Edição 527 | 27 Agosto 2018

O agro não é pop. O constante processo de dizimação indígena

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Leno Danner e Ricardo Machado

Para Sônia Guajajara, mulher indígena, política e ativista dos direitos dos povos tradicionais, não existe possibilidade de democracia se houver o desejo de extermínio físico ou cultural de um ou mais povos

Sônia Guajajara é mulher guerreira. É mais uma dentre as inúmeras dos diversos povos indígenas que compõem a miríade de mais de 300 etnias que habitam o território brasileiro. Distantes do paradigma existencial que tem impactado radicalmente a vida na terra, os ameríndios mantêm um modo de vida que prima pelas relações de reciprocidade entre todos os seres. “Hoje talvez sejamos nós, povos indígenas e populações tradicionais, o modelo civilizatório a ser seguido, porque preservamos nossas relações sociais acima das aquisições materiais. Por isso, falamos de uma crise não apenas econômica e social, mas de perda de valores como a solidariedade, sem os quais nenhuma sociedade pode existir”, avalia Sônia Guajajara, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Na ditadura militar, oito mil índios foram assassinados. Passados 33 anos do fim do regime, para a massiva maioria das populações tradicionais a própria existência se converte em um ato de resistência, sobretudo diante dos ataques a políticas públicas voltadas às populações marginalizadas. “Este ano a juventude indígena conseguiu manter o Programa de Bolsa Permanência que o governo Temer tentou acabar da noite para o dia e o apoio da sociedade foi muito importante. Mas olha quantos outros programas e políticas foram destruídos nos últimos anos por este governo e especialmente com a Emenda Constitucional 95, com o claro intuito de retroceder a patamares ainda mais vergonhosos de desigualdade no Brasil. Não podemos aceitar isso”, ressalta a entrevistada.

Não obstante o ataque estatal, sobreviver às investidas da iniciativa privada e à prosa cínica da mídia hegemônica se transformou em um desafio à própria sobrevivência. “Não é possível iludirmos a sociedade com o discurso hegemônico do agronegócio, ele não é ‘pop’. Ele tira vidas no campo, concentra terras nas mãos de políticos, ataca a agricultura familiar e não oferece mais que veneno nas nossas mesas e lucros gigantescos para algumas empresas. Uma sociedade que se propõe a excluir e exterminar social ou culturalmente um ou muitos povos e grupos, ou uma sociedade que se omite diante de tais atrocidades não pode ser uma sociedade democrática”, provoca.

Sônia Bone Guajajara é uma líder nascida na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão, e pertence à etnia Guajajara/Tentehar, no Maranhão. Formada em Letras e em Enfermagem e Especialista em Educação especial pela Universidade Estadual do Maranhão. Recebeu em 2015 a Ordem do Mérito Cultural. Coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - Apib. Atualmente é candidata à vice-presidência da República na chapa do PSOL.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como você compreende e percebe a vinculação e a atuação público-política do movimento indígena em nosso contexto?
Sônia Guajajara – Entendo que os mais de 300 povos indígenas são uma importante expressão da diversidade no Brasil. E muita gente ainda ignora que existem mais de 270 línguas indígenas no país, que seguimos resistindo, que estamos presentes em todos os estados, que preservamos mais florestas do que unidades de conservação, e que guardamos também a diversidade de nossos alimentos, plantas etc.

Por isso, nossa atuação política ou mesmo nossa simples presença em espaços públicos nunca antes abertos a nós é um grande convite ou uma provocação para que a sociedade tenha uma reflexão mais profunda sobre processos de injustiças históricas e presentes que se praticam contra a diversidade no Brasil.

Nós povos indígenas, não nos vemos como uma minoria, ou simplesmente como um movimento social. Somos muitos povos, diferentes e autônomos entre si, que nos unimos em lutas comuns, inclusive com outros grupos e movimentos, como é por exemplo o caso da luta pela demarcação de nossas terras, da proteção do meio ambiente e da garantia de termos nossos líderes, homens e mulheres, vivos e protegidos. Lutas pela superação de uma lógica colonial que ainda se impõe nas instituições e na sociedade. Lutas que foram amplamente registradas ainda em 1987-1988 no processo da Assembleia Constituinte, mas que ainda hoje não foram compreendidas pela minoria oligárquica que se mantêm no poder.

