Edição 527 | 27 Agosto 2018

Olívio Jekupé e Kunumi MC, duas gerações de uma luta de cinco séculos

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Ricardo Machado e Julie Dorrico

O escritor Olívio Jekupé e seu filho Kunumi MC, que ficou famoso por expor uma faixa com a frase “demarcação já” na abertura da Copa de 2014, falam da importância da arte para a luta política dos indígenas

Vivendo em uma aldeia indígena na cidade de São Paulo, Olívio Jekupé e Kunumi MC têm feito da própria existência e da produção artística suas formas de resistência. “Quando comecei a escrever eu tinha uma preocupação porque a gente via muitos problemas. Então comecei a pensar, naquela época, que através de uma literatura nativa nós poderíamos conscientizar a sociedade, porque a sociedade precisa respeitar o nosso povo, já que nunca fomos respeitados”, relata Olívio. “Eu sou escritor e rapper, então essas duas áreas da arte é uma literatura nativa, porque eu falo sobre o meu pensamento, como a gente vive e de muitas coisas. Mas o tema no meu rap é a luta indígena, a demarcação, que para nós são muito importantes”, conta Kunumi MC.

A dupla, que concedeu entrevista por telefone à IHU On-Line, destaca que criação de escolas dentro das aldeias indígenas foi um passo importante para o desenvolvimento e valorização da própria cultura indígena, mas que há um longo caminho a ser trilhado. “Primeiro eu quero dizer que antigamente não havia escola nas aldeias. Foi uma época muito difícil porque, em muitas aldeias do Brasil, os povos indígenas tinham que sair para ir à cidade, para estudar. E quando o indígena ia estudar na cidade, ele sofria muito preconceito, então muitos desistiam. Não queriam estudar porque sabiam que o povo da cidade ia discriminar, zombar, caçoar do indígena por não entender bem o português”, recorda Olívio. Entusiasmado com a escola indígena na própria aldeia, Kunumi MC usa o tempo livre, já que não precisa se deslocar para a cidade para estudar, para compor seus raps. “Hoje quando eu vou escrever um rap, sempre escrevo pensando no meu povo, pensando na nossa luta. Para tentar divulgar a importância da nossa cultura. Meu pai sempre me incentiva para falar sempre sobre o racismo que a gente passa e o preconceito que os não indígenas sentem sobre a gente”, explica.

Olívio Jekupé, guarani, é morador da aldeia Krukutu, São Paulo. É escritor de literatura nativa e palestrante, já deu palestras por várias regiões do Brasil. Também é casado e tem cinco filhos. Estudou Filosofia na Universidade de São Paulo - USP por quatro anos. É autor de 16 livros, dos quais destacamos, A mulher que virou Urutau (São Paulo: Panda Books, 2011), Xerekó Arandu: a morte de Kretã (Editora Peirópolis, 2002) e Jaxy Jaterê (São Paulo: Panda Books, 2017).

Jeguaka Mirim é guarani e nasceu na aldeia Krukutu. Seu nome artístico é Kunumi MC, como gosta de ser chamado. É autor dos livros Contos dos curumins guarani (São Paulo: FTD, 2014) e Kunumi Guarani (São Paulo: Panda Books, 2014). Começou a escrever aos 9 anos. É escritor, compositor, palestrante, cantor de rap e tradutor de português para o guarani. Ficou conhecido internacionalmente por fazer um ato de protesto na abertura da Copa em 2014, com um cartaz que pedia demarcação das terras indígenas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como escritores e artistas vocês utilizam a arte para promover a cultura indígena e criticar a sociedade brasileira que não valoriza o sujeito indígena. Nesse movimento, o que a arte significa para vocês?
Olívio Jekupé – Eu, na verdade, comecei a escrever em 1984. Eu era garoto, e sempre fui apaixonado por ler trabalhos e isso mexia muito comigo, me dava muita vontade de escrever. Tinha uma curiosidade, sempre ficava observando, pensando se havia escritores no Brasil, foi uma coisa meio impressionante porque eu não conhecia nenhum escritor. Foi uma época diferente, a gente não sabia o que era um índio escritor. Quando comecei a escrever eu tinha uma preocupação porque a gente via muitos problemas. Naquela época, desde pequeno e garoto, via todos estes problemas no Brasil: a invasão de posseiros, o governo lutando contra os povos indígenas, índios sendo assassinados, índias sendo estupradas... vendo tudo isso, eu ficava muito preocupado. Então comecei a pensar, naquela época, que através de uma literatura nativa nós poderíamos conscientizar a sociedade, porque a sociedade precisa respeitar o nosso povo, já que nunca fomos respeitados.

