Edição 522 | 21 Maio 2018

Avanços e os limites nos debates sobre o espaço da mulher na Igreja no pontificado de Francisco

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João Vitor Santos | Tradução: Isaque Gomes Correa

Tina Beattie analisa ao avanços, limites e desafios do pontificado de Francisco relacionados aos temas que são caros ao feminismo católico

A teóloga Tina Beattie compreende que já estava na hora de a Igreja Católica renovar os ares e abrir o diálogo com vistas às mudanças. Comemora que, depois de muito tempo, se tem o cenário ideal para trazer à luz questões mantidas nas trevas. “Francisco inaugurou um ethos menos punitivo, mais dialógico, e isso possibilita que alguns debates aconteçam e que não poderiam acontecer dez anos atrás”, avalia. Assim, reconhece os esforços de Mario Bergoglio, pois “vem abrindo novas fronteiras de possibilidades ao negar o absolutismo autoritário de seus dois antecessores em favor de uma abordagem pastoral marcada pela alegria, misericórdia e compaixão em vez de uma obediência doutrinal rígida”. E completa: “Em si, isto cria um clima mais hospitaleiro aos valores e convicções feministas”.

Apesar de reconhecer a postura do pontífice, Tina também observa que “o papa Francisco não conseguiu estabelecer nenhuma mudança significativa quanto ao papel da mulher na Igreja”. Embora tenha uma visão teológica com pontos em comum com a teologia feminista, destaca que ele nunca se envolveu com teólogas. “Como é possível ser tão apaixonado pela pobreza e preocupar-se tanto pelo sofrimento da Mãe Terra, e, no entanto, nada falar sobre o fato de que quase 300 mil mulheres entre as mais pobres do mundo morrem anualmente de causas evitáveis relacionadas à gravidez e ao parto?”, indaga, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Além disso, aponta: “Francisco enxerga a teoria de gênero como uma forma de colonização ideológica, mas na verdade os nossos conceitos ocidentais modernos de gênero, baseados numa dualidade essencial de macho e fêmea inscrita na ordem da criação em Gênesis, são muito estreitos e não têm origem na tradição”.

Tina, apesar dos limites, se diz esperançosa com a Igreja que pode vir a partir de Francisco. Acredita que as mudanças são movimentos que vieram para ficar. “Francisco é uma pessoa de tanta oração, compaixão, humildade e fé, que acredito que o seu legado está seguro nas mãos do Espírito Santo, e este irá continuar a modelar a vida da Igreja de um jeito misterioso após ele ir se juntar aos anfitriões celestiais.”

Tina Beattie é professora de Estudos Católicos na Universidade de Roehampton, em Londres, e diretora do Digby Stuart Research Centre for Religion, Society and Human Flourishing. Suas pesquisas versam sobre teologia católica, teologia feminista e teoria psicanalítica. Entre suas publicações, destacamos Theology after Postmodernity: Divining the Void (Londres: Oxford University Press, 2013) e New Catholic Feminism: Theology and Theory (Londres: Routledge, 2006). Também escreve para The Tablet e The Guardian.

Os debates acerca do espaço da mulher na Igreja nesse pontificado também será tema de conferências no XVIII Simpósio Internacional IHU - A virada profética de Francisco - Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, e estarão presentes especialmente nas palestras da Profa. Dra. Mary Hunt – Women’s Alliance for Theology, Ethics and Ritual – WATER – EUA e do Prof. Dr. Luís Corrêa Lima – PUC-Rio. Acesse programação.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como a senhora compreende o feminismo hoje?
Tina Beattie – Acredito que a eleição do presidente Donald Trump foi o catalisador para um reavivamento feminista, porque abalou a complacência das feministas progressistas e deu uma energia renovada à luta pelos direitos das mulheres. O movimento Marcha das Mulheres é uma expressão disso. Para muitas mulheres, este movimento vem sendo um chamado a despertar. Serve para lembrar que justiça e igualdade são conquistas frágeis e preciosas que devem ser defendidas e nutridas continuamente. Não basta simplesmente alcançá-las e então desfrutá-las.

