Edição 521 | 07 Maio 2018

O interminável Maio de 1968

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Vitor Necchi | Edição: Ricardo Machado | Tradução: Vanise Dresch

Patrick Viveret viveu a ebulição dos meses, desde 1967, que antecederam a tomada das ruas, universidades e fábricas por estudantes e trabalhadores franceses

Longe de um certo pessimismo diante da memória de 1968 e mais distante ainda do ufanismo romântico em torno do maio francês, Patrick Viveret, em entrevista por e-mail à IHU On-Line, analisa um dos eventos mais marcantes da segunda metade do século XX. “Maio de 1968 foi, para mim, uma vitória inacabada, ainda sem palavras para defini-la, sem uma verdadeira forma política”, pontua. “Nesse sentido, as questões levantadas em 68 estão diante de nós, não foram deixadas para trás”, complementa.

Olhando para o mundo atual e para as promessas da revolução 4.0, Viveret sublinha a exaustão de um projeto global construído no pós-guerra, apresentado por ele em três eixos: “Um crescimento essencialmente material, mas para todos (sem questionamento sobre a natureza); um modo de produção industrial; e o Estado-Nação”. O interessante, contudo, é que aquilo que pode ser considerado como o fim da linha é, ao mesmo tempo, as três perguntas que impulsionam os desafios contemporâneos. “Em suma, estas são as três grandes questões sobre o futuro da humanidade com as quais nos deparamos: a questão ecológica relativa ao futuro do nosso planeta; aquela da transformação do trabalho: o que vamos fazer da nossa vida?; e a mais radical, com a revolução biotecnológica: o que vamos fazer com a nossa espécie?”, provoca o entrevistado.

Patrick Viveret é formado em Filosofia e doutor pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris. Na década de 1960, participou da Juventude Estudantil Cristã - JEC (Jeunesse Étudiante Chrétienne, no original). É autor de Reconsiderar a Riqueza (Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 2006), De la convivialité. Dialogues sur la société conviviale à venir, ouvrage collectif (Paris: Éditions La Découverte, 2011) e La Cause Humaine, du bon usage de la fin d'un monde (Paris: Èditions Les Liens qui Libèrent, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor participou dos acontecimentos de 1968 na França. O que o mobilizou naquele momento?
Patrick Viveret – Em 22 de março de 1968, eu era estudante em Nanterre e morava na cidade universitária. Eu tinha 20 anos. O primeiro fator, conhecido como “movimento de 22 de março”, que depois desencadeou o movimento de maio na Sorbonne, iniciou com uma questão que não era diretamente política, mas altamente societal – foi a questão da discriminação entre o acesso ao prédio masculino e ao prédio feminino. As mulheres podiam entrar no prédio dos homens, mas estes não podiam entrar no das mulheres. Nossas “camarades femmes” [colegas ou camaradas mulheres], como dizíamos na época, queriam que fizéssemos uma invasão pacífica do prédio delas, para lutar contra essa discriminação. Foi também nesse contexto de grande ebulição que tomamos conhecimento da prisão de um militante do Comitê Vietnã Nacional , ocorrida durante uma manifestação contra, principalmente, a American Express. Por solidariedade, decidiu-se lançar um movimento de ocupação do prédio administrativo da faculdade. Participei porque estava no segundo ano de Filosofia na faculdade de Nanterre. Aliás, participei também de movimentos que já vinham de bem antes, pois todo o ano de 1967 foi marcado por movimentos muito importantes na universidade.

Maio de 1968 foi, para mim, uma vitória inacabada, ainda sem palavras para defini-la, sem uma verdadeira forma política, embora, alguns anos depois, o chamado Movimento Autogestionário tenha tentado lhe dar uma linguagem política. Mas, no ano de 1968, isso não existia.

IHU On-Line – As efemérides são momentos de celebrar datas e de reinterpretá-las. Para além disso, a evocação de 1968 pode sugerir caminhos para se compreender a atualidade?
Patrick Viveret – Os principais slogans de 68 são em grande parte extraordinariamente antecipadores. Por exemplo, “Chega de perder a vida para ganhá-la”. Este slogan, escrito pela primeira vez nos muros da fábrica Sochaux (“Gilda, eu amo você. Chega de perder nossa vida para ganhá-la”), vai circular e “viralizar” (como diríamos hoje), abordando o tema da transformação do trabalho e do emprego, e está relacionado com outro grande slogan: “Cansados de tomar o metrô, trabalhar e dormir (“Ras-le-bol du métro, boulot, dodo”).

