Edição 525 | 30 Julho 2018

Capitalismo no século XXI e a força cerebral no cerne da cadeia do valor

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João Vitor Santos | Tradução: Vanise Dresch

A partir da clássica expressão do pensador, general intellect, Yann Boutang analisa as transformações nos modos de produção que extrapolam o ambiente fabril e invadem um mundo neural de redes e conexões

Desde o tear até a impressora 3D, as tecnologias vêm impactando não só os modos de produção, mas também um realinhamento das relações dos seres humanos com o mundo. Karl Marx apreendeu isso quando observava o contexto do século XIX e, de muitas de suas reflexões, emergiu o conceito de general intellect que, além de designar a dimensão coletiva e social da atividade intelectual quando esta é fonte de produção de riqueza, também leva em consideração a tecnologia. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o professor francês Yann Moulier Boutang revisita o conceito marxiano e, a partir dele, olha para o século XXI. “A força de trabalho está cada vez menos no centro da produção. São a força cerebral e a força de invenção que estão no cerne da cadeia do valor. Em todas as atividades, a atividade humana se situa na origem da concepção, durante a fabricação, na supervisão, no controle das máquinas, e, na outra ponta, nos processos de design do consumo”, analisa. E conclui: “foi exatamente isso que Marx previu naquele fragmento esclarecedor dos Grundrisse (1857-58) dedicado às máquinas”.

Boutang recorda que passamos por um processo de mecanização que foi se sofisticando até chegarmos a máquinas que funcionam como memórias acessórias que potencializam a capacidade humana produtiva. “Posteriormente, a partir de 1995 (com a internet), em 2005 (web 2.0 interativa) e, por fim, em 2015 (com a internet das coisas), a substituição visou a operações complexas do cérebro (efetuadas, em grande parte, pelo lado direito do cérebro). De que modo? Mediante um novo tipo de robôs que designamos pelo termo geral de inteligência artificial”, completa. Estamos no contexto da revolução 4.0, que também realinha o capital. Se chegamos a sonhar em dinamizar a produção para sermos mais livres, acabamos sendo acordados abruptamente numa dura realidade. “Hoje, em pleno capitalismo cognitivo, é ainda profunda a discrepância entre a sociedade prometida – e possível – por esse mesmo capitalismo plenamente desenvolvido e a miserável sociedade de injustiça, de indiferença e com tantos pobres, em que tanta gente tem de trilhar um caminho penoso”, sintetiza.

Por fim, Boutang deixa um desafio, já que, para ele, para romper com um novo aprisionamento do humano por esse novo sistema capitalista, é preciso pensar em algo como uma renda básica universal. “Uma renda para liberar a força da atividade humana do jugo cada vez mais opressor do trabalho doado em excesso a outrem ou de um trabalho falsamente independente e fortemente dependente do mercado (mundial), um patrão bem mais tirânico e intrusivo que o velho patrão paternalista”.

Yann Moulier Boutang é professor de Ciências Econômicas na Université de Technologie de Compiègne - Sorbonne Universités, na França, membro do laboratório Connaissance, Organisation, Systèmes Techniques - COSTECH EA 22 23, Trivium CNRS. Leciona também na China, na Universidade de Shanghai - UTSEUS, na Ecole Nationale Supérieure de Création Industrielle - ENSCI, Paris, no curso Master Innovation by Design. Entre suas obras mais recentes, estão Cognitive capitalism (Inglaterra: Polity Press, 2012) e L’abeille et l’économiste (Paris: Carnets Nord, 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que significa o conceito de "general intellect" de Karl Marx?
Yann Moulier Boutang – O conceito de general intellect tem dois significados que se completam e formam um verdadeiro sistema em Marx:

1) ele assinala o caráter cada vez mais social da produção, o que quer dizer que o produto social global depende cada vez menos da contribuição individual de cada trabalhador. Falar da produção de mais-valia ou sobrevalia na escala do operário não tem mais sentido. Isso se deu progressivamente desde o advento do capitalismo industrial, como demonstram a parte crescente de bens e serviços produzidos por empresas públicas e o papel cada vez maior das somas obrigatórias retiradas do PIB – o que significa que a produção e a divisão estão cada vez mais estreitamente ligadas não só pela distribuição dos lucros, mas também pelas despesas sociais (o orçamento social do Estado), inclusive nos países desenvolvidos mais “liberais”;

2) ele indica também algo muito mais revolucionário. No “Fragmento sobre as máquinas” dos Grundrisse (1857-58), Marx explica, de fato, que a principal força produtiva deixa de ser o coletivo operário ou assalariado e passa a ser diretamente a ciência e suas aplicações:

Com o desenvolvimento da grande indústria e do maquinismo, a geração de riqueza depende menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho utilizada do que da potência dos agentes mecânicos movimentados durante o período de trabalho, cuja força eficaz é desprovida de relação proporcional com o tempo de trabalho direto gasto em sua produção.

Isso significa que a lei do valor deixa de ser e não deve mais servir de base de leitura da produção capitalista. Alguns parágrafos mais adiante, Marx põe os “pingos nos Is”:

O roubo do tempo de trabalho de outrem sobre o qual repousa a riqueza atual apresenta-se como uma base miserável em relação à nova base criada e desenvolvida pela mesma grande indústria. A partir do momento em que o trabalho sob sua forma direta deixou de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixar de ser, e deve deixar de ser, sua medida e, consequentemente, o valor de troca deixa de ser o valor de uso.


Ora, se o primeiro sentido, aquele da socialização crescente da produção, foi bem visto pelo marxismo do Movimento Operário, já o segundo, um momento presente na Carta de Amiens (1906) que tinha como programa a abolição do assalariado, foi rapidamente relegado por uma glorificação do trabalho “socialista” já desde a formação da União Soviética. Desaparece a perspectiva de uma recusa do trabalho assalariado como vínculo de subordinação, que ainda pode ser encontrada na obra O direito à preguiça , de Paul Lafargue , genro de Marx. É justamente com a passagem ao que eu denomino capitalismo cognitivo – ou que Greenwald e Stiglitz chamam de “sociedade do conhecimento” – que essa prodigiosa hipótese de Marx se torna uma realidade.

IHU On-Line – Atualmente, no contexto da chamada 4a Revolução Industrial, das transformações do mundo do trabalho pela tecnologia, quanto nos aproximamos e quanto nos afastamos da ideia de "general intellect"?
Yann Moulier Boutang – Descrevi detalhadamente as transformações do valor (daquilo que a economia política moderna praticada pelos empresários capitalistas chama de cadeia do valor nas duas pontas do segmento cada vez mais estreito da fabricação propriamente dita): o papel determinante da ciência e de sua aplicação em toda a indústria 4.0, formação de parte essencial do valor que pode ser identificada na divisão do valor agregado contável, na concepção, na incorporação contínua da inovação, no design, na marca, na logística. Da produção de mercadorias por meio de mercadorias, como resume a admirável expressão de Sraffa , passa-se à “produção de conhecimento por meio de conhecimento”.

O slogan da IBM que pode ser visualizado na sua sede em Binghamton, no estado de Nova York, é “work to learn”, em vez de “learn to work”, aquele da fábrica de sapatos (Johnson) que imperava na cidade operária. Nessa profunda mutação, a tecnologia digital tem um papel crucial. O que o moinho de vento significa para o feudalismo, e a máquina a vapor, para o capitalismo industrial, o computador pessoal, a interação da massa em redes digitais significam para esse terceiro capitalismo. Propus essa tese no ano de 2004, e a definição mais corrente do capitalismo de ponta (o grupo dito Gafami: Google, Amazon, Facebook, Apple, Microsoft, IBM, com suas filiais Twitter, Instagram, seus homólogos chineses e as empresas ditas “unicórnios” ) tornou-se aquela de um capitalismo de plataforma.

IHU On-Line – Em que medida o atual estágio de desenvolvimento das máquinas no mundo do trabalho degrada e desvaloriza o capital humano? Que associações podem ser feitas com os altos índices de desemprego no mundo? E como construir alternativas a essa realidade?
Yann Moulier Boutang – O papel crescente das máquinas e dos autômatos no capitalismo não é novo. No capitalismo mercantilista (1450-1750), as máquinas vitais da expansão foram os navios e a tração animal (o boi, o cavalo), o moinho d’água para a geração de energia. No capitalismo industrial, a máquina a vapor (o cavalo-vapor), tendo como base a energia fóssil (carvão, petróleo), combina a mecanização dos músculos animais e humanos. A substituição (ou mecanização) do tear com cartões perfurados de Jacquard pela máquina de fiar hidráulica ocorre após as greves, ou seja, toda vez que o preço das horas de trabalho operário ultrapassa, devido aos movimentos sociais, o preço desses autômatos combinados com outro tipo de trabalho humano.

Num período recente (a partir de 1975), esse movimento de mecanização e de substituição se voltou para o produto do cérebro (operações lógicas e simbólicas elementares efetuadas por um acoplamento de máquinas de cálculo e memória (hardware) e de instruções sob forma de programas operacionais, de processamento (software). Posteriormente, num segundo momento, a partir de 1995 (com a internet), em 2005 (web 2.0 interativa) e, por fim, em 2015 (com a internet das coisas), a substituição visou a operações complexas do cérebro (efetuadas, em grande parte, pelo lado direito do cérebro). De que modo? Mediante um novo tipo de robôs que designamos pelo termo geral de inteligência artificial.

Distinguem-se duas famílias de inteligência artificial: uma que provém de uma abordagem simbólica e preditiva, a partir de modelos analíticos, e outra que resulta da abordagem conexionista das chamadas redes neuronais. A segunda repousa em algoritmos de aprendizagem do tipo try and fail alimentados por um imenso número de dados. A robustez obtida por um programa que retém apenas as soluções exitosas tem, contudo, um defeito considerável: sabemos que isso funciona, mas somos incapazes de explicar por quê. Trata-se de uma caixa preta. Para um grande número de operações complexas (um grande número de variáveis, de funções não lineares), a “solução” das redes neuronais consiste na otimização das soluções práticas operadas por humanos e registradas sob a forma de big data, isto é, de dados estruturados. Mas, quando a solução preconizada está errada, não somos capazes de resolver mediante a aplicação de regras explicáveis.

O segundo tipo de inteligência artificial da realidade aumentada, superior em robustez aos modelos de redes neuronais, foi desenvolvido por Zyed Zalila , professor de lógica difusa (fuzzy mathematics) da UTC de Compiègne, na empresa Intellitech . Ela consiste em extrair automaticamente modelos preditivos explicáveis sob forma de regras (portanto, automatizar a indução de modelos preditivos). Diferentemente dos modelos conexionistas que repousam na exploração, como esses modelos obedecem a leis matemáticas, a operação seguinte consiste em predizer e verificar por simulação. Uma das explicações interessantes desse tipo de inteligência artificial é a possibilidade de verificar, a partir das bases de dados utilizadas para algoritmos, a qualidade dos modelos, não somente certificar a pertinência, a fidelidade dos algoritmos, mas também detectar se a base de dados foi corretamente constituída, ou até mesmo voluntariamente alterada (sonegação fiscal).

Automatização de profissões qualificadas

Por toda a parte em que a atividade humana é levada a manipular um grande número de variáveis (superior a 9 dimensões), ela procede mais por intuição (alimentada por um try and fail) do que por cálculo, pois nossa memória e nossa capacidade de cálculo são limitadas (bounded rationality, de Herbert Simon ). O desenvolvimento das inteligências artificiais permite automatizar profissões muito qualificadas. Os chats bots (robôs falantes capazes de responder às perguntas de clientes e detectar emoções sem que os clientes percebam que estão se comunicando com não humanos) são um exemplo espetacular, assim como Watson , a inteligência artificial da IBM, ou as caixas de som inteligentes domésticas (Alexa, da Amazon). Ainda mais impressionantes são os resultados do Alfa Go do Facebook, que venceu o melhor jogador de Go do mundo.

Em 2015, durante as eleições regionais francesas, o jornal Le Monde conseguiu redigir, por intermédio de um autômato, 56.000 artigos, apresentando uma análise dos resultados, das tendências para cada circunscrição, tudo com um selo local. No Japão, um livro do gênero policial foi escrito por inteligência artificial de forma anônima e conseguiu vencer o segundo prêmio de um concurso literário. Jornalistas, advogados, médicos especializados principalmente em radiologia e em diagnóstico de câncer, gerentes de banco, engenheiros encontram-se hoje na linha de frente desse tsunami do Big Data. A nova onda de automatização não afeta mais apenas os trabalhadores pouco qualificados da indústria, estendendo-se também à logística e ao trabalho qualificado. Como sempre, seguem a desqualificação de grande parte deles e a superqualificação de um número bem menor de ativos. Foi somente na primeira onda da Revolução Industrial de 1750-1850 que a crise do emprego alcançou tamanha proporção.

IHU On-Line – A revolução tecnológica permite a liberação do capitalismo clássico, promovendo uma evolução do próprio capitalismo? De que forma? E que tipo de capitalismo surge desse movimento?
Yann Moulier Boutang – A tecnologia digital teve várias fases que se estenderam por um período que ultrapassou aquele das transformações técnicas da Revolução Industrial. Entre 1936 (Turing), a decodificação do código Enigma (1940-43), as bases do computador (1945), a fabricação dos grandes computadores, os computadores pessoais baseados na revolução cibernética, a calculadora e o processamento da informação numérica (1940-1950), os grandes computadores, a internet, o celular, a internet das coisas. A revolução da supracondutividade, da fibra ótica, a miniaturização dos transistores, as nanotecnologias ampliaram as capacidades de memória e cálculo (a Lei de Moore , que está começando apenas agora a desacelerar), bem como a transmissão. A fase da web 1.0 se contentava com a exibição de conteúdo por download. Com a web 2.0, a interação se torna efetiva (pode-se comentar, marcar conteúdos, ter um blog, reagir, anotar, escolher diversos aplicativos, conectar-se a redes profissionais e sociais). A web 3.0 é aquela do armazenamento da informação, do Big Data, gerados pelo rastreamento da interatividade na internet das coisas, e da personalização do consumo, da produção.

Essa fase é coroada hoje pelo empreendimento 4.0 e pela generalização da inteligência artificial em todos os níveis. O digital entra não apenas nos serviços de gestão de informática e logística, mas também na concepção, na “cobótica” (uso de robôs combinados com humanos), na fabricação por robôs ou por impressoras 3D, substituindo, sobretudo, tarefas de serviços considerados complexos por inteligência artificial, isto é, por algoritmos aprendizes, geralmente por machine learning com base em redes neuronais. Essa indústria de fabricação e serviços por software 4.0 tem um poder de substituição do emprego muito qualificado comparável somente com a onda de mecanização da Revolução Industrial (1750-1850).

A força de trabalho está cada vez menos no centro da produção. São a força cerebral e a força de invenção que estão no cerne da cadeia do valor. Em todas as atividades, a atividade humana se situa na origem da concepção, durante a fabricação, na supervisão, no controle das máquinas, e, na outra ponta, nos processos de design do consumo. A principal força produtiva passa a ser a ciência e suas aplicações. Foi exatamente isso que Marx previu naquele fragmento esclarecedor dos Grundrisse (1857-58) dedicado às máquinas.

IHU On-Line – O que é, para Marx, uma sociedade capitalista plenamente desenvolvida?
Yann Moulier Boutang – Para Marx, uma sociedade capitalista plenamente desenvolvida é uma organização complexa e contraditória que combina instituições, como empresas, Estados, direitos de propriedade (não somente privada), compatíveis com dois imperativos:

1) a possibilidade de manter o controle sobre a revolução permanente das técnicas, pois, se essas inovações permanentes põem o trabalho assalariado na defensiva (os operários), elas são, ao mesmo tempo, um elemento de contestação radical das relações de produção capitalista. Por exemplo, a questão da gratuidade do acesso às plataformas interativas das empresas do Gafami, das quais o capitalismo cognitivo precisa absolutamente, levando-o a assentar-se nos direitos de propriedade tradicionais, apesar de gerar uma atitude “Market unfriendly”, ou seja, uma hostilidade à mercantilização de tudo e um movimento orientado para os novos bens comuns [ou de interesse geral] digitais (principalmente o movimento do conteúdo livre). Quando se trata de gerar lucro, as empresas do Gafami voltam a ser as defensoras absolutas dos direitos de propriedade intelectual. Deveríamos reler os debates sobre a pobreza evangélica dos franciscanos (1250-1350) e a distinção entre o usus pauper e o simplex usus facti para interpretar a querela das novas propriedades digitais. De fato, vivemos hoje no estágio do acúmulo primitivo desse terceiro capitalismo, depois do mercantilismo e do capitalismo industrial. E a questão dos direitos de propriedade sobre os bens imateriais do intelecto é tão crucial quanto a conquista da ideia de finitude dos recursos ecológicos, relembrada com tanta pertinência pela encíclica Laudato Si .

2) O segundo elemento de uma sociedade capitalista plenamente desenvolvida é justamente a organização de toda a sociedade como meio de frear continuamente a força revolucionária da atividade humana plenamente desenvolvida que tem como objetivo libertador uma maior justiça e abundância. No capitalismo industrial, durante muito tempo, com um baixo nível de desenvolvimento da força produtiva da ciência e da pessoa humana comparado às possibilidades atuais, a sociedade democrática e liberal das classes médias cercou a fábrica, controlando finalmente o proletariado de forma muito mais eficiente que as milícias dos patrões, a força pura ou os regimes comunistas do “socialismo real”. Hoje, é a sociedade digital e seu modelo de creative class que cavalga o tigre da revolução digital da “nova grande transformação”.

Trata-se de um processo eminentemente contraditório, repleto de surpresas possíveis. Em suma, tudo é possível, exceto o fim da história de Fukuyama , embora a marginalização das classes médias superiores, ameaçadas pela inteligência artificial, provoque uma reação nacional populista e soberanista que, na Europa, na América Latina e na Ásia, pode levar a involuções catastróficas sem futuro, mas extremamente destrutivas a curto e médio prazo. Nesse sentido, uma sociedade correspondente a um capitalismo plenamente desenvolvido é quase um oximoro. Hoje, em pleno capitalismo cognitivo, é ainda profunda a discrepância entre a sociedade prometida – e possível – por esse mesmo capitalismo plenamente desenvolvido e a miserável sociedade de injustiça, de indiferença e com tantos pobres, em que tanta gente tem de trilhar um caminho penoso. A política não acabou, e o reinado do controle apaziguado e pacífico das coisas não passa de uma falsa utopia.

IHU On-Line – Marx, a partir das reflexões do conceito de "general intellect", diz que é o tempo do não trabalho, o tempo liberado pela enorme produtividade da atividade, que está na origem da riqueza. Mas, hoje, toda a tecnologia empregada nos processos produtivos não tem liberado tempo dos trabalhadores. Pelo contrário, faz crescer cada vez mais o tempo de produção. Como compreender essa realidade, que parece ir em sentido contrário ao que foi pensado por Marx?
Yann Moulier Boutang – Você tem razão de assinalar que a promessa de liberar o trabalho genitivo subjetivo do trabalho genitivo objetivo pode acabar se tornando uma servidão, um superfordismo e um taylorismo eletrônicos e digitais, reis da intrusão na vida privada, em nossas vidas simplesmente, como inspiradores de novas formas de totalitarismo estatal, ao lado das quais as velhas ditaduras parecem brincadeiras inofensivas. Vejamos isso mais atentamente. Nesse momento de antecipação absolutamente genial dos Grundrisse (que marcou o momento de renascimento do marxismo operaísta, o único ramo verde do tronco carcomido do marxismo desde Bordiga , Gramsci e Lukács ), Marx escreveu duas grandes heresias em relação ao marxismo socialista. A primeira é o fato de que, com o desenvolvimento da grande indústria e do maquinismo,
a geração de riqueza depende menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho utilizada do que da potência dos agentes mecânicos movimentados durante o período de trabalho, cuja força eficaz é desprovida de relação proporcional com o tempo de trabalho direto gasto em sua produção.

Isso significa que a lei do valor deixa de ser e não deve mais servir de base de leitura da produção capitalista. Mais adiante, Marx é ainda mais explícito e rompe de antemão com a tradição da “lei do valor” como “a lei e os profetas” da crítica do acúmulo capitalista:

O roubo do tempo de trabalho de outrem sobre o qual repousa a riqueza atual apresenta-se como uma base miserável em relação à nova base criada e desenvolvida pela mesma grande indústria. A partir do momento em que o trabalho sob sua forma direta deixou de ser a grande fonte da riqueza, o tempo de trabalho deixar de ser, e deve deixar de ser, sua medida e, consequentemente, o valor de troca deixa de ser o valor de uso.

A produtividade do trabalho composta pelo conjunto da sociedade torna impertinente, insignificante, uma explicação pela lei do valor trabalho. Não se pode mais compreender a sociedade do capitalismo plenamente desenvolvido com base na lei do valor, que só se encaixa no contexto do capitalismo industrial. Pode-se até mesmo dizer que, esquecendo essa visão de liberação do trabalho e da figura humana do trabalhador e tentando encaixar a era digital nos moldes da lei do valor, obtemos justamente essa prisão ou escravidão digital. É Prometeu acorrentado, não libertado.

IHU On-Line – O senhor trabalha muito com a ideia de polinização. Como esse seu conceito se associa com a ideia de "general intellect", de Marx?
Yann Moulier Boutang – Comecei minha atividade intelectual e meu engajamento deparando-me com o trabalho que foge, se desloca, migra (o tema da minha tese foi a origem do assalariamento, e escrevi trabalhos sobre as migrações internacionais), a partir do Marx que já não era mais nem jovem nem o cientista do Capital. O capitalismo cognitivo que comecei a definir em 1999 (meu livro O capitalismo cognitivo foi publicado em 2007) me levou a esse texto do fragmento sobre as máquinas, e pude compreender melhor essa antecipação prodigiosa de Marx.

Vamos partir da definição que Marx propõe da mais-valia, ou da sobrevalia, no âmbito da minha análise da atividade da abelha, como paradigma para pensar realmente a atividade humana. O trabalho da abelha não é apenas a produção do mel e da cera para fabricar os alvéolos da colmeia; o verdadeiro trabalho ecológico e reprodutor da vida é a polinização (como fazem todos os insetos polinizadores). Em termos de valor (de riqueza, mesmo mercantil), essa atividade é infinitamente mais produtiva do que a fabricação de mel e cera. Podemos fornecer números concretos sobre esse multiplicador: entre 500 e 5.000 vezes mais produtivo que a produção de um output a partir de um input.

Marx e a polinização

Na classificação de Marx, onde situar a polinização? A polinização como tal não é sobrevalia; ela é valor ou riqueza. A única coisa que se parece com a sobrevalia é o que acontece quando o apicultor põe a abelha a trabalhar (domesticando-a desde o neolítico). O que faz o apicultor? Em troca de serviço (uma colmeia, cuidado das abelhas), ele consegue fazer com que a abelha trabalhe mais do que o necessário para ela, ou seja, o tempo de acumular reservas de mel para alimentar a rainha e a progenitura da colmeia, e para o inverno também. Ao retirar os favos de mel preenchidos pelo trabalho reprodutor das abelhas, o apicultor se apropria do mel e da cera e obriga as abelhas a trabalharem além do que fariam sem a hábil predação humana. Labor improbus vincit omnia, como diz Virgílio . O dono da fábrica ou da oficina não faz um uso diferente do companheiro ou do empregado. Mas o que dizer da polinização, essa verdadeira atividade byproduct (produção ligada) que a abelha realiza inconscientemente?

