Edição 520 | 23 Abril 2018

O texto além do texto

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Ricardo Machado

Anna Bentes, pesquisadora da área de linguística, analisa a natureza complexa da produção textual das fake news

Dentre as inúmeras nuances do fenômeno das fake news, uma delas é da ordem de estruturação dos textos, cuja estrutura das narrativas é resultado de um trabalho de manipulação e falseamento com diferentes intencionalidades. Com isso se produz o acúmulo de capitais simbólico e financeiro. “O social [simbólico], dado que esses grupos, em geral, vinculam-se a movimentos conservadores e muito poderosos do ponto de vista político e econômico; e o econômico, dado que a produção de fake news é uma atividade altamente rentável, na verdade, um modelo de negócios das plataformas digitais”, pondera a professora e pesquisadora Anna Bentes, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Não deixa de ser interessante e controverso que o fenômeno das notícias falsas é também sintoma de um certo empoderamento dos usuários, que percebem ser capazes de se tornar fonte de “informação” e, com isso, produzir certo prestígio social. “A sensação de empoderamento experimentada pelos usuários quando percebem que podem ser uma fonte relevante de informação, leva todos a tentarem se mostrar ‘informados’, sabendo da ‘última’ notícia e divulgando, ‘em primeira mão’, para os seus familiares, amigos e conhecidos do mundo virtual”, descreve a pesquisadora.

Nesse contexto, ter uma postura crítica em relação às intencionalidades de quem compartilha conteúdos requer perceber a própria natureza dos textos. “Eles [os textos] estão sempre sujeitos a operações de descontextualização e recontextualização que envolvem necessariamente disputas entre os sistemas de valores, de crenças e de referências dos interlocutores envolvidos nos processos de produção e compreensão textual”, complementa Anna.

Anna Christina Bentes é graduada em Letras pela Universidade Federal do Pará - UFPA, realizou mestrado em Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Fez estágio pós-doutoral no Departamento de Antropologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, Estados Unidos. Atualmente é professora do Departamento de Linguística da Universidade Estadual de Campinas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a contribuição da linguística para pensar o fenômeno das fake News?
Anna Bentes – Acredito que as várias áreas da Linguística têm muito a contribuir para a melhor compreensão desse fenômeno. Mas, antes de mais nada, é importante dizer que o campo dos estudos linguísticos, como qualquer outro campo, é bastante heterogêneo e diversificado. Nele, vamos encontrar teorias cujas bases serão radicalmente diferentes [a esse respeito, recomendo fortemente a leitura do livro Introdução à Linguística: fundamentos epistemológicos (São Paulo: Editora Cortez, 2011)]. Pensando em um dos campos da Linguística, o dos estudos do texto, posso afirmar que ele contribui para essa discussão, em primeiro lugar, quando postula contextos para a emergência de qualquer texto. No caso das fake news, os contextos parecem ser o de 1) polarização de visões de mundo; 2) guerra híbrida e 3) possibilidade de disseminação rápida, via grandes plataformas (Facebook, Twitter, Whatts app, Google) de assuntos considerados urgentes, sensacionais e/ou de grande interesse (especialmente político, cultural, econômico, científico etc.). Em segundo lugar, é possível observar que o que é falso nas fake news resulta de um deliberado trabalho de manipulação e/ou de falseamento de determinados elementos estruturadores dos textos com diferentes intencionalidades. Cito, então, agora, o psicanalista Christian Dunker, sobre a relação entre as práticas de produção de fake News e o surgimento da chamada pós-verdade: “Em 2011 a verdade das armas químicas que justificaram o ataque ao Iraque mostrou-se uma ficção. O fato de que presidentes e agências de Estado pratiquem mentiras técnicas como essa, retóricas (como a ‘guerra cirúrgica’), jurídicas (como a corrupção dentro da lei), apenas replica a maquiagem de balanços (que estava por trás das bolhas imobiliárias de 2008) e o cinismo como discurso básico do espaço público e da vida laboral” .