Eu achava que através da escrita muitas pessoas iriam começar a nos entender melhor. Porque nós somos um povo sofrido, que desde 1500 temos perdido nossas terras, nossos rios, nossos pássaros, nossas matas. Então eu comecei a acreditar que uma literatura escrita por povos indígenas talvez pudesse trazer uma transformação para esse país. Os professores pouco sabem sobre os povos indígenas, então através de uma escrita diferente, talvez isso pudesse mudar. Eu comecei a pensar uma literatura nesse estilo. Por isso achava que uma literatura de nós, autores indígenas, era muito importante, porque a gente busca conscientizar a sociedade e a sociedade passa a valorizar mais os povos indígenas. Desde 1500 só se fala mal dos povos indígenas. Através dessa literatura eles poderiam começar a ter uma visão diferente e passar a falar uma coisa melhor sobre o nosso povo. A literatura nativa é uma grande arte em que eu acredito muito.

Kunumi MC – Meu nome é Jeguaka Mirim, eu moro aqui na aldeia Krukutu e estou com 17 anos. Eu sou escritor e cantor de rap. Eu comecei a ler e a escrever aos nove anos de idade, quando estava estudando na aldeia Krukutu. Quando comecei a ler e a escrever, meu pai me emprestou o notebook e eu escrevi um pouco. Ele gostou das minhas histórias, dos contos indígenas que eu escrevi. E foi ali que meu pai entrou em contato com a editora Panda Books e a FTD e lançou meu primeiro livro junto com meu irmão, Tupã Mirim, Contos dos curumins guarani (São Paulo: FTD, 2014). E o meu segundo livro é o Kunumi Guarani (São Paulo: Panda Books, 2014), que fala de um moleque que vive na aldeia. Depois eu comecei a ler poesias do meu pai, e gostei muito. Fui escrevendo poesia para ver se eu pegava jeito, porque eu gosto de poesias também. Um dia eu estava escrevendo uma poesia, aí resolvi declamar, e vi que tinha muitas rimas, aí eu tentei cantar essas minhas poesias e deu certo. Eu vi que essas minhas poesias cantadas pareciam muito com o rap, e eu já ouvia rap. Eu ouvia o primeiro grupo de rap [indígena] que surgiu aqui no Brasil, o Brô Mcs , que eu gosto muito, e me inspirei nas poesias do meu pai e continuei escrevendo até hoje e isso eu transformo em rap. Eu sou escritor e rapper, então essas duas áreas da arte é uma literatura nativa, porque eu falo sobre o meu pensamento, como a gente vive e de muitas coisas. Mas o tema no meu rap é a luta indígena, a demarcação, que para nós são muito importantes.

IHU On-Line – Como você vê a relação entre literatura e educação na formação indígena?
Olívio Jekupé – Bom, primeiro eu quero dizer que antigamente não havia escola nas aldeias. Foi uma época muito difícil porque, em muitas aldeias do Brasil, os povos indígenas tinham que sair para ir à cidade, para estudar. E quando o indígena ia estudar na cidade, ele sofria muito preconceito, então muitos desistiam. Não queriam estudar porque sabiam que o povo da cidade ia discriminar, zombar, caçoar do indígena por não entender bem o português. O índio entende sua língua, mas às vezes tem dificuldade de entender a língua do branco. Essa foi uma época muito difícil.

