Edição 527 | 27 Agosto 2018

Da sutileza de puxar os fios da própria história

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado, Julie Dorrico e Leno Danner

Márcia Mura, doutora em História Social, encontrou na sua ancestralidade e na sua atuação profissional uma forma de retomar a identidade de um povo extinto pela historiografia, os Mura

Márcia Mura é dona de uma luta que é, a uma só vez, própria e coletiva. Diante do muro da incompreensão burocrata, baseada em uma historiografia etnocêntrica que afirma que sua etnia, os Mura, não mais existem, Márcia ergue sua ponte de conexão entre mundos. “Quando essa retomada se dá de forma individual os desafios são maiores, pois há toda uma luta para ser reconhecido por uma comunidade que muitas vezes, devido à própria ação do Estado, sofreu o processo de desterritorialização que criou o afastamento ao território de origem, fazendo com que não haja o reconhecimento da comunidade originária. Isso aumenta o desafio em descolonizar a própria visão dos parentes que não reconhecem esse processo de colonização que causou esse afastamento, afinal, todos os povos indígenas sofreram interferências colonizadoras, então precisamos todos fazer essa descolonização”, relata Márcia Mura, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Puxar os fios do passado requer uma sutileza que nem sempre é possível de ser interpretado pelo cânone do pensamento branco. “Para tecer tradições indígenas é preciso se reconectar espiritualmente aos antepassados e ir puxando os fios de memória e vivenciar coletivamente o modo de ser indígena na base cultural e no comprometimento com as lutas das causas indígenas”, explica a entrevistada. “Minha afirmação indígena só reforçou minha atuação como cidadã e ser humano, pois ao lutarmos por demarcação de nossos territórios estamos lutando por um mundo melhor para toda a humanidade”, frisa. Tais gestos, por mais singelos que pareçam, confluem para o rio da legitimação política tão necessária a estes povos, sobretudo no atual momento de ataque massivo dessas populações. “A situação dos Povos Indígenas nunca foi boa desde a chegada dos colonizadores, mas resistimos a 518 anos e vamos continuar resistindo. Atualmente, a política governamental tem se tornado cada vez mais ofensiva. A violência contra os Povos Indígenas está cada vez mais acirrada”, sustenta.

Márcia Nunes Maciel é da etnia Mura e seu sentimento de identidade é respaldado coletivamente pelos Mura do rio Itataparanã. Faz parte junto aos Mura do Itataparanã e Capanã Grande do Movimento de retomada territorial, identidade e cultura Mura. Em 2010 ganhou o prêmio de intercâmbio cultural do Ministério da Cultura - Minc, para apresentar sua pesquisa de mestrado sobre mulheres que vivenciam o espaço do seringal na Amazônia, realizada na Universidade Federal do Amazonas - UFAM. É autora do livro: O Espaço Lembrado - Experiências de Vidas em Seringais da Amazônia. Faz parte do Instituto Madeira Vivo e do Núcleo de Estudos em História Oral - NEHO/USP. É doutora em História Social na Universidade de São Paulo - USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Conte-nos um pouco sobre sua recuperação da ancestralidade indígena, em particular de sua pertença Mura. Que desafios você enfrentou nessa caminhada de reafirmação?
Márcia Mura – Como Rigoberta Menchú , também posso dizer eu me chamo Márcia Mura e assim nasceu minha consciência. A minha ancestralidade Indígena foi repassada por minha avó materna, que mesmo não dizendo em palavras que era indígena, me ensinou a ser. A relação que tenho com a natureza foi minha avó que me ensinou, mas politicamente só passei a me afirmar como Mura em 2012 quando me sentia forte o suficiente para enfrentar tudo que viesse pela frente, todo preconceito, toda falta de compreensão. Esta minha tomada de consciência também foi um processo que se construiu por meio das partilhas, das vivências, das lutas junto aos outros parentes indígenas Mura e de outras etnias. Após minha afirmação de pertencimento à etnia Mura passei a me entender mais. Hoje me sinto segura, forte e protegida por Namatuyki que, para nós Mura, é o criador de todas as coisas.