A observação de Dunker nos leva a pensar em um outro critério importante: aquele que pode explicar o aumento do número de fake news relativas a uma diversidade de temas e de questões sociais. A meu ver, o fato de a mentira, a manipulação, a fraude, o falseamento constituírem ações de textualização/discursivização que são performatizadas por atores sociais altamente legitimados por vários setores da sociedade, tais como presidentes da república, políticos em geral, gestores públicos, empresários, líderes de movimentos sociais, acaba por legitimar os grupos que são responsáveis pela produção desse gênero, a “notícia falsa”. Participar da elaboração de fake news pode se constituir em tipo de distinção porque possibilita o acúmulo de pelo menos dois tipos de capital: o social, dado que esses grupos, em geral, vinculam-se a movimentos conservadores e muito poderosos do ponto de vista político e econômico e dado que se profissionalizam, constituindo assim o grupo seleto de experts na produção de um determinado gênero textual que “guia” as massas de pessoas por caminhos improváveis, para dizer o mínimo; e o econômico, dado que a produção de fake news é uma atividade altamente rentável, na verdade, um modelo de negócios das plataformas digitais. Até aqui, enfocamos aspectos da produção das fake news (intencionalidades, perfil social de seus produtores, contexto de produção, característica geral do trabalho linguístico, textual e discursivo performatizado). No entanto, há um último aspecto, o da recepção e da circulação das fake news, que pode ser compreendido nos termos do antropólogo e linguista William Hanks (1996), para quem, “as pessoas, para se comunicarem, devem co-participar de uma comunidade interpretativa que possua valores semelhantes no que diz respeito ao que vale como expressão e a forma de compreendê-la”, o que configuraria “um tipo de compartilhamento de conhecimentos necessariamente parcial, perspectivado e socialmente distribuído”. A formulação de Hanks sobre como os atores sociais participam das comunidades interpretativas, especialmente no que diz respeito aos valores assumidos e encenados por determinados participantes no contexto digital, parece embasar a definição de fake news dada no Facebook recentemente: “Fake news não é para enganar ninguém. Fake news é paras pessoas se sentirem permitidas a acreditar nas coisas que elas sabem que é mentira” (Ullisses Mattos).

IHU On-Line – Como as pesquisas no campo da linguística estão pensando o fenômeno das fake news?
Anna Bentes – Recentemente, Letícia Sallorenzo, orientada pelo Professor Dioney Moreira Gomes, defendeu uma dissertação de mestrado na Universidade de Brasília intitulada Gramática e manipulação: análise cognitivo-funcional de manchetes de jornais durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Foram selecionadas as manchetes com os nomes Aécio e Dilma e, nesse corpus, foram analisadas as manchetes com os verbos “atacar” e “derrotar”, e estruturas topicalizadas do tipo: “Desconfiada, Dilma tem poucos interlocutores”. A autora procede a uma análise com base em conceitos muito importantes no campo da Linguística Cognitiva, dos estudos de Linguagem em Uso e dos Estudos Críticos do Discurso. Uma de suas conclusões é o fato de que as manchetes desses dois grandes jornais construíram a seguinte “narrativa”: “Aécio era o bom moço, capaz, preparado, ponderado e perfeito para a presidência da república; Dilma era a mulher louca, desequilibrada e passional que atacava por desespero”. Além disso, em um universo de 340 manchetes, a autora não conseguiu, por exemplo, produzir um subgrupo de manchetes que fossem desfavoráveis a Aécio. Esse trabalho trata de fake news? Podemos dizer que, em parte, sim. Especialmente se considerarmos a classificação produzida pelo relatório recém divulgado do Conselho da Europa sobre a chamada “desordem informacional” que assola o mundo. Esse relatório chegou a três classificações para o fenômeno das fake news, que abrange diversas nuances de manipulação. Uma delas é a desinformação (notícias falsas criadas para prejudicar determinados atores sociais). A outra é a malinformação, segundo a qual notícias que apresentam uma base real são editadas de forma a causar danos. O terceiro tipo é a misinformação que se diferencia das outras classificações porque a intencionalidade não é causar danos. Se considerarmos essas nuances de manipulação, as manchetes dos jornais analisados pela pesquisadora acima referida poderiam ser encaixadas na categoria de malinformação, porque selecionam e formatam informações com base nos acontecimentos de forma a produzir uma imagem negativa de um determinado candidato. O título ou a manchete de uma matéria é o grande responsável pelo primeiro impacto do texto no leitor. Dependendo de como as informações estão dispostas, podem levá-lo a experienciar aquele sentido de urgência, tão característico do processo de disseminação de fake news. Assim, constituem elemento estruturador das fake news. Por isso, não é possível dizer que as manchetes são fake news; no entanto, é possível dizer que sua produção também pode ser orientada pelos princípios gerais que edificam o gênero “notícia falsa”: a seleção e a edição da informação baseada em fatos reais e a intenção de causar dano a um determinado ator social.

