Edição 522 | 21 Maio 2018

Críticas ao “estilo Bergoglio” não retratam a realidade do pontificado

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João Vitor Santos | Tradução: Luís Marcos Sander

John O’Malley aponta que oposição a Francisco retratada pela imprensa exagera a realidade e, dentro da Igreja, contestações ignoram o passado do catolicismo

Quando Jorge Mario Bergoglio começou a se movimentar como pontífice, de imediato ganhou as manchetes dos jornais de todo mundo como um papa carismático. Com o passar do tempo, os jornais foram cada vez menos retratando o Francisco bonachão e dando espaço a imagem de pontífice que pode gerar divisões na Igreja. Claro, perspectiva em muito alimentada por fontes vaticanas que começam a se opor ao “estilo Francisco”. Questionado se agora, depois de cinco anos do conclave que o elegeu, o Papa vivendo um período de queda na popularidade, o jesuíta e historiador John O’Malley enfatiza: “a lua de mel terminou, assim como acontece com toda figura pública depois que ela começa a tomar decisões. Decisões necessariamente combinam com a pauta de algumas pessoas e não combinam com a pauta de outras”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail para a IHU On-Line, O’Malley ainda avalia que “a mídia adora controvérsia e pula avidamente sobre qualquer indício de controvérsia”. “Na apresentação da oposição a Francisco feita pela mídia, uma pessoa poderia ficar com a impressão de que 50% dos católicos são a favor dele e 50% são contra. Seria mais próximo da verdade dizer que 95% estão a favor dele, embora algumas pessoas possam não concordar com uma ou outra de suas decisões”, avalia. E sobre as críticas a essas decisões e possibilidade de elas racharem a cristandade, recomenda um pouco mais de leitura. “Realmente acredito que um desconhecimento da história da Igreja se encontra por trás de grande parte da crítica”, dispara.

John W. O’Malley é doutor em História pela Universidade de Harvard, professor de Teologia da Georgetown University, de Washington, ambas nos Estados Unidos. É, ainda, membro da Fundação Guggenheim, da Academia Norte-Americana de Artes e Ciências e da Sociedade Filosófica Norte-Americana. Especialista em Concílios, com especial atenção ao Concílio de Trento e ao Concílio Vaticano II, é autor de The Jesuits: A History From Ignatius to the Present (Pennsylvania: Rowman & Littlefield Publishers, 2014), What happened at Vatican II [O que aconteceu no Vaticano II] (Cambridge, MA: Harvard University Press/Belknap. Press, 2008) e A history of the Popes [Uma história dos Papas] (Lanham, MD: Sheed and Ward, 2006). O’Malley acaba de publicar, pela Harvard University Press, Vatican I: The Council and the Making of the Ultramontane Church [Vaticano I: O Concílio e a Produção da Igreja Ultramontana]. O IHU, na seção Notícias do Dia de seu sítio, publicou uma resenha da obra. Acesse em http://bit.ly/2kh7ob3. Das suas obras em português, destacamos Uma História dos Jesuítas. De Inácio de Loyola a Nossos Dias (São Paulo: Loyola, 2017), Os Primeiros Jesuítas (São Paulo: EDUSC, 2004) e O Que Aconteceu no Vaticano II (São Paulo: Loyola, 2014)

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No início do pontificado, Bergoglio teve uma adesão quase que absoluta da grande mídia internacional. Agora, passados cinco anos de pontificado, jornais como Frankfurter Allgemeine Zeitung, na Alemanha, e New York Times, nos Estados Unidos, tem endossado posições de críticos ao papa. É o fim lua de mel de Francisco com a mídia? Como o senhor interpreta essa mudança de enfoque em setores da imprensa internacional?
John O’Malley – Como quase todo papa, Francisco começou seu pontificado com grande entusiasmo por parte da mídia. Talvez ele tenha desfrutado de mais popularidade por causa do óbvio calor humano de sua personalidade, seu jeito de ser despretensioso, e sua honestidade e franqueza em suas manifestações públicas. Agora, alguns meios de comunicação expressam decepção ou crítica explícita para com ele.

Você pergunta: é o fim da lua de mel? Sim, a lua de mel terminou, assim como acontece com toda figura pública depois que ela começa a tomar decisões. Decisões necessariamente combinam com a pauta de algumas pessoas e não combinam com a pauta de outras. Portanto, não deveríamos ficar surpresos. Todo papa nos últimos 150 anos, ao menos, sofreu esse tipo de crítica. No caso de Pio IX (1846-1878) , a crítica foi tão severa que na Alemanha levou a um cisma que não foi sanado até hoje.

Você menciona especificamente o Frankfurter Allgemeine Zeitung e o New York Times. Não posso falar sobre o primeiro desses dois jornais, mas o Times é crítico principalmente por meio das curiosas opiniões expressas por seu colunista convidado Ross Douthat , que escreve comentários sobre religião. Acho que os editores do Times diriam que as opiniões de Douthat são dele mesmo, e não necessariamente as do próprio jornal.

