Edição 523 | 04 Junho 2018

A cidade – e o país – do futuro

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Fernando Del Corona

História sobre poliamor no sertão baiano move pela simplicidade e relevância

A cidade do futuro, novo longa da dupla de diretores Cláudio Marques e Marília Hughes, segue uma forte tendência do cinema nacional contemporâneo por uma espécie de hiper-realismo estilizado. O filme convida comparação com duas outras obras recentes: Corpo elétrico (2017), de Heitor Lacerda, em sua abordagem natural e minimalista de personagens queer; e Boi neon (2015), de Gabriel Mascaro, ao tratar de performances de gênero no interior brasileiro, mais especificamente no sertão baiano. O resultado é um obra reflexiva, politizada por seu conteúdo mais do que por uma postura declarada. De fato, a maior declaração política do filme vem antes mesmo da série de logotipos típica da abertura de filmes nacionais. Sobre uma tela preta, se lê: #mariellepresente – no cinema, antes do filme, ainda, passa o trailer do documentário O processo, de Maria Augusta Ramos, menos uma coincidência do que um sintoma da propensão política que vem tomando os filmes brasileiros de uma forma ou outra.

Essa propensão, aqui, vem na forma da coragem diante da violência. Logo no começo do filme, Gilmar (Gilmar Araújo), professor em uma escola de Serra do Ramalho, na Bahia, pergunta para Igor (Igor Santos): vamos casar? Ao que esse responde: não. Você tem medo? Tenho. Morando em uma região tão marcada pelo preconceito e pela violência, não é de espantar. Enquanto os dois conversam em uma caverna marcada por pinturas rupestres, Milla (Milla Suzarte), professora na mesma escola de Gilmar, troca beijos com outra garota diante do Rio São Francisco, longe da cidade. São esses os lugares que, de início, cabem a esses personagens, reclusos, escondidos. E seu lugar de direito que eles vão reinvidicar ao longo da história.

A relação do nome dos personagens com seus atores não é por acaso: essa é uma versão de suas histórias. Os diretores foram para Serra do Ramalho fazer uma pesquisa sobre como a cidade se estabeleceu quando, nos anos 1970, uma população ribeirinha perto do Rio São Francisco foi desapropriada para a construção da barragem de Sobradinho e enviada para a serra, longe da vida que conheciam. Lá, conheceram Gilmar, Igor e Milla, que viviam uma relação poliamorosa. Mila engravida de Gilmar, mas Igor também faz parte dessa nova formação familiar que vai contra os costumes de uma sociedade que não está pronta para aceitar isso.

Os sinais da história real são palpáveis. Quando Milla vai fazer um ultrasom, este fora o primeiro realizado pela atriz, o que gera um dos momentos mais sensíveis e honestos do filme. Assim, a gravidez dela não precisa ser encenada. Gravando o filme em dois momentos diferentes, vemos o corpo grávido de Milla se banhando, sem artificialidades.

Ao mesmo tempo, esse naturalismo faz se sentir em momentos da atuação, especialmente de Igor, que parece o menos à vontade em frente da câmera – mas que ainda apresenta uma fragilidade e honestidade cativantes. Para compensar, algumas cenas assumem um tom quase documental, seja em depoimentos de moradores da região sobre a desapropriação ou em uma pequena cena onde Igor tenta vender um plano de saúde para um casal de idosos, os três tropeçando de maneira encantadora no diálogo. O resultado é uma mistura de atuações naturalistas e o que se torna um certo charme incerto de personagens coadjuvantes que, percebe-se, interpretam variações de si mesmo.

O filme evita rótulos. Gilmar e Igor se amam, mas também amam Milla. Durante uma massagem, Gilmar pergunta para Milla se ela tem ficado com alguém. Ela diz que sim. Menino ou menina? Menino e menina. Os três tentam levar a vida como possível, mas a cidade se coloca entre eles, conforme os três são hostilizados constantemente, existindo sobre eles uma constante ameaça de violência e exilamento. Mas eles se recusam a ser forçados a sair, como a população da cidade fora. No meio da luta para existir, resta a eles encontrar o afeto onde podem. Um dos melhores elementos do filme é a utilização da música Jeito carinhoso, de Jads & Jadson, usada pontualmente em dois momentos distintos, com grande acerto.

Com 76 minutos, A cidade do futuro não se prolonga muito. É um filme cheio de silêncios, momentos lentos e morosos, como muitas vezes é a vida no interior. Igor vai de um emprego para o outro. Gilmar e Milla preparam a casa onde vão morar. A fotografia de Gabriel Martins é bela e criativa. Não se deve esperar grandes reflexões ou questionamentos: a vida passa, e eles buscam alguma normalidade onde sua existência é tudo, menos normal.

O cinema brasileiro recente tem se demonstrado solo fértil para histórias de personagens queer. Nos últimos anos, foram produzidas obras tão diversas como os gaúchos Castanha, de Davi Pretto, e Beira-mar, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, Tatuagem, de Hilton Lacerda, Praia do Futuro, de Karim Aïnouz, assim como o documentário Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva, entre muitos outros. Recentemente, dois filmes nacionais, Tinta bruta, também de Reolon e Matzembacher, e Bixa Travesty, de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, foram premiados no Teddy Awards, a seção do Berlinale, o festival internacional de cinema de Berlim, dedicada a filmes com temática queer.

Em tempos altamentes politizados, são filmes importantes e necessários. Assim como Milla, Gilmar e Igor fazem em Serra do Ramalho, são obras que estão defendendo seu lugar no país, seu direito de ser. É uma questão de existir como forma de protesto, de política e de resistência.

Ficha técnica:
A cidade do futuro
Direção: Cláudio Marques e Marília Hughes/
Produção:  Cláudio Marques e Marília Hughes
Elenco: Gilmar Araújo, Igor Santos, Milla Suzarte
Brasil, 2016, 76 min.

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