Sendo assim, acredito que os dispositivos dos vários campos da linguística, desenvolvidos para analisar diferentes aspectos tanto do sistema linguístico como das práticas de linguagem, podem auxiliar na compreensão do fenômeno, desde que o consideremos não em termos de uma oposição absoluta entre verdade ou mentira, mas fundamentalmente buscando perceber as intencionalidades de quem as produz e os efeitos alcançados.

IHU On-Line – Como a compreensão dos textos para além de seu sentido primeiro (gramatical e semântico) ajuda a não cairmos em armadilhas retóricas?
Anna Bentes – É por intermédio de condicionamentos “diferenciados e diferenciadores”, dos quais nos ocupamos um pouco anteriormente, que as práticas de produção, recepção e de circulação de textos nas redes sociais se dão. Aqui é importante afirmar que compreendemos as redes sociais como “um tipo de relação entre seres humanos pautada pela flexibilidade de sua estrutura e pela dinâmica entre seus participantes”, apresentando “um caráter horizontal”, desprovidas de “uma estrutura rígida”. O caráter relacional das redes é fundamental, dado que são relações entre seus participantes que dão o tom de seu funcionamento. Relações entre atores (pessoas ou plataformas, por exemplo) e relações entre relações. Conforme Luis Mauro Sá Martino, o que interessaria nas redes seria a maneira como um tipo de interação interfere nas outras interações. Nesse sentido, os textos são os recursos mais fundamentais para o estabelecimento dos mais diversos tipos de interação/relação social. Mais especificamente, são as práticas recorrentes de produção, consumo e divulgação de textos que vão manter ou afrouxar determinados laços, que vão aproximar ou distanciar pessoas e perspectivas, que vão empurrar para o anonimato ou trazer à cena determinados atores sociais.

Se pensarmos nos aspectos práticos do funcionamento das redes sociais, estes dependem fundamentalmente da produção, circulação e recepção ativa de textos preferencialmente multimodais e/ou escritos. Mais especificamente, no caso do Facebook, rede que conta atualmente com mais de 2 bilhões de usuários mensais, uma das práticas mais presentes está relacionada ao que Manuel Castells denomina auto-comunicação, que seria a capacidade de cada ator social fazer as vezes de uma fonte de informação. Isso somente pode acontecer se houver ou a produção de textos (curtos ou “textão”, como dizem os usuários) ou o compartilhamento/divulgação de textos de natureza informativa (notícias, reportagens, documentários), ficcional (as narrativas de experiência pessoal, depoimentos, histórias de vida, documentários biográficos), publicitária (gêneros que campanhas governamentais, campanhas sociais, propaganda comercial) crítica e/ou humorística (memes, charges, comentários, tirinhas), artística (poesia, docu-dramas, performances, vídeo-clipes, etc). No caso, estamos pensando basicamente em um tipo de divisão dos domínios discursivos e de seus respectivos temas e formatos, a saber, aquele que funciona no interior dos meios de comunicação de massa.

