Edição 528 | 17 Setembro 2018

As lógicas de uma civilização introvertida, mas conectada com o mundo

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Vitor Necchi | Tradução: Moisés Sbardelotto | Edição: João Vitor Santos

Para Gabriele Battaglia a China emerge como potência mundial sem impor seu mundo ao resto do planeta

A ascensão da China no cenário geopolítico e na economia global tem levado muitas pessoas a buscar incansavelmente “o segredo do sucesso chinês”. O problema é que enquanto os ocidentais escavam, a resposta pode estar bem mais aparente. Mas basta que se observe. É mais ou menos nessa linha que o jornalista Gabriele Battaglia analisa o grande dragão asiático quando se fala sobre um novo império global erguido pela China. “Não creio que a China, ao contrário dos Estados Unidos, queira impor seu próprio modelo ao mundo. É um país ou, melhor dizendo, uma civilização introvertida”, pontua. Para ele, o que o chinês faz é observar o outro e apreender o que de melhor esse outro pode dar não para transformá-lo, e sim para melhorar a sua própria realidade. “Quando a China fala de si mesma como ‘superpotência global’, ela quer que lhe seja reconhecido o papel que ela considera que lhe cabe: o de ‘centro do mundo’ ao qual se deve respeito, mas depois cada um escolhe o modelo político, econômico etc. que lhe parece melhor”, completa.

É por isso que Battaglia, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, diz que não acredita que a China vá impor, por exemplo, que o mundo siga o confucionismo. “No entanto, para defender os seus interesses, ela não terá escrúpulos em intervir também nos assuntos internos de outros países, ao contrário do que proclama. Vemos isso claramente na Ásia Central e no Sudeste Asiático”, ressalva. Além disso, o cimento que torna a China coesa é o Partido Comunista. “Enquanto o Partido for capaz de movimentar o motor do desenvolvimento, haverá casos isolados de explosão de raiva mais do que de rebelião, que podem ser contidos”, analisa.

Sobre esse medo ocidental de que a China subverta suas lógicas e seus valores, o jornalista dispara: “O Ocidente traiu a si mesmo e ao mundo em duas datas: 2003, com a infame e pretensiosa invasão do Iraque, que ainda hoje está produzindo morte e desestabilização; e 2008, com a crise econômica global da qual a classe trabalhadora e parte da classe média pagaram a conta”. Por isso, nesse contexto, considera a China como uma “potência responsável”. “É o país que mais se beneficiou com o ‘livre mercado’, mas entendido à sua maneira”, avalia. “Ela não substituirá os Estados Unidos para se tornar a nova superpotência global. Em vez disso, vamos rumo a um mundo multipolar no qual ninguém poderá se dar ao luxo de impor uma agenda própria ou exportar uma ideologia própria, vendendo-a como universal”, completa.

Gabriele Battaglia é jornalista italiano que vive em Pequim, correspondente da Radiotelevisão Suíça e da Rádio Popolare, de Milão, na Itália.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que mais se discute em relação à China são questões estruturais e macros. Qual a realidade da população, no que se refere à qualidade de vida?
Gabriele Battaglia – Justamente nestes dias, estou fazendo uma viagem ao interior da China para gravar um documentário que percorre os mesmos lugares percorridos por Michelangelo Antonioni em Chung Kuo , de 1972. Ainda outro dia, eu falei com dois velhos agricultores de Henan , filiados desde sempre ao Partido Comunista; eram os líderes do seu vilarejo nos anos 1970. Um dos dois, de 71 anos, vive há cerca de um ano em um moderno apartamento construído em um prédio de 20 andares, justamente ao lado do velho vilarejo. Ele está contente, tem dois filhos que trabalham, um na construção, o outro no comércio de bicicletas elétricas. Pois bem, para ele, há uma continuidade de Mao Zedong e Xi Jinping no sinal do progresso. “Hoje, Mao não iria bem, mas naquela época ia bem”, respondeu. “E hoje temos o grande líder Xi Jinping.”