As críticas

Em minha opinião, são as seguintes as principais críticas feitas a Francisco (a lista não segue uma ordem específica):

- esforços para resolver a situação da Igreja na China – na verdade, esta iniciativa é muito anterior a Francisco. Ele está simplesmente dando continuidade a esforços iniciados por seus predecessores;

- ele não entende a crise dos abusos sexuais ou não faz o suficiente para prevenir tais abusos no futuro – ele pediu desculpas pela forma inadequada de lidar com a situação no Chile e agora parece estar plenamente ciente da profundidade da crise e disposto a fazer mais em relação a ela;

- seus apelos em favor dos refugiados e migrantes – seus apelos desagradam governos e muitos de seus sujeitos. Esta é uma questão complicada, e acho que Francisco está plenamente consciente de sua complexidade. Mas ele tinha de pregar o evangelho que diz “eu era forasteiro, e vós me acolhestes”. Os cristãos simplesmente não podem cruzar os braços face a essa imensa tragédia humana;

- ele quer permitir a comunicação com pessoas divorciadas – na nota 351 de A alegria do evangelho [o resumo dos sínodos sobre a família feito por Francisco], o Papa expressa a esperança de que se possa encontrar uma solução pastoral para uma disciplina que causa tanta dor a tantas pessoas. Nos EUA, o grande paladino contra qualquer mudança é Ross Douthat, que prevê que uma mudança resultaria em uma grande cisma e acarretaria outras consequências terríveis. Essa é uma questão séria, e uma questão que, em um nível pessoal, tem muita importância para Douthat – e provavelmente para alguns cardeais –, mas não consigo, nem mesmo em minha mais desvairada imaginação, achar que uma mudança abalaria tanto a Igreja quanto se prediz. Suspeito que por cada pessoa oposta à mudança haja ao menos cem católicos que a veriam com bons olhos;

- ele não reformou a Cúria conforme o prometido – a reforma da Cúria romana tem sido uma questão candente nos últimos 700 anos, sobre a qual escrevi muito. O fato de ela ainda ser um problema revela que não se trata de uma tarefa fácil, e tampouco uma tarefa que se possa cumprir em cinco anos. Entretanto, Francisco fez algo que nenhum papa anterior conseguiu fazer nos últimos 700 anos – fazer com que as operações financeiras da Cúria sigam boas práticas fiscais, o que inclui a transparência pública. Sei, através de pessoas confiáveis e bem informadas, que Francisco está trabalhando silenciosamente em outros problemas e que, no devido tempo, começaremos a ver os resultados.

Creio que essas são as cinco áreas. Sei que posso ser acusado de estar falando a partir de meu próprio preconceito, mas realmente acredito que um desconhecimento da história da Igreja se encontra por trás de grande parte da crítica. Os esforços para negociar com o governo comunista da China, por exemplo, estão em consonância com todo o histórico anterior da Santa Sé. Pio VII negociou com Napoleão , e Pio XI com Mussolini . Até mesmo na forma de lidar com questões referentes ao divórcio e ao novo casamento a história da Igreja tem mostrado um certo grau de flexibilidade.

IHU On-Line – Ainda sobre as resistências a Francisco, o senhor avalia esse momento como o de maior força de opositores do pontificado? Por quê?
John O’Malley – Bem, é o de maior força até agora simplesmente por causa da passagem do tempo. Mas a pergunta tem o grave defeito de colocar a ênfase no lugar errado. Sim, há oposição a Francisco, mas certamente nos Estados Unidos, que são muitas vezes considerados o epicentro da oposição a ele, o Papa continua sendo imensamente popular e muito admirado tanto por católicos quanto por não católicos. Minha impressão é de que essa é a situação no mundo todo.

Temos de nos lembrar disso em qualquer discussão a respeito da oposição a ele. A mídia adora controvérsia e pula avidamente sobre qualquer indício de controvérsia. Na apresentação da oposição a Francisco feita pela mídia, uma pessoa poderia ficar com a impressão de que 50% dos católicos são a favor dele e 50% são contra. Seria mais próximo da verdade dizer que 95% estão a favor dele, embora algumas pessoas possam não concordar com uma ou outra de suas decisões.

IHU On-Line – Quais as principais mudanças no episcopado promovidas por Francisco ao longo desses cinco anos? E o que significam e quais as repercussões dessas mudanças mais recentes?
John O’Malley – Nos dois pontificados anteriores, um critério importante para a escolha dos bispos era seu juramento de se opor à ordenação de mulheres, a casamentos entre pessoas do mesmo sexo e assim por diante. Esse talvez tenha sido de fato o critério determinante. Francisco parece adotar uma abordagem mais ampla, dando atenção especial à experiência pastoral e às aptidões de liderança dos candidatos. Pelo menos é isso que vejo nos Estados Unidos.

IHU On-Line – De um modo geral, quais os maiores avanços desses cinco anos de pontificado? E sob que temas o senhor imagina que Francisco poderia ter avançado mais, mas não avançou?
John O’Malley – Quanto ao ensino social da Igreja, a Igreja não tinha um “ensino social” no sentido de programas coerentes para enfrentar problemas contemporâneos até a encíclica Rerum novarum do Papa Leão XIII , de 1891. Seguiram-se então outros documentos da Santa Sé. Eles foram um segredo bem guardado. Até mesmo em seminários, eles eram ensinados como disciplina secundária e faziam parte do currículo de Filosofia, e não de Teologia. Por isso, pareciam não ter nada a ver com a teologia ou com o Evangelho.

Isso mudou com o Concílio Vaticano II , especialmente em seu documento final e culminante, Gaudium et spes , que deixou claro que as questões sociais estavam no cerne da teologia moral na Igreja Católica. Em minha opinião, o Papa Francisco tem tomado a Gaudium et spes a peito e fez dela uma pedra angular em seu pontificado. Mais fundamentalmente, porém, o papa Francisco é movido pelo capítulo 25 do Evangelho de Mateus – “Tive fome, e me destes de comer, era forasteiro, e me acolhestes, etc.”. É isso que Francisco encarna em sua própria pessoa e ensina por sua palavra e seu exemplo.

IHU On-Line – Como compreender o Concílio Vaticano I no contexto da Igreja de hoje? Que contradições surgem no pontificado de Francisco que, ao mesmo tempo em que se alinha ao Vaticano II, ocorrem arroubos de conservadorismo por grupos dentro da Igreja?
John O’Malley – Como podemos entender o Vaticano I em relação ao Vaticano II e ao papa Francisco? Minha resposta muito breve a essa pergunta é que você deve ler meu livro que acaba de ser publicado pela Harvard University Press, Vatican I: The Council and the Making of the Ultramontane Church [Vaticano I: O Concílio e a Produção da Igreja Ultramontana].

Minha resposta ligeiramente menos breve é de que o Vaticano I lidou com o problema perene da relação entre o episcopado mundial e o papado colocando uma ênfase quase exclusiva nas prerrogativas do papado. O Vaticano II tentou resolver a tensão e reverter o desequilíbrio mediante seu ensino sobre a colegialidade episcopal. Francisco vem tentando implementar esse ensino.

Muitas vezes, os católicos têm uma compreensão muito unilateral da tradição da Igreja. Eles a veem como uma tradição quase exclusivamente hierárquica em sua estrutura. Contudo, desde os primeiros séculos até bem recentemente, a estrutura colegial era, ao menos, quase tão importante e atuante. Os críticos de Francisco quanto a este assunto precisam levar em conta esse fato.

IHU On-Line – Hoje, o Concílio Vaticano II está mais vivo dentro da Igreja? Por quê?
John O’Malley – O Vaticano II está mais vivo hoje em dia? Sim. Os católicos vivem atualmente em uma Igreja que, a despeito de toda a controvérsia sobre o Concílio, de fato funciona, em grande parte, de maneira muito diferente do que ocorria antes do Concílio. Uma resposta mais completa a essa pergunta exigiria um livro inteiro.

IHU On-Line – Que capítulo na história dos pontífices Francisco está escrevendo? E para a história da Companhia de Jesus?
John O’Malley – É cedo demais para dizer!

IHU On-Line – Como avalia o protagonismo assumido por Francisco no cenário geopolítico? É essa uma de suas perspectivas quando conclama a cristandade para serem “igreja em saída”?
John O’Malley – Ele tem surgido como o porta-voz preeminente em prol da justiça, compaixão, paz, redução da pobreza e cuidado do meio ambiente. Os governos podem prestar atenção nele ou não, mas ele representa um forte contraponto à autopromoção deles que, muitas vezes, parece indiferente ao sofrimento humano que provoca e ao dano que causa à paz mundial e ao meio ambiente. No tocante a este último assunto, o papa Francisco e a Santa Sé tiveram uma influência considerável na construção do Acordo de Paris sobre o meio ambiente em 2015.

IHU On-Line – Que leitura o senhor faz do encontro entre o Papa Francisco e o presidente estadunidense Donald Trump?
John O’Malley – Vou responder fazendo uma pergunta: seria possível haver dois homens cujos valores básicos sejam mais diametralmente opostos uns aos outros?■

Leia mais

- O espírito pastoral de Francisco e o desafio de desacomodar bispos e teólogos. Entrevista com John O’Malley, publicada na revista IHU On-Line número 465, de 18-5-2015.

- O Concílio do impulso para a reconciliação. Entrevista com John W. O’Malley, publicada na revista IHU On-Line 401, de 03-09-2012.

- "Um outro concílio? Só se for em Manila ou no Rio, não em Roma". Entrevista com John W. O"Malley, publicada nas Notícias do Dia de 23-01-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Entre o amor e o ódio, Deus e o conhecimento. A complexa história jesuítica. Entrevista John W. O’Malley, publicada nas Notícias do Dia de 23-01-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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