Edição 517 | 18 Dezembro 2017

O anti-herói que pensou um Brasil moderno e inclusivo

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Ricardo Machado | Edição: João Vitor Santos

Ademir dos Santos destaca as contribuições de Theodoro Sampaio, que olha para o interior do país e projeta uma nação do ambiente rural ao urbano

Negro, culto e inteligente. Tais características certamente incomodavam a sociedade brasileira na passagem do século XIX para o XX. Mas, o engenheiro Theodoro Sampaio não estava muito preocupado com isso, porque, afinal, como define o professor e arquiteto Ademir Pereira dos Santos, ele, “como bom anti-herói, desagradava a todos”. “Pensava no Brasil e no potencial do seu rico interior, suas riquezas e potenciais, e não em Paris ou Nova Iorque”, completa. Para Santos, o reconhecimento ao legado de Sampaio tem conexão com o fato de ser um negro que subverte o estigma da raça. “Talvez não tenha sofrido como os negros pobres e incultos sofrem. Mas com certeza fez da sua trajetória profissional uma prova cabal da capacidade e do lugar que os negros podem e devem ocupar num país de mestiços como o nosso. Este aparente esquecimento não é por acaso”, analisa.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Santos ainda destaca que “o grande valor da contribuição de Theodoro Sampaio foi ter empreendido uma obra plural, com contribuições importantes para vários campos conexos das geociências e humanidades”. Ou seja, ele não pensava somente na perspectiva técnica, mas também levando em conta a realidade do lugar e as necessidades de quem vive ali. “As condições sub-humanas dos brasileiros sempre estiveram presentes nos relatórios e propostas que elaborou”, pontua ao lembrar das obras de saneamento. “Via na água a condição básica da igualdade social e da cidadania. E talvez aí esteja sua grande contribuição étnica aos negros. Afinal, quem até hoje padece sem esgotos e água tratada nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras e ainda luta contra o mesmo Aedes Aegypti, da febre amarela e atual dengue e chikungunya?”, questiona o professor.

Ademir Pereira dos Santos é arquiteto formado pela Universidade Estadual de Londrina - UEL, mestre em História pela Universidade Estadual Paulista - Unesp e doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - USP. É professor na Universidade de Taubaté e leciona no curso de Arquitetura e Urbanismo do Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Entre suas publicações, destacamos Arquitetura Industrial (São Paulo: Takano, 2006) e Theodoro Sampaio nos Sertões e nas Cidades (Rio de Janeiro: Versal Editores, 2010).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como define a figura de Theodoro Sampaio? Por que ele pode ser considerado herói dos sertões e das cidades?
Ademir Pereira dos Santos – Nunca usei nem usaria a palavra “herói”. Foi um “construtor” dos e nos Sertões e das e nas Cidades brasileiras, no sentido literal, como urbanista e engenheiro, e, do seu imaginário, como historiador e geógrafo. Colocou aí seu modesto tijolinho. Mas se o quisermos ver como herói, ele o foi sim, mas andou sempre na contramão, como brasileiro anônimo, portanto, um anti-herói. Para começar, era negro e nordestino. E, mais do que isto, era “baiano”, talvez o mais estigmatizado dos nordestinos em São Paulo.

Sampaio viveu numa pauliceia em ebulição, na virada do século XIX. São Paulo naquele momento suplantara a capital, o Rio de Janeiro, e os republicanos assumiram o poder econômico e consequentemente o poder político e chegaram ao poder com o regime iniciado em 1889, a famosa Primeira República. Como bom anti-herói, desagradava a todos. Era negro, culto e elegante. Três anos depois que chegou em São Paulo é que foi abolida a escravidão. Era monarquista, mas ao mesmo tempo frequentava as altas rodas da sociedade republicana paulista. Era calmo e introvertido apesar de orador eloquente.

Pensava no Brasil e no potencial do seu rico interior, suas riquezas e potenciais e não em Paris ou Nova Iorque. Ou seja, andava na contramão de tudo que podia ser característico naquele momento lembrado como a Belle Époque . Como anti-herói, cometeu um erro básico em São Paulo: denunciou e recusou-se a participar das propinas que sempre rolaram nos serviços públicos.

