Edição 527 | 27 Agosto 2018

Fazer caber muitos mundos no mundo

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Ricardo Machado, Julie Dorrico e Leno Danner

Márcia Kambeba, escritora, artista e educadora indígena, percebe a mulher como central na construção de uma educação e de uma relação com o cosmos harmoniosa e respeitosa

A história de Márcia Kambeba confunde-se com a história do Brasil nas últimas quatro décadas. Nascida em 1979, veio ao mundo em meio a lutas de seu povo, que continuam, mas de outras formas. “Quero que as pessoas, ao ler meu poema, de modo especial indígenas, sintam-se esperançosos e fortalecidos numa ancestralidade que os move e que nos move, mas sem esquecer o seu lugar de onde estão e para onde vão. Então esse trânsito é muito importante na construção de minha escrita poética porque é o que se vive”, destaca Márcia em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Em sua produção estética, preocupa-se com a pluralidade que constitui os sujeitos indígenas. “O fundamento de minha produção estética e poética, resumindo tudo, é justamente mostrar às pessoas que não existe uma ‘cara de índio’, mas que existe uma identidade que o torna pertencente a um ‘povo’. Como indígenas, precisamos entender isso, senão seremos apoiadores de preconceito e racismo que ainda hoje é entrave na caminhada de afirmação dos povos. E, aí sim, seremos facilmente dizimados, não pela bala da carabina, mas pela bala da ambição, do capitalismo, do status, do ‘eu sou melhor’. Temos que parar com a ideia de que ‘eu sou índio puro’”, reflete.

Na prática, a educação tem sido uma ferramenta potente de luta ameríndia. Nesse sentido, Márcia sustenta que uma educação inclusiva tem que ter como pressuposto o respeito. “Saber que não existe só aquela pessoa ou aquela cultura no mundo e entender que a multiculturalidade é fundamental. Entender sua história para assim respeitar a do outro”, argumenta. “Nessa forma de reescrever a história do Brasil, buscaria fazer de forma que todos os mundos pudessem caber nesse mesmo mundo”, complementa.

Márcia Wayna Kambeba é indígena da etnia Omágua Kambeba, nascida em uma aldeia Tikuna, no Alto Solimões, no Amazonas. Escritora, poeta, compositora, fotógrafa, é graduada em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas - UEA e mestra na mesma área pela Universidade Federal do Amazonas - UFAM. Realiza trabalhos literomusicais, contação de histórias, palestras envolvendo cultura indígena e a questão ambiental.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Você acredita que as artes, as mídias digitais, os livros impressos de literatura e outras áreas colaboraram e colaboram para que os sujeitos indígenas sintam-se orgulhosos de suas alteridades para enfrentar o preconceito pela sociedade não indígena?
Márcia Kambeba – Sim. Tanto acredito que a arte e a mídia se usadas do jeito certo e a favor de nossa causa podem ajudar, que faço da arte uma bandeira de luta em prol do que acredito ser uma educação descolonizadora. Seja por meio da literatura que traz a arte da escrita, a música que eu componho e canto, as artes visuais presentes na fotografia que faço de meu povo ou outros povos, o cinema, a construção dos artesanatos, que prefiro chamar arte que artesanato, tudo isso é a arte dando sua contribuição na resistência da sociedade indígena.

Como somos um povo em movimento e não estanques, aprendemos a fazer uso das artes que a sociedade não indígena apresenta, usando a nosso favor para mostrar nossas várias formas de linguagem. E hoje temos indígenas nas artes plásticas, no cinema, na culinária. O próprio ritual é uma manifestação de arte indígena... uma arte sagrada que evoca a cura física e espiritual. Uma arte que envolve o elemento da música que é criado pela aldeia para determinado fim. Percebemos que a música cantada pelos povos está em sua vida desde antes da chegada do chamado colonizador. Os desenhos encontrados por pesquisadores em paredes de pedras ou mesmo nas pedras chamados de arte rupestre eram, assim como os grafismos contemporâneos, formas de comunicação ou signos de comunicação que desenhamos para que o outro leia. Esse é o meu pensar quanto à questão dessa transição aldeia-cidade ou cidade-aldeia onde respeitar as diferenças e o sagrado do outro deve ser importante, onde a identidade percebida e sentida é fundamental para o existir.

IHU On-Line – Enquanto escritora indígena, como você faz o trânsito, na sua produção estética, da ancestralidade e da tradição indígenas para a cultura ocidental?
Márcia Kambeba – Eu escrevo com a alma, esse é um ponto fundamental para mim. Tenho que sentir, ter vontade, não basta sentar e fazer. É como se eu fosse guiada para aquilo e orientada no que dizer. Então, muitas vezes coloco essa realidade que vivo de cidade-aldeia. Nasci em aldeia em um ano difícil para os povos indígenas, 1979. Vi várias lutas e continuo vendo hoje, com 39 anos. Lutas diferentes, mas são lutas. Quero que as pessoas ao ler meu poema, de modo especial indígenas, sintam-se esperançosos e fortalecidos numa ancestralidade que os move e que nos move, mas sem esquecer o seu lugar de onde estão e para onde vão. Então esse trânsito é muito importante na construção de minha escrita poética porque é o que se vive. Estou na cidade, mas não deixo de fazer minhas benzeções, fumar um cachimbo, cantar com maracá, comer peixe assado à lenha, tomar banho de rio, ensinar meu filho a falar a língua tupi, orientar ele nesse trânsito que é viver na cidade, mas conhecer a aldeia ou as aldeias. Tudo isso que está na minha poética eu sinto em mim e se sinto tenho mais facilidade para externar em forma de poesia.

