Edição 517 | 18 Dezembro 2017

O livro que pôs de pé um mundo próprio, inconfundível e inimitável

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Vitor Necchi

Sergius Gonzaga afirma que Cem anos de solidão, a suma das possibilidades infinitas do gênero romanesco, está entre os dez maiores de todos os tempos


O romance Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, foi escrito “durante os férvidos anos 1960” e faz parte de uma “tendência coletiva de jovens narradores conhecida como o ‘boom’ da literatura latino-americana”, contextualiza o professor de literatura Sergius Gonzaga. Naquele período, a Revolução Cubana ajudou a consolidar um sentimento de “latinoamericanidad”, que inexistia e “abria uma noção cosmopolita de pertencer não ao reduzido espectro de uma cultura nacional, mas de uma cultura internacional”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Gonzaga considera que “isso representava a ultrapassagem das fronteiras do provincianismo estético e ideológico e a inserção nos círculos letrados mais importantes do mundo”.

O professor avalia que, atualmente, há algumas resistências ao livro, “mas ele continua sendo lido – ou melhor, devorado – por milhões de leitores no mundo inteiro”. Tanta acolhida é ajudada pelo fato de que o romance é “composto por vários estratos, que autorizam várias possibilidades interpretativas, vários tipos de leitura” que, conforme Gonzaga, são: fabulação, cenas de notável intensidade dramática, tom humorístico, surpresas que a cada página são oferecidas ao leitor e construção de um simulacro persuasivo da realidade, inclusive quando ela se torna mágica. Para além desses elementos, o professor aponta como marca da obra a poesia da linguagem, noção trágica de fatalidade que persegue os indivíduos, o fracasso de todos eles em dar significado às empresas humanas.

Sergius Gonzaga é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Dirigiu a editora da UFRGS e o Instituto Estadual do Livro. De 2005 a 2012, exerceu a função de secretário Municipal de Cultura de Porto Alegre, onde atualmente está à frente da Coordenação do Livro e Literatura. Foi um dos fundadores do curso Unificado e do colégio Leonardo da Vinci. Autor de Curso de Literatura Brasileira (Porto Alegre: Leitura XXI, 2012) e O hipnotizador de Taquara e outras crônicas de tv (Porto Alegre: Leitura XXI, 2009).

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em que reside a potência de Cem anos de solidão?
Sergius Gonzaga – Trata-se de um relato múltiplo. Relato de aventuras, do real-maravilhoso, extremamente imaginativo, de exageros delirantes; relato de costumes de um mundo morto; relato histórico, de desmedidas paixões humanas, cheio de humor; relato metafísico em que se discute o destino dos seres e o sentido da escrita; relato de plena acessibilidade apto a ser compreendido por qualquer tipo de leitor, pelo menos na camada de sua trama; enfim, é uma espécie de suma das possibilidades infinitas do gênero romanesco.

IHU On-Line – Em que contexto social, político e cultural a obra foi escrita?
Sergius Gonzaga – Escrito durante os férvidos anos 1960, o texto se integra a uma tendência coletiva de jovens narradores conhecida como o “boom” da literatura latino-americana (Cortázar, Carlos Fuentes, Vargas Llosa, José Donoso e García Márquez). Sob o influxo das obras de Faulkner, Hemingway, Kafka e outros autores do grande modernismo europeu e norte-americano e também das obras dos “maestros anteriores del continente”: Juan Rulfo, Jorge Luis Borges, Juan Onetti, Ernesto Sabato e Alejo Carpentier – esses jovens criaram um conjunto de romances prodigiosos e verdadeiramente deslumbrantes, como A morte de Artemio Cruz [de Carlos Fuentes], Rayuela [de Julio Cortázar], A cidade e os cachorros [de Mario Vargas Llosa] etc.

Igualmente o triunfo da Revolução Cubana, com todas as promessas e ilusões que encerrava, contribuiu para um sentimento de “latinoamericanidad” – inexistente até então – e que lhes abria uma noção cosmopolita de pertencer não ao reduzido espectro de uma cultura nacional, mas de uma cultura internacional. Isso representava a ultrapassagem das fronteiras do provincianismo estético e ideológico e a inserção nos círculos letrados mais importantes do mundo.

Some-se a isso a notável expansão do número de leitores na época, devido ao incremento educacional ocorrido no pós-guerra, o que gerou um público composto basicamente por jovens, dispostos a procurar o novo, o vanguardista e o inusitado. Não podemos esquecer que a década de 1960 foi a da revolução estudantil, com seus protestos incendiários, sua insubmissão aos códigos de costumes patriarcais e sua disposição a toda a sorte de aventuras emocionais, políticas e culturais. Os núcleos mais intelectualizados dessas massas sediciosas constituíram a base primordial dos leitores da nova narrativa latino-americana.