No entanto, há muitas pessoas feministas hoje, expressando uma ampla gama de valores culturais, políticos e éticos. Algumas formas do feminismo estão mais profundamente enraizadas na luta pela justiça do que outras. Fico preocupada quando o termo “feminismo” é apropriado pelos que o empregam para mercantilizar as mulheres – por exemplo, na indústria da publicidade, na imprensa e nos filmes populares. A força necessária para ser uma feminista, no sentido de reafirmação da dignidade, igualdade e diversidade das mulheres e garotas e do esforço para que isto seja respeitado e manifestado em todos os aspectos da vida, é bastante diferente da imagem, veiculada na imprensa, da mulher individualista, egoísta e por vezes violenta que ocasionalmente é retratada como a feminista liberal moderna.

O feminismo, hoje, encontra uma expressão oblíqua no movimento #MeToo , expressão de uma confiança maior que as mulheres sentem quanto a se manifestar contra o abuso e o assédio sexual. Entretanto, ainda tem a ver com as mulheres como vítima, e corre-se o risco de reforçar uma crença de que elas são fracas e precisam de proteção. Precisamos ir além da tática de nomear e envergonhar – por mais importantes que sejam – para desenvolver um ethos sexual e social que tenha a ver com relacionamentos maduros e responsáveis, baseados na dignidade e no respeito mútuo, não na coerção e exploração.

Por uma visão viável e feminista justa

Há um movimento crescente a desafiar as desigualdades na quantia que os homens e as mulheres ganham para fazer um mesmo trabalho. Isso também é importante, porém me preocupo com que algo assim possa resultar em mulheres em cargos altos recebendo tanto quanto os seus colegas homens que recebem salários excessivamente altos. É por isso que acho que o feminismo necessita ter um ethos socialista, caso não se queira estar na companhia do neoliberalismo no tocante às crescentes injustiças socioeconômicas da nossa ordem mundial moderna. É aqui onde penso que Hilary Clinton não conseguiu representar uma visão viável e feminista justa, pois esteve demais associada a uma visão neoliberal de progresso que não conseguia reconhecer as condições horrendas nas quais muitos americanos vivem, sem mencionar aqueles do lado de fora da esfera da potência econômica e militar ocidental.

Para mim, os exemplos mais inspiradores e interessantes do feminismo atualmente vêm de mulheres do sul global. Passei os primeiros 32 anos da minha vida na África, e hoje vejo as mulheres africanas – e as mulheres na Ásia também – trabalhando com grande coragem e comprometimento para transformar as sociedades ainda entrincheiradas em valores culturais e religiosos profundamente prejudiciais a elas e às garotas. Penso que o movimento feminista, hoje, é mais inspirador e transformador em tais contextos do que o é nos contextos das democracias ocidentais.

IHU On-Line – Quais os desafios de ser uma feminista e católica atualmente?
Tina Beattie – O reavivamento do feminismo está tendo um efeito cascata na Igreja Católica, que está talvez mais claro àqueles de nós que têm trabalhado na base por muitos anos. No último ano, houve uma resistência cada vez maior entre muitas católicas que se recusam a ser silenciadas. Por exemplo, em março de 2018, a organização feminina conhecida como Voices of Faith [Vozes de Fé, em tradução livre] teve a autorização de celebrar o Dia Internacional da Mulher do lado de dentro do Vaticano sob a condição de que duas das palestrantes propostas fossem substituídas – a ex-presidente irlandesa Mary McAleese e a ativista ugandense LGBTQI Ssenfuka Joanita Warry . Em vez de concordar com essa censura, Vozes de Fé mudou o evento para uma avenida fora do Vaticano. O fato de não darem permissão para a ex-presidente da Irlanda, Mary McAleese falar – ela própria uma católica devota assim como Warry – no lado de dentro do Vaticano atraiu a atenção da imprensa em nível mundial, e me parece que isso foi um pouco chocante para os cardeais. Não acho que eles esperavam encontrar tanta resistência e determinação assim. Em muitas frentes, o feminismo está amadurecendo – o que é verdade também dentro da Igreja.

