Edição 524 | 18 Junho 2018

Saldo de Junho de 2013 mostra potência da organização para além das instituições políticas

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Vitor Necchi

Para Guilherme Kranz, aqueles acontecimentos mostraram que a massa na rua é capaz de abalar estruturas até então inabaláveis

Em junho de 2013, Guilherme Kranz estudava em São Paulo, militava na Juventude às Ruas – que agora se chama Faísca – Anticapitalista e Revolucionária – e participou ativamente das manifestações que ocorreram em junho de 2013. Ele conta que o movimento começou contra o aumento de 20 centavos no valor da passagem de ônibus. “Na medida em que a polícia ia batendo, a raiva ia aumentando, e o tamanho dos atos se multiplicando. Tudo cresceu de forma espantosamente rápida”, recorda. “Os 20 centavos deflagraram a ida às ruas? Sim. A violência da polícia também? Também. Mas esses dois elementos explicam apenas superficialmente o fenômeno.” Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Kranz afirma que “uma profusão de insatisfação com as coisas e a vida explicam a ida de milhares às ruas, como se nada tivessem a perder”.

“Assim como Maio de 68 suscita amor e ódio até hoje entre os franceses, durante as próximas décadas ainda vamos nos digladiar pelos sentidos de Junho”, compara Kranz. Ele entende que aqueles acontecimentos mudaram o país, e o ciclo ainda não se fechou. “A burguesia identifica Junho como um perigo que não deve nunca mais retornar.” Os petistas, por sua vez, desenvolveram a narrativa de que Junho deflagrou o impeachment de Dilma Rousseff.

Ao identificar que Junho enfrentou todo o establishment, aponta que “um curioso fenômeno de polarização política foi ganhando cada vez mais espaço no cenário político nacional, com uma crescente crise de autoridade estatal”. Assim, “na medida em que o centro foi atacado (PSDB, PMDB e PT, em especial), as pessoas passaram a buscar posições radicais à esquerda e à direita”.

Neste contexto, a política pelas redes digitais ganha força. “Mas o essencial não é a novidade das redes, e sim como Junho abriu uma crise importante em todo o regime político, polarizando a situação política.” Kranz reconhece uma ofensiva da direita e também inúmeros fenômenos à esquerda, mas aponta uma debilidade: “O saldo final (ainda) não conseguiu ser revertido em organização política, em partido”.

Guilherme Kranz é graduado em Letras – Português pela Universidade de São Paulo - USP e mestrando em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em junho de 2013, estudavas em São Paulo e eras militante da Juventude às Ruas – que agora se chama Faísca – Anticapitalista e Revolucionária. Como foi a mobilização, o que deflagrou a ida às ruas e o que era pretendido?
Guilherme Kranz – Começou contra o aumento de 20 centavos no busão. Na medida em que a polícia ia batendo, a raiva ia aumentando, e o tamanho dos atos se multiplicando. Tudo cresceu de forma espantosamente rápida. Os 20 centavos deflagraram a ida às ruas? Sim. A violência da polícia também? Também. Mas esses dois elementos explicam apenas superficialmente o fenômeno. Uma profusão de insatisfação com as coisas e a vida explicam a ida de milhares às ruas, como se nada tivessem a perder. Era o preço do tomate, o desemprego, as mentiras dos políticos, a violência policial, a educação e saúde sucateadas… As manifestações gigantescas de 2011 em países como Chile, Grécia, Espanha e outros também embalaram o espírito do momento. O que era pretendido? Abaixar o preço do busão, passe livre, estatizar o transporte, acabar com a polícia, disputar a consciência de milhões, derrubar todos os poderosos, fazer uma revolução no país, acabar com o capitalismo… Isso tudo e um pouco mais, tudo de maneira bem difusa, desigual e numa velocidade incomparável. O MPL [Movimento Passe Livre] depois deu aquela deplorável declaração de que “era só pelos 20 centavos”. Mas eu não vejo dessa forma. Pretendia-se tanta coisa que de fato não cabiam nos cartazes.