Ainda, se pensarmos que os textos que circulam hoje no interior das redes resultam de um trabalho de construção por parte de quem os produz para esses contextos específicos e que esses mesmos textos dependem, mais do que nunca, de um trabalho de divulgação da parte de seus interlocutores para que os seus efeitos sejam alcançados, é possível dizer que as ações de textualização representam, da maneira mais concreta e visível, o trabalho de textualização que contempla tanto a tarefa de estar no mundo, um modo múltiplo de conexão, como disse Roberto de Beaugrande, como também uma forma simbólica, uma forma linguístico-discursiva de ação, em ação.

Acredito que as redes sociais potencializaram esse trabalho de textualização como um modo de estar no mundo e como uma forma de ação em relação a um conjunto amplo de interlocutores e também uma forma de interação entre produtores, textos e os interlocutores.

Considerando esse contexto mais geral, a compreensão dos textos é altamente contingenciada. Como dissemos antes, ela é sempre parcial, perspectivada e socialmente distribuída. Um dos fatores cruciais para que a disseminação de informações falsas na rede possa ser reduzida é o desenvolvimento de uma atitude de maior responsabilidade dos usuários em relação ao que divulgam. A sensação de empoderamento experimentada pelos usuários quando percebem que podem ser uma fonte relevante de informação e que, consequentemente, podem adquirir algum prestígio social em função disso, leva todos a tentarem se mostrar “informados”, sabendo da “última” notícia e divulgando, “em primeira mão”, para os seus familiares, amigos e conhecidos do mundo virtual. Nesse sentido, os usuários pensam estar colaborando com a disseminação de informação socialmente relevante e não com a desinformação estritamente orientada para certos fins, mais frequentemente, fins políticos. Lidar com essa boa-fé das pessoas é tarefa para experts. Os textos devem ser encarados, então, de uma forma geral, como construtos que resultam de trabalho sobre recursos linguísticos, textuais e discursivos específicos.

IHU On-Line – As fake news parecem ser, também, efeito de uma certa incapacidade de leitura. O que de fato é aprender a ler em um mundo radicalmente saturado de textos (linguísticos, visuais, estéticos)?
Anna Bentes – Em função do que falei antes, o leitor é, de fato, a parte mais fraca dessa cadeia toda e é preciso fornecer a ele ferramentas precisas de forma que ele possa se movimentar nesse contexto de “desordem informacional”. Do lado da produção, temos as grandes plataformas que têm interesses mercadológicos muito definidos e que têm contribuído para o fortalecimento desse contexto de caos informacional. Recentemente, no entanto, os Estados individualmente ou Comunidades Internacionais, como a Comunidade Europeia, têm buscado enfrentar essa questão de forma a proteger seus cidadãos dos impactos dessas práticas massivas de desonestidade intelectual.

Os textos podem nos fornecer boas pistas sobre essas práticas, mas, se eles resultam, como disse antes, de um trabalho que busca alcançar certos objetivos, é preciso ler os textos - orais ou escritos - e os hipertextos de forma cada vez mais atenta. Um primeiro aspecto a ser observado é questão da confiabilidade das fontes. Mas, mesmo que as fontes sejam confiáveis, é preciso perceber de que perspectiva elas organizam seus textos. Se as fontes não são muito conhecidas, a atenção deve ser redobrada. Vejamos o exemplo da recente polêmica em torno de uma declaração em vídeo da senadora Gleisi Hoffmann a TV Al Jazeera. Em seu texto, a senadora basicamente faz uma série de denúncias, sendo a principal delas a natureza política da prisão do ex-presidente Lula . Ao final do vídeo, ela fala: “Convido a todos e a todas a se juntarem conosco nessa luta. Lula livre”. Esse enunciado é reinterpretado de várias maneiras por seus adversários. A senadora Ana Amélia, em sua primeira fala sobre a declaração da senadora Gleisi Hoffmann à TV Al Jazeera, faz uma série de críticas ao discurso da senadora do Partido dos Trabalhadores e, ao final, afirma: “Eu só espero que essa exortação feita pela senadora do Partido dos Trabalhadores não tenha sido para convocar o Exército Islâmico para vir ao Brasil fazer as operações de proteção ao Partido que perdeu o poder e agora parece ter perdido também a compostura, o respeito e o apoio popular”. A recategorização (“exortação”) que a senadora Ana Amélia faz do trecho final da fala da senadora Gleisi Hoffman (que fez um “convite”) já indicia que ela vai preencher todas as lacunas deixadas pelo texto genérico e ao mesmo tempo metafórico da senadora Gleisi Hoffmann: as expressões “todos” e “todas” são reinterpretadas como “Exército Islâmico” e a ação de se “juntar na luta” (luta por Lula livre) é reinterpretada como “vir ao Brasil fazer as operações de proteção ao Partido que perdeu o poder”.