IHU On-Line – Como os intelectuais indígenas estão se inserindo na esfera pública e nos âmbitos cultural e institucional?
Sônia Guajajara – Nós povos indígenas, a partir de um processo duro de resistência às inúmeras tentativas de extermínios e de exclusões que sofremos enquanto sociedades e grupos social e culturalmente distintos, conquistamos alguns espaços na esfera pública.

Se antes o indígena era visto como um ser humano inferior, que precisaria ser “civilizado”, que ocupava no máximo um cargo de intérprete ou ajudante na Fundação Nacional do Índio - Funai, hoje temos milhares de professores indígenas formados, agentes de saúde, médicos, engenheiros, advogados, mestres e doutores. Indígenas escritores, cineastas, fotógrafos e artistas alcançam outros sentidos da sociedade brasileira, assim como alguns de nossos pajés. Eles levam conhecimentos da vida na aldeia e do contato com a natureza que rapidamente a sociedade não-indígena perdeu e hoje sofre profundamente, condenando indivíduos à solidão, depressão e endividamentos sem sentido. Hoje talvez sejamos nós, povos indígenas e populações tradicionais, o modelo civilizatório a ser seguido, porque preservamos nossas relações sociais acima das aquisições materiais. Por isso, falamos de uma crise não apenas econômica e social, mas de perda de valores como a solidariedade, sem os quais nenhuma sociedade pode existir.

IHU On-Line – Quais são as bandeiras de luta desses intelectuais e o que eles têm a dizer sobre nossa modernização contemporânea?
Sônia Guajajara – Acho que esse conceito de intelectuais faz uma distinção entre pessoas que para nós povos indígenas não necessariamente funciona. Mulheres e homens têm saberes diferentes, velhos e jovens também.

Nesse ponto, a juventude indígena está elaborando entendimentos importantes tanto nas universidades como nos meios de comunicação e redes sociais, que podem retratar o encontro de culturas que possivelmente é a marca do nosso século.

Esses jovens, na sua maioria, falam suas línguas indígenas e dominam a língua portuguesa, cresceram na aldeia e hoje estão nas cidades estudando ou trabalhando. Eles vivem no seu cotidiano a exclusão em muitos níveis e, muitas vezes, se descrevem como estando entre duas culturas radicalmente distintas.

E quais são as bandeiras deles? A garantia das demarcações das terras de seus povos, o fim da violência contra os indígenas, a garantia de políticas públicas adequadas, inclusive a garantia de seus direitos para estarem nas universidades e terem seus saberes reconhecidos. Ou seja, é a bandeira do viver bem, uma bandeira comum seja na cidade ou no campo e que precisa estar na política.

Temos indígenas vereadores e secretários ou secretárias municipais, estaduais e federais. Mas isso ainda é pouco. Nem sempre ocupar um espaço público garante fazer a transformação que se necessita na raiz das políticas públicas e das instituições.

É preciso mudar as estruturas da política. Desde Mário Juruna , nunca mais tivemos um representante indígena no Congresso Nacional e essa é a primeira vez na história do país que se apresenta uma candidata indígena numa chapa presidencial.

Lançamos também uma plataforma de apoio a candidatos indígenas nessa eleição de 2018. Porque mesmo eleitas, as poucas pessoas indígenas que ousam lançar suas candidaturas, precisam de apoio para enfrentar o processo eleitoral porque quando nos colocamos como candidatas e candidatos, viramos alvos a todo tipo de ataque também. Mas isso só acontece porque nossa voz importa, e isso incomoda os donos do poder.