IHU On-Line – Cinco anos depois, qual teu entendimento em relação ao que houve e que leituras podem ser feitas daquele ciclo de manifestações?
Guilherme Kranz – Existem várias narrativas sobre aqueles dias. Assim como Maio de 68 suscita amor e ódio até hoje entre os franceses, durante as próximas décadas ainda vamos nos digladiar pelos sentidos de Junho. Na minha avaliação, Junho mudou o país, e o ciclo ainda não se fechou. A burguesia identifica Junho como um perigo que não deve nunca mais retornar. Os petistas possuem uma narrativa mais ou menos uniforme de que Junho foi “o estopim do impeachment”, nas palavras do Haddad , ou organizados pela CIA , como Lula já sugeriu. A filósofa Marilena Chaui , em agosto de 2013, teve a pachorra de nos comparar com uma fila para o show da Madonna.

Essas caracterizações não fazem sentido e não sobrevivem à primeira verificação. O que houve foi a explosão de uma panela de pressão que chiava desde pelo menos 2008, com o estopim da crise internacional, e que se agravava na medida em que o custo de vida ia crescendo e os horizontes do gradualismo lulista diminuíam. A verdade é que o PT chama de direita tudo o que não consegue controlar. Faça uma crítica ao PT, logo fará coro com a direita. É com essa lógica grosseira e binária que o petismo atua. Uma das principais leituras de Junho tem a ver com isso: em mais ou menos 30 anos, um forte movimento de massas não conseguiu ser controlado e contido pelo PT – daí o pavor deles.

O PT tem mais medo da luta de classes do que da direita: por isso se alia com a última e demoniza a primeira quando foge às suas asas. Depois que os atos ganharam proporções imensas, a grande mídia começou a tentar sequestrar nossas pautas, transformando-as em luta contra a corrupção, autonomia do MP [Ministério Público] etc. Arnaldo Jabor se desculpou, Datena tomou uma bronca em rede nacional e a burguesia subiu os olhos. A disputa foi brava. Mas quem só vê cara, não vê coração, e tem gente que insiste em achar que o programa de Junho era o editorial da Veja, mas a realidade é bem distante disso. Junho se enfrentou com todo o establishment, esse é um ponto fundamental.

IHU On-Line – Como esquerda e direita entenderam as manifestações e que uso fizeram delas?
Guilherme Kranz – Como Junho se enfrentou com todo o establishment, um curioso fenômeno de polarização política foi ganhando cada vez mais espaço no cenário político nacional, com uma crescente crise de autoridade estatal. Ou seja, na medida em que o centro foi atacado (PSDB, PMDB e PT, em especial), as pessoas passaram a buscar posições radicais à esquerda e à direita. Daí o surgimento da criançada do MBL [Movimento Brasil Livre], que só veio no ano seguinte, com direito a dinheiro e incentivo pesado da gringa. Todo o formato de política pelas redes digitais ganha força aí também. Mas o essencial não é a novidade das redes, e sim como junho abriu uma crise importante em todo o regime político, polarizando a situação política.

Reconhecer uma ofensiva da direita, que ganha estatuto ainda mais violento com a arbitrariedade da Lava Jato e a culminação do golpe, não significa enxergar uma “onda conservadora”, e sim que não existe vácuo político. Ao passo que setores da direita vêm se aproveitando da crise política para descarregar a crise econômica em nossas costas e retirar direitos democráticos, inúmeros fenômenos à esquerda foram vistos depois de Junho também, como as greves dos garis do Rio de Janeiro, dos rodoviários de Porto Alegre, as ocupações secundaristas e universitárias que permearam todo o final de 2015 ao final de 2016, a greve geral de 28 de abril do ano passado… Junho em Porto Alegre teve uma particularidade diferente do que houve em São Paulo, pois a organização passou diretamente pela esquerda através do Bloco de Lutas. Mas a maior debilidade, ao meu ver, foi que o saldo final (ainda) não conseguiu ser revertido em organização política, em partido.

IHU On-Line – Sobre Junho de 2013, escreveste que quem não entende o ocorrido não governa nunca mais. Comenta esta frase, por favor.
Guilherme Kranz – O comentário foi em polêmica com Fernando Haddad que, ano passado, fez um extenso artigo acabando com Junho. A crítica se mantém. Junho se mantém presente nas mentes e corações de muitos. Parece piegas, mas a frase tem intenção analítica. As demandas e os anseios de então seguem vivos, não apenas porque o preço da passagem não parou de subir, mas porque os problemas gerais se aprofundaram, e quem não souber lidar com eles, não governa nunca mais. A crise econômica se mantém, a crise de representatividade não para de aumentar, os ataques entraram num turbilhão ainda mais acelerado – a inevitável resistência a tudo isso será respondida com bomba e bala de borracha que nem o PT e o PSDB fizeram em Junho, ad aeternum? Podem até tentar, mas vão seguir tropeçando. Experiências massivas deixam marcas profundas em toda uma geração, molda subjetividades e altera os desejos e os ímpetos das pessoas. Já não aceitamos mais as coisas como eram, e a quantidade sem tamanho de lutas e greves radicalizadas depois de Junho mostra isso. A luta de classes entrou num fervilhão imparável.

IHU On-Line – Houve novas organizações, novas maneiras de se articular politicamente a partir daquele momento, frente ao esgotamento das formas tradicionais de representação política?
Guilherme Kranz – Surgiram novas velhas maneiras de se articular politicamente a partir daquele momento. “Novas” porque a minha geração foi formada na ideia do “fim da história”, de que nada muda, de que seremos eternamente meros produtos do consumo e do individualismo, de que política é coisa de político e alheia à rua e ao povo. Nesse sentido, a democracia da rua, com demandas substanciais sendo levantadas, foi nova para toda uma geração. Mas “velhas” porque essa forma de fazer política é mais velha do que andar para trás, é a expressão democrática das massas nas ruas.

Desse ponto de vista, hoje se vê como a democracia das ruas é muito superior à democracia vigente em que votamos de dois em dois anos. Na primeira, somos sujeitos. E obviamente essa “nova velha maneira de se articular” tem seus limites. Ocupar as ruas, por si só, não garante nada, como vimos a turma verde e amarelo depois. Mas o principal limite foi a ausência da entrada em cena da classe trabalhadora organizada que pudesse dar um caráter classista para o movimento.

Os frutos de junho, nas greves radicais e ocupações que vieram, de certa forma apontam para uma forma superior de se organizar, com paralisações nos locais de trabalho, assembleias sendo organizadas democraticamente, representantes sendo eleitos pelas bases das categorias etc. Em São Paulo, por exemplo, por mais avançado que tenha sido o movimento até um certo momento, ele nunca foi organizado de maneira democrática. O MPL sempre se negou a organizar assembleias para que os estudantes e trabalhadores pudessem debater os rumos da mobilização, as pautas pelo que lutávamos etc.

IHU On-Line – O espontaneísmo foi uma marca do movimento, o mesmo se verificando nas ocupações secundaristas e universitárias de 2015 e 2016. O que esta característica sugere para compreensão da realidade?
Guilherme Kranz – Vejo duas grandes lições desse fenômeno espontaneísta: a primeira é que somos permanentemente pegos pela esquerda “de surpresa”, e a segunda é que o espontaneísmo necessariamente encontra seus limites. Ninguém esperava Junho. Ninguém esperava que os secundaristas paulistas derrotariam Alckmin em seu projeto de reorganização escolar. Ninguém esperava que uma onda de mais de mil instituições federais ganhasse corpo contra Temer . E as ocupações secundaristas de 2015 em São Paulo foram realmente surpreendentes – os secundaristas se articulavam com representantes por escolas para coordenar a luta estadualmente, com eleições democráticas nas escolas e direito à revogabilidade e revezamento. O que, sim, muito se falava era a velha reza de que “não há disposição de luta” ou coisa do tipo. Nunca há “disposição de luta” até que ela se torne inevitável. O problema do espontaneísmo é o limite que carrega em seu DNA, ele tende a ser efêmero. O espontâneo tende a se limitar a pautas corporativas de cada setor de onde proveio. A questão é como traduzir essa explosão espontânea em continuidade política, em dar corpo político para cada luta relativamente isolada.

IHU On-Line – Na recente greve de caminhoneiros, discursos ultrarreacionários se formaram a partir da movimentação nas estradas, gerando nas cidades manifestações de apoio, como o pedido de intervenção militar. Como isso se forma? Por que a direita tem sido mais hábil e esperta em faturar com as crises?
Guilherme Kranz – Essa questão é bastante complexa. Nessa greve de caminhoneiros, a direita conseguiu canalizar a ampla insatisfação popular com o governo Temer e a alta dos preços dos combustíveis. Olhando numa fotografia, é fácil dizer que eles são “mais hábeis” ou “espertos”, mas acho que não é isso. Temos que olhar o processo em movimento.

A greve geral do 28 de abril era um caminho também muito apoiado pela população, aquele sentimento de que “tem que parar tudo”, com demandas progressistas contra as reformas neoliberais. Mas os acordos entre as centrais sindicais e o governo Temer para negociar o fim do imposto sindical acabaram rifando esse caminho do 28 de abril, e a reforma trabalhista foi aprovada. Isso acabou desmoralizando muito os trabalhadores, e a direita aproveita. O agravante na situação é que o movimento foi impulsionado pela patronal, com grandes empresários organizando diretamente os bloqueios e a paralisação, bem como os pitorescos pedidos de intervenção militar.

IHU On-Line – E a esquerda, desta vez, soube entender e lidar com o movimento dos caminhoneiros?
Guilherme Kranz – A esquerda como um todo errou bastante nesse processo. A meu ver, apoiar o movimento era apoiar as reivindicações patronais para diminuir o preço do diesel e reduzir impostos, e na medida em que as pautas ultrarreacionárias ganhavam peso, como a de intervenção militar, o apoio à greve dos caminhoneiros ganhava contornos cada vez mais problemáticos. A contradição estava no fato de que tinha muito apoio popular, mas nem por isso devemos marchar ao lado dos intervencionistas e dos megaempresários do transporte. O caminho para disputar a situação estava na possibilidade de os petroleiros entrarem com tudo em cena, erguendo suas próprias bandeiras, contra o aumento de todos os combustíveis e a privatização da Petrobras, com a defesa de uma Petrobras 100% estatal controlada pelos próprios trabalhadores. Ou seja, disputar a insatisfação popular pela esquerda.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Guilherme Kranz – Resgatar a experiência de Junho, disputar os seus sentidos e aprender com seus limites é uma grande tarefa que temos pela frente. Trata-se de uma batalha inesgotável, cuja resolução apenas a história mostrará. Minha geração teve a ideia de revolução extirpada de seu imaginário. Foram os anos de triunfo total do neoliberalismo, e isso está acabando. Junho não foi uma revolução, mas teve ares. Mostrou que a massa na rua é capaz de abalar estruturas até então inabaláveis. Durante anos, disseram ser impossível levar milhares às ruas contra o status quo, contra o capitalismo, mas essa crença caiu por terra em algumas poucas semanas. O alerta pós-Junho, para além das lições expostas anteriormente, deve passar pela preservação dessa ideia de permanente possibilidade do impensável. Caso contrário, deixaremos a direita canalizar toda a revolta que invariavelmente cresce e continuará crescendo. ■

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