Edição 210 | 05 Março 2007

Paulinho Brand

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Apaixonado pela família, Paulinho Brand fala com muito amor das lembranças com seus filhos. Morador de São Leopoldo, sente saudades da terra natal, São José do Sul, onde deixou seus pais. Agarrou as oportunidades da vida com todas as forças e alcançou o sonho de estudar. Hoje, como funcionário no setor de suprimentos da Universidade, se tornou referência de trabalho com competência: “Para mim a Unisinos é um projeto de vida. Estou satisfeito aqui e sei que posso ajudar muito”. Conheça um pouco mais deste funcionário da Unisinos na entrevista a seguir.

Origens - Nasci em Montenegro, há 39 anos, mas sou de Dom Diogo, que na época pertencia a Salvador do Sul. Hoje somos um município que se chama São José do Sul. Estamos na segunda gestão municipal, lideradas por pessoas muito empenhadas e dedicadas.

Família - Somos sete irmãos em casa, cinco homens e duas mulheres. Meus pais são agricultores. Meu irmão mais velho logo foi para o seminário, e as minhas irmãs foram cedo cuidar crianças na casa alguns parentes, então fiquei como o filho mais velho.

Infância -
Como filho mais velho, desde cedo, entrei na rotina da roça. Tratava os porcos, o gado, limpava o pátio, tratava tudo antes de ir para a roça. O meu sonho até os 20 anos era ser agricultor.

Educação - Desde os seis anos, freqüentamos uma escola particular, São Francisco de Salles, onde meu avô por muitos anos foi o único professor. Ele lecionava aulas da primeira à quinta série, todos em uma única sala. Daí em diante, estudei em São Salvador do Sul. Sentíamos muita dificuldade, pois íamos todo o dia de ônibus e muitas vezes não tínhamos dinheiro para pagar a passagem. Diante disso, eu ia à cooperativa pedir ao gerente para me adiantar dinheiro para comprar um bloco de passagem. A dívida era abatida dos produtos que vendíamos à cooperativa. Depois que concluí o ginásio, fiquei trabalhando na roça, até os 21 anos.

Dificuldades - Tivemos um período de muita seca, quando não colhíamos nada. Minha mãe sempre me falava: “Paulinho, tu podes fazer coisas melhores do que isso”. Ela me via trabalhando, mas achava que eu era capaz de fazer mais. Ela pensava que, como eu varria o pátio bem pela manhã, eu poderia fazer outras coisas.

Primeiro emprego - Quando eu tinha 21 anos, um amigo que trabalhava em um atacado de São Leopoldo como motorista me chamou para fazer um teste. Na entrevista disse que gostaria de fazer qualquer coisa no trabalho, então comecei descarregando caminhões e carretas. Trabalhei quatro meses no atacado e fiz muitas amizades.

Lar - Fui morar com sete pessoas em um apartamento próximo ao trabalho. Era divertido, éramos todos jovens. Logo após fui morar na pensão de uma senhora, que não permitia que levássemos gurias para casa. Era um lugar de muito respeito, de que gostei muito. Ao lado, ficava um terreno que eu costumava capinar, em troca do aluguel da pensão.

Mudança - Depois de um tempo, surgiu a oportunidade de ser cobrador de cargas. Era um cargo de responsabilidade. Eu lidava com dinheiro, cheques e recibos, e, ao fim do dia, prestava contas. Isso foi muito bom para mim. Tive a oportunidade de conhecer diversas cidades do nosso Estado, como Arroio dos Ratos, Caxias do Sul, Charqueadas, Farroupilha, Bento Gonçalves, Porto Alegre.

Lembrança - Quando vim para São Leopoldo, procurei logo um colégio para realizar o 2º Grau. Meu gerente no atacado pagou minha 1ª matrícula. Eu trabalhava de dia e estudava à noite. Meus colegas, por eu ser muito empenhado no trabalho, me chamavam de “alemão carneiro”, mas eu não sabia o que era isso. Um dia perguntei o que era: puxa-saco, caxias. Certo dia, meu colega não parava de me chamar por esse apelido e começamos a brigar no meio de uma entrega.

Oportunidade - Certa vez, observando as notas fiscais, vi que iria fazer uma entrega na Unisinos, que eu já conhecia de nome, mas nunca tinha entrado no campus. Quando vim aqui, fui até o restaurante universitário e conversando com o responsável pelo recebimento, indaguei sobre a universidade. Ele percebeu meu interesse e sugeriu que eu deixasse um currículo, que ele entregaria ao chefe. Depois de algumas semanas, fui chamado para trabalhar no estoque do restaurante universitário. Mesmo ganhando menos que no meu emprego anterior, aceitei pela oportunidade de cursar uma faculdade.

Administração -
Fiz teste vocacional e, dentre os vários resultados apontados, optei por Administração de Empresas. Formei-me em 1998, quando comecei a Pós-Graduação em Finanças. Além disso, fiz alguns cursos de capacitação. Hoje estou terminando o MBA em Logística e Operações de Manufaturas e Serviços.

