem repulsa de um pelo outro. “No Ocidente, criou-se a falácia que opõe Estado e mercado, onde o Estado só pode comparecer para salvar instituições financeiras e não provocar políticas anexas ao Princípio da Demanda Efetiva”, contrapõe, ao demonstrar que o dragão asiático rompe com essa lógica e apresenta outra saída. “A sobrevivência chinesa deve-se também ao competente comando do Estado por um poderoso Partido Comunista que detém as chaves dos grandes bancos e de seus 149 conglomerados empresariais estatais”, acrescenta.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Jabbour ainda enfatiza: “a China não é capitalista, nem imperialista”. Para ele, ocorre o chamado “Estado socialista hegemonizado”, cujo ponto forte dessa homogeneidade é o Partido Comunista. Com relação à política externa, o professor diz que nem de perto se aproxima do conceito de imperialismo, como conhecemos a partir da lógica dos Estados Unidos. Para ele, é “um exemplo de comércio exterior como ente público, estatal e planificado”. Assim, por um lado, a China se fortalece como um grande império, mas, por outro, não está preocupada em impor suas lógicas a outros mundos. “Sua dinâmica de desenvolvimento é oposta ao do verdadeiro imperialismo (Estados Unidos). Chamar a China de imperialista é como colocar um sinal de igualdade entre ela e os Estados Unidos”, dispara.

Elias Marco Khalil Jabbour possui graduação em Geografia pela Universidade de São Paulo - USP, e mestrado e doutorado em Geografia Humana também pela USP. É professor adjunto da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e de seu Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas. Ainda foi assessor econômico da Presidência da Câmara dos Deputados. É autor de China Hoje: Projeto Nacional, Desenvolvimento e Socialismo de Mercado (São Paulo: Anita Garibaldi, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor poderia descrever o que é o chamado “padrão asiático de desenvolvimento”?
Elias Marco Khalil Jabbour – Como não sou fã do termo “padrão” (faz parecer o desenvolvimento como algo estático, não dinâmico), vou definir a dinâmica asiática de desenvolvimento como um processo marcado pelo alcance de uma completa mudança estrutural pela via da diversificação industrial, estratégia de inserção internacional, substituição de importações e estímulo às exportações manufatureiras e amplo papel do Estado, em intimidade com o setor privado nacional, em planificar, gerir, coordenar a “grande estratégia” e criar todas as condições institucionais necessárias para que o desenvolvimento econômico ocorra com mudanças para servir de base às chamadas “soluções de continuidade”.

IHU On-Line – Passados 10 anos da crise financeira mundial, parece que a China foi o país que conseguiu sobreviver melhor aos impactos globais da recessão. É verdadeira essa impressão? A que se deve a melhor sobrevivência chinesa?
Elias Marco Khalil Jabbour – Se deve a inúmeros motivos. Um deles é o fato de ter conseguido criar, nos últimos 40 anos, todas as condições para que pacotes de estímulo fiscal e intervenções em massa do Estado na economia ocorram em paralelo com o setor privado. A ironia da história é que o único país do mundo capaz de colocar em prática o que Keynes chamava de “socialização do investimento” é um estado de caráter socialista.

A possibilidade de executar políticas intrínsecas à “socialização do investimento” demanda a existência de duas pernas na economia: o Estado e o setor privado. No Ocidente, criou-se a falácia que opõe Estado e mercado, onde o Estado só pode comparecer para salvar instituições financeiras e não provocar políticas anexas ao Princípio da Demanda Efetiva. O setor privado no Ocidente não tolera o Estado. Tem medo da presença do Estado na economia. A sobrevivência chinesa deve-se também ao competente comando do Estado por um poderoso Partido Comunista que detém as chaves dos grandes bancos e de seus 149 conglomerados empresariais estatais. Por fim, a inauguração, também, cíclica, de novas e superiores formas de planejamento ao longo do tempo é fundamental à dinâmica chinesa.