Como feminista católica, pertenço a um movimento mundial de mulheres que compartilham uma fé e uma visão que dá um rico senso de amizade e solidariedade em nosso trabalho. A luta por justiça para as mulheres possui um significado e um propósito profundos, permeados por uma consciência da bondade e beleza sacramental da criação de Deus e por uma consciência interior de sermos feitas à imagem de Deus e dotadas de toda a dignidade e liberdade que isto acarreta. Eis o que me permite manter, numa tensão criativa, a minha fé católica e o meu compromisso com o feminismo.

Há, porém, muitas lutas. Nem todas as mulheres na Igreja querem mudança, e parte das maiores resistências ao feminismo católico vem de fiéis conservadoras. Precisamos entender que a reafirmação do matrimônio e da vida em família, e dos papéis domésticos e maternais da mulher, por parte da Igreja pode ser uma fonte de força e apoio às mulheres em postos em que se sentem subvalorizadas pela sociedade e não representadas por feministas. O desafio é encontrar formas de falar umas às outras no curso destas diferenças, perguntar como a catolicidade da Igreja pode abraçar as nossas diversas vocações e contextos, e nos ajudar a desenvolver as nossas habilidades, os nossos dons e pontos fortes para que possamos trabalhar em conjunto e espalhar a alegria e a misericórdia do Evangelho, características centrais da teologia do papa Francisco.

A crise na política americana é um fator nesta luta para – e pelas – mulheres na Igreja, porque encorajou a extrema-direita dentro da Igreja Católica bem como em outros lugares. Estas questões se tornam particularmente acirradas com respeito aos direitos reprodutivos da mulher. A menos e até que as mulheres estejam plenamente representadas dentro da hierarquia católica e sejam reconhecidas como autoridades morais legítimas quando se trata de reflexão ética e do magistério da Igreja sobre assuntos como a sexualidade feminina, a procriação e a maternidade, sempre haverá a sensação de que a Igreja Católica está em conluio com a política do patriarcado, o que se manifesta e é vivenciado mais intensamente com respeito ao controle do corpo feminino reprodutivo.

Consciência: a mais alta autoridade

A tradição católica sempre ensinou que a consciência é a mais alta autoridade, e que a liberdade de consciência foi consagrada como um princípio fundamental nos ensinamentos do Concílio Vaticano II. Não respeitar a liberdade de consciência das mulheres com respeito à saúde e aos direitos sexuais e reprodutivos, para negar-lhes o acesso a métodos contraceptivos, e usar o direito para forçá-las a continuar com gravidezes indesejadas, é violar a dignidade humana dessas mulheres. Dizer isso não é negar os dilemas éticos em torno do aborto, mas quando a Igreja parece valorizar a vida de embriões não formados de forma mais elevada do que a vida e a dignidade de mulheres e garotas, devemos suspeitar dos motivos de se gastar tanta energia na resistência ao aborto. Acho que o papa Francisco percebe isto, em algumas das coisas que ele fala.

Ordenação feminina

Não se pode evitar a questão da ordenação feminina. Não existem justificativas teológicas substanciais para dizer que elas não podem ser ordenadas. Na verdade, para muitos de nós que estudaram o magistério católico sobre o tema, os argumentos contra a ordenação feminina são incoerentes e inconsistentes com a doutrina da encarnação, que tem a ver com a redenção da espécie humana através da plena humanidade de Jesus – não através de sua masculinidade.

Aqui, de novo, devemos começar a dialogar como os precursores da mudança, e hoje este diálogo está começando a acontecer. A ordenação feminina costumava ser um tema tabu e muitos que trabalham nas instituições católicas e membros da hierarquia evitariam discuti-lo por medo de punição. O papa Francisco inaugurou um ethos menos punitivo, mais dialógico, e isso possibilita que alguns debates aconteçam e que não poderiam acontecer dez anos atrás.

IHU On-Line – É possível afirmar que Francisco, depois de cinco anos de pontificado, vai além dos ensinamentos de seus antecessores e encara melhor os desafios propostos pelas teólogas feministas? Por quê?
Tina Beattie – Certamente, o papa Francisco vem abrindo novas fronteiras de possibilidades ao negar o absolutismo autoritário de seus dois antecessores em favor de uma abordagem pastoral marcada pela alegria, misericórdia e compaixão em vez de uma obediência doutrinal rígida. Em si, isto cria um clima mais hospitaleiro aos valores e convicções feministas.

