Edição 517 | 18 Dezembro 2017

"Cem anos de solidão" contribuiu para reinventar a América Latina

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Vitor Necchi

Para Márcia Lopes Duarte, o romance apresenta uma visão que não está nos jornais, nos noticiários nem nos livros de historiografia

Na época em que Gabriel García Márquez lançou Cem anos de solidão, há meio século, ainda não era reconhecida no mundo a grande matriz cultural que constitui a América Latina. “O livro contribuiu muito para a reinvenção do continente, criando novos paradigmas de identidade, assumida a partir da consideração de que é um continente plural, que agrega circunstâncias múltiplas e abarca uma gama considerável de culturas e práticas sociais”, analisa a professora de literatura Márcia Lopes Duarte em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Ao refletir sobre a narrativa da obra mais célebre do escritor colombiano, Duarte aponta que “a primeira premissa a ser pensada é a que se refere à circularidade”. Ela descreve: “Os fatos são sempre uma repetição, com nova roupagem, de fatos anteriores. Neste sentido, os personagens são espelhados e multiplicados uns nos outros, e as histórias são releituras umas das outras”.

O romance permite ainda que se tenha “uma visão privilegiada sobre a Colômbia”, afirma a professora. “Uma visão que não está nos jornais, nos noticiários nem nos livros de historiografia. Trata-se de uma exposição clara de todo o imaginário colombiano, toda a simbologia que perpassa a consolidação do estado colombiano”.

Márcia Lopes Duarte é graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professora na Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a cena literária no momento do lançamento de Cem anos de solidão?
Márcia Lopes Duarte – Na época em que García Márquez lançou Cem anos de solidão, a América Latina não era, ainda, considerada a grande matriz cultural que é hoje. O livro contribuiu muito para a reinvenção do continente, criando novos paradigmas de identidade, assumida a partir da consideração de que é um continente plural, que agrega circunstâncias múltiplas e abarca uma gama considerável de culturas e práticas sociais. Ao lançar um romance tão significativo, o escritor colombiano instaurou esta perspectiva e possibilitou que ela se expandisse. Márquez não foi o primeiro autor a trabalhar com esta realidade, mas foi o que teve a voz mais produtiva.

IHU On-Line – Que considerações podem ser feitas sobre a narrativa, a escrita adotada em Cem anos de solidão?
Márcia Lopes Duarte – No que se refere à narrativa, a primeira premissa a ser pensada é a que se refere à circularidade. Os fatos são sempre uma repetição, com nova roupagem, de fatos anteriores. Neste sentido, os personagens são espelhados e multiplicados uns nos outros, e as histórias são releituras umas das outras. Tal circularidade impregna a narrativa de duplicidades e antagonismos, tudo o que é visto pode ser lido como uma nova possibilidade com relação ao que já aconteceu. Neste sentido, a própria cronologia, para além dos cem anos, é totalmente reestruturada, pois há episódios que tanto podem estar antes como depois uns dos outros.

IHU On-Line – Na sua análise, esta é a principal obra de García Márquez? Por quê?
Márcia Lopes Duarte – É a principal obra de Márquez principalmente por dois motivos: em primeiro lugar, é certamente sua obra mais conhecida, mais lida, é a obra que o divulgou para o mundo e fez dele um escritor famoso; além disso, é sua obra mais característica. Como Grande sertão: veredas é a assinatura de Guimarães Rosa, também Cem anos de solidão marcou para sempre o escritor Gabriel García Márquez. Se pensamos nele como autor, logo nos vêm à cabeça as cenas inusitadas do livro.

IHU On-Line – Trata-se de uma obra que ajuda a compreender a Colômbia? Por quê?
Márcia Lopes Duarte – Quem lê Cem anos de solidão consegue ter uma visão privilegiada sobre a Colômbia. Uma visão que não está nos jornais, nos noticiários nem nos livros de historiografia. Trata-se de uma exposição clara de todo o imaginário colombiano, toda a simbologia que perpassa a consolidação do estado colombiano. Cem anos de solidão é uma aula sobre o modo de ser colombiano, e, porque não, sobre o modo de ser latino-americano.

IHU On-Line – A crítica literária cunhou a expressão realismo mágico, ou realismo fantástico, para caracterizar obras como Cem anos de solidão. Que situações do romance o inserem nesta escola literária?
Márcia Lopes Duarte – A principal característica do romance que o filia ao realismo fantástico é o fato de lidar com situações inusitadas e, até, irreais, como se elas fizessem parte do cotidiano. As borboletas que perseguem Maurício Babilônia, a ascensão de Remédios, a Bela, as crianças com rabo, todas estas cenas são trabalhadas como se estivessem de acordo com a lógica racional que rege o tempo cronológico. Não há uma supressão da realidade para que se instaure o mágico, visto que ele faz parte da vida.

IHU On-Line – Que espaço García Márquez ocupa entre os escritores do chamado boom latino-americano?
Márcia Lopes Duarte – Ele é o autor que fez eclodir a bomba. A partir dele, o resto do mundo começou a pensar: “Quem são estas pessoas que escrevem nestes países tão diferentes, mas com tanta magia?”. Depois dele, abriram-se as portas da cultura ocidental para os latino-americanos.

IHU On-Line – É conhecido o apreço de García Márquez pelas figuras que detinham poder, incluindo o Papa, chefes de Estado e ditadores. Esse fascínio se refletiu literariamente na construção de personagens? Quais?
Márcia Lopes Duarte – O Coronel Aureliano Buendía e José Arcádio Buendía são os personagens que detêm o poder no livro, ainda que seja um poder circunstanciado. É possível que tenham sido pensados a partir desta proximidade de Márquez com algumas figuras ilustres. De qualquer forma, a perspectiva do livro é contrária à ação dos poderosos.

IHU On-Line – Fale de sua experiência pessoal. Quando leu Cem anos de solidão pela primeira vez e qual foi a sensação?
Márcia Lopes Duarte – Eu li Cem anos de solidão no segundo semestre do curso de Letras. Foi uma sensação de arrebatamento. Perdi o fôlego e senti que precisava terminar de ler o livro, porque ele causava em mim uma espécie de necessidade. Li tudo de uma só vez, sem pausas. Lembro que quando terminei, sabia que García Márquez era um de meus autores preferidos. Li muitos livros dele depois e sempre tive o mesmo sentimento. Ele é um autor singular, que faz com que o leitor se sinta dentro do texto.

IHU On-Line – O que lhe é mais marcante neste romance e por quê?
Márcia Lopes Duarte – O que mais me marcou em Cem anos de solidão foram os momentos de suspensão da realidade. Um dos principais foi a ascensão de Remédios, a bela. A cena é belíssima, envolvendo um momento bem cotidiano, pois ela sobe aos céus levada pelos lençóis que estão pendurados para secar. Alguns anos depois de ter lido o livro, li, em uma entrevista, García Márquez dizendo que não havia nada de mágico no fato, pois, quando ele era criança, em Aracataca, se uma moça fugia de casa, a família espalhava o boato de que ela havia subido aos céus. Achei simplesmente genial. ■

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