Hoje, com a luta de lideranças passadas, principalmente dos anos 1970-1980, as leis foram mudando e passaram a criar escolas dentro das aldeias. Isso me deixou muito alegre porque a escola tem que ser dentro da aldeia, isso já faz uma grande diferença. Isso se chama escola diferenciada, poupando o índio de ter que ir para a cidade estudar. Ele vai estudar dentro da sua comunidade, evitando o preconceito. Também temos uma outra grande vitória, além da escola dentro da aldeia, que são indígenas que dão aula. É bom para a criança porque, por exemplo, para a criança que fala guarani, não fica difícil falar com o professor, porque esse mesmo professor fala a língua e entende a cultura, vive a cultura. Mas temos outra dificuldade. Todo ano o governo manda livros para as aldeias, livros de literatura de muitos escritores famosos, mas eu não vejo importância nenhuma, porque não adianta você mandar livros belíssimos de autores famosos para as crianças. Isso afeta a formação delas porque não tem nada a ver com a cultura indígena. Isso é mau. A criança na aldeia tem um costume, uma cultura própria, e quando ela lê um livro de literatura de outra cultura, vai ficar afetada. Por isso eu falo da importância de uma literatura nativa em que o índio na aldeia possa escrever trabalhos sobre seu povo, seus pensamentos, suas ideias, sobre suas críticas.

Torço para que esses livros possam chegar às escolas. Temos alguns escritores indígenas no Brasil, mas esses livros não chegam à aldeia. Pode até ser que alguns desses livros cheguem à aldeia. Mas estão faltando livros de muitos autores que precisam chegar às aldeias. Então essa escola formal é importante nesse sentido, em que você tem uma escola dentro da aldeia em que o professor possa dar aula, mas essa literatura que nós escrevemos, esse professor vai entender melhor e vai falar para a criança. Essa literatura poderia ser até escrita nas duas línguas [guarani e português]. Vamos dar um exemplo: o guarani. Você é um autor guarani que pode escrever o texto em guarani e em português para o professor trabalhar com a criança e ensiná-la a escrever em português e guarani usando a mesma história. A literatura é importante, mas a literatura nativa pode chegar tanto às aldeias quanto às escolas da cidade. Quando chega à cidade, os povos indígenas são mais valorizados, porque o índio é sempre discriminado, desrespeitado, desvalorizado, visto como primitivo. Nós não somos primitivos, somos um povo que tem uma cultura própria que precisa ser respeitada, e, através da literatura, as pessoas começam a entender melhor.

Kunumi MC – Hoje eu fico muito feliz porque tem escola indígena que fica dentro das aldeias. Isso é muito importante porque, como meu pai fala, uma escola indígena já é diferenciada. Quando a gente estuda dentro da aldeia, na escola indígena, o aluno fica mais livre e mais seguro também. Antigamente muitos indígenas queriam estudar, mas tinham medo de sofrer preconceito na cidade. Tem muitas coisas que a gente tem medo quando vai estudar na cidade. Eu nunca estudei em uma escola da cidade, mas mesmo assim tenho muito medo de sofrer preconceito, porque aqui em São Paulo, e em todo o Brasil, tem esse olhar que o índio não tem cultura, que o índio é primitivo e selvagem. Isso é o que a gente sempre ouve quando vai para a cidade. A escola indígena, então, é a melhor coisa que aconteceu. Quando eu nasci tive a sorte, de dois anos depois, ter sido criada uma escola indígena. As lideranças sempre lutaram, ao longo dos tempos, para conseguir uma escola indígena na aldeia. Numa escola indígena, quando você vai estudar, você vive normal, sempre olhando a sua cultura. A gente sempre fuma cachimbo, não é porque você vai à escola que você abandona o cachimbo. Isso é bom, é muito bom ter criado a escola indígena.