IHU On-Line – Como você tem pensado seu papel político no cenário nacional?
Sônia Guajajara – Como candidata tento inovar o projeto político em todos os sentidos, abraçando as lutas sociais, reconhecendo o poder de se fazer política a partir das bases, do engajamento de pessoas comuns, que se aliam umas a outras e a movimentos e coletivos que estão verdadeiramente interessados no bem comum, no fim da desigualdade social.

Ser a primeira mulher indígena a compor uma chapa presidencial é carregar a responsabilidade de pautar com profundidade temas que são sempre marginalizados do debate, mas que são fundamentais para o futuro do país.

Se me permite uma provocação, não me coloco como uma intelectual, mas sim como uma mulher indígena. Tive a oportunidade de frequentar a universidade dos não-indígenas, de me engajar em diversas causas sociais, de viver na pele a violência do racismo e do preconceito, de compartilhar a dor daquelas pessoas e povos que se mantêm em pé com dignidade na defesa de seus territórios, de suas línguas, de seus jeitos de ver o mundo e de explicar nossas existências e acho que é de lá que vem a confiança na possibilidade de mudar nosso país.

Espero trazer de maneira transparente as pautas de todas as mulheres, pelo fim da violência e do feminicídio, pela legalização do aborto, mas também a pauta dos povos indígenas, tendo como questão chave o direito à terra, bem como a proteção das florestas e dos recursos naturais.

Precisamos garantir para nós, nossas filhas e filhos, netas e netos a possibilidade de um bem viver. Estamos falando de uma mudança no agora, que depende da conservação das florestas, do cerrado e das nascentes para podermos enfrentar os efeitos das mudanças climáticas, a crise de água, a necessidade de termos alimentos sem venenos, adequados para o consumo, dentre outros temas. Eu disse lá no Rock’n Rio, não há um plano B, precisamos agir agora. Nossa sociedade já está sofrendo, precisamos fazer mais pela sustentabilidade e pela igualdade.

IHU On-Line – Qual o papel da escola e da educação públicas em termos de inclusão e de fomento da cultura indígena à sociedade em geral?
Sônia Guajajara – Acho que estamos em constante processo de formação e educação e particularmente nesse processo eleitoral precisamos estar preparados para enfrentar discursos fascistas e excludentes tanto no âmbito escolar como nas nossas casas, ambientes de trabalho etc.

Há mais de dez anos foi estabelecida nas diretrizes e bases da educação nacional a obrigatoriedade de se incluir, em toda rede de educação, conteúdos programáticos abordando “diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira (…) tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil”. Mas até hoje isso não foi feito de maneira adequada, e é preciso avançar muito para oferecer não apenas um ensino público de qualidade, mas um ensino que promova o pensamento crítico e engajado em resolver questões da sociedade, que promova a autonomia e não a apatia. Por isso, projetos como o chamado Escola sem Partido são uma grande ameaça ao futuro. Entendo que nossas crianças e jovens não podem ser impedidos de conhecer de maneira crítica e estudar sobre a história de nosso país.

IHU On-Line – Você acredita que a academia, em particular as Ciências Humanas e Sociais, está mais aberta ao estudo e ao diálogo com o pensamento e a cultura indígenas?
Sônia Guajajara – Acho que toda a sociedade, inclusive a academia, está aprendendo a estabelecer relações respeitosas com os povos e as pessoas indígenas. Entendo que esse aprendizado só é possível por causa da presença indígena nos bancos das universidades. Cansamos de ser só meros objetos de estudos.

Por isso a defesa de políticas de acesso e permanência de indígenas, e também quilombolas, nas Universidades é uma luta de interesse público, que faz a gente avançar enquanto sociedade à medida que inclui a diversidade e reconhece os saberes tradicionais na produção do conhecimento nacional. Políticas sociais que reduzem a desigualdade crônica são fundamentais para mudarmos nosso país. Este ano a juventude indígena conseguiu manter o Programa de Bolsa Permanência que o governo Temer tentou acabar da noite para o dia e o apoio da sociedade foi muito importante. Mas olha quantos outros programas e políticas foram destruídos nos últimos anos por este governo e especialmente com a Emenda Constitucional 95 , com o claro intuito de retroceder a patamares ainda mais vergonhosos de desigualdade no Brasil. Não podemos aceitar isso.

