Edição 525 | 30 Julho 2018

Uma outra política para a esquerda e a necessidade de rever a relação com Marx

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João Vitor Santos

Ruy Fausto analisa impasses políticos de hoje e a relação com as confusões que se dão com os escritos marxianos

A esquerda no mundo todo está doente, mas em terra brasilis há problemas crônicos. Essa é a interpretação do professor Ruy Fausto, que ainda acrescenta: “as grandes patologias da esquerda são o totalitarismo e o populismo, a acrescentar a social-democracia adesista”. Para ele, há emergência de se reinventar novos caminhos para a esquerda que, aliás, podem muito bem passar por uma releitura dos escritos de Karl Marx, sem os atravessamentos que o marxismo muitas vezes tende a fazer. “A esquerda tem de se definir rigorosamente em relação ao corpus marxiano. Isso não foi bem feito, até aqui. E persiste a confusão”, analisa. Confusão que, para ele, se dá pela incidência de perspectivas populistas, mas, especialmente, bolchevistas. “O bolchevismo foi uma catástrofe para a esquerda. Continuamos a pagar um preço pelos seus erros”.

Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, Fausto ainda acrescenta que no mundo, em particular no Brasil, “é preciso articular as lutas ‘clássicas’, com as chamadas ‘novas’ lutas: feminismo, antirracismo, LGBT etc. Parece banalidade, mas esse trabalho é fundamental, e não tem nada de simples”. Assim, de certa forma, encarando esse desafio se estaria voltando ao Marx da essência, aos escritos marxianos e não às leituras dos seguidores, os marxistas, para pensar nos desafios de nosso tempo.

Também sobre a realidade da esquerda nacional, dispara: “vai de mal a pior”. Isso porque o PT, partido clássico da esquerda brasileira, para Fausto, comete erros como a defesa cega do governo da Venezuela e a insistência da candidatura de Lula, enquanto figuras ultraconservadoras crescem. “Precisamos de uma outra política para a esquerda”, resume.

Ruy Fausto possui graduação em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP, graduação em Direito pela mesma instituição e doutorado em Filosofia pela Université Paris 1 Pantheon-Sorbonne. Atualmente é professor titular da USP e membro de corpo editorial dos Cadernos de Ética e Filosofia Política da USP. Entre seus livros publicados, destacamos Outro dia: intervenções, entrevistas, outros tempos (São Paulo: Editora Perspectiva, 2009), Os piores anos da nossa vida (Niterói: Editora da Fundação Astrojildo, 2008), A Esquerda Difícil: em torno do paradigma e do destino das revoluções do século XX e alguns outros temas (São Paulo: Editora Perspectiva, 2007) e Marx: Lógica e Política - Investigações para uma reconstituição do sentido da dialética (São Paulo: Editora 34, 2002). Recentemente publicou Caminhos da Esquerda, elementos para uma reconstrução (São Paulo: Companhia das Letras, 2017).

Ruy Fausto participou do 2º Ciclo de Estudos A reinvenção política no Brasil contemporâneo. Limites e perspectivas, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, em que proferiu a palestra Possíveis caminhos para a reconstrução da esquerda no Brasil. A íntegra da conferência pode ser acessada em http://bit.ly/2Ir7ZjI. Na mesma ocasião, concedeu a entrevista A reversão da crise requer uma exigência democrática sem perda do impulso anticapitalista, disponível em http://bit.ly/2K6kVkJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais os limites e as potencialidades de Marx para pensar a política do século XXI, uma época de grandes instabilidades e de rápidas e constantes transformações?
Ruy Fausto – Vamos dividir e também deslocar um pouco a questão. O Capital é um clássico. Não um clássico como as obras dos grandes filósofos modernos ou antigos. Ele é mais atual. Mas também não um clássico, como é, a meu ver, um livro como a Dialética Negativa, de Adorno . O Capital é um clássico “um pouco” distante do nosso tempo, mas não demasiado distante (essas minhas fórmulas são muito aproximadas e sem rigor, sem dúvida, mas é preciso começar por aí).

Quanto à política de Marx, se ela continua a ser relevante, ela envelheceu mais do que a teoria estrito senso. Eu diria que o essencial é que Marx viveu antes da época do totalitarismo, o que faz toda a diferença. Não apenas ele não conheceu o nazismo e o stalinismo, como, diferentemente de outros pensadores do seu tempo, praticamente não pensou na possibilidade deles. Nós vivemos numa época pós-totalitária; entretanto, esse “pós” é inclusivo. Vivemos ainda, digamos assim, “no tempo” do totalitarismo. O que não significa que a crítica do capitalismo perdeu atualidade.