Entretanto, embora profundamente o respeite e ache que ele tem sido muito bom para o catolicismo, o papa Francisco não conseguiu estabelecer nenhuma mudança significativa quanto ao papel da mulher na Igreja. A sua visão teológica e o seu estilo estão marcados por muitos dos valores e perspectivas que se encontram na teologia feminista, porém ele nunca tentou se envolver com teólogas feministas – por exemplo, referindo-se a elas em seus escritos ou colaborando com elas. A sua encíclica sobre o meio ambiente, Laudato Si’ , poderia ser escrita por uma teóloga feminista, conquanto não fizesse referência alguma ao gênero. Mesmo demonstrando uma grande sensibilidade ao sofrimento e à beleza da Mãe Terra, e assim como todos os seus escritos são marcados por uma preocupação apaixonada pelos pobres, este documento nada diz sobre o impacto da pobreza e do abuso ambiental à vida das mulheres. Como é possível ser tão apaixonado pela pobreza e preocupar-se tanto pelo sofrimento da Mãe Terra, e, no entanto, nada falar sobre o fato de que quase 300 mil mulheres entre as mais pobres do mundo morrem anualmente de causas evitáveis relacionadas à gravidez e ao parto?

Ainda há muito trabalho a ser feito com relação ao tornar a hierarquia católica mais atenta e respeitosa para com as vozes teológicas femininas. Aquelas mulheres cuidadosamente escolhidas para cargos na Congregação para a Doutrina da Fé e outras estruturas institucionais são cuidadosamente escolhidas pela conformidade delas para com o ensino católico e pela obediência aos seus senhores clericais. Elas não representam a diversidade robusta da mulher católica ao redor do mundo.

Estou editando uma coletânea de escritos de mulheres a ser publicada pela rede Catholic Women Speak em preparação para o próximo Sínodo dos Bispos, em outubro de 2018, sobre “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Este livro reúne reflexões teológicas e narrativas pessoais de quase 60 mulheres de 20 países, com idades entre 14 e 85. É uma celebração da diversidade das mulheres na Igreja em nível mundial, e dá uma visão para dentro dos desafios, lutas e alegrias que elas experienciam como católicas. Até o momento em que essas mulheres estiverem representadas em todos os níveis da vida da Igreja, o conceito de “mulher” irá continuar a ser um ideal romântico que carrega pouca relevância às realidades concretas da vida dessas mulheres.

Na exortação apostólica de 2013 Evangelii Gaudium , o papa Francisco põe uma grande ênfase no Deus da história, e no modo como culturas diferentes são a expressão da encarnação. Estes elementos são inspiradores, mesmo assim, quando fala das mulheres, ele raramente reconhece que elas fazem parte desta diversidade cultural encarnada, parte das manifestações múltiplas do Cristo encarnado na história humana. Não somos “mulher”, mas mulheres!

IHU On-Line – De que forma avalia o tratamento que vem sendo dado por Francisco a questões como divórcio, novo casamento, contracepção e relações entre pessoas do mesmo sexo?
Tina Beattie – O papa Francisco pergunta como a Igreja pode se expressar de um modo que a faça relevante e prática no contexto das realidades bagunçadas da vida humana. Ele se preocupa mais com a aplicação pastoral da doutrina do que com a “pureza” dela. Isso não quer dizer que ele esteja modificando o ensino católico, e sim perguntando como pode adaptar-se e ser posto em prática em contextos diferentes, e no envolvimento com os desafios complexos e as esperanças frágeis da sociedade moderna.