Nesse sentido, as questões levantadas em 68 estão diante de nós, não foram deixadas para trás. Os slogans citados levam a debates muito atuais, como o desafio indicado, no plano teórico, por Hannah Arendt , em A condição humana (São Paulo: Forense Universitária, 2016), sobre a necessidade de passar de uma civilização do trabalho, do labor, a uma “civilização da obra”. Não se trata mais, hoje, de uma questão teórica, mas, sim, prática: a possibilidade de uma nova divisão do trabalho entre os robôs e os humanos, reservando para estes, por exemplo, o que pertence à obra e ao ofício. Isso também traz a questão das novas formas de relação entre obras e renda, como a renda mínima.

IHU On-Line – Um dos temas em 1968 era a questão do prazer, a revolução sexual, a revolução dos costumes. Nesse sentido, o que se avançou?
Patrick Viveret – Sim, avançamos, como mostra o fato de que, hoje, chefes de Estado podem se divorciar, viver com alguém sem estarem casados ou, como o presidente francês atual, ter começado um relacionamento com uma mulher muito mais velha que ele quando era aluno dela, ao passo que, na França dos anos 1970, em semelhantes circunstâncias, outra mulher teria se suicidado.

Mas a reação das forças conservadoras à emancipação das mulheres ainda é muito forte, como vemos, por exemplo, nos Estados Unidos, com a força dos movimentos que tentam impedir o aborto. Trata-se, portanto, de um combate que se mantém atual.

IHU On-Line – Que questões são urgentes e fundamentais de se discutir no mundo atual? Em que se deve avançar?
Patrick Viveret – Não devemos esquecer que 1968 vem num momento em que se anuncia, no mundo inteiro, a exaustão do grande ciclo social-democrata do pós-guerra, que se caracteriza por três elementos: um crescimento essencialmente material, mas para todos (sem questionamento sobre a natureza); um modo de produção industrial; e o Estado-Nação. Assim, a questão ecológica não é pensada em relação ao modelo de crescimento; outro aspecto que não é pensado, pode-se dizer, é a questão espiritual no sentido amplo; e, por último, a questão global, que começa a aparecer, mas que o Estado-Nação não assume.

O grande projeto de construção para o futuro, a meu ver, diz respeito às respostas para esses três anseios fundamentais, que foram instrumentalizados de forma regressiva pela revolução neoconservadora, que, por sua vez, leva a um impasse e a um fim de ciclo. Não é à toa que os dois países mais engajados nesse processo – o Reino Unido com Thatcher e os Estados Unidos com Reagan – chegam hoje, com o Brexit e a eleição de Trump , ao esgotamento desse modelo.

Diante dessa situação, devemos considerar a questão global, mas oferecendo-lhe como resposta a cidadania planetária, no sentido do que Edouard Glissant chama de “mundialidade” [ou globalidade]; a mutação tecnológica, mas mostrando que ela pode desembocar na lógica, por natureza, cooperativa do conhecimento e da informação; e uma demanda espiritual alternativa à regressão identitária e dogmática. Em suma, estas são as três grandes questões sobre o futuro da humanidade com as quais nos deparamos: a questão ecológica relativa ao futuro do nosso planeta; aquela da transformação do trabalho: o que vamos fazer da nossa vida?; e a mais radical, com a revolução biotecnológica: o que vamos fazer com a nossa espécie?

IHU On-Line – O fundamentalismo, em suas diferentes versões, é uma ameaça crescente?
Patrick Viveret – Sim. Porque é uma resposta regressiva, mas poderosa, a outra forma de fundamentalismo que é o fundamentalismo de mercado, para empregar a expressão de Joseph Stiglitz . Este fundamentalismo destrói as raízes culturais, sociais, nacionais das coletividades humanas. A tentação, então, é de isolamento identitário, seja este nacionalista ou religioso. Isso gera hoje, como sempre gerou, impasses trágicos. É com a criação de um verdadeiro movimento inverso pela cidadania planetária, que respeite as diferenças, integrando-as ao mesmo tempo num marco comum de direitos e responsabilidades, principalmente no plano ecológico, que conseguiremos avançar. Como afirmamos na rede internacional Diálogos em Humanidade: Nosso país é a Terra e nosso povo é a humanidade!

O ano de 1968 representou uma fratura cultural e social mundial de leste a oeste e de norte a sul. Este desafio permanece diante de nós... ■

Leia mais

- A desertificação humana e ecológica. Entrevista especial com Patrick Viveret publicada na revista IHU On-Line, nº 469, de 3-8-2015.

- “Estamos indo em direção a uma qualidade superior de humanidade”. Entrevista com Patrick Viveret publicada nas Notícias do Dia, de 07-02-2010, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

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