IHU On-Line – Como compreender a gênese da lógica de Karl Marx? Em que medida o marxismo vai inebriando e diminuindo a potência da gênese desse pensamento?
Ruy Fausto – O corpus marxiano brota a partir de um campo de ideias e experiências, muito rico e complexo. A Lógica de Hegel tem um papel saliente nisso tudo. Na tradição marxista, há uma enxurrada de desenvolvimentos muito à côté de la plaque (fora da jogada), e também muita bobagem, além de muita deformação sinistra, o que é o mais grave.

Há, entretanto, coisas sérias na tradição, digamos, pós-marxista (com um “pós” semi-inclusivo). O importante: os alemães de Frankfurt , principalmente Theodor Adorno. A Dialética Negativa de Adorno, é, ao meu ver, o nosso “clássico atual“ (para usar de uma expressão um pouco paradoxal). Também os franceses (ou semi-franceses), como Cornelius Castoriadis e Claude Lefort , aos quais se poderia acrescentar Edgard Morin , e também André Gorz . Em matéria de crítica da economia política, acho que tudo está por fazer. Mas há muita gente jovem, e menos jovem, tentando avançar pelo caminho crítico.

IHU On-Line – De que forma o senhor observa as transformações no pensamento do “jovem” para o “velho Marx”? Quais as mudanças mais significativas?
Ruy Fausto – Claro que muda, quando se passa de um ao outro. Mas não se trata da “coupure” althusseriana, que é simplesmente um erro. A fórmula está meio usada, mas há, na passagem, um misto de continuidade e descontinuidade. Digamos que o fundamento antropológico do discurso de juventude desaparece como fundamento, mas não desaparece de forma absoluta (isto é, se a antropologia deixa de ser fundamento, ela não “some”). Não se suponha, entretanto, que essa mudança é pequena. Falo isso no plano da análise de fato. Em termos do julgamento da obra de Marx, acho que, por razões diferentes, os “dois” Marx são interessantes.

IHU On-Line – Voltemos à lógica hegeliana. Qual é seu papel no pensamento do “Marx mais maduro”? Em que medida essa lógica amplia o pensamento de Marx?
Ruy Fausto – Papel muito grande, mal compreendido no passado, mal compreendido ainda hoje. A lógica hegeliana não “amplia” o pensamento de Marx, ela é um “elemento” decisivo desse pensamento. O que não significa que Marx seja, a rigor, “hegeliano”. Se se quiser simplificar muito, e dar uma fórmula, Marx cultiva uma sintaxe hegeliana, e uma semântica que não é hegeliana. Mas isso é uma aproximação um pouco grosseira. Para mais detalhes e mais rigor, ver o que escrevi a respeito em meus livros.

IHU On-Line – Qual a contribuição do pensamento de Marx para concebermos saídas para o estado de crises em que a esquerda mundial parece mergulhada?
Ruy Fausto – Embora isso não seja o mais urgente, a esquerda tem de se definir rigorosamente em relação ao corpus marxiano. Isso não foi bem feito, até aqui. E persiste a confusão. Mas o grande problema (que, entretanto, tem a ver com a crítica a Marx) é o do bolchevismo e também o do populismo. O bolchevismo foi uma catástrofe para a esquerda. Continuamos a pagar um preço pelos seus erros, ou antes, por tudo o que ele significou e significa de negativo.

IHU On-Line – Como uma apropriação ortodoxa (de esquerda e de direita) dos escritos de Marx, em termos acadêmicos e políticos, inviabilizou uma crítica à sua obra que, inclusive, era estimulada por ele durante o período de sua produção?
Ruy Fausto – A ortodoxia sempre foi um peso negativo. A ortodoxia acadêmica inclusive. Mas teríamos que fazer distinções: há o lado errado do pensamento do próprio Marx, depois houve a deformação leninista, depois a deformação bolchevista e também a social-democrata. É necessário precisar o sentido e o alcance de cada caso, porque os erros e deformações são de natureza bastante diferente. De qualquer modo, uma soma de erros produziu uma enorme confusão. A fortiori no Brasil. Diz-se, até, que hoje, no Brasil, não são poucos os stalinistas.

IHU On-Line – No campo político, especialmente no espaço da esquerda, essa crítica sempre estimulada pelo próprio Marx foi feita ou, muitas vezes, há aplicação de suas ideias numa cega ortodoxia?
Ruy Fausto – Fez-se pouco. No plano político, a principal crítica a Marx foi a que fez a revista Socialismo ou Barbárie , que encerrou a sua carreira, paradoxalmente, às vésperas da revolta de 68. A revista foi fundada por Lefort e Castoriadis , mas Castoriadis a dirigiu por mais tempo. Acho que Castoriadis é, de longe, a grande figura, em termos de crítica da política marxista, embora, como sempre, haja muita coisa a discutir, no pensamento dele, tanto no plano teórico, como também no plano da própria política. De qualquer modo, eu diria: fala-se de Castoriadis, publicam-se teses e livros a respeito, mas acho que, apesar de tudo, não se reconheceu plenamente o papel que ele teve e tem.

