Edição 521 | 07 Maio 2018

Maio de 68 não foi superado, nem derrotado

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Vitor Necchi

Para Alana Moraes de Souza, as lutas vão sedimentando substratos, e toda vez que a sociedade se movimenta, de algum modo os substratos emergem

A antropóloga Alana Moraes de Souza considera que 1968 foi marcante para a história das contestações ao capitalismo. “De maneira bem simplificada, naquele momento houve uma rebelião global contra o modo de vida capitalista e suas estruturas autoritárias”, avalia, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Eram tempos da Guerra Fria, e havia uma divisão segundo a qual “a liberdade estava do lado do capitalismo enquanto a ausência dela entrava na conta das experiências comunistas”. No entendimento de Souza, 1968 “rompeu com a ficção dessa divisão e apontou a estrutura autoritária e violenta que sustentava o capitalismo”. Por outro lado, “também revelou as estruturas autoritárias que sustentavam os partidos comunistas, a herança do stalinismo, a burocratização e a formação de elites dirigentes na própria esquerda”.

Ao pensar sobre a atualidade em retrospecto a 1968, Souza identifica uma conjuntura parecida: “De um lado, o triunfo absoluto do neoliberalismo, em parte, sustentado pela promessa de mais liberdade, flexibilidade, desregulação. Mas sabemos hoje, mais do que nunca, que o neoliberalismo é feito de um grande aparato repressivo de pacificação das revoltas, de ocupações militares, de um racismo institucional que elege os corpos matáveis: jovens negros, terroristas, militantes, indígenas etc.” E a esquerda progressista, de outro lado, “parece não ter entendido bem que o neoliberalismo formata todo o aparato institucional do que costumávamos chamar de estado de direito e insiste nas mesmas estratégias de disputa de poder”.

Souza considera arriscado aproximar o 1968 francês e o junho de 2013 brasileiro, mas acredita que existam elementos de contato. “Tanto Maio como Junho expressaram uma insatisfação latente que existia na sociedade, uma insatisfação que, de algum modo, estava contida. [...] Outro ponto de contato importante é a expressão de um cansaço generalizado com os instrumentos tradicionais de representação”. Além disso, reconhece uma aproximação trágica, que é “onda conservadora que se alimentou dessa energia”.

Alana Moraes de Souza é graduada em Antropologia, mestra em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Atualmente cursa doutorado em Antropologia Social no Museu Nacional da UFRJ. É coorganizadora dos livros Junho: potência das ruas e das redes (Fundação Friedrich Ebert, 2014) e Cartografias da emergência: novas lutas no Brasil (Fundação Friedrich Ebert, 2015).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Se, conforme escreveste , “cada geração política é interpelada por um conjunto de urgências, de problemas incontornáveis”, quais foram as urgências de 1968 e quais as atuais?
Alana Moraes de Souza – 68 foi um momento muito importante na história das contestações ao capitalismo. De maneira bem simplificada, naquele momento houve uma rebelião global contra o modo de vida capitalista e suas estruturas autoritárias. Era ainda um período dividido pela oposição ocidental da Guerra Fria na qual a liberdade estava do lado do capitalismo enquanto a ausência dela entrava na conta das experiências comunistas. 68, de algum modo, rompeu com a ficção dessa divisão e apontou a estrutura autoritária e violenta que sustentava o capitalismo: a guerra no Vietnã , o racismo, a exploração nas fábricas, o patriarcado. Mas 68 também revelou as estruturas autoritárias que sustentavam os partidos comunistas, a herança do stalinismo, a burocratização e a formação de elites dirigentes na própria esquerda. 1968 ousou abrir uma fenda nessa oposição e produziu um campo mais radical de contestação, afirmando a possibilidade de um projeto de igualdade com diferença e liberdade. Foi uma geração dissidente que não teve medo de romper com as ortodoxias.

Hoje temos uma conjuntura parecida em diversos aspectos. De um lado, o triunfo absoluto do neoliberalismo, em parte, sustentado pela promessa de mais liberdade, flexibilidade, desregulação. Mas sabemos hoje, mais do que nunca, que o neoliberalismo é feito de um grande aparato repressivo de pacificação das revoltas, de ocupações militares, de um racismo institucional que elege os corpos matáveis: jovens negros, terroristas, militantes, indígenas etc. Explode o encarceramento, o feminicídio como prática cotidiana de regulação dos corpos femininos, ou seja, é uma política de morte.