Essa releitura da fala da senadora Gleisi Hoffmann imediatamente parece ter inspirado a produção de um conjunto de fake news: “PT apela ao mundo islâmico”; “Gleisi Islâmica Hoffman faz vídeo para a TV Al Jazeera”; “Gleisi pode ser presa por incitação ao terrorismo” etc. A associação direta entre o “mundo árabe”, mencionado pela senadora Gleisi Hoffmann em certo momento do vídeo, a “terrorismo” foi feita por muitos atores sociais. No entanto, nesse caso, e em muitos outros, a leitura por nós empreendida do percurso de construção de fake news envolve um texto primeiro (uma declaração gravada em vídeo para ser publicada no portal de vídeos da TV Al Jazeera feita pela senadora Gleisi Hoffmann) e as suas releituras, tanto por atores mais legitimados (como é o caso do comentário feito em uma das comissões do Senado da senadora Ana Amélia sobre o citado vídeo), como pelos produtores das fake news. Para concluir, é importante termos em mente que os processos de produção de fake news, especialmente no campo político, pressupõem práticas violentas de propaganda política com o intuito de desmoralizar o adversário. Por isso, o processo de compreensão do fenômeno como fake news está relacionado à compreensão da própria natureza dos textos: eles estão sempre sujeitos a operações de descontextualização e recontextualização que envolvem necessariamente disputas entre os sistemas de valores, de crenças e de referências dos interlocutores envolvidos nos processos de produção e compreensão textual.

IHU On-Line – É possível pensar o fenômeno das fake news como uma espécie de triunfo (ainda que não hegemônico) das contradições lógicas?
Anna Bentes – Como disse anteriormente, assumo que a questão das fake news está mais relacionada a disputas entre sistemas de referências, de crenças e de valores. Essas disputas estruturam e organizam as diferentes esferas ou campo sociais. Mais especialmente, a disseminação de fake news parece estar bastante vinculada ao campo político. O funcionamento desse campo é descrito por Pierrre Bourdieu : “Nas democracias parlamentares, a luta para conquistar a adesão dos cidadãos (o seu voto, as suas quotizações, etc.) é também uma luta para manter ou subverter a distribuição do poder sobre os poderes públicos. (...) Os agentes por excelência dessa luta são os partidos, organizações de combate especialmente ordenadas em vista a conduzirem esta forma sublimada de guerra civil, mobilizando de maneira duradoura, por previsões prescritíveis, o maior número de agentes dotados da mesma visão do mundo social e do porvir”.

Se entendermos assim, podemos pensar que a produção e a circulação massiva de fake news tem muito a ver com práticas de militância (defesa de uma causa, de um partido, de uma identidade social etc.) que pressupõem “milícias virtuais”: o que explicaria a velocidade com que se espalhou o conjunto de fake News sobre o vídeo da senadora Gleisi Hoffmann para a TV Al Jazeera se não a existência de grupos organizados para produzir textos pretensamente noticiosos sobre a senadora enquanto adversária política? Do mesmo modo, a rápida proliferação de memes sobre o comentário da senadora Ana Amélia, fazendo crer que ela fez associação entre Al Jazeera e Al Qaeda, não poderia acontecer se não houvesse um conjunto organizado de militantes que é crítico à posição dessa senadora. Essa é, a meu ver, uma das “lógicas” que orientam a produção e a disseminação desse gênero.

