Edição 525 | 30 Julho 2018

A esquerda ferida

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Jose Arthur Giannotti

“A exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não é homogênea. Todas as revoluções de esquerda, desde a russa, que tentaram produzir sem passar pelas misérias do mercado, foram obrigadas a recuar. Toda política distributiva tem que saber como se produz a riqueza a ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema. A mera acusação contra o capitalismo sem levar em conta esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da democracia como o terreno onde essas discussões possam ser feitas. Esconder o problema, só pensar na distribuição, é enganar o público e fomentar o populismo ”, escreve Jose Arthur Giannotti. E acrescenta: “nada mais prejudicial à modernização da esquerda do que a repetição das críticas a um capital que deixou de existir”.

Jose Arthur Giannotti é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo - FFCL/USP. É membro fundador e Pesquisador Senior no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento - CEBRAP, São Paulo, professor contratado da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo -PUC/SP e, ainda, professor titular na área de Filosofia política do Departamento de Filosofia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Entre seus livros publicados, destaque para Apresentação do mundo. Considerações sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein (São Paulo: Cia. das Letras, 1995), Universidade em ritmo de barbárie (São Paulo: Brasiliense, 1986), Trabalho e reflexão (São Paulo: Brasiliense, 1983) e O capital: crítica da economia política (São Paulo: Boitempo Editorial, 2013).

Eis o artigo.

Por mais que o sistema capitalista tenha mudado, o conceito marxista de capital ainda nos obriga a pensar e a levar em conta que nosso sistema econômico cria riqueza e muita desigualdade ao mesmo tempo. Devemos, porém, levar em consideração que houve uma enorme transformação em nosso sistema de produção: para crescer ele depende cada vez mais de invenções de novos produtos, por conseguinte de novas tecnologias. Essa dependência de novos conhecimentos trava a formação da mercadoria tal como Marx a pensou. Para que ela seja parcela do trabalho social total, como ensinara Ricardo , é necessário que todos os produtores de um mesmo ramo de produção tenham acesso à mesma tecnologia. Não me parece que isso seja o caso atualmente; mais ainda, as grandes fortunas nascem de descobertas tecnológicas que se tornam monopólio e são derrubadas com o nascimento de outros monopólios. A informática é o caso típico. Nessas condições haveria múltiplos valores médios circulando num mercado mundializado. Seria necessário repensar as novas formas de fetiche da mercadoria.

No entanto, o capital não se define apenas como produtor de mercadoria, mas de mercadorias-investimentos que só são mobilizadas quando geram lucro. Sem uma tacha média de produtividade do capital, não há condições de formar a contradição tipo hegeliana entre o capital total e o proletário total. Aliás, em vez de se unificar o proletariado se espatifou em várias categorias de trabalhador e o próprio emprego se torna cada vez mais variável.

O jovem Marx, enquanto hegeliano, apostava numa revolução que opusesse capital e trabalho, mas o velho Marx não consegue fechar o terceiro volume de seu maior livro, porque os dados não levam nessa direção. Depois da publicação dos textos escritos no período, depois dos vários estudos sobre esse problema, em particular aqueles de Michael Heinrich , fica evidente que Engels , depois da morte de Marx, costurou esses textos o melhor possível para que ainda dessem a impressão de que a revolução proletária terminaria regenerando o gênero humano.

Daí a questão: a exploração do trabalho pelo capital é brutal, mas não é homogênea. Todas as revoluções de esquerda, desde a russa, que tentaram produzir sem passar pelas misérias do mercado, foram obrigadas a recuar. Toda política distributiva tem que saber como se produz a riqueza a ser distribuída. Hoje ser de esquerda é pensar nesse dilema. A mera acusação contra o capitalismo sem levar em conta esse desafio é enganação religiosa. Daí a importância da democracia como o terreno onde essas discussões possam ser feitas. Esconder o problema, só pensar na distribuição, é enganar o público e fomentar o populismo. Nada mais prejudicial à modernização da esquerda do que a repetição das críticas a um capital que deixou de existir.■

Leia mais

- ‘Podemos sair da crise, mas não sairemos do século 20’, diz José Arthur Giannotti. Entrevista reproduzida nas Notícias do dia de 28-8-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- Ética e Política: "A corrupção é um dos esteios da nossa formação", destaca José Arthur Giannotti. Entrevista reproduzida nas Notícias do dia de 2-12-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição