Edição 525 | 30 Julho 2018

“Marxismo só tem sentido como um pensamento aberto”

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Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

Para Michael Löwy, a ortodoxia na interpretação dos escritos do filósofo limita a compreensão dos problemas atuais e reduz a potência de seu pensamento

Quando Karl Marx reflete acerca de assuntos econômicos, políticos e sociais, está imerso no espírito de seu tempo, o século XIX. Claro, é notória sua contribuição para compreender essa sociedade em transformação. “As tentativas de ‘superá-lo’ só levam a regressões: ao positivismo, ao liberalismo do século XIX, à economia política burguesa etc.”, destaca o professor Michael Löwy. Entretanto, para Löwy, leituras mais duras dos escritos limitam as possibilidades de manter o marxismo atual. “Graças aos trabalhos de John Bellamy Foster, Paul Burkett, Ian Angus e Kohei Saito, descobriu-se toda uma dimensão ecológica da obra de Marx, que havia sido totalmente ignorada pelas leituras da esquerda tradicional”, exemplifica.

É por isso que Löwy, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, vai formular que “o marxismo só tem sentido como um pensamento aberto, em constante evolução, buscando dar conta dos novos problemas e das novas perspectivas para a revolução”. Embora as sociedades capitalistas do século XIX e do século XXI sejam distintas em função das transformações, considera que ambas mantêm o funcionamento segundo a lógica do capital estudado por Marx. O que não quer dizer que para compreender uma basta olhar a outra. “O marxismo não se limita a Marx. Não se pode ignorar a riqueza do marxismo do século XX, em toda sua diversidade e suas contradições”, completa.

Michael Löwy é brasileiro, radicado na França. Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo - USP, possui doutorado na Sorbonne. Em Paris, trabalha como diretor de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS; também já dirigiu um seminário na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Entre suas publicações, destacamos Centelhas - marxismo e revolução no século XXI, escrito com Daniel Bensaïd (São Paulo: Boitempo, 2014), Afinidades revolucionárias (São Paulo: Unesp, 2016), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (São Paulo: Boitempo, 2014) e O que é o cristianismo da Libertação (São Paulo: Editora Perseu Abramo, 2017).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A face mais conhecida da produção teórica de Marx é a política e a econômica. Que outras dimensões da vida e da sociedade Marx discutiu em seus textos? Qual a atualidade de seu pensamento?
Michael Löwy – A obra de Marx inclui dimensões culturais – seu interesse pela literatura francesa e inglesa é notório – antropológicas, por exemplo, em seus Cadernos Etnológicos, filosóficas (no conjunto de seus escritos de juventude, mas também na parte metodológica do Capital), historiográficas, religiosas (não só na crítica ao “ópio do povo”) etc. Era um autêntico espírito universal.

A atualidade de seu pensamento é imensa: como dizia Sartre , ele é o horizonte intelectual de nossa época. As tentativas de "superá-lo" só levam a regressões: ao positivismo, ao liberalismo do século XIX, à economia política burguesa etc. Os dois aspectos decisivos desta atualidade são: 1) a análise científica do funcionamento do capitalismo e sua crítica feroz, como sistema intrinsecamente perverso, baseado na violência, na opressão e na exploração da maioria da população; 2) a proposta de uma alternativa radical ao capitalismo, uma sociedade sem classes e sem opressão, igualitária, libertária e democrática: o comunismo.

IHU On-Line – Marx era um crítico contumaz da religião, que para ele era uma forma de opressão e alienação. Contudo, o que está no centro da crítica à religião feita por Marx?
Michael Löwy – Muitos identificam a análise da religião de Marx com a fórmula "a religião é o ópio do povo" (Contribuição à crítica da filosofia do direito de Hegel, 1844). Esta fórmula não tem nada de propriamente marxista: a encontramos em Heine , em Moses Hess e vários outros contemporâneos de Marx. Ela é mais bem neo-hegeliana, idealista, definindo a religião como uma essência filosófica intemporal. O estudo marxista, materialista histórico da religião começa com a Ideologia alemã (1846) que analisa a religião como uma das formas da ideologia, a ser interpretada do ponto de vista da luta de classes, em cada momento histórico concreto.

Na verdade, Marx não se interessou muito pela religião, foi Engels que dedicou vários trabalhos a essa temática. O mais importante é A guerra dos camponeses (1850), que analisa os conflitos religiosos na Alemanha do século XVI do ponto de vista da luta de classes. Engels se interessa em especial pela figura do anabatista Thomas Münzer , teólogo revolucionário e inspirador da luta emancipadora dos camponeses.

IHU On-Line – Qual foi a apropriação, a leitura, de Marx durante a Revolução Russa? E agora, um século depois desse episódio, como podemos reler a Revolução a partir das inúmeras recepções que foram surgindo ao pensamento marxiano?
Michael Löwy – E impossível resumir um século de história do marxismo em dois parágrafos... Os revolucionários russos tiveram a inteligência de reler Marx do ponto de vista de uma revolução socialista num país da periferia do sistema capitalista, rompendo assim com o pretenso marxismo ortodoxo da Segunda Internacional. Esta perspectiva já havia sido proposta por Trotsky em 1906, com sua teoria da "revolução permanente". O problema é que os bolcheviques se afastaram do programa democrático e libertário do comunismo de Marx, para defender, a qualquer preço, o poder revolucionário do Partido.

Esta crítica foi feita já em 1918 por Rosa Luxemburgo , em seu panfleto sobre a Revolução Russa: ao mesmo tempo em que faz o elogio dos bolcheviques, de Lenin e de Trotsky, critica seu autoritarismo e sua visão pouco democrática do poder.

IHU On-Line – Passados pouco mais de 150 anos da publicação de O Capital, estamos diante de uma sociedade que hegemonicamente se relaciona com o capitalismo como uma espécie de religião. Até que ponto o marxismo é a outra face dessa mesma “moeda messiânica” e até que ponto ele apresenta alternativas novas?
Michael Löwy – A crítica do capitalismo como religião já se encontra nos anos 1920 em escritos de Ernst Bloch e Walter Benjamin . A Teologia da Libertação (Assmann , Hinkelammert , Jon Sobrino ) desenvolveu brilhantes análises da idolatria do mercado no capitalismo, articulando a crítica dos profetas bíblicos ao culto dos ídolos com a teoria marxista do fetichismo da mercadoria.

O marxismo nada tem a ver com esta "moeda", que não é messiânica, mas sim um imenso ritual ao redor do Bezerro de Ouro . Será o marxismo uma teoria messiânica? Nos escritos de Walter Benjamin se propõe uma leitura do materialismo histórico em perspectiva messiânica.

IHU On-Line – Quais os limites e as possibilidades de compreensão do pensamento de Marx nas sociedades contemporâneas que parecem ser mais complexas e difíceis de compreender que as primitivas sociedades industriais do século XIX?
Michael Löwy – Obviamente as sociedades capitalistas contemporâneas são muito diferentes das do século XIX, mas ainda funcionam segundo a lógica implacável do capital estudada por Marx: a acumulação do capital e a extração do lucro como critério único e exclusivo da atividade econômica. Mas, sem dúvidas, são necessárias novas análises para dar conta das caraterísticas específicas do capitalismo atual. Felizmente existem muitos trabalhos de autores marxistas modernos, que desenvolvem análises inovadoras neste terreno, desde Ernest Mandel até David Harvey , István Mészáros ou Immanuel Wallerstein – sem falar dos inúmeros estudiosos latino-americanos e brasileiros.

IHU On-Line – Como os novos estudos sobre Marx revelam um autor muito mais heterodoxo do que sugere a leitura ortodoxa, via de regra de esquerda, de seus escritos?
Michael Löwy – Graças aos trabalhos de John Bellamy Foster , Paul Burkett , Ian Angus e Kohei Saito, descobriu-se toda uma dimensão ecológica da obra de Marx, que havia sido totalmente ignorada pelas leituras da esquerda tradicional. Os escritos pioneiros de Teodor Shanin sobre Marx e a Rússia abriram novas perspectivas, e o mesmo vale para Kevin Anderson em seu brilhante livro sobre Marx e os povos não europeus. São apenas alguns exemplos de muitas leituras "heterodoxas" de Marx.

IHU On-Line – O livro de Marcello Musto O velho Marx: uma biografia de seus últimos anos (1881-1893) joga luz sobre um período da vida de Marx menos conhecido. O que essas novas informações revelam sobre ele? Ele chegou a repensar seus próprios conceitos e idiossincrasias?
Michael Löwy – Marcello Musto é o primeiro a analisar com profundidade o "Último Marx" (1881-1883), descobrindo as fascinantes pistas que abriu, nestes derradeiros anos, o grande adversário do capitalismo.

O quadro que vão desenhando estes escritos – certo, inacabados, e não sistemáticos – é de um Marx extraordinariamente "heterodoxo", isto é, pouco conforme com o marxismo pseudo-ortodoxo – por exemplo estalinista – que tanto estrago fez no curso do século XX. Um Marx que critica impiedosamente o economicismo, a ideologia do progresso linear, o evolucionismo, o fatalismo histórico, o determinismo mecânico. O exemplo mais impressionante desta reflexão são os últimos escritos sobre a Rússia, examinando a possibilidade para este país de escapar dos horrores do capitalismo. A morte interrompeu um extraordinário processo de reelaboração, de reformulação, de reinvenção do materialismo histórico e da teoria da revolução.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Michael Löwy – A obra de Marx é indispensável para pensar o mundo de hoje e buscar sua transformação. Mas o marxismo não se limita a Marx. Não se pode ignorar a riqueza do marxismo do século XX, em toda sua diversidade e suas contradições: Lenin, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Gramsci , José Carlos Mariategui , Georg Lukács , Ernst Bloch, Walter Benjamin e tantos outros que contribuíram para entender os fenômenos do século XX: imperialismo, fascismo, estalinismo...

Na verdade, o marxismo só tem sentido como um pensamento aberto, em constante evolução, buscando dar conta dos novos problemas e das novas perspectivas para a revolução.■

Leia mais
- Revolução ecossocialista e o desafio de não ceder à resignação. Entrevista com Michael Löwy, publicada na revista IHU On-Line número 513, de 16-10-2017.

- Michael Löwy: O golpe de Estado de 2016 no Brasil. Artigo de Michael Löwy, reproduzido nas Notícias do Dia de 18-5-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- A verdadeira Igreja dos pobres. Artigo de Michael Löwy, reproduzido nas Notícias do Dia de 1-4-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

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