IHU On-Line – Olívio Jekupé e Kunumi MC, quais temas podemos encontrar na literatura e na música produzidas por vocês?
Olívio Jekupé – A literatura que eu escrevo tem vários tipos de escrita, várias histórias. Por exemplo, A mulher que virou Urutau (São Paulo: Panda Books, 2011) tem muita psicologia envolvida, é uma forma de conscientizar as pessoas sobre o preconceito. Tem um livro chamado Xerekó Arandu: a morte de Kretã (Editora Peirópolis, 2002). É um dos livros mais críticos que escrevi. E também o menos vendido no Brasil, porque é difícil você vender livro que faz crítica no Brasil. Um dos temas desse livro é sobre uma índia estuprada. É um tema pesado, mas é história verdadeira que aconteceu e eu transformei em literatura. Tem também sobre a morte de Kretã, que é um líder que foi assassinado. Eu lancei um livro agora chamado O presente de Jaxy Jaterê (São Paulo: Panda Books, 2017). Ele tem um tema muito importante que é tentar mostrar o saci indígena, porque, na verdade, o saci é um personagem indígena. Mas no Brasil se conhece o outro personagem, que é o negrinho de uma perna que se deu o nome de saci. Mas na verdade ele se chama Jaxy Jaterê, só que é uma história longa e é difícil explicar agora porque não teríamos muito tempo para escrever sobre esse assunto, que já dá um livro.

Cada livro tem temas diferentes. Eu também tenho um livro chamado 500 anos de angústia (São Paulo: Scortecci Editora, 2015), em que cada poesia tem um tema, onde faço muitas críticas. É um livro que não consegui publicar de forma independente. Paguei a publicação e eu vendo para as pessoas quando vou dar palestras. São várias poesias que tematizam sobre a questão da violência, conscientização, do conhecimento cultural, da tradição, todas essas coisas envolvidas.

Kunumi MC – Hoje quando eu vou escrever um rap, sempre escrevo pensando no meu povo, pensando na nossa luta, para tentar divulgar a importância da nossa cultura. Meu pai sempre me incentiva para falar sempre sobre o racismo que a gente passa e o preconceito que os não indígenas sentem sobre a gente. Eu sempre escrevo no meu rap o tema da demarcação. Demarcar nossas terras indígenas significa que a gente vai ter menos poluição porque é a natureza que nós protegemos e somos por ela protegidos. A gente vive só da natureza, ar limpo, e a água também tem que estar limpa, naturalmente, sem poluição. Então, a demarcação é muito importante, para nossos filhos viverem na aldeia, para manter a cultura também.

IHU On-Line – Se vocês pudessem, como intelectuais e artistas indígenas, recontar a história brasileira, como o fariam?
Olívio Jekupé – Primeiramente, com a chegada dos portugueses, eu acho que faríamos uma nova História. Na verdade, naquela época, tínhamos que ter nos preparado bem para a chegada deles e não deixar nos enganar como nos enganaram. As comunidades indígenas naquela época foram enganadas, foram manipuladas. Quando o índio se deu conta já estava preso. Naquela época tinha que ter sido muito esperto, não podia ter se deixado dominar, mas mostrar que o índio já era dono do país desde aquela época. Desde 1500, mostrar que quem mandava no país eram os povos indígenas, se eles quisessem trabalhar aqui no país, tudo bem, mas não se deixar escravizar, nem chegar na escravidão dos negros.

Se eu pudesse escrever uma nova história, então teria que ser assim: dominar a chegada dos portugueses para que eles não fizessem o que fizeram. Por causa dessa invasão, massacradora e massacrante, os indígenas estão presos até hoje. Morrem até hoje. Então, esses imigrantes portugueses poderiam entrar no país, mas seguindo as regras dos povos indígenas. Por isso hoje temos que ser espertos, temos que escrever literatura, ter escolas nas aldeias, ter nossos médicos, advogados, porque o mundo branco continua dominante sobre nós.