Iniciativa -
Logo que comecei no trabalho, organizamos os alimentos nas prateleiras por tipos, enlatados, cereais, açúcares etc. Eu já fazia isso como agricultor, então trouxe essa experiência para meu emprego na Unisinos. Nas minhas horas de folga, minha chefa me convidava para ser garçom em festas e eventos da Universidade, onde tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas. Um dia, surgiu a vaga no departamento de patrimônio e, como eu cursava Administração, fui indicado por um conhecido.

Reviravolta - Na época em que eu cursava Pós-Graduação em Finanças, aconteceram alguns problemas no setor de Estoque e eu fui convidado para trabalhar lá. A mudança deu resultados, e, em 2003, entrei para o projeto Sinergia. Gostei do trabalho, mas surgiram complicações no Setor de Suprimentos e fui convidado para o trabalho. Nesse setor, estou até hoje. Na trajetória profissional, fiquei quatro ou cinco anos em cada setor da Universidade.

Casamento -
Conheci minha esposa, Odete, quando ainda morava em Dom Diogo, mas acabamos nos distanciando, tendo cada um seguido o seu rumo, porém, mais tarde, acabamos nos reencontrando em um baile, e o namoro acabou em casamento.

Filhos -
Tivemos nosso primeiro filho, Guilherme. Curtimos muito nossa gravidez, fizemos curso para o primeiro filho. Uma noite, minha esposa acordou com muita dor. Nossa médica recomendou que eu a levasse para o Hospital Centenário. Chegando lá, enquanto eu fazia o cadastro, os médicos atendiam minha mulher em outro andar. Quando subi para vê-la, escutei um bebê chorando e falei: esse é meu filho. Minutos depois estava com meu filho nos braços. Depois de algum tempo, nasceu minha filha, Débora. A melhor decisão que tomamos foi esta: priorizar nossos filhos. Para mim, ser pai é uma realização, um sonho concretizado.

Valores -
Quero ensinar aos meus filhos como ser uma pessoa simples, amar ao próximo, cuidar dos animais, ter ética, ter valores, ter fé. Esse é meu caminho. Se eu conseguir passar isso, vou me sentir completamente realizado.

Livro - Estou cursando MBA em Logística e gostei muito quando li o livro do autor Taiichi Ohno, O Sistema Toyota de Produção – Além da Produção em Larga Escala, que fala sobre sistemas japoneses de produção. Achei um dos melhores livros que li nos últimos tempos. Meu professor pediu para fazermos uma reflexão dessa obra sobre nossa realidade. Ele conta a história da indústria japonesa com a preocupação contínua com a eliminação dos desperdícios, a importância de profissionais multifuncionais que conseguem trabalhar bem em equipe e, por fim, a compreensão e participação de cada individuo para alcançar os objetivos da empresa. Também aborda o tema de se tomar decisões baseadas em fatos reais, e os impactos gerados por uma decisão incorreta.

Autor - Gosto muito do falecido Peter Drucker. Tenho livros, vídeos e DVDs dele. Gosto de qualquer trabalho dele.

Filme - Sou apaixonado por filmes infantis. No vídeo Spirit, que trata sobre a vida de um cavalo que cuida dos amigos e da família, cheguei ao ponto de chorar.

Sonho -
Eu quero ainda morar com a minha família no meu município de origem e ajudar a minha cidade. Quero devolver esse meu crescimento para o lugar onde nasci.

Horas Livres - Quase todos os fins de semana livres, visitamos meus pais no interior, onde eu aproveito para trabalhar na terra.

Coral - Temos um coral na família, formado basicamente por homens, até já gravamos um CD. A gravação foi feita nos estúdios da TV Unisinos. Já realizamos vários encontros de corais e nos apresentamos em vários municípios e escolas da região. Além disso, desde que estou trabalhando na Unisinos, participo e canto no coral de funcionários, hoje denominado Vocal Phoênix.

Brasil - Vejo um país de grandes oportunidades. Quando fiz pós-graduação em Finanças, e agora no MBA em Logística, vi um país promissor. Logística é um ramo ainda novo, quem sabe quantos profissionais ainda podemos formar que poderão ajudar o País, que ainda irão mostrar o seu valor. Infelizmente, no Brasil, não confiamos no governo, que tem pouca credibilidade e dignidade. Mesmo assim, podemos ainda fazer muitas coisas boas.

Unisinos - Pra mim a Unisinos é um projeto de vida. Estou satisfeito aqui e sei que posso ajudar muito, evoluir, dando a minha contribuição. As pessoas vêem a Unisinos como algo muito grande, exuberante, mas também como um lugar muito fechado. Essa visão para mim é um problema, acho que precisamos nos aproximar mais das pessoas e do contexto onde estamos inseridos. Graças a Deus, estamos contornando esta fase, sendo estimulados e desafiados pela nova Reitoria, que, do seu próprio jeito, se faz muito presente na gestão e na vida universitária.

Instituto Humanitas -
Sou fã desde a primeira edição da revista. Sempre tive muita simpatia pelo IHU. A palavra Humanitas sempre me cativou. As pessoas que trabalham desde o início do instituto são pessoas muito boas, comunicativas, com o lado humano bem desenvolvido. É um lugar muito importante para a Universidade.

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