O outro ainda vive no antigo vilarejo e é mais velho, tem 81 anos, enxerga pouco e caminha mal. Sua primeira casa era de barro; aquela onde ele vive agora foi construída nos anos 1980 e é de tijolos e cimento. No início do ano que vem, ele irá ao encontro do seu amigo e companheiro no novo prédio de 20 andares. Do barro aos 150 metros quadrados no 20º andar. Pois bem, ele mede muito simplesmente assim as mudanças dos últimos 40-50 anos. Nenhum arrependimento, ele vê um futuro potencialmente favorável também aos 81 anos.

É por isso que acredito que, enquanto o Partido conseguir garantir essa abertura para o futuro, a promessa da qualidade de vida, mais do que a própria qualidade, conseguirá gerir as contradições.

IHU On-Line – Parte do crescimento econômico chinês se sustenta no imenso contingente populacional que migrou das zonas rurais para as grandes cidades, o que gerou um exército de trabalhadores com baixos salários. A longo prazo, isso se mantém? O que pode gerar o fato de que milhões de pessoas vivem em condições adversas de trabalho, educação e saúde?
Gabriele Battaglia – Devemos nos entender bem sobre este ponto: é verdade que na China existe uma população de série A e de série B, há um apartheid estrutural, dado pelo fato de que a pessoa tem direitos e serviços somente em seu local de residência (é o mecanismo do Hukou , isto é, a permissão de residência), razão pela qual os migrantes que vão para a cidade ou para outra província não têm os mesmos bens dos residentes (por exemplo, a escola para os filhos). E é verdade que, de acordo com o índice Gini , a China é muito mais desigual do que a Europa e provavelmente também do que os Estados Unidos.

Mas, mais uma vez, enquanto o Partido for capaz de movimentar o motor do desenvolvimento, haverá casos isolados de explosão de raiva mais do que de rebelião, que podem ser contidos. A pergunta então é: já que o modelo que funcionou até agora chegou ao fim, a China será capaz de continuar movimentando o motor? Quando falo de um modelo que chegou ao fim, refiro-me àquele baseado no alto nível dos investimentos, baixos salários, exportações etc.

Viu-se uma primeira contradição em Pequim há cerca de um ano, quando houve uma grande onda de expulsões de migrantes rurais. A cidade já se concebe como metrópole-vitrine da China, metrópole que deve atrair as excelências e não todos indiscriminadamente, metrópole controlada e ordenada, dividida em compartimentos estanques como agrada à nova classe média que quer ordem e o contínuo crescimento de valor das suas propriedades imobiliárias. Aqui se vê realmente como as diversas Chinas já têm interesses divergentes. Eu acredito que mesmo a virada mais autoritária do Partido, do qual a figura de Xi Jinping é o símbolo, é funcional para uma fase em que será cada vez mais difícil gerir as contradições. Manter a situação sob controle enquanto se prepara um novo salto tecnológico.

IHU On-Line – O Ocidente, ao se erigir como civilização, consagrou ideias como democracia e humanismo. Se a China seguir sua trajetória ascendente e virar o grande império mundial, o que deve acontecer com esses valores ocidentais?
Gabriele Battaglia – O Ocidente traiu a si mesmo e ao mundo em duas datas: 2003, com a infame e pretensiosa invasão do Iraque, que ainda hoje está produzindo morte e desestabilização; e 2008, com a crise econômica global da qual a classe trabalhadora e parte da classe média pagaram a conta, sem que se tocasse em um fio de cabelo dos verdadeiros culpados, revelando que o “livre mercado” e as suas promessas falharam. O Ocidente não é mais credível. Infelizmente, essa estrondosa queda do “pensamento único”, com a qual deveríamos apenas nos alegrar, não está, neste momento, dando lugar para uma ideia emancipatória, mas sim ao medo, às nostalgias retrospectivas das pequenas pátrias e, portanto, à potencial guerra de todos contra todos.

A China, nesse contexto, está desempenhando o papel de “potência responsável”, porque é o país que mais se beneficiou com o “livre mercado”, mas entendido à sua maneira, isto é, com “características chinesas”, ou seja, nem tão livre. Ela não substituirá os Estados Unidos para se tornar a nova superpotência global. Em vez disso, vamos rumo a um mundo multipolar no qual ninguém poderá se dar ao luxo de impor uma agenda própria ou exportar uma ideologia própria, vendendo-a como universal. Só podemos nos alegrar com isso.