Alguns dos que valorizam o absolutismo doutrinal em detrimento da sensibilidade pastoral criticam esta abordagem, mas eu penso que ele está permitindo a compaixão de Cristo estender a mão e tocar a vida humana, enquanto grande parte do que aconteceu durante os dois papados anteriores fora uma retirada da realidade na busca por um ideal fantasiado, particularmente com respeito ao matrimônio e à sexualidade. A teologia do corpo é um movimento inspirado na catequese do Papa João Paulo II sobre o Livro de Gênesis, todavia o seu retrato romântico e idealizado do casamento conta com estereótipos sexuais essencializados e é, na verdade, uma reação contra o feminismo, a teoria de gênero e o movimento pelos direitos das pessoas homoafetivas. Para uns, trata-se de uma teologia maravilhosa do matrimônio, mas os seus estereótipos culturais estreitos e sua visão restritiva de amor, sexualidade e parentalidade a tornam irreal para a grande maioria das pessoas que se esforçam para viver vidas significativas e amorosas em sociedades complexas e cambiantes. O papa Francisco busca acomodar a beleza rompida e ferida do amor humano dentro de sua interpretação da doutrina, e isto com certeza é o que a encarnação nos chama a fazer.

Humanae Vitae

Muitos dizem que ele discretamente modificou a interpretação de Humanae Vitae quanto à proibição absoluta do controle artificial de natalidade, na direção de uma interpretação mais integrada e responsiva da relação entre amor sexual e procriação. O problema com esta mudança sutil é que nem todos se dispõem a reconhecê-la, assim, em alguns contextos, as mulheres ainda têm negado o acesso a métodos contraceptivos por causa da crença de que eles violam o ensino da Igreja. É preciso dizer claramente e sem ambiguidade que a liberdade de consciência do cônjuge e as exigências da parentalidade responsável deveriam ser a consideração primária no tocante a decisões relativas à contracepção. Ao mesmo tempo, em situações em que possuem pouco controle sobre os seus corpos e são frequentemente vítimas de intercurso sexual coercivo e violento, as mulheres e garotas têm o direito à proteção de gravidezes não desejadas.

IHU On-Line – Em que medida o Sínodo dos Bispos sobre a família trouxe contribuições significativas para questões tão caras ao feminismo?
Tina Beattie – Ele certamente abriu-se para um engajamento mais realista e pastoralmente sensível a questões concernentes às mulheres, embora também alimentou polêmicas em torno da interpretação e aplicação do ensino católico. Na maioria dos contextos, as mulheres ainda são as principais cuidadoras dos jovens, idosos enfermos e deficientes físicos, e elas quase sempre desempenham o papel mais significativo em manter unida a família e nutrir relações. Mesmo se vivem em conformidade estreita com o ensino católico, estas mulheres sabem o que é ser mãe e avó de gays e transgêneros, de divorciados e recasados, de jovens que se sentem afastados pelo que percebem como a homofobia e rigidez do ensino da Igreja sobre a sexualidade. Criar um ambiente mais acolhedor, menos julgador, em que as pessoas possam ser abraçadas independentemente da sua orientação sexual ou identidade de gênero, é apoiar as mulheres em suas lutas e relações.

Também, o Sínodo sobre a família reconheceu os inúmeros desafios econômicos e sociais que as famílias enfrentam em culturas e contextos variados – questões como poligamia, migração, violência doméstica, pornografia e mídias sociais, desemprego, os sem-teto etc., que constituem as lutas que muitas mulheres encaram diariamente. Portanto, sim, isso tudo é positivo em termos de feminismo.

Mas realmente existe algo de ridículo em ter mais de 300 celibatários reunidos para discutir temas que são de significação extremamente íntima, vital, fundamental para a vida das mulheres, e negar-lhes qualquer autoridade para participar do processo de votação e tomada de decisões. Algumas mulheres e casais foram convidados a tomar parte das discussões sinodais, mas isto é um substituto pobre para o envolvimento das mulheres como partícipes plenas e iguais na vida da Igreja. Na verdade, o Sínodo teve relativamente pouco a dizer sobre as mulheres, e pouco fez para mudar a postura atual delas na Igreja e na sociedade. Os bispos não podem entender e representar a realidade plena da vida das mulheres, porque há muitíssimos aspectos de ser mulher que são somente compartilhados entre as próprias mulheres, e os protocolos e as relações de poder que governam as relações delas com os altos membros do clero não favorecem a comunicação honesta e aberta entre elas e os bispos.