Pode-se falar de sobrevalia? Ela está ligada apenas indiretamente ao trabalho da abelha. No entanto, sabemos hoje que o trabalho industrioso do homem agricultor ou industrial que utiliza agrotóxico e adubos químicos para aumentar o rendimento agrícola destrói essa atividade vital, do ponto de vista ecológico, dos polinizadores.

Passemos aos humanos. A atividade humana é muito mais ampla que o trabalho reconhecido como trabalho remunerado e protegido pelo status do emprego. Ela abrange todas as atividades de reprodução dos humanos em sociedade (criação, educação, aprendizagem da linguagem, da escrita, produção da língua, dos símbolos, da cultura, trabalho voluntário, trabalho “doméstico”, em suma, toda a categoria da esfera da reprodução que sempre foi o buraco negro da lei do valor e de todas as tentativas de reduzi-la a uma produção de mercadorias). No capitalismo mercantilista, no capitalismo industrial, a polinização é usada e sofre uma predação contínua, um acúmulo primitivo continuado. Paradoxalmente, contudo, ela não tem lugar no universo socialista da lei do valor. Em compensação, na época do maquinismo, ou seja, da inteligência artificial, do digital e da ciência e suas aplicações, “a geração de riqueza depende menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho utilizada do que da potência dos agentes mecânicos movimentados durante o período de trabalho”.

O que vemos no capitalismo cognitivo? A captação, pelas plataformas interativas instrumentadas pelo digital e pelos aplicativos em rede, das externalidades positivas provenientes da polinização humana, da interação das massas. Ou, se preferirem, o uso do trabalho produtivo de valor da parte polinizadora da atividade humana. As Gafami descobriram o eldorado das externalidades positivas graças ao uso da ciência. As Gafa exploram metodicamente e saqueiam com frequência o imenso reservatório da produção do vivente por meio do vivente. Essas multinacionais são os conquistadores do Novo Mundo digital.

IHU On-Line – Como podemos, a partir dessas perspectivas de Marx, pensar em construir, de fato, a sociedade de justiça e abundância?
Yann Moulier Boutang – A solução seria canalizar toda essa polinização humana para a lei do valor, fazendo pagar por esse “trabalho invisível”? Todo o mundo assalariado, como propõe Bernard Friot ? Não. Porque é somente uma pequena parte do trabalho de polinização (e não o mais útil para a humanidade) que é movimentada pelas grandes companhias do digital que exploram os rastros da interação humana para alimentar as máquinas inteligentes. É mais no sentido de uma renda existencial ou universal desvinculada de qualquer contrapartida de trabalho ou emprego que devemos buscar a solução para conter a colonização do vivente e da força de invenção cerebral pelas tecnologias digitais.

Uma renda suficiente para viver, equivalente ao salário mínimo, individual, incondicional, acumulável com uma atividade assalariada ou comercial. Uma renda para liberar a força da atividade humana do jugo cada vez mais opressor do trabalho doado em excesso a outrem ou de um trabalho falsamente independente e fortemente dependente do mercado (mundial), um patrão bem mais tirânico e intrusivo que o velho patrão paternalista.■

Leia mais

- O socialismo chinês e a equação desafiadora de Xi Jinping. Entrevista com Yann Moulier-Boutang, publicada nas Notícias do Dia de 10-1-2018, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- O poder das finanças e as estratégias para romper a crise sistêmica. Entrevista com Yann Moulier-Boutang, publicada na revista IHU On-Line, número 492, de 5-9-2016.

- A financeirização e as mutações do capitalismo. Entrevista com Yann Moulier-Boutang, publicada na revista IHU On-Line, número 468, de 29-6-2015.

- “O sistema financeiro de mercado é como o sismógrafo desta crise”. Entrevista com Yann Moulier-Boutang, publicada na revista IHU On-Line, número 301, de 20-7-2009.

- A difícil tarefa de se mover na economia da complexidade. Entrevista especial com Yann Moulier Boutang, publicada nas Notícias do Dia de 12-11-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- A bioprodução. “O capitalismo cognitivo produz conhecimentos por meio de conhecimento e vida por meio de vida”. Entrevista especial com Yann Moulier Boutang publicada na revista IHU On-Line, número 216, de 23-4-2007.

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