Infelizmente, não me parece que a Europa seja capaz de competir nesse grande jogo, precisamente por causa da sua falta de unidade. A América do Sul era uma grande esperança até alguns anos atrás; agora parece-me mais terra de conquista, com grande pesar. Os valores ocidentais já não falam muito mais a boa parte do mundo, são atacados até em sua casa. Mas, aliás, o que se entende por “valores ocidentais”? Se entendermos a famosa tríade liberté, fraternité, egalité, eu digo que não existe nenhuma liberté sem egalité, nunca. Há muito tempo nos esquecemos disso, e isso está na raiz dos males que nos afligem hoje. É preciso mais igualdade por toda a parte, aí está a chave. Uma igualdade na diversidade. Quem encontrar a chave para manter unidas igualdade e diversidade sobre fortes bases materiais será o Marx do século XXI.

IHU On-Line – O fato de os Estados Unidos se autointitularem democráticos e defensores das liberdades individuais não impediram que, em plenos séculos XX e XXI, invadissem territórios estrangeiros sob desculpas frágeis, interferissem na política de outros países e refutassem acordos de preservação ambiental, por exemplo. A situação deve se agravar se a China, que despreza valores como democracia, se tornar líder mundial?
Gabriele Battaglia – Não creio que a China, ao contrário dos Estados Unidos, queira impor seu próprio modelo ao mundo. Ela não tem uma intenção evangelizadora, ao contrário, quer continuar garantindo a si mesma estabilidade interna e, portanto, desenvolvimento. É um país ou, melhor dizendo, uma civilização introvertida. Quando a China fala de si mesma como “superpotência global”, ela quer que lhe seja reconhecido o papel que ela considera que lhe cabe: o de “centro do mundo” ao qual se deve respeito, mas depois cada um escolhe o modelo político, econômico etc. que lhe parece melhor.

Eu não acredito que os chineses estejam tão iludidos a ponto de pensar que o resto do mundo pode se tornar confuciano. No entanto, para defender os seus interesses, ela não terá escrúpulos em intervir também nos assuntos internos de outros países, ao contrário do que proclama. Vemos isso claramente na Ásia Central e no Sudeste Asiático, por exemplo. O instrumento principal, obviamente, é a moeda, os investimentos, mas as pressões políticas também não faltam.

IHU On-Line – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump , evidencia descomprometimento em relação à aliança estratégica com a Europa. Por que isso ocorre? A China tem influência nesse reposicionamento?
Gabriele Battaglia – Não sou especialista em coisas estadunidenses, mas me parece que a intenção de Trump é precisamente a de evitar que a China dê o próximo salto tecnológico para minar os Estados Unidos como superpotência da inovação. E eis a guerra comercial que vai afetar justamente os setores do “Made in China 2025”, o grande programa de desenvolvimento dos setores-chave da inovação em torno do qual gira a grande aposta de Pequim para o futuro. Nisso, eu acredito que os chineses têm razão: Trump não quer concessões no comércio, Trump quer cortar as asas para a China, exercer a contenção.

IHU On-Line – O presidente Xi Jinping manifesta que, do Ocidente, interessa-se apenas pela ciência e pelo mercado, desconsiderando a cultura ocidental como um todo, em particular as ciências humanas. O que isso significa?
Gabriele Battaglia – É uma velha história. Mesmo quando a China, em boa parte, era colônia do Ocidente, havia correntes de pensamento dentro e fora da corte Qing que queriam a “caixa de ferramentas” ocidental, mantendo, porém, a filosofia chinesa. Também é legítimo, em certa medida, mas eu me pergunto como isso é possível no mundo globalizado.

Leia mais

- China: outro modelo neoliberal ou outra forma de mercado? Um debate entre Gaia Perini e Gabriele Battaglia, reproduzida nas Notícias do Dia de 10-8-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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