IHU On-Line – Que Brasil é revelado a partir do trabalho de Theodoro Sampaio?
Ademir Pereira dos Santos – O Brasil de Sampaio tinha como marca a busca da independência econômica e da atualização técnica do país no plano internacional. Suas primeiras obras são de dimensões continentais. Concebeu e realizou parte das obras que viabilizou a navegação pelo rio São Francisco. Cruzou em lombo de montaria a Bahia de oeste a leste, passando pela Chapada Diamantina para cartografá-la. Depois trabalhou na ferrovia que liga Salvador a Juazeiro, passando pelo sertão baiano, quando cartografou Canudos, planta cedida depois a Euclides da Cunha , que nada sabia daquele lugar. Por sinal foi um dos primeiros a publicar artigo sobre a geologia e a geografia do lugar.

No seu primeiro trabalho em São Paulo, percorreu cerca da 600 km dos rios Itapetininga e Paranapanema para averiguar a possibilidade de uma hidrovia que ligaria o Pacífico ao Atlântico. Concebeu o plano cartográfico que botou o estado de São Paulo na vanguarda dos trabalhos de Geografia, sendo o primeiro estado a ostentar uma planta topográfica na escala 1:100.000, feita por Geodesia .

E, depois, simplesmente integrou um corpo de médicos e engenheiros que, apesar dos políticos e da burocracia administrativa, debelou tecnicamente a febre amarela, equacionou o problema do abastecimento de água, do saneamento básico, da habitação popular e dos transportes em São Paulo e em Salvador, ou seja, nas maiores cidades do Sul e do Norte do país. E talvez seu mais belo plano: concebeu Brasília situada na Serra da Mantiqueira, na região de Campos de Jordão, investindo-se contra o plano de construir a capital num desértico e monótono quadrilátero no longínquo estado de Goiás, tal como constava na primeira constituição republicana de 1891. Um visionário, disse que uma capital ali se tornaria um “presídio” pelo seu isolamento. Que ironia do destino, acertou na mosca.

IHU On-Line – Quais suas principais obras nos campos da engenharia e da geografia?
Ademir Pereira dos Santos – Na sua trajetória profissional, distinguem-se duas fases iniciais, no vale do rio São Francisco, de 1879-1886, e no Rio Paranapanema em São Paulo pela Comissão Geográfica e Geológica, 1886-1890. Além dos mapas e plantas, produziu desenhos, diários e relatórios técnicos sobre aspectos diversos tais como as condições econômicas, sociais, a vegetação e os solos. No caso do Rio Paranapanema, tomou gosto pelos estudos indígenas e chegou a produzir um vocabulário da língua dos nativos que viviam nas últimas florestas do sul do Estado de São Paulo.

Apesar de serem trabalhos marcados pelo pragmatismo científico, seu trabalho como cartógrafo trouxe à luz partes imensas do território brasileiro. E os livros e textos que produziu com suas anotações e desenhos revela-nos um Brasil que ainda relutamos em assumir. O Estado e os políticos se preocupavam com o imediatismo das vias de comunicação (ferrovias e hidrovias), dos mapas e dos levantamentos topográficos fundamentais para se comercializar as terras e projetar os tais “melhoramentos”. Nos seus relatórios e mapas, Theodoro Sampaio vai muito além da mera descrição técnica e instrumental. Consegue interpretar a particularidade de cada paisagem e expressar poeticamente sem pedantismo os potenciais e as angústias dos habitantes de cada lugar.

Foi um momento importante para sua formação e afirmação como engenheiro e cientista. Além da contribuição à cartografia nacional mapeando regiões “obscuras” e sem informações seguras em termos técnicos, o grande valor da contribuição de Theodoro Sampaio foi ter empreendido uma obra plural, com contribuições importantes para vários campos conexos das geociências e humanidades.

Fundou o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo - IHGSP, e depois presidiu por muitos anos o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, que atuavam como polos irradiadores e catalisadores do conhecimento técnico antes das universidades públicas estaduais ramificarem-se pelo país. Como engenheiro tornou-se também um testemunho da dedicação ao serviço público e do avanço no saneamento, especialmente no abastecimento de água potável. Via na água a condição básica da igualdade social e da cidadania. E talvez aí esteja sua grande contribuição étnica aos negros. Afinal, quem até hoje padece sem esgotos e água tratada nas periferias das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras e ainda luta contra o mesmo Aedes Aegypti, da febre amarela e atual dengue e chikungunya?

IHU On-Line – De que forma Theodoro Sampaio apreende os saberes indígenas e como influenciam sua obra?
Ademir Pereira dos Santos – Foi no Museu Nacional, por volta de 1878, como assistente de Orville Derby que Sampaio teve contato com a Arqueologia e a Etnologia, quando desenhava as peças coletadas pela Comissão Geológica do Império. Mas quando chegou a São Paulo, mais precisamente na expedição que fez pelo Vale do Paranapanema, entrou em contato direto com os indígenas e os dilemas que os envolvia. Sampaio propôs para o Vale do Paranapanema o que Rondon e depois os irmãos Villas Boas conseguiram para os povos do norte do país: as reservas e os parques nacionais, como é o caso do Xingu, entre outras, nas quais índios poderiam manter a cultura e se perpetuarem como povos livres, apesar do nefasto contato com os “civilizados”.

Seu interesse pela língua nativa começou durante a viagem que durou quase seis meses, e com um simples vocabulário, uma lista extensa de frases e palavras utilizadas pelos “índios mansos” que integraram a sua equipe. E assim se fez o Tupi na Geografia nacional, livro lançado em 1901, e talvez a sua obra mais conhecida ao lado de O rio São Francisco e a Chapada Diamantina (1905). O livro O Tupi na Geografia nacional tornou-se um clássico, pois ali Sampaio elaborou um verdadeiro tratado sobre o papel da língua como um documento da forma de pensar dos nativos (como os portugueses souberam utilizá-la a favor do projeto de dominação) e de como havia uma complexa relação entre as denominações e as feições determinantes dos lugares.

IHU On-Line – Analistas de conjuntura indicam que um dos problemas do Brasil de hoje é não ter um projeto de nação. Que projeto de país teve Theodoro Sampaio e como pode inspirar a pensar numa ideia de nação hoje?
Ademir Pereira dos Santos – O projeto de nação entrevisto na obra e delineado pela trajetória de Sampaio só encontra paralelo e correspondência, guardando as devidas distinções, na obra e ideias de um Rui Barbosa , de um Monteiro Lobato , de um Euclides da Cunha ou um Joaquim Nabuco , seus contemporâneos e, posteriormente, realizadores como Darcy Ribeiro .

De fato, perdeu-se em algum lugar o fio da meada de um projeto de nação. Parece que a burguesia abriu mão do papel histórico que desempenhou a classe dominante em outros lugares. Os intelectuais e técnicos até que desempenharam o papel a eles reservado, no entanto, é visível hoje que não há uma aderência real e de fato a um projeto nacional. O entreguismo que tem caracterizado a prática da elite política brasileira e mesmo dos militares é, talvez, um traço da dependência estrutural da latino-americana, mas no Brasil, ela ganhou contornos inimagináveis depois da geração de Theodoro Sampaio. E em função do atual estágio de deterioração do aparato jurídico, administrativo e político frente à tal globalização, é muito difícil vislumbrar uma saída coerente com o momento histórico e as ideias elaboradas pela geração de Theodoro Sampaio.

IHU On-Line – Theodoro Sampaio também é reconhecido por pensar a cidade na Modernidade, especialmente São Paulo. No que consiste esse urbanismo moderno?
Ademir Pereira dos Santos – Urbanismo praticado por Theodoro Sampaio estava diretamente vinculado às descobertas da microbiologia e à incorporação dos novos materiais e técnicas industriais. Tratava-se, antes de tudo, de adaptar o espaço urbano (medieval na Europa) colonial ao novo momento de expansão dos novos meios de comunicação, transporte e combate às doenças epidêmicas.

Em 1919, elaborou o plano para a Cidade da Luz, a Cidade Nova, atualmente conhecida como o bairro da Pituba, em Salvador. Trata-se de um projeto urbanístico de grande porte, ruas avenidas largas, traçado ortogonal entre outras características. Pituba merece destaque na sua carreira de urbanista, pois antecipou-se com este projeto ao próprio Le Corbusier , que elegeria mais tarde o Sol como símbolo do urbanismo moderno. Quem conhece o bairro atualmente nem consegue imaginar que aquele espaço tem praticamente 100 anos. No entanto, sua grande experiência como engenheiro adveio da modernização dos portos, de Santos e Salvador, assim como da renovação e expansão do sistema de abastecimento de água e tratamento dos esgotos, aspectos da infraestrutura urbana tão importante para a saúde pública, e tão relegado por nossos administradores.

IHU On-Line – Como questões sociais importantes aparecem nos traçados de seus projetos?
Ademir Pereira dos Santos – As questões sociais sempre estiveram presentes na obra de Sampaio, de modo diferenciado e de forma muito peculiar. Além dos mapas e plantas, Sampaio produziu desenhos e diários nos quais retratou as duras condições vividas pelos ribeirinhos do Rio São Francisco (1879) e depois nos cortiços de São Paulo. As condições sub-humanas dos brasileiros sempre estiveram presentes nos relatórios e propostas que elaborou para as cidades nas quais atuou.

Apesar de serem trabalhos marcados pelo pragmatismo técnico e científico, seu trabalho como cartógrafo trouxe à luz partes imensas do território brasileiro. Os livros e textos que produziu com suas anotações e desenhos revela-nos um Brasil que ainda relutamos em assumir. O Estado e os políticos se preocupavam com o imediatismo das vias de comunicação (ferrovias e hidrovias), dos mapas e dos levantamentos topográficos fundamentais para comercializar as terras e projetar os tais “melhoramentos”. No entanto, percebemos nas entrelinhas dos seus relatórios e mapas que Theodoro Sampaio vai muito além da mera descrição técnica e instrumental. Conseguiu como poucos interpretar a particularidade de cada paisagem e expressar poeticamente sem pedantismo os potenciais e as angústias dos habitantes de cada lugar.

IHU On-Line – Filho de escrava, como Theodoro Sampaio encarava a situação do negro no país?
Ademir Pereira dos Santos – Nunca conseguiremos, como brancos, imaginar o que significava ser negro e conseguir ascender à condição de intelectual em plena vigência do escravismo. Viver entre iguais é uma coisa. Viver entre os brancos e ser negro é algo bem diferente. Sampaio devia ser olhado com eterna resignação e desconfiança. E o pior, ser tratado por ambos os lados, por negros escravizados e por brancos escravagistas como alguém “em quem jamais se pode confiar”.

Mas, apesar da origem humilde, Sampaio teve na figura do pai (um padre) o seu protetor que o encaminhou às letras, um privilégio na época. Pertenceu à elite dos primeiros profissionais formados pela Politécnica do Rio de Janeiro, num cenário marcado pela integração do país ao capitalismo industrial, necessitando, portanto, de uma modernização estrutural, em termos técnicos e conceituais. Com a instituição do Estado republicano, a absorção de profissionais com ensino superior foi ainda mais incrementada. Esses profissionais contribuíram para a institucionalização da ciência, ou seja, para a aplicação do conhecimento científico à estruturação do aparato do Estado para que este viesse a garantir e oferecer serviços públicos com qualidade técnica e equidade. Desse tipo de trabalho, muito específico e pouco valorizado é que vem a capacitação jurídica e administrativa do poder público para assegurar o usufruto dos direitos dos cidadãos.

IHU On-Line – Em que medida a trajetória de Theodoro Sampaio pode inspirar lutas contra desigualdades étnico-raciais do Brasil de nosso tempo?
Ademir Pereira dos Santos – Theodoro Sampaio deixou um legado aos brasileiros, independente das condições étnico-raciais. Tocou pouquíssimas vezes na questão do preconceito de que muitas vezes foi alvo, por certo. Superou todas as dificuldades: de filho bastardo que conseguiu comprar a alforria da mãe e de dois irmãos com o que pôde acumular no primeiro emprego à solidão e separação da família por décadas. Theodoro Sampaio construiu-se quase que sozinho. Tornou-se um profissional refinado e muito requisitado. Atuou praticamente toda a sua vida em instituições públicas. Foi um cientista e um técnico que tinha a capacidade de desempenhar funções variadas e complementares.

Talvez não tenha sofrido como os negros pobres e incultos sofrem. Mas com certeza fez da sua trajetória profissional uma prova cabal da capacidade e do lugar que os negros podem e devem ocupar num país de mestiços como o nosso. Como Sampaio poderíamos citar outros negros que tiveram importância similar à sua na construção do Brasil moderno, mas estão no limbo do esquecimento ainda, como os irmãos (Antônio , André e José ) Rebouças, também baianos, e Lima Barreto , entre tantos outros.

Este aparente esquecimento não é por acaso. É uma construção social que passa pela negação da água potável, pela inexistência do tratamento dos esgotos, do transporte e da educação básica universal como um direito inalienável do cidadão.■

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