De outro lado, a esquerda progressista parece não ter entendido bem que o neoliberalismo formata todo o aparato institucional do que costumávamos chamar de estado de direito e insiste nas mesmas estratégias de disputa de poder. As urgências dos nossos tempos têm a ver com a reelaboração de um novo campo de radicalidade que, por um lado, fuja do vanguardismo e da incapacidade de conexão com os problemas reais das pessoas e, por outro, assuma a tarefa de reconstruir um processo de lutas que desemboque em novos arranjos da vida coletiva, novas formas de vida, possibilidades concretas de cooperação e de decisão das pessoas sobre seus cotidianos. É também arriscar novas institucionalidades que possam ser experimentadas para além do Estado neoliberal e seus enquadramentos.

IHU On-Line – O documentário No intenso agora (2017), de João Moreira Salles, evoca a mãe do diretor e uma viagem que ela fez à China, mas também tratou sobre o que persiste de Maio de 68. Que análise fazes do filme e sobre sua capacidade de suscitar reflexões acerca daquele período da história?
Alana Moraes de Souza – O filme de João Moreira Salles é primoroso. Um trabalho minucioso de arquivo. Eu gosto de como ele reconstrói os eventos de 68 a partir da memória pessoal, da relação com a sua mãe, uma história incorporada. Esse é um bom projeto para todos nós: como contar a história de grandes eventos a partir das nossas histórias pessoais, a partir dos afetos íntimos. Como a história atravessa nosso cotidiano e nossas relações, experiências? É um modo possível de fugir da história com “h” maiúsculo e masculino: contá-la a partir do relato, da vida, dos eventos cotidianos que não podem parar de acontecer.

IHU On-Line – João Moreira Salles, por meio de uma acurada seleção e edição de imagens, reconstitui algumas das principais movimentações de 1968, como a francesa, desde os primórdios do movimento até o esvaziamento das ruas. O diretor sugere que Maio de 68 trata-se de um sopro de rebeldia fugaz derrotado por De Gaulle. No seu entendimento, foi apenas isso?
Alana Moraes de Souza – Essa é uma leitura bem comum do Maio de 68. Mas se fosse apenas um sopro de rebeldia fugaz não estaríamos falando desse acontecimento com tanta paixão até hoje. Há algo em 68 que ainda nos perturba. O acontecimento de 68 nos conduz a um outro tipo de imaginação revolucionária que não tem a ver com a tomada do poder necessariamente, com um programa de governo, com um partido revolucionário assaltando a institucionalidade. 68 operou mudanças profundas e subjetivas, modos possíveis de se viver, uma rebelião contra o estado natural das coisas e suas hierarquias. Se pensamos no feminismo, por exemplo, que não nasceu em 68, mas que, sem dúvida, teve um papel importante nos acontecimentos ou no movimento negro que, especialmente nos Estados Unidos, produziu um discurso e uma postura muito radicalizada contra o racismo normalizado... são movimentos que nunca cessaram de produzir transformações no cotidiano e fizeram isso sem precisar tomar o poder institucional.

A defesa das liberdades em 68 estava conectada com uma radicalidade sistêmica, era preciso afirmar uma vida, uma explosão de felicidade, de prazer, que fosse capaz de existir em oposição à vida burguesa ou à obediência que exigia o partido comunista. Havia uma preocupação estética também. A afirmação do movimento black power, depois dos panteras negras, era uma afirmação também estética: a forma é tudo, é o que nos permite produzir uma existência insuportável para o poder.

IHU On-Line – Para o documentarista, o apego a Maio de 1968 é desmesurado e conservador. Concordas com ele? Por quê?
Alana Moraes de Souza – Eu discordo. Não precisamos olhar para o passado com lentes melancólicas que nos fazem lamentar algo perdido. O passado está sendo continuamente traduzido, acionado de diversas formas, incorporado. Maio de 68 pode ter sido muita coisa, mas não havia nenhum desejo de conservar, ao contrário. Óbvio que toda movimentação radical gera também uma reação conservadora, mas são as lutas geracionais de cada tempo histórico que nos oferecem pistas sobre as transformações. E entendo geração como um sentido de pertencimento coletivo a uma urgência, um gesto, um desconforto insuportável, não tem a ver só com uma identidade etária.

