Edição 517 | 18 Dezembro 2017

O incessante bom combate de Abdias Nascimento

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Ricardo Machado

Sandra Almada retoma a trajetória de um dos principais ativistas negros do Brasil no século XX que teve papel importante em diferentes frentes, das culturais às políticas formais

Abdias Nascimento transformou a pobreza da infância em luta e a luta em forma de vida. “O professor Abdias, o senador Abdias, o dramaturgo Abdias, o poeta Abdias, o ator Abdias, o artista plástico Abdias insubordinava-se, insurgia-se, sempre combatendo o ‘bom combate’”, ressalta a jornalista Sandra Almada, biógrafa de Abdias, em entrevista por e-mail. O ímpeto do multifacetado ativista negro é estimulado desde a infância pela família de Abdias. “A mãe de Abdias ensinou a ele e aos seis irmãos a lutar contra as injustiças, dando a si mesma como exemplo. Lutava e resistia. Foi com estas armas que ela sobreviveria e deixaria para o filho Abdias a herança que o movera durante toda a sua vida”, destaca.

Ao destacar a importância da obra de Abdias, Sandra chama atenção para aspectos estruturais de nossa cultura que perpetuam regimes de exclusão. “O racismo tem como uma de suas características o desejo e a luta pela manutenção dos privilégios de um segmento da sociedade em relação a outros”, pondera Almada. “É um pessoal que advoga em favor de si mesmo, hasteando a bandeira da ‘meritocracia’ como caminho possível para ‘todos’ chegarem ao ‘topo’, omitindo, em seu discurso propositalmente ‘reducionista’, em que condições se dão as disputas por oportunidades no mercado de trabalho, de acesso à educação de qualidade, aos cuidados relacionados à saúde, o direito à segurança”, complementa.

Sandra Almada é jornalista, escritora, mestra em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Realizou especialização em Jornalismo de Revista pela ECO/CNPq. Trabalha com produção de conteúdo para mídias impressas e digitais. É pesquisadora e assistente de roteirista para séries audiovisuais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – De que maneira fazer memória a Abdias Nascimento é resgatar, de certa maneira, a memória dos negros do Brasil?
Sandra Almada – Abdias Nascimento nasceu numa família muito pobre, em 1914, no município de Franca, interior de São Paulo. Andava descalço, por aquelas regiões nas quais eram muitos os sinais, os “resquícios da escravidão”, como ele dizia, extinta, legalmente, em 1888. Era filho de seu José e dona Georgina. A mãe percorria as fazendas locais, oferecendo seus serviços como doceira, ama de leite, cozinheira. Entre os homens e mulheres negros que ela via nessas fazendas, havia vários ex-escravos que, sem conseguirem se reinserir no sistema produtivo, em outras bases, continuavam por ali, estagnados, prisioneiros da falta de condições de se “reinventarem” como pessoas livres.

Hoje, muitos de nós, brasileiros, sabemos que a Abolição da Escravatura não veio seguida de políticas públicas que garantissem a reinserção econômico-social a esses homens e mulheres legalmente recém-libertos. A própria avó de Abdias havia sido escrava. Abdias viu, portanto, bem de perto o drama desta gente, a “escravaria” (e seus descendentes), como ele costumava se referir aos ex-cativos. E isso o marcou profundamente. Marcas compreensíveis para alguém que conviveu, desde muito cedo, com as vítimas de uma sociedade que se construía tendo o racismo como elemento “estruturante”. E nessa forma social assim estruturada, aqueles seus “irmãos” de raça ocupavam os lugares mais desvalorizados, amargavam imensa pobreza e sofriam das consequências psíquicas e emocionais ligadas à desvalia social e aquela que nutriam em relação a si mesmos. Àquela época, muitos negros não suportavam esta cruel realidade. Abdias, por exemplo, perdeu uma irmã, que se suicidou. Acreditava ele que sua morte teve como motivo não aceitar o racismo, as discriminações. Ou seja, não aceitar viver submetida a todo aquele drama existencial, mesmo vivendo em liberdade.

A mãe de Abdias, por outro lado, ensinou a ele e aos seis irmãos a lutar contra as injustiças, dando a si mesma como exemplo. Lutava e resistia. Foi com estas armas que ela sobreviveria e deixaria para o filho Abdias a herança que o movera durante toda a sua vida.

Biografia

Era o ano de 2009, quando fui convidada pelo professor Abdias Nascimento (e sua esposa Elisa Larkin), a escrever sua biografia e conhecer parte desta emocionante, rica e inspiradora história. Foi uma experiência muito marcante, uma honra imensa. O livro integraria a Coleção Retratos do Brasil Negro e chegaria ao mercado editorial, naquele mesmo ano, pelo Selo Negro (braço da Summus Editorial, voltado para um mercado racialmente segmentado). E tenho certeza que muito da luta, da força, da aposta na superação de imensas dificuldades contidas naquelas páginas são comuns a muitos afro-brasileiros.

Quando dona Georgina ia de fazenda em fazenda, levava com ela os filhos, Abdias entre eles. Com isso, o menino aprendeu cedo a trabalhar e a combater a discriminação e as injustiças decorrentes do racismo. Como vários de nossos antepassados e muitos de nossos adultos e jovens contemporâneos, Abdias e suas memórias representam o esforço de uma parcela do povo brasileiro para superar uma série de dificuldades. Uma parte da sociedade do país que tem o combate contra as amarras impostas pelo racismo, como um dolorido e cotidiano “dado” adicional na luta de todos nós, pela sobrevivência. Pessoas que, como eu, se identificaram, se emocionaram, se fortaleceram e muito aprenderam no contato pessoal ou através da literatura produzida por este ou sobre este “gigante” e aguerrido irmão de “raça”.

Hoje, aumenta o número de negros, com a mesma origem social, que vêm protagonizando histórias de superação semelhantes. São responsáveis, como Abdias, por um fenômeno que alguns chamam de “protagonismo negro”, em várias áreas. Com as cotas raciais está sendo possível, para vários desses negros, conquistar um novo nível de escolarização e melhores possibilidades de qualificação profissional, o que permite com que partam para o mercado de trabalho mais instrumentalizados. E acreditando naquilo que Abdias achava que um dia iria acontecer: que o negro brasileiro iria conseguir virar o jogo definitivamente.

IHU On-Line – Como, ao analisar a trajetória de Abdias, podemos perceber uma vida dedicada à militância política em favor das questões étnico-raciais no Brasil?
Sandra Almada – O professor Abdias, o senador Abdias, o dramaturgo Abdias, o poeta Abdias, o ator Abdias, o artista plástico Abdias insubordinava-se, insurgia-se, sempre combatendo o “bom combate”. Apostou na escolarização, na expressão de seus talentos artísticos e no ativismo político para construir um destino diferente daquele que via entre os seus, nas fazendas de Franca, quando menino. Era, entretanto, essencialmente um “homem político”, que lutava pela sua coletividade. Isto, de modo incansável. “Enquanto houver um descendente africano nessa situação de pobreza, miséria e opressão, eu me sinto atingido. Pois o racismo não é uma coisa pessoal, e sim coletiva. Essa situação, nos Estados Unidos, na África ou em qualquer parte do mundo, me preocupa e angustia como se fosse no Brasil”, me disse, certa vez, quando o entrevistava para sua biografia.

IHU On-Line – Certos setores da sociedade brasileira consideram a luta pela igualdade étnica e racial como “vitimismo”. De que maneira a produção intelectual de Abdias nos ajuda a superar essa retórica reducionista e construir caminhos mais progressistas?
Sandra Almada – O racismo tem como uma de suas características o desejo e a luta pela manutenção dos privilégios de um segmento da sociedade em relação a outros. É este mesmo segmento que lança mão destes argumentos. É um pessoal que advoga em favor de si mesmo, hasteando a bandeira da “meritocracia” como caminho possível para “todos” chegarem ao “topo”, omitindo, em seu discurso propositalmente “reducionista”, em que condições se dão as disputas por oportunidades no mercado de trabalho, de acesso à educação de qualidade, aos cuidados relacionados à saúde, o direito à segurança etc. Ou seja, omitem o verdadeiro contexto social onde são díspares, ainda, as oportunidades e condições de mobilidade social oferecidas a negros e não-negros em nosso país.

É este mesmo segmento que se coloca contra medidas reparatórias, como as cotas raciais. No Brasil, assim como em várias outras nações, o olhar social para o ser humano negro (para o “Outro” fenotipicamente “diferente”) vem atrelado a juízo de valor. E este julgamento em relação à população negra a inferioriza, a estigmatiza, portanto, a discrimina. Frente a este quadro, podemos considerar intencionalmente “alienada” esta visão que caracteriza como “ vitimismo” as demandas por igualdade de direitos dos afro-brasileiros. Acho repulsiva esta “leitura” do social.

O genocídio dos jovens negros foi amplamente denunciado por Abdias, já nos anos 1970/1980. E toda a sua obra – acadêmica, como dramaturgo, artista plástico – assim como sua prática política foram voltadas para se entender esta subcidadania, esta repulsa ao negro, por uma parcela, ainda bastante expressiva, da sociedade.

Em pleno século XXI, a Anistia Internacional informa que, dos 30 mil jovens vítimas de homicídio no Brasil, por ano, 77% são negros. Toda a vida de Abdias foi dedicada à luta para reverter um quadro onde existem dados como estes, assustadoramente dramáticos. E só explicados como consequência das diferentes formas como se expressa o racismo, entre os quais o “racismo institucional” de nossas forças policiais. Abdias lutou para fazer ver e respeitar a contribuição e a riqueza civilizatória das sociedades, reinos, estados nacionais africanos de onde descendem estes jovens e tantos outros afro-brasileiros. Morreu, vendo mudanças em curso, para as quais lutou intensamente. Mas deixou um país onde ainda se matam jovens por causa de sua “raça”.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Sandra Almada – Sim. Certa vez, a apresentadora de TV Hebe Camargo, entrevistando uma “convidada” negra, disse o seguinte, interrompendo abruptamente a fala da moça: “Vamos acabar com esse chororô”. Fiquei atônita com aquela frase!, com o tom em que foi dita. Um abuso inconcebível. A moça, chamada ao programa para opinar sobre o lugar do negro na nossa sociedade – assim como nós, os demais negros que sofrem na pele o racismo cotidiano e o combatem e o denunciam –, não abriu a boca para se “vitimizar”. Do palanque, dos púlpitos, dos palcos de teatro, com as letras de seus raps, com as imagens e diálogos de seus filmes, com as imagens de suas fotografias, entre outros canais e vias contra-hegemônicas, os negros vêm enunciando discursos semelhantes. E voltando ao personagem da biografia aqui comentada: defendendo, por exemplo, como fez Abdias Nascimento, já nos anos 1950, medidas reparatórias para os negros na área educacional. Entre estas medidas conquistadas, as que ganharam mais repercussão (e muito protesto) na sociedade brasileira foram as cotas raciais na universidade.

Em 2012, os juízes do Supremo Tribunal Federal endossaram este grande esforço da militância negra, respondendo a uma ação do DEM contra as cotas na Universidade de Brasília - UnB. Aquele tribunal, na ocasião, considerou, por unanimidade, a política de reserva de vagas na universidade como “constitucional e necessária” para corrigir o histórico de discriminação racial no Brasil (vivido por negros e indígenas). O ato vem reverberando, apesar da resistência – fruto do racismo institucional de parcela das nossas elites acadêmicas.

Em 2017, a prova para o acesso ao Mestrado e ao Doutorado da Escola de Comunicação da UFRJ, onde eu me pós-graduei, inaugurou o sistema de cotas em seu processo seletivo. Reitero: não abrimos a boca para nos vitimizarmos, somos vítimas de fato e a luta contra o racismo e as injustiças sociais vem avançando por conta dessas denúncias. Outra novidade, a meu ver, é que nosso “lugar de fala” vem sendo cada vez melhor ocupado. Os negros já não precisam de intermediários para fazer chegar ao espaço público suas demandas. Promovem seus próprios espetáculos, lançam livros, produzem filmes, ou seja, são autores de suas próprias “narrativas”, de novas “narrativas”. Seria bom que esse pessoal, adepto do velho e desgastado conceito de vitimismo, se atualize.

No mais, quero expressar meu mais sincero respeito e minha enorme satisfação ao ser convidada a participar desta edição da revista IHU On-Line e poder compartilhar com a comunidade acadêmica desta respeitada instituição um pouco do que penso sobre o Brasil da contemporaneidade pelo viés da luta negra. ■

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