Se eu fosse escrever uma nova história, eu ia fazer o índio com uma nova visão. Temos que ser um povo que tem uma cultura, mas mostrar para a sociedade que não somos burros, porque esta é a visão deles. Mas não somos, somos um povo que tem cultura própria e temos que fazer nossa parte, de mostrar para a sociedade que fazemos parte desse país do qual fomos roubados.

Kunumi MC – Se eu pudesse reescrever a história, falando o que aconteceu antigamente, seria uma que os índios não seriam derrotados pelos portugueses. Foi ao contrário, a gente não partiu para cima, mostrando a nossa capacidade. Muita coisa que a gente fazia os portugueses copiaram: as comidas, o que se usa no cotidiano, como o cachimbo, por exemplo, as pinturas e até mesmo o cocar. A gente mostrou muita coisa, inclusive as comidas indígenas. É isso.

IHU On-Line – Na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, MC Kunumi apareceu empunhando uma bandeira com os dizeres Demarcação Já . Essa presença não foi transmitida na Globo. No entanto, internacionalmente, ela teve bastante repercussão. Como vocês veem o interesse da mídia brasileira pelos problemas e causas indígenas?
Olívio Jekupé – A mídia brasileira, na verdade, esconde o jogo. Quando é para falar sobre as questões indígenas, eles não estão preocupados, porque as mídias são governadas pelos próprios dominantes. A imprensa está ligada aos políticos, aos fazendeiros, ao grande agronegócio. Então para eles não é interessante mostrar os problemas dos indígenas. É importante a gente fazer matéria em pequenas mídias, porque estas dão mais ênfase às questões indígenas. Hoje em dia a gente tem Internet, Facebook, WhatsApp, então a gente consegue mostrar muita coisa em veículos pequenos, porque a grande imprensa não está interessada em saber da questão indígena.

Kunumi MC – As mídias brasileiras não têm nenhum interesse em mostrar a nossa luta, a causa indígena. Mas, para mim, a mídia, hoje, é muito importante. Ela tinha que divulgar as questões indígenas, porque a gente passou muito preconceito. Também seria importante, hoje, as pessoas saberem da nossa cultura, saberem que não somos índios, mas indígenas com culturas diferentes. Há vários povos com a sua religião, sua língua e modos de viver. Isso era para ser divulgado sempre. Não somos um povo que não faz nada. Fazemos muitas coisas, mas até isso não é divulgado para fora. Quem tem mais interesse em divulgar nossas questões, nosso trabalho, são as mídias de fora do Brasil. Eles sim têm muito interesse. Aliás, estou fazendo um filme, um média-metragem falando sobre isso também. É um cara lá da Inglaterra que é o diretor. Foi ele quem me convidou para fazer minha primeira gravação, para lançar o meu primeiro álbum de rap. O segundo foi um brasileiro, que lançou meu segundo álbum, Todo dia é dia de índio (2018). Poucas mídias brasileiras vêm aqui fazer matéria comigo, mas muitas vêm de fora, como a BBC, de Londres, e a Al Jazeera. Todas essas matérias ficaram boas, infelizmente nenhum brasileiro veio aqui para fazer alguma coisa, revelar o meu trabalho, o nosso trabalho.