IHU On-Line – Como você percebe e compreende essa reafirmação do ser e do modo de ser indígenas?
Márcia Mura – Essa retomada só é possível porque, apesar de toda colonização, os modos de ser indígenas se mantêm vivos, mas muitas vezes, adormecidos dentro de nós. A partir do momento que há um trabalho de descolonização, ou seja, de conscientização de que nossas memórias ancestrais foram roubadas pelos colonizadores, passamos a buscar esse renascimento de nossas ancestralidades. Quando é coletivo tem muito mais força nas retomadas territoriais, culturais, ancestrais, como vem acontecendo com a retomada Mura na Amazônia em alguns territórios que haviam se tornado seringais no período da borracha. Na minha leitura histórica o seringal foi mais uma política de introdução dos indígenas na sociedade nacional, pois esses territórios foram construídos em cima de territórios indígenas, onde houve sequestro de mulheres indígenas, conflitos entre seringueiros que já haviam passado por processos de desterritorialização, com os indígenas livres e aldeados. Com isso, muitos indígenas passaram a ser seringueiros e, devido à discriminação aliada à política de genocídio indígena, muitos deixaram de se afirmar indígenas, dentre eles os Mura. Somente agora, a partir dos anos 2000, que os Mura entre Manicoré e Humaitá passaram a fazer mais fortemente essa retomada. Neste ano de 2018 houve o primeiro encontro do Povo Mura na aldeia Sissaima no município de Careiro da Várzea; lá eu pude ver que nós Mura estamos numa bonita retomada e com mais força no Estado do Amazonas.

Quando essa retomada se dá de forma individual os desafios são maiores, pois há toda uma luta para ser reconhecido por uma comunidade que, muitas vezes, devido à própria ação do Estado, sofreu o processo de desterritorialização que criou o afastamento ao território de origem, fazendo com que não haja o reconhecimento da comunidade originária. Isso aumenta o desafio em descolonizar a própria visão dos parentes que não reconhecem esse processo de colonização que causou esse afastamento, afinal, todos os povos indígenas sofreram interferências colonizadoras, então precisamos todos fazer essa descolonização. É preciso retomar uma memória e ancestralidade indígena e se reconectar com a natureza e com os ancestrais de forma espiritual, pois, como bem me disse Ailton Krenak , “Não esqueça que a memória indígena é ancestral e é preciso ir puxando seus fios”. Nesse sentido digo que para tecer tradições indígenas é preciso se reconectar espiritualmente aos antepassados e ir puxando os fios de memória e vivenciar coletivamente o modo de ser indígena na base cultural e no comprometimento com as lutas das causas indígenas.

IHU On-Line – Conte-nos um pouco de sua história pessoal, de sua trajetória como mulher indígena...
Márcia Mura – Eu nasci na cidade de Porto Velho, em uma comunidade formada por seringueiros que migraram para a cidade na década de 1960 devido à decadência da borracha. Essa comunidade fica no Bairro Triângulo, às margens do Rio Madeira, território ancestral Mura, marcado no mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju, começando por Porto Velho indo até o Rio Negro. Esse mapa marca os antigos territórios Mura, mas também sua dispersão conforme o avanço da colonização. Por esse motivo, hoje os Mura assumidos encontram-se mais fortes e em maior quantidade no Estado do Amazonas, enquanto que, em Porto Velho, Rondônia, há muitas famílias Mura, mas vivem na invisibilidade e a cartografia oficial da cidade apaga totalmente a ocupação tradicional Mura. Então, mesmo que eu não tenha nascido numa aldeia, nasci dentro do território ancestral do meu povo.

Quando eu era criança eu não tinha consciência que era indígena, pois minha família não se afirmava enquanto tal, porém mantinha seu modo de ser indígena mesmo na cidade e ligada sempre às comunidades de Nazaré, às margens do Rio Madeira, que foi antigo seringal e também ao sítio na beira da estrada BR-364 que vai para o município de Guajará Mirim, que meu tio Manel, filho da minha avó materna, tomava conta durante toda a minha infância, e depois na minha adolescência, mudou-se para a comunidade de São Miguel ainda nas margens do Rio Madeira. Esses lugares, as margens do Rio Madeira e as áreas de sítio na beira da estrada, possibilitaram que eu crescesse com uma forte ligação com a natureza, de pescar, pular n’água, andar de canoa, coletar frutos na floresta. Tem uma lembrança da minha infância muito bonita com meus primos e meu tio Manel lá do sítio que ele morava na beira da estrada, indo para Guajará Mirim. Me lembro com muita afetividade do dia em que nós estávamos num igapó que secou, estava só a lama, e nos enfiamos naquela lama cercando os peixes que ficavam nas proximidades ou entre raízes de árvores na maior alegria. Lembro também de um período da cheia do rio, quando o tio Manel já morava na comunidade São Miguel às margens do rio Madeira, ele fez uma jangada de troncos de bananeira e eu com minha prima ia em cima dela nas casas dos parentes, e eu, às vezes, ia sozinha pegar água no canal onde passava o rio, aceitando o desafio do meu tio para mostrar que eu era corajosa e capaz de conduzir a jangada sozinha. Lembro de uma pescaria com a tia Alvina, que eu me deslumbrava com os peixes que eu via na água transparente e que fez com que a minha tia não pegasse nenhum peixe nesse dia. Lembro das nossas idas e da minha avó de canoa, saindo da vila de Nazaré e indo para a casa de farinha do Tio João Lobato e da tia Maria lá no lago do Peixe Boi. Lembro das brincadeiras com barro e de pular n’água com primas e primos.