IHU On-Line – Até que ponto categorias tipicamente modernas como “verdade”, “imparcialidade”, “objetividade”, mais vinculadas a uma linguística estrutural, são capazes de dar conta da complexidade dos fenômenos comunicacionais contemporâneos?
Anna Bentes – A meu ver, essas categorias estavam/estão ligadas a ideia de instâncias mediadoras. A emergência das interações sociais por meio das tecnologias de informação e de comunicação e as diversas interpretações de seu papel nas sociedades ocidentais conduziram muitos a uma compreensão de que essas instâncias mediadoras não seriam/são mais necessárias e que, portanto, os indivíduos poderiam acessar diretamente, a partir de seus repertórios e interesses, conhecimentos e interações diversificados. No entanto, isso se mostra cada vez menos real. As mediações no campo do jornalismo seriam os jornalistas e sua formação, as equipes de trabalho (presenciais ou à distância), as empresas jornalísticas, as agências reguladoras das práticas jornalísticas e das práticas empresariais, a legislação trabalhista e a legislação sobre a liberdade de imprensa. Isso tudo deixa de ser importante, dado que hoje, essas posições profissionais podem ser ocupadas por pessoas sem formação jornalística e dado que há um enorme esforço, especialmente no Brasil, para deslegitimar as conquistas sociais desses últimos anos. Entendo que essas categorias foram também muitas vezes relacionadas ao compromisso com uma distribuição menos desigual do conhecimento e do acesso à informação. No entanto, esse tipo de preocupação também está sendo fortemente questionada. Por isso, essas categorias acabam por sucumbir, já que o nosso horizonte de verdade atual inclui a negação de certas formas de mediação.

IHU On-Line – Que tipos de valores estão sendo construídos nas redes digitais e na circulação de conteúdos (falsos ou não)?
Anna Bentes – Por um lado, acredito que os valores críticos (aqueles que possibilitam o sonho com uma sociedade outra, melhor, mais justa e menos socialmente desigual) estão vivos e disputando os corações e mentes. Por outro lado, as chamadas “forças anti-reflexivas”, representadas particularmente pelo setor industrial e pelos movimentos conservadores, que defendem a ordem capitalista mundial de qualquer crítica, negando a importância de grandes problemas sociais” estão mais do que nunca atuantes e vivas. Estão ocupando lugares de poder muito importantes (a presidência de vários países do Ocidente, por exemplo) e, infelizmente, encontram “eco” nas sociedades, muito em função da descrença nos atuais sistemas políticos e econômicos.

Há um sentimento difuso de desilusão, desesperança, insegurança. As fake news colaboram para a consolidação dessa subjetividade “baixo-astral”, dado que são vetores de frustração para aqueles que, em um determinado momento, nelas acreditaram. Se fosse só por isso, já valeria a pena combatê-las. Para mim, no entanto, a busca pela compreensão do funcionamento das redes sociais está relacionada não apenas à compreensão dos modos de circulação de informação, mas principalmente, à compreensão dos modos como os diversos atores sociais se engajam na produção de textos que indiciam posicionamentos políticos em relação aos acontecimentos do mundo social. Nesse sentido, nada está perdido. A produção de textos nas redes sociais exemplifica de maneira bastante concreta como os sujeitos do fazer textual buscam “criar uma diferença” em relação a um determinado estado de coisas ou curso de eventos pré-existentes. Se as redes, como os textos, possibilitam o estabelecimento de vínculos e também a possibilidade de transições e de mudanças, é importante pensar que as possibilidades de criação de uma cultura participativa, que compartilhe valores mundializados, universalizados, pode estar tanto nas redes como “tecnologia do espírito”, como nos textos, como formas de conexão entre nós e de como formas de ação sobre o mundo social.■

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