IHU On-Line – Se a senhora pudesse recontar a história da sociedade brasileira, como a senhora o faria?
Sônia Guajajara – Acho que a história de uma sociedade ou de um país só pode ser recontada de maneira adequada por ela mesma. Aos líderes nacionais cabe o compromisso e a humildade de garantir todas as condições para que essa história seja reconstruída e contada de maneira verdadeiramente participativa.

Em alguns países da América Latina, a partir dos resultados de Comissões Nacionais da Verdade, foi possível iniciar processos importantes de reconhecimento de violações e consequentemente abrir espaços para reconciliações sociais. No Brasil, pouco se fez com os resultados e as recomendações da nossa Comissão Nacional da Verdade. A sociedade de um modo geral ainda desconhece aquilo que foi investigado e revelado, como por exemplo a morte de mais de oito mil indígenas pela ditadura militar.

Então, acho que o que precisa ser feito é um grande processo de escuta à sociedade, de consideração às vozes historicamente excluídas, e de empenho estatal no reconhecimento de seus erros, muitos e graves erros. Sem isso, o país não avança. Sem isso, seguiremos tendo que enfrentar com vidas projetos desenvolvimentistas de lógica colonial ou ditatorial como foi e continua sendo a UHE Belo Monte no Pará.

Para os povos indígenas esse processo de busca da verdade, reparação e reconciliação vem de antes e vai para além do período ditatorial, mas é preciso antes restabelecermos a democracia plena para efetivamente termos condições de propor algo dessa natureza.

IHU On-Line – Que práticas e valores são trazidos pelos povos indígenas à sociedade brasileira com o objetivo de conquista de hegemonia acerca das lutas dos povos tradicionais?
Sônia Guajajara – Acho que a luta dos povos indígenas está nos corpos de nossas mães, de mulheres e homens indígenas, de todas as idades, em todos os cantos do Brasil. A invisibilidade desses processos de violência, exclusão associados à ganância pela tomada de terras e à vontade de extermínio de povos e culturas não se sustenta mais. Aqui estamos nós, 518 anos depois, pautando os direitos dos povos indígenas numa eleição presidencial! Não é possível iludirmos a sociedade com o discurso hegemônico do agronegócio, ele não é "pop". Ele tira vidas no campo, concentra terras nas mãos de políticos, ataca a agricultura familiar e não oferece mais que veneno nas nossas mesas e lucros gigantescos para algumas empresas.

IHU On-Line – Em que sentido a luta indígena por seus territórios materiais e simbólicos confunde-se com a luta pela própria democratização da sociedade brasileira?
Sônia Guajajara – Uma sociedade que se propõe a excluir e exterminar social ou culturalmente um ou muitos povos e grupos, ou uma sociedade que se omite diante de tais atrocidades não pode ser uma sociedade democrática.

Quando ocupamos o Congresso Nacional em junho de 2013 , durante a Mobilização Nacional Indígena, acho que refletimos um anseio geral da sociedade por mudança. Isso se confirmou nas grandes mobilizações sociais que aconteceram imediatamente e nos anos seguintes, agravados pelo golpe. Essas mobilizações foram em grande parte lideradas por mulheres jovens e periféricas.

Em resposta, enfrentamos uma crescente repressão dos governos às manifestações sociais pacíficas. Violência, perseguição, criminalização e prisões injustas de um lado e leniência às mortes de lideranças do outro lado. Mas não vamos nos silenciar. O assassinato de Marielle nos convoca a estarmos juntos, a nos mantermos firmes pelas causas justas, a encontrarmos na política e no engajamento social a chave das mudanças que precisamos para viver bem enquanto sociedade e indivíduos. Então, em outubro, precisamos estar mais do que nunca em mobilização cidadã. ■

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