Na cidade mesmo eu sempre ouvia o canto do Bem-te-vi e minha avó dizia que era meu pai, o apelido dele era Bem-te-vi e ele era separado da minha mãe, então toda vez que o pássaro Bem-te-vi cantava minha avó dizia “Olha o teu pai te chamando”. Isso fez eu acreditar que eu era filha desse pássaro, ainda hoje quando eu estou me sentindo triste ou quando estou numa fase de tomadas de decisão ele sempre aparece para cantar para mim. Aonde eu vou o Bem-te-vi me acompanha e aparece nos momentos que eu preciso de um ânimo, até mesmo quando eu estava em São Paulo fazendo o doutorado, ele aparecia para cantar para mim, por isso eu acredito mesmo que sou filha do Bem-te-vi.

Ser indígena

Embora eu tenha me criado vivenciando o modo de ser indígena, minha tomada de consciência enquanto indígena só se firmou em 2012 quando passei a interagir com parentes indígenas em São Paulo, os que são do Grupo de Trabalho indígena de São Paulo, os outros de outras frentes indígenas. Mas quem me orientou e me incentivou a assumir minha afirmação indígena de forma política foi o Borum, um parente e grande amigo que conheci em São Paulo. Antes disso, desde os meus 18 anos de idade eu atuava como apoiadora da causa indígena. Aos 18 coordenava o grupo de apoio aos Povos Indígenas em Porto Velho que era assessorado pelo Conselho Indigenista Missionário - Cimi; desde o início me enganchei na luta pela autonomia dos Povos Indígenas. Devido a essa minha atuação no grupo de apoio aos Povos Indígenas, quando entrei em 2006 na graduação de História na Universidade Federal de Rondônia, em todos os trabalhos que fiz ligados à Amazônia e ao Brasil abordei a questão Indígena. Foi na graduação que realizei meu primeiro trabalho de pesquisa engajada politicamente com Povos Indígenas, minha monografia de Bacharelado intitulada A Construção de uma Identidade – História Oral com o Povo Indígena Cassupá. Depois, já em 2004 atuei na educação escolar indígena por meio da Secretaria de Educação do Estado de Rondônia. Em 2006 fui fazer o Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia e lá comecei a pensar na importância política da afirmação indígena para combater o apagamento indígena. Essa retrospectiva de atuações demonstra que mesmo quando eu não me assumia politicamente como indígena, já estava na luta pelos direitos dos Povos Indígenas.

Hoje na atuação no movimento indígena me sinto fortalecida pela rede de lutas composta por parentes de diferentes Povos Indígenas do Brasil e de outros países da ameríndia.

Como Mulher indígena, aprendo muito com as mulheres mais velhas e com as que estão nas frentes de lutas e também me sinto realizada quando uma parenta chega pra mim e me fala que me tem como referência de guerreira, isso me faz sentir ainda mais responsável em contribuir com o fortalecimento das mulheres indígenas na luta por direitos junto aos homens indígenas, pois juntos somos mais fortes.

Minha afirmação indígena só reforçou minha atuação como cidadã e ser humano, pois ao lutarmos por demarcação de nossos territórios estamos lutando por um mundo melhor para toda a humanidade.

IHU On-Line – Como você concebe seu trabalho como mulher professora, artista e militante indígena?
Márcia Mura – Como professora sempre atuei na conscientização sobre os direitos dos Povos Indígenas e na desconstrução dos estereótipos. Depois fui me tornando pesquisadora engajada na causa indígena e aos poucos fui tomando consciência de mim como portadora de saberes não apenas como pesquisadora. Foi aí que comecei a não me prender às regras acadêmicas e passei a fazer as trocas de saberes, enfatizando o modo de fazer indígena.