Olívio Jekupé – O meu filho fez parte da abertura da Copa e, na verdade, ele levou escondido uma faixa, que eu também não sabia. Foi combinado aqui na aldeia, com as lideranças, que não contariam para mim porque eles ficaram com medo de eu não autorizar o ato. E de fato é muito perigoso um garoto de 13 anos fazendo um gesto público em favor da demarcação, então eles ficaram com muito medo e não me avisaram. Daí como eu também estava assistindo a Globo, também não vi. Só fiquei sabendo depois, quando dez horas da noite me mandaram uma foto dele com a faixa. Eu levei um susto. Quando foi no outro dia, encheu de televisão aqui na aldeia Krukutu, a imprensa de todo o mundo veio entrevistar ele. E a matéria ficou muito famosa, na Europa principalmente. A gente fica contente com isso, porque o mundo todo pôde ver um garoto de 13 anos pedindo demarcação pelas terras indígenas. Então foi um ato de um garoto tão pequeno, com 13 anos é pequeno, que me deixou muito orgulhoso.

O Brasil pôde ver depois através das redes, no Facebook. Esse ato foi muito importante, porque a luta dos povos indígenas é, principalmente, a demarcação das terras. Através da própria foto continuamos divulgando, nas palestras que me convidam eu levo o Kunumi e passamos os vídeos da matéria para os brasileiros. Através das palestras conseguimos mostrar que a nossa luta continua. Porque precisamos mostrar para o governo do Brasil que as terras indígenas precisam ser demarcadas. Muitas pessoas, hoje, perguntam sobre ele, querem conhecer o garoto da Copa, que ficou conhecido mundialmente. Como ele é escritor, eu levo ele, e ele leva os livros dele para também falar sobre. Além disso ele é cantor de rap, onde continua falando sobre demarcação. Isso tudo pode ser visto como um ato que não parou.

Um garoto de 13 anos que não falou uma palavra conseguiu mostrar para o mundo que os povos indígenas continuam lutando, pedindo seus direitos às terras indígenas. Eu fico feliz porque é um ato de coragem. Para mim foi importante ver meu filho fazendo parte, porque também lutamos, aqui, pela ampliação das terras da nossa aldeia. Também vejo como um incentivo para as outras lideranças continuarem lutando. Se um garoto de 13 anos conseguiu fazer um ato, então os adultos também vão ter mais coragem. Isso foi importante para todos nós indígenas do Brasil.

IHU On-Line – Em que tipo de mídia os povos indígenas encontram mais atenção a suas causas?
Olívio Jekupé – Bom, eu conheço um jornal que se chama Porantim, que é do Conselho Indigenista Missionário – Cimi , que é muito bom em mostrar os problemas sociais que acontecem no Brasil. Eu acompanho esse jornal e a revista. É uma mídia muito boa. Também acredito muito no Facebook, porque os povos indígenas podem mostrar os problemas que estão acontecendo nas aldeias, mesmo que a imprensa não vá até eles. Então tem foto e dá até para fazer vídeo e gravar. Outra forma, também, é o blog pelo qual se fazem matérias próprias para divulgar as questões da aldeia, e das culturas. Hoje em dia também acho muito bonita a Rádio Yandê , que é uma rádio muito boa que sempre anda pelo Brasil fazendo a divulgação das comunidades tradicionais, e as pessoas também podem mandar o trabalho para lá.

Através de trabalhos assim podemos mostrar os muitos problemas que temos na aldeia. Muita gente pode pensar que não temos problemas porque vivemos no meio da floresta, na mata Atlântica. Mas não, temos muitos problemas a serem divulgados para a sociedade ver. A mídia grande mesmo nunca vai chegar até nós; ela chega quando o índio faz alguma coisa de errado. Aí ela corre para filmar, para sujar o nome do índio por um erro que acontece. Então a gente tem que saber trabalhar com a mídia grande, porque ela é muito perigosa para nós. Ela pode derrubar a gente.

Hoje em dia, as redes da Internet são muito boas para a gente divulgar e temos que aproveitar isso como forma de defesa. Eu mesmo tenho meu blog e sempre tento divulgar alguma coisa, como sou escritor divulgo meu trabalho. Através disso, as pessoas vão compartilhando e a gente vai ficando conhecido. Eu escuto das pessoas que sou famoso por ser escritor, mas eu fico aqui na aldeia, difícil sair, mas uso as redes, então é pelas redes que a gente pode mostrar o nosso trabalho.

