Edição 517 | 18 Dezembro 2017

Desativar o dispositivo do dever-ser e poder a própria impotência

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Márcia Junges

Síntese de conceitos anteriores e análise das noções de “ação”, “culpa” e “gesto” são apresentadas em Karman; potência destituinte está no centro do projeto filosófico agambeniano

Experimento de contingência absoluta inspirado na filosofia aristotélica, poder a própria impotência é, para Agamben, desativar aqueles dispositivos aos quais estamos submetidos e poder não passar ao ato. A força que brota dessa imprevisibilidade é a tradução do gesto, terceiro modo da atividade humana, um meio puro que neutraliza essa obra e desvela a possibilidade de novos usos possíveis, escreve o filósofo italiano no livro lançado em agosto deste ano na Europa.

Márcia Junges é mestra e doutoranda em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. De março a agosto de 2007 realizou um período de doutorado sanduíche (PDSE-Capes) em cotutela com a Università degli Studi di Padova - UNIPD, na Itália. Sua tese examina a crítica de Nietzsche e Agamben à democracia, tendo como eixo articulador as diferentes concepções de potência para esses pensadores e as (im)possibilidades que se descortinam para esse sistema político, respectivamente. É professora tutora na Unisinos.

Eis o artigo.

Uma crítica do primado dos conceitos de ação e vontade. Essa é a articulação central da obra lançada em agosto por Giorgio Agamben na Itália, Karman. Breve trattato sull’azione, la colpa e il gesto (Torino: Bollati Boringhieri, 2017). Em entrevista à ensaísta italiana Chiara Valerio , o filósofo diz que comumente o fim é pensado em termos transcendentes, e por isso o bem está separado do homem. A ideia é “substituir o paradigma da ação que se dirige a um fim por aquele do gesto que se subtrai a toda finalidade.” Esse fim é aquilo que não é almejado, determinado enquanto tal, como um telos ao qual está ligado.

Trata-se de uma discussão recorrente em Agamben, que em outros escritos insiste sobre o caráter inoperoso do ser humano, inspirado na filosofia aristotélica, e que culmina com as ideias sistematizadas em O uso dos corpos e agora retomadas em Karman. Isso quer dizer que o ser humano é o único ser sem obra, ou seja, que não está determinado a seguir sua natureza de espécie e nem está obrigado a um fazer que o legitime. Entretanto, o homem se debruçou na produção e no trabalho como horizontes existenciais legitimadores pois, mesmo sendo a única criatura sem argos, privado de obra em sua essência e assim um animal sabático, vive em um paradigma de ação na forma do officium, a coincidência moderna entre dever e ofício, representada por figuras como o funcionário e o burocrata, aqueles que incorporam funções que se confundem com seu próprio ser.

O que Karman tenta propor é justamente desativar o dispositivo “monstruoso” que fundamenta a ética kantiana, alicerçada nos pilares dos verbos modais dever, poder e querer. O processo de santificação da lei que terá sua culminância justamente na Modernidade com Kant torna o “imperativo legal o vértice da vida espiritual dos homens. ” Enquanto o Ocidente inteiro está submetido às três perguntas cruciais do filósofo de Könnigsberg, Agamben se esforça em propor uma virada fora da equação do dever-ser. A partir disso, o cerne da discussão se concentra em poder a própria impotência, experimento de contingência absoluta ao qual se abrem perspectivas de construções de outras formas de política e vida.

A força do ingovernável
Agamben insiste na abertura de uma janela aristotélica a fim de construir linhas de fuga e ruptura. Nesse interesse por uma metafísica da potência está exatamente a ideia de que a potência do ser humano, a imprevisibilidade, compreende poder a sua própria impotência. Para isso, é preciso abandonar a lógica do progresso e fim de história como se estes fossem fatos inexoráveis. Agamben quer resgatar na política a possibilidade da ruptura, motivo pelo qual dá centralidade à categoria de potência destituinte, que revoga quaisquer tipos de captura da política através do dispositivo da representatividade clássica da soberania nos modelos que têm construído a tradição política há séculos e hoje compõem a democracia. Com isso, ao articular severas críticas a esse sistema político, Agamben nos desafia a pensar uma política inclassificável dentro de nossos atuais parâmetros. A política-que-vem, dos meios puros, é aquela que se confronta com o poder constituinte e o corrói desde o seu cerne: é uma forma-de-vida, um qualquer singular. É justamente dessa imprevisibilidade que brota a força do ingovernável, do elemento que é puramente potência e, ao mesmo tempo, inoperosidade.

Enquanto o homem antigo podia sob um claro primado da potência, o homem moderno e cristão quer sob um primado da vontade. E é justamente a vontade o lugar onde repousa o “conceito de ação legalmente sancionável (o crimen-karman) sem o qual a ética e a política moderna se arruinariam” . Produtor de uma violência lícita, o direito promove uma justificação desta violência, e através da sanção produz o crime . Porém, adverte Agamben, não se trata “de fundar na vontade do sujeito a responsabilidade, mas de constatá-la objetivamente, segundo o grau diverso de possibilidade de suas ações. ” Ao mencionar que o próprio Paulo de Tarso percebe o nexo entre lei e pecado, e o Messias é a figura que concentra a lei em si mesma, Agamben traz à tona a estratégia destituinte frente à lei. Trata-se do katargeín, palavra cujo significado é “tornar inoperante”, ou ainda “desativar”. É a forma como tensiona a lei e o Messias ao viver “como se não”, depondo sem abdicar: uma forma-de-vida, que coincide justamente com a inoperosidade e a potência-do-não. Essa é a tradução do gesto, que é o terceiro modo da atividade humana, um meio puro que neutraliza essa obra e desvela a possibilidade de novos usos possíveis, de “uma política dos meios puros” .■

 

Ficha técnica
Autor: AGAMBEN, Giorgio.
Título: Karman. Breve trattato sull’azione, la colpa e il gesto.
Referência: Torino: Bollati Boringhieri, 2017.

Leia mais

- A grande política em Nietzsche e a política que vem em Agamben. Cadernos IHU Ideias, nº 210, vol. 12, 2014.

- Um poder que se alimenta da glória. Revista IHU On-Line, número 505, de 22-5-2017.

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