IHU On-Line – Como interpreta Amoris Laetitia e como avalia a repercussão da exortação apostólica entre clérigos e leigos?
Tina Beattie – Claramente, Amoris Laetitia abriu um ninho de vespas! Penso que se pode inclusive falar da balcanização da Igreja sob Francisco. Sabemos que, na geopolítica moderna, uma unidade aparente é possível sob ditaduras, mas quando líderes democráticos surgem, o resultado é, por vezes, um conflito e uma fragmentação maiores.

O próprio Francisco reconhece que o processo de diálogo deve acomodar o conflito, e que uma “diversidade reconciliada” é possível somente quando as divergências são plenamente lançadas ao ar e quando as diferenças se manifestam. Pergunto-me se é por isso que ele decidiu não ter um, mas dois Sínodos sobre a família, em 2014 e 2015, a fim de permitir a expressão das divergências e o desdobrar de um processo de diálogo e reconciliação. No Sínodo de 2014, o Papa encorajou os seus companheiros bispos a falarem com parrhesia, isto é, sem autocensura. Frequentemente ele se refere à importância do tempo em detrimento do espaço, isto é, que a ordem sociopolítica moderna é espacial, focada em resultados imediatos e ganhos de curto prazo que devem todos acontecer aqui e agora, no presente, enquanto um modelo mais temporal, dinâmico pode acomodar processos de mudança, erro e finitude. A partir dessa perspectiva, ter dois sínodos com um ano de diferença, para abordar questões conflituosas e buscar reconciliação, é profundamente coerente com esta teologia.

No entanto, suspeito que ele subestimou o grau de conflito que havia sido suprimido na hierarquia pela liderança pesada do papa João Paulo II e do papa Bento XVI , de forma que quando encorajou os bispos no Sínodo a falarem com parrhesia, talvez não antecipava que aquilo que estava abrindo era a caixa de Pandora. Há os que dizem que os dois papas anteriores prestaram pouca atenção aos procedimentos dos Sínodos e não fizeram tentativa alguma para refleti-los em suas exortações apostólicas pós-sinodais. Entretanto, penso que Amoris Laetitia busca fielmente representar as opiniões divergentes e, às vezes, conflitivas dos bispos do mundo todo, ao mesmo tempo reunindo-as todas dentro de uma visão de acompanhamento pastoral e esperança e misericórdia teológica. Amoris Laetitia não é um tratado teológico belamente polido, porque reflete a bagunça que resulta quando a teologia se encarna na realidade e busca reconhecer os desafios e as alegrias da vida em família.

Desse modo, para as relações entre o clero e os leigos, em grande parte isto depende do contexto cultural mais amplo. Pode resultar numa Igreja fragmentada, onde os membros conservadores dos leigos se agrupam em torno de padres conservadores, e aqueles que buscam uma abordagem mais progressista juntam-se a paróquias com padres progressistas. Isto me parece negar a catolicidade – a universalidade – da fé católica, mas é uma realidade de uma igreja que raramente parece dividida ou em guerra consigo mesma.

IHU On-Line – O que as críticas ao próprio Sínodo e ao documento Amoris Laetitia revelam acerca das resistências ao pontificado de Francisco?
Tina Beattie – Talvez o que estejamos vendo é uma reabertura das feridas que, na verdade, nunca estiveram curadas depois do Concílio Vaticano II, que criou uma ruptura entre conservadores e modernizadores doutrinais. Porém, o papa Francisco não é um ativista politicamente progressista ao modo dos movimentos libertários pós-conciliares na Igreja. Ele também é uma pessoa de espiritualidade mística profunda, e penso que ele possui o potencial para reconciliar uma apreciação do misticismo da vida litúrgica e sacramental católica – grande parte do qual foi negligenciado no rescaldo do Concílio – com a abertura ao mundo, à paixão por justiça social e à vocação a estar plenamente engajado com as histórias e os contextos da história humana em toda a sua diversidade e realidade incarnacional – que também foram características definidoras do Vaticano II.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre essas resistências ao Papa e as questões tensionadas pelas mulheres na Igreja?
Tina Beattie – É fácil sentir-se afastada e hostilizada no tocante ao conservadorismo entrincheirado que hoje se manifesta entre alguns membros da hierarquia e que se opõem a Francisco. Tal conservadorismo é mais assertivo em questões que têm a ver com as mulheres – ética reprodutiva, identidades de gênero e ordenação, por exemplo.