Kunumi MC – Hoje existem muitas mídias, só que são muito poucas que vêm na aldeia falar. Mas quando vêm precisamos saber se vão fazer uma matéria falando bem ou mal. É com isso que a gente tem que tomar cuidado. Como não vem muito a mídia nem jornalistas aqui, a gente que divulga as questões, a causa através do Facebook. Nesta rede social, divulgo minhas coisas de escritor. Eu também tenho um canal no Youtube , que se chama Kunumi MC Oficial, e é ali que eu divulgo as minhas coisas, meus videoclipes. Na tevê, são muitos programas que não falam sobre os indígenas, mas que deveriam falar. A TV Cultura divulga um pouco sobre os indígenas e os negros. É bom ter uma programação dessa.

IHU On-Line – Desejam acrescentar algo?
Olívio Jekupé – Eu gostaria muito que a secretaria municipal, estadual, Ministério da Educação - MEC tentassem procurar livros de autores indígenas. Inclusive, nós temos um grupo grande de escritores, aproximadamente uns 50 escritores no Brasil. Que procurassem informações e comprassem livros para distribuir nas escolas e também que esses livros chegassem às aldeias. Seria interessante se esses órgãos governamentais procurassem fazer uma lista desses tantos escritores que existem no Brasil e investissem para que essas obras chegassem em diferentes cantos do país. Eu acho que as editoras deviam procurar autores nas aldeias, tanto para escrever quanto para ilustrar. Falta esse incentivo para que os autores indígenas publiquem seus trabalhos, eu fico com dó, porque eu sei, de tantos anos na luta, que não é fácil publicar um livro. A gente que mora na aldeia e não é muito valorizado, às vezes eles pensam que a gente não tem a capacidade de escrever. Não queremos, no caso dos escritores indígenas, que só um grupo pequeno fique famoso, queremos que todos os escritores indígenas possam ter oportunidade de divulgar seu trabalho. Isso é interessante. Se os livros chegam às escolas, isso pode facilitar a lei 11.645 , para que esses professores tenham conhecimento dos vários povos indígenas no Brasil. Essa é uma ideia que eu penso e falo quando dou palestra, o de conhecer os escritores, não cinco ou seis, mas todos.

Kunumi MC – Nós indígenas passamos muito preconceito. Muito genocídio em razão da cidade chegar cada vez mais perto das aldeias indígenas. Isso para nós é difícil. Comprar os livros indígenas significa divulgar os vários autores indígenas porque é importante muitas pessoas saberem que nós passamos por preconceito e que estamos sofrendo violência.

Olívio Jekupé – Também gostaria de falar que a Bienal deveria investir mais nos autores indígenas e nos autores aqui de São Paulo. Temos várias aldeias aqui. Seria interessante a Bienal visitar as aldeias para conhecer os trabalhos que existem. Temos muitos trabalhos aqui, alguns são muito simples, mas são trabalhos que poderiam ser apresentados e divulgados na Bienal, porque tem muita visibilidade.

Aqui temos a aldeia Tenondé Porã, Krukutu, Aldeia do Jaraguá e outras. Nessas três aldeias, na época da Bienal, os organizadores poderiam procurar os índios para apresentação do coral indígena para mostrar a música guarani e também os indígenas que são ilustradores. Há, ainda, muitos escritores nas aldeias que poderiam ser convidados para apresentar um trabalho, ou o que ele já tem escrito, até mesmo para dar uma palestra. Assim alguma editora pode ver ele e convidá-lo para publicar um livro. Se não tem apoio, os indígenas ficam apenas com aquela ideia de um dia publicar e às vezes nem conseguem. A Bienal tinha que investir mais nos indígenas das aldeias para descobrir mais talentos. ■

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