Não me considero uma artista, eu apenas escrevo algumas narrativas onde procuro expressar de uma forma mais subjetiva minha percepção indígena e gosto também de compartilhar literatura, danças, histórias, alimentos indígenas com as crianças da comunidade e os meus alunos na escola, como forma de descolonizar a educação. Uma das coisas que me deixa realizada é estar com as crianças, compartilhando narrativas indígenas, cantos, danças, alimentos indígenas, e mesmo um grande ritual.

Minha militância se dá diretamente na demarcação da terra indígena Mura, no Itaparanã, ao sul do Amazonas; no movimento de retomada Mura na Amazônia; no coletivo Mura em Porto Velho na reivindicação do reconhecimento da cidade de Porto Velho como território de memória Mura e na luta por direitos de todos os Povos Indígenas a nível local e nacional. Todas as minhas lutas estão interligadas com minha atuação como educadora dentro e fora da sala de aula.

IHU On-Line – Ainda como professora, como você concebe a educação e, nela, a imagem, o protagonismo e os valores propostos pelos povos indígenas?
Márcia Mura – Na escola Francisco Desmorest Passos a minha própria presença já é uma intervenção indígena. Todos os dias eu coloco meus adereços indígenas e meu risco no olho que já se tornou uma marca indígena e que as minhas alunas gostam muito. Elas acham bonito meu jeito indígena de me arrumar para ir para a escola. Ter uma professora indígena em uma escola de contexto ribeirinho, mesmo estando na floresta e às margens do Rio Madeira e com pessoas de ascendência indígena, contribuiu para que fosse construída uma referência para as alunas e alunos se sentirem à vontade para falar de seus avós indígenas, já que muitos deles têm vergonha de sua ascendência. Também fazer grafismos indígenas no corpo e provocar os alunos a fazerem seus próprios adereços indígenas, mesmo no caso daqueles que ainda não se assumem como indígenas, passou a construir uma visão respeitosa sobre os Povos Indígenas. Esse é um processo que vem se dando aos poucos por meio do projeto de rodas de conversa de modos de ser indígena no abril indígena, do encontro de saberes e sabores, onde os alunos e alunas são motivados a apresentarem os alimentos, os remédios, as danças, o modo de explicar as coisas locais e tradicionais para dialogar com os saberes das disciplinas escolares. Além disso, as intervenções com literatura indígena e pesquisas de história oral – tradição oral realizada na escola com alunas e alunos. Todas essas ações estão interligadas ao projeto de descolonização da educação.

IHU On-Line – A arte pode contribuir para a promoção e a valorização das culturas indígenas? Da mesma forma, a arte pode assumir um papel de crítica social, especialmente sobre a questão indígena?
Márcia Mura – Sim, sem dúvida. Quando é uma arte de resistência que visa a valorização das culturas indígenas, mas tenho me entristecido ao visitar exposições de artes e galerias que se propõem a apresentar a cultura humana nos diferentes tempos e apagam a cultura indígena, parece que ela só tem lugar como algo à parte. Uma vez fui numa exposição em São Paulo onde havia as vestimentas e músicas nos diferentes tempos e não vi nada referente aos indígenas e isso me deixou entristecida. Sei que tem acontecido muita coisa no campo da arte em São Paulo com indígenas e isso é muito importante, mas estou falando que quando se fala em cultura de forma geral os indígenas não são incluídos.

IHU On-Line – Como você percebe a situação dos povos indígenas no país?
Márcia Mura – A situação dos Povos Indígenas nunca foi boa desde a chegada dos colonizadores, mas resistimos a 518 anos e vamos continuar resistindo. Atualmente, a política governamental tem se tornado cada vez mais ofensiva. A violência contra os Povos Indígenas está cada vez mais acirrada. Acredito que a perspectiva do movimento indígena é continuar lutando pela demarcação dos territórios indígenas e pela garantia dos que já foram demarcados. Fortalecer as bases e continuar no enfrentamento às políticas de genocídio Indígena como, por exemplo, a Resolução 001/2017 da Advocacia Geral da União - AGU, dentre tantas outras. A luta é por autonomia e garantia de direitos.

IHU On-Line – Desejaria acrescentar algo?
Márcia Mura – Só quero agradecer a oportunidade de compartilhar ideias, sonhos e lutas. Kwekatu Reté! ■

Últimas edições

  • Edição 528

    China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

    Ver edição
  • Edição 527

    Ore Ywy – A necessidade de construir uma outra relação com a nossa terra

    Ver edição
  • Edição 526

    Sistema público e universal de saúde – Aos 30 anos, o desafio de combater o desmonte do SUS

    Ver edição