IHU On-Line – O senhor diz que a esquerda brasileira carece de autocrítica. Em que medida podemos associar essa falta de crítica com as transformações que vão sendo feitas no socialismo, levando-a para muito mais perto do capitalismo?
Ruy Fausto – A esquerda brasileira padece das doenças da esquerda mundial, mas tem também patologias próprias (ou, talvez, melhor, as deformações universais aparecem aqui com particularidades locais). As grandes patologias da esquerda são o totalitarismo e o populismo, a acrescentar a social-democracia adesista. Há um imenso trabalho a fazer. Tentei definir as grandes linhas deste, no meu livro Caminhos da Esquerda, elementos para uma reconstrução , que publiquei no ano passado. Nas conferências e intervenções que fiz em seguida à publicação do livro, inclusive uma na Unisinos, tentei prolongar o debate. No Brasil, como no mundo, é preciso articular as lutas “clássicas“, com as chamadas “novas“ lutas: feminismo, antirracismo, LGBT etc. Parece banalidade, mas esse trabalho é fundamental, e não tem nada de simples.

IHU On-Line – A lógica da luta de classes ainda é válida para compreender realidades como a brasileira? E que nexos podemos estabelecer entre luta de classes e as desigualdades ainda muito presentes no Brasil de hoje?
Ruy Fausto – Alguma coisa que poderia ser chamada de “luta de classes” é essencial para entender também a situação brasileira. Mas a expressão tem quer ser analisada. Trata-se exatamente de “luta de classes”, no Brasil? Ou de exploração de classe, e de desigualdade? E de protesto popular. De resistência popular, mesmo se mais ou minoritária até aqui. Existem lutas, e também classes, mas até aqui o que se tem não é exatamente “luta de classes”. Isso para tentar falar em termos mais teóricos. O essencial é que existe uma desigualdade brutal, que se reforça através de um sistema tributário escandaloso. E que, bem ou mal, há alguma resistência a isso.

IHU On-Line – Num tempo em que o capitalismo industrial se transforma no volátil capitalismo financeiro, qual a atualidade de uma obra como O Capital?

Ruy Fausto – Impossível evitar a fórmula banal: mudou muita coisa, mas há certo número de elementos que ficam. Precisaríamos de uma nova crítica da economia política, porém O Capital não pode simplesmente ser posto na gaveta, quando estivermos escrevendo essa nova crítica. Em compensação, seria preciso abandonar todo tabu em relação à crítica. Mesmo elementos fundamentais como a teoria da “mais valia” teriam de ser radicalmente reexaminados.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Ruy Fausto – Sobre o nosso sistema tributário, sobre o qual não se fala. Ou antes, se conta uma história de fadas: “no Brasil – dizem – os impostos são muito altos”. Muito altos para quem, cara pálida? Eles são altos para os pobres, através do mecanismo da imposição sobre os meios de consumo. Mas são baixíssimos para os mais ricos. Basta ver a alíquota superior de imposto de renda (comparar com a de qualquer pais “sério”), ver o baixíssimo imposto sobre herança, ver o imposto zero (!) para os dividendos de pessoa física etc. E no entanto, até aqui, nos afogamos (a mídia not least) no mito dos impostos altos.

Diria, concluindo, que a situação do Brasil é trágica. Provavelmente uns quinze milhões de brasileiros (espero estar enganado) vão votar, em outubro, num candidato neofascista. O partido hegemônico na esquerda (até aqui) vai de mal a pior. Desde a defesa do governo tirânico de Maduro , na Venezuela, até a incapacidade em forjar desde cedo uma candidatura de unidade que nos desse alguma esperança quanto ao resultado das eleições. Importa tirar Lula da cadeia, mas o melhor jeito de obter isso (para não falar dos outros problemas) não é alimentar simplesmente o mito Lula, como fez o PT. Precisamos de uma outra política para a esquerda.■

Leia mais

- A reversão da crise requer uma exigência democrática sem perda do impulso anticapitalista. Entrevista especial com Ruy Fausto, publicada nas Notícias do Dia de 25-10-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- Possíveis caminhos para a reconstrução da esquerda no Brasil. Vídeo da conferência com Ruy Fausto, realizada em 25-10-2017 no Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- O socialismo sem dentes de Ruy Fausto. Artigo de Ruy Fausto, reproduzido nas Notícias do Dia de 19-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- ‘Hegemonia de esquerda não pode ser mais do PT’. Entrevista com Ruy Fausto, reproduzida nas Notícias do Dia de 26-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- “O PT não defende a causa da esquerda. Nem a do país”. Entrevista com Ruy Fausto, reproduzida nas Notícias do Dia de 21-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

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