A nostalgia pode ser uma forma de recusar os abismos do presente, e o filme aponta para isso. Mas, ao mesmo tempo, trabalha com uma concepção de história muito linear, como se a história fosse feita de superações. Eu penso, ao contrário, que Maio de 68 não foi superado, não foi derrotado. As questões que ele levanta ainda nos atravessam: organização, partido, liberdade, diferença, uma vida possível para além do trabalho e da condição de exploração. As lutas vão sedimentando substratos, e toda vez que a sociedade se movimenta, de algum modo os substratos emergem, se misturando com os elementos da superfície. É como o fenômeno oceanográfico chamado de ressurgência. Esse fenômeno acontece quando as águas profundas emergem à superfície levando muitos nutrientes para as regiões menos profundas. O resultado é um ambiente extremamente nutritivo. Isso só acontece porque as águas da superfície são mais quentes, mas as mais profundas, mais nutritivas. Eu vejo a história das lutas como a ressurgência, um resultado de vetores mais quentes dos acontecimentos que se mesclam a experiências passadas e seus aprendizados.

IHU On-Line – Havia latente nos ideais de 1968 uma pretensão de mudar o mundo, de transformar o futuro. Esses desejos perderam fôlego? Por que, na atualidade, prevalece um desânimo?
Alana Moraes de Souza – Nós precisamos levar mais a sério a ideia de que o capitalismo é uma máquina de produzir infelicidade. A infelicidade não é apenas um estado subjetivo, mas ela produz também um corpo, uma certa disposição corpórea. Para Deleuze , a tristeza está sempre ligada ao poder: o poder age impedindo que realizemos, ele obstrui potências. Toda tristeza é decorrente dessa sensação de não conseguir, de estar bloqueado. Isso nos empurra para uma constatação difícil para os marxistas mais ortodoxos: o neoliberalismo não atua apenas sobre as vidas, orientando políticas e macroeconomia. Ele atua também na vida, no corpo. Não há nada mais materialista do que pensar o corpo, não? Como podemos falar sobre “resistência” ou nos perguntar por que as pessoas não resistem, se não entendemos que resistir é produzir uma vida corpórea capaz de deslocamentos, de movimento, de intenções? O mercado financeiro usa a cocaína, por exemplo, para produzir essa potência do corpo, mas seu efeito é uma intensificação do indivíduo, do sujeito atomizado, autorreferenciado, masculino. Por outro lado, existe uma explosão no uso de antidepressivos entre os mais pobres, uma administração permanente da paralisia, um corpo anestesiado. Um modo de lutar contra isso é buscar por uma corporeidade multitudinária, cooperada. É o que acontece nas cozinhas coletivas de ocupações, por exemplo. Cozinhar juntos, nos cuidar. Investigar substâncias que nos ajudem nesses deslocamentos, na produção de alegrias.

IHU On-Line – Faz sentido aproximar o 1968 francês e o brasileiro do junho de 2013 brasileiro?
Alana Moraes de Souza – É sempre arriscado fazer essas comparações, mas acredito que existam elementos de contato. Tanto Maio como Junho expressaram uma insatisfação latente que existia na sociedade, uma insatisfação que, de algum modo, estava contida. Maio e Junho destravaram essas contenções. Outro ponto de contato importante é a expressão de um cansaço generalizado com os instrumentos tradicionais de representação: novas formas de luta sindicais emergiam pela base, questionamento das estruturas partidárias, uma explosão de criatividade que se expressava em muros, cartazes, proposições.

O ponto de contato trágico está na onda conservadora que se alimentou dessa energia, mas não dá para acreditar em luta de classes desconsiderando a outra classe que também luta para conservar sua posição. Por isso acho arriscadas e tristes essas análises que lamentam a existência de Junho como se a mobilização gerada naquele momento só servisse à direita. Esse é um jeito de olhar a história. Outro é pensar na própria incapacidade da esquerda de se conectar com a indignação – se não é isso que define a esquerda, não sei mais o que é. Precisamos resolver se queremos salvar o capitalismo e seu sistema político ou se queremos construir outras possibilidades. Em Junho, grande parte da esquerda decidiu que precisava defender o sistema, mas logo depois o sistema engoliu a esquerda. Como sempre faz, aliás. Mas tanto Junho como Maio ainda estão em movimento nos trazendo mensagens, indicando caminhos, oferecendo matéria com nutrientes. ■

Leia mais

- Contato e improvisação: o que pode querer dizer autonomia? Artigo de Alana Moraes de Souza, publicado no Cadernos IHU Ideias número 268.

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