Edição 210 | 05 Março 2007

Frida Kahlo, as mulheres e a solidariedade que se estabelece pela dor

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Uma mistura entre arte e sofrimento. Assim podemos resumir a trajetória da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954). Vítima de poliomelite, sofreu ainda inúmeros acidentes, lesões e enfermidades ao longo da vida. E numa de suas convalescenças, em 1925, após um grave acidente de automóvel, foi que Frida deixou vir à tona o talento que corria em suas veias. Começou a pintar. Três anos mais tarde, quando ingressou no Partido Comunista Mexicano, conheceu o muralista Diego Rivera, com quem se casou. Os quadros de Frida eram tão carregados de simbolismo que André Breton, em 1938, chegou a classificar sua obra de surrealista. Mas ela disparou: "Acreditavam que eu era surrealista, mas não era. Nunca pintei meus sonhos. Pintei minha própria realidade". Consagrada ainda em vida, Frida rodou o mundo expondo suas obras.  Em 2002, sob a direção de Julie Taymor, chegou às telas um longa que narra a história da pintora. No papel principal, Salma Hayek, e como Diego Rivera, Alfred Molina.

E para discutir aspectos da trajetória de Frida é que a Profª. Drª. Edla Eggert, professora do PPG de Educação, apresenta o IHU Idéias. A atividade vai das 17h30min às 19h, na Frida Kahlo, as mulheres e a solidariedade que se estabelece pela dor. sala 1G119 do IHU, nesta quinta-feira, 08-03-2007. Na entrevista, concedida por e-mail, Eggert adianta alguns dos aspectos que irá trazer para debate com o público. “A solidariedade pode ser apresentada pelo viés da cumplicidade, pois todas as mulheres se percebem diferentes, e de perto ninguém é normal mesmo. Então, na verdade, todas as mulheres têm um pouquinho de Frida”, disse a entrevistada à IHU On-Line.


Eggert é doutora em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST) de São Leopoldo e mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professora na Área de Ciências Humanas da Unisinos. Edla Eggert já participou de inúmeras atividades do IHU. Ela é autora juntamente com a Profa. Dra. Márcia Tiburi o artigo As mulheres e a filosofia publicado nos Cadernos IHU Idéias, ano 1, número 2 disponível na página www.unisinos.br/ihu.

IHU On-Line - Qual é a relação entre Frida Kahlo, as mulheres e a solidariedade que se estabelece pela dor?
Edla Eggert
- Frida Kahlo foi uma mulher autêntica no seu modo de ver o mundo. Diria que ela teve a coragem de dizer o que Marcela Lagarde y de Los Rios (2005) tanto enfatiza: "ser eu mesma"! Quando uma mulher afirma isso se coloca frente a frente consigo mesma na condição de ser - ser humana. A conseqüência de admirar mulheres como Frida Kahlo, tanto na sua obra quanto na sua vida, tem um efeito curioso. Nas prateleiras do grande "mercado de artesanias" na cidade do México, pude encontrar quadros com a imagem de Frida reproduzidos de forma artesanal, ou seja, relidas por artistas populares como se fossem réplicas de uma santa com pequenas velas a serem acesas para que se façam preces. A produção criativa advinda da dor, do desejo de se colocar como a diferente, a marxista, estabeleceram íntimas relações com as marginalidades. A solidariedade pode ser apresentada pelo viés da cumplicidade, pois todas as mulheres se percebem diferentes, e de perto ninguém é normal mesmo. Então, na verdade, todas as mulheres têm um pouquinho de Frida.

IHU On-Line - O que a trajetória dessa pintora pode ensinar às mulheres do século XXI?
Edla Eggert
- A trajetória da pintora de expor a dor, de visibilizar o corpo em dor torna possível e político o mundo privado. Os sussurros de dor expostos. As mulheres que vivem em dor na condição das violências sexuais, morais, psicológicas que ainda tão presentes em muitos espaços e cotidianos, podem aprender com Frida a produzir uma visibilidade para sua dor. Não quero dizer com isso que todas as pessoas devem pegar pincel e tinta e sair a pintar seus corpos, quero dizer que a criação é fundamental para o salto, de ser para si um pouco mais humana. E mesmo assim e apesar de tudo viver em dor, porém expressá-la por alguma linguagem.

IHU On-Line - O componente feminino é mais suscetível a promover a solidariedade pela dor? Por quê?
Edla Eggert
- Não acredito que haja componentes femininos ou masculinos. Há uma educação profundamente patriarcal que marcou o feminino e também o masculino numa relação de dependência e subjugação que força a compreensão do corpo da mulher e da mulher em si como “o não ser”, ou como o ser sempre de alguém e para os outros como bem dizia Franco Basaglia  (1983). Frida Kahlo é inspiradora e parceira dos homossexuais num quadro intitulado little deer. Então, neste século XXI, o componente suscetível para promover a solidariedade pela dor deverá ser a possibilidade de as pessoas serem mais humanas, fazendo o diferente ser normal.

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