IHU On-Line – Como a China reorganizou sua posição no cenário geopolítico internacional nas últimas décadas?
Elias Marco Khalil Jabbour – Se reorganizou tendo como método seus interesses estratégicos de curto, médio e longo prazos. Desde uma posição defensiva no intento de atrair capital, tecnologia e métodos avançados de administração até uma postura mais ofensiva como vemos hoje: uma potência financeira que se dispõe a ligar – por terra e mar – o mundo sob o acicate do Projeto da Nova Rota da Seda .

IHU On-Line – Politicamente comunista e comercialmente capitalista, até que ponto a categoria do “imperialismo” é capaz de explicar a posição da China no cenário global?
Elias Marco Khalil Jabbour – A China não é capitalista, nem imperialista. Trata-se de um Estado socialista hegemonizado pelo Partido Comunista e detentor dos meios estratégicos de produção. Sobre sua postura externa, eu caracterizo como um exemplo de comércio exterior como ente público, estatal e planificado. A China não exporta guerras, não exporta receitas econômicas destruidoras como as patrocinadas pelos Estados Unidos (neoliberalismo), não exporta fome. Sua dinâmica de desenvolvimento é oposta ao do verdadeiro imperialismo (Estados Unidos). Chamar a China de imperialista é como colocar um sinal de igualdade entre ela e os Estados Unidos.

IHU On-Line – Há uma questão muito sensível em relação à China, que é a sua dependência de outros países em relação aos insumos industriais primários. Como é possível o Brasil se desenvolver numa relação bilateral sendo fornecedor de commodities?
Elias Marco Khalil Jabbour – Não é possível se desenvolver dependendo de preços formados fora do país, o que nos fragiliza diante das fases descendentes do ciclo econômico. O problema do Brasil não é a China. É a renúncia de ser uma nação por inteiro. É a renúncia ao gigantismo. É a fragilidade ideológica de uma burguesia e classe média que odeiam o nosso país e nosso povo. Sentem vergonha de serem brasileiros.

IHU On-Line – Segundo algumas informações que podem ser apuradas pela imprensa e por pessoas que visitam a China, o Partido Comunista chinês está imerso em todos os espaços. De que forma podemos compreender a dinâmica do poder na China?
Elias Marco Khalil Jabbour – De forma simples, sem ser simplista: nem a lei da gravidade age naquele país sem a autorização do Partido Comunista. É a força política legitimada ao exercício do poder nacional. Sem o Partido Comunista, não existiria essa China a que assistimos hoje. É o chamado, na feliz expressão de Gramsci , o verdadeiro “Príncipe Moderno”.

IHU On-Line – Como o senhor caracteriza o interesse da China pelo Brasil?
Elias Marco Khalil Jabbour – Interesse político e estratégico com o maior país da América Latina, um país cheio de possibilidades e potencial de complementaridade à economia chinesa. Um grande destino de utilização de capacidades produtivas ociosas na China. Afora as matérias-primas e petróleo cujo governo entreguista de Michel Temer está oferecendo quase que de graça aos chineses, como no caso do setor elétrico.

IHU On-Line – Quais são as potencialidades e os limites de uma parceria entre Brasil e China?
Elias Marco Khalil Jabbour – As possibilidades estratégicas contra-hegemônicas são imensas, mas estão paralisadas diante do golpe de estado recente no Brasil. Daí o nosso limite: lidar com um país com estratégia clara sem que tenhamos nosso próprio projeto nacional.

IHU On-Line – O senhor acredita que há qualquer possibilidade de transferência do processo produtivo da China para o Brasil ou América Latina?
Elias Marco Khalil Jabbour – De alguma forma já existe, como no caso do projeto de uma planta siderúrgica chinesa no Maranhão. Mas não saberia dizer qual a escala de uma possível transferência de plantas industriais para cá.

IHU On-Line – De que forma a China, de certa maneira, deu suporte aos governos progressistas latino-americanos?
Elias Marco Khalil Jabbour – Não diria que ela deu suporte, mas manteve os padrões de troca favoráveis à América Latina por muito tempo. Mas o mais importante foi a demonstração de que não existe modelo único de economia, a neoliberal. Esse foi o grande suporte chinês à América Latina. A demonstração da existência de alternativas à barbárie neoliberal.■

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