IHU On-Line – Qual o fundamento, a dinâmica e o objetivo de sua produção estética?
Márcia Kambeba – O fundamento de minha produção estética e poética, resumindo tudo, é justamente mostrar às pessoas que não existe uma “cara de índio”, mas que existe uma identidade que o torna pertencente a um “povo”. Como indígenas, precisamos entender isso, senão seremos apoiadores de preconceito e racismo que ainda hoje é entrave na caminhada de afirmação dos povos. E, aí sim, seremos facilmente dizimados, não pela bala da carabina, mas pela bala da ambição, do capitalismo, do status, do “eu sou melhor”. Temos que parar com a ideia de que “eu sou índio puro”. Nossa miscigenação começa no século XVI ainda, com a chegada dos espanhóis, portugueses e outros mais. Pois violentaram as mulheres e dessa violência sexual nasce nossa geração e também o povo brasileiro. Então isso também permeia meus poemas.

IHU On-Line – Você percebe uma correlação e mútua projeção entre arte e política indígenas?
Márcia Kambeba – Sim, percebo claramente, pois ao fazer arte em qualquer nível (literatura, música, produção de documentário e cinema etc.) estamos chamando para um pensar reflexivo e isso é política. Então fazemos política pela arte sim, uma política indígena onde nossos assuntos e nossas lutas são colocados em foco, somos ativistas de várias causas. Estudamos e estamos nas universidades, saímos dela para contribuir melhor com nossa cultura. A proposta é trazer uma fala descolonial e conseguir que muitos nos escutem, revejam posturas e modos de tratar os indígenas e suas causas, isso é um ganho muito importante. Ir às escolas, universidades, fazer a literatura circular no Brasil e em outros países é um movimento de resistência imenso. Não sou partidária, mas faço política ao passo que faço as pessoas refletirem sobre sua forma de pensar e agir através de canto e poesia. Não se luta mais com arco e flecha apenas, hoje temos uma luta mais articulada, com estratégias onde a palavra e a escrita simbolizam nosso arco e flecha. E conseguimos acertar o alvo sem sangrar, sem causar dor porque acertamos o coração e a mente de quem se abre para nos ouvir.

IHU On-Line – Você se considera uma escritora indígena feminista? O que você compreende por feminismo indígena?
Márcia Kambeba – Se pensarmos o feminismo como transformação social e como uma luta por seus direitos, por mostrar que temos capacidade de ocupar cargos que antes somente os homens ocupavam, então, aí sim, vejo-me feminista. Apoio que nas aldeias as mulheres lutem para mostrar sua capacidade, sua força e sua produção intelectual. Fato é que esse cenário está cada dia mais amplo. Temos mulheres cacicas, temos mulheres nas várias frentes de lideranças, temos ampliado nossa gama de mulheres escritoras, nas artes visuais, nas universidades, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. Existe de minha parte uma luta muito grande nas aldeias como professora para que as mulheres indígenas que estão na licenciatura não desistam.

Recebo muitas mensagens e tento no meu possível dar incentivo e ajudar. Temos tido encontros de fortalecimento das mulheres indígenas nos vários seguimentos das artes. A ideia é criar redes de fortalecimento na aldeia e na cidade. É uma ideia que ainda caminha buscando estratégias para consolidação. Na minha escrita, a MULHER INDÍGENA é presente. Fui criada por uma grande mulher que foi minha avó, na aldeia, em um tempo difícil. Hoje, em meus poemas, tento trazer essa mulher que representa força, garra, coragem, firmeza, resistência, sabedoria e ancestralidade para a literatura. No livro De almas e águas índias, que pretendo lançar ano que vem, retrato em poesia a figura da mulher presente na água, na terra e na mata... presente na pajelança, presente e não mais ausente. Então tenho, sim, esse carinho pela luta da mulher indígena na qual estou inserida.

IHU On-Line – Como o pensamento, a arte e a cultura Omágua/Kambeba podem contribuir para pensarmos uma educação básica e superior mais inclusiva e participativa?
Márcia Kambeba – A educação indígena tem suas peculiaridades. Uma delas é que na aldeia Kambeba, por exemplo, não temos tempo de relógio para marcar a hora que entra e a hora que sai. Há uma liberdade de ensino onde a criança não só aprende como ensina e ao aprender ela o faz com prazer porque está na prática e é gostoso aprender fazendo na prática. Penso que ter uma educação inclusiva parte primeiro do respeito. Saber que não existe só aquela pessoa ou aquela cultura no mundo e entender o que a multiculturalidade é fundamental. Entender sua história para assim respeitar a do outro. Também temos o cuidado de na aldeia ensinar as crianças o valor de cuidar do rio em uma aula de educação ambiental, onde elas na canoa juntam lixo que as comunidades não indígenas jogam e que vai correr no mesmo rio que elas banham. Então penso que pensar um curriculum onde a intercultural idade seja visível para crianças e professores é o caminho.

IHU On-Line – Você também é professora que possui ancestralidade Omágua/Kambeba e, portanto, carrega nossa história de colonização. Nesse sentido, se você fosse reescrever a história do Brasil, como você o faria?
Márcia Kambeba – Nessa forma de reescrever a história do Brasil, buscaria fazer de forma que todos os mundos pudessem caber nesse mesmo mundo. Onde não tivesse dominados nem dominadores, e usaria mais a percepção dos indígenas e sua visão de mundo seria levada em conta. Respeitando a diversidade e a diferença. Penso que teríamos um Brasil menos violento e preconceituoso. ■

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