Penso que o desafio é perguntar por que existe tanta resistência: Quais são os medos subjacentes e as ansiedades que alimentam estas resistências? Por que os homens cujas vidas deveriam estar centradas no amor de Cristo em seu trabalho sacerdotal estão tão imbuídos da necessidade de ter poder e controle sobre a vida das mulheres? Por que desconfiam tanto da graça e da bondade intrínseca da natureza, incluindo a natureza humana, que são fundamentais para a teologia católica? Sim, o pecado pode ter consequências devastadoras e não deveríamos subestimar os modos como o desejo humano pode estar distorcido em formas obscuras e violentas, mas, na verdade, foi a crise de abusos sexuais a maior demonstração disso nas últimas décadas. Por que, numa época em que os líderes eclesiais estiveram obsessivamente preocupados com temas como a contracepção, o aborto e a homossexualidade, eles também estiveram fazendo vistas grossas ao abuso sexual de tantas crianças e adultos vulneráveis? Muitos dos que atualmente se opõem a Francisco ainda têm perguntas a serem respondidas sobre o papel deles nisso tudo.

Estas são questões importantes, mas devemos nos perguntar como podemos buscar aquela “diversidade reconciliada” da qual o papa Francisco fala. Jesus ora para que todos os seus discípulos sejam um, e esta é uma vocação que não podemos ignorar a fim de satisfazer as nossas ofensas e os nossos desacordos. Em vez disso, devemos entrar em diálogo – e o Papa apresenta um guia excelente com as regras de um bom diálogo em Amoris Laetitia – e buscar entender uns aos outros e apoiar uns aos outros na escuta e resposta ao chamado de Cristo para expressar o seu amor que cura num mundo ferido e dividido. Todavia, se unidade significa recusa a confrontar e expor o abuso, a injustiça e a misoginia, então temos aí um preço alto demais a pagar. Novamente, o acobertamento de casos de abuso sexual esteve parcialmente atribuído a uma tentativa equivocada de representar uma frente unificada, mesmo quando isto significava silenciar e ignorar as vítimas de abuso.

IHU On-Line – Como o Papa apreende as questões de gênero? E como esse seu entendimento se revela no pontificado?
Tina Beattie – Sinto muito, mas o papa Francisco não compreende as questões de gênero! Como os antecessores, ele continua advertindo contra uma “ideologia de gênero” de um modo que mostra uma resistência profunda a envolver-se e aprender com parte das questões complexas de gênero e identidade que emergem em todas as culturas hoje. Francisco enxerga a teoria de gênero como uma forma de colonização ideológica, mas na verdade os nossos conceitos ocidentais modernos de gênero, baseados numa dualidade essencial de macho e fêmea inscrita na ordem da criação em Gênesis, são muito estreitos e não têm origem na tradição. Tampouco constitui uma leitura informada e acadêmica do texto do Gênesis. Em si, é uma forma de ideologia que se difundiu através das potências imperiais e colonizadoras da Europa.

Só se precisa olhar a linguagem da eclesiologia católica e da teologia mística – incluída a linguagem do próprio papa Francisco – para ver que a descrição da Igreja como uma mãe, mulher e noiva tem a ver com gênero, não com essencialismo sexual. A tradição católica sempre empregou o gênero em sentido metafórico, relacional para expressar os modos como as relações e características humanas e divinas se expressam. Muitas culturas não ocidentais possuem múltiplos conceitos de gênero que não se encaixam perfeitamente no modelo de dois sexos da ciência e cultura ocidentais modernas. Thomas Laqueur é um pesquisador que vem explorando algumas dessas questões em seus contextos históricos. Existem ideólogos em todos os lados do debate de gênero, e eu receio que o ensino católico em si, hoje, esteja altamente ideológico.

Mais uma vez, devemos lembrar que o bom diálogo só pode começar quando há respeito mútuo e atenção ao ponto de vista do outro. Penso que o papa Francisco precisa seguir o seu próprio ensino mais proximamente quando se trata de dialogar sobre gênero.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios desse papado a partir de agora?
Tina Beattie – Deve ser esgotante enfrentar tanta oposição, suportar tanta agressão e mesmo ódio de alguns dos seus companheiros bispos. Francisco não é jovem, e a sua saúde não é robusta. Não tenho certeza de que deveríamos estar identificando novos desafios para ele enfrentar, mas penso que um simples ato de diálogo com as mulheres – com teólogas feministas, com eticistas mulheres, mulheres que representam a grande maioria das culturas ao redor do mundo e que compartilham a sua visão de uma harmonia reconciliada dos povos a viver em paz uns com os outros e com a natureza – seria um modo bastante significativo de proceder. Quando o Vaticano convidou os jovens do mundo inteiro para um encontro pré-sinodal em março de 2018, o papa Francisco passou uma manhã com eles e estes foram encorajados a se pronunciar livremente. Pergunto-me por que motivo ele nunca fez algo parecido com as mulheres. Ainda há tempo. Ele poderia fazer isso se quisesse. Eu aqui me voluntario a organizar um tal evento, em colaboração com muitas outras pessoas que eu souber estarem dispostas a participar.

A questão fundamental é: o que vem depois de Francisco? Se o próximo papa compartilhar a visão de Francisco e buscar continuar o seu trabalho, então acho que poderemos ver uma renascença na Igreja – tempo de um engajamento vital e de sensibilidade para com as necessidades da família humana quando poderemos estar enfrentando dias sombrios de violência e agitação política. Por outro lado, se o próximo papa for eleito entre os membros mais conservadores da hierarquia, então haverá tempos desafiadores à frente para as mulheres e os gays em particular, na medida em que enfrentamos uma nova barreira de controles e ataques contra as liberdades e os direitos sexuais e reprodutivos. No entanto, o papa Francisco é uma pessoa de tanta oração, compaixão, humildade e fé, que acredito que o seu legado está seguro nas mãos do Espírito Santo, e este irá continuar a modelar a vida da Igreja de um jeito misterioso após ele ir se juntar aos anfitriões celestiais.

Igreja Católica

A Igreja Católica sobreviveu a muitas crises e transformações. É a instituição mais duradoura da história. Para mim, este é o maior testemunho de sua vocação e origens divinas. Em vários sentidos, ela é uma instituição tão ridícula, tão corrupta e injusta que, se não fosse pela mão orientadora de Deus, já teria certamente entrado em colapso há muito tempo.

No final, não importa se um papa em particular é conservador ou progressista – o que importa é manter viva a esperança e a alegria de Cristo apesar da Igreja, mas isso só é possível por causa da Igreja! Como ex-protestante , estou ainda aprendendo o quão paradoxal e mesmo cômico a fé católica é em algumas de suas formas de expressão, e ainda assim é permeada pela beleza, pelo amor e pela graça do divino.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Tina Beattie – Acredito na Igreja Católica. Penso que aceitar que ela é uma instituição imperfeita, não imune às lutas e fracassos da condição humana, faz parte disso, mas ainda assim tenho fé de que a vida de Cristo e Maria continua através dos sacramentos da Igreja, e através dos vários modos pelos quais os católicos ao redor do mundo trabalham com – e por – aqueles das muitas religiões e culturas, para estender a mão aos que sofrem, aos marginalizados e às vítimas – incluídas mulheres e garotas. [Os membros da] hierarquia são os servos dos servos de Deus. Precisamos continuar lembrando-os disto – eles não são a Igreja. Todos nós somos a Igreja.■

Leia mais

- Um pontificado de novidades e resistências. Entrevista especial com Tina Beattie, publicada nas Notícias do Dia de 6-5-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- Evolução e pecado original: releituras do Gênesis. Artigo de Tina Beattie, publicada nas Notícias do Dia de 12-3-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- Sexo, casamento e Igreja Católica. Artigo de Tina Beattie, publicada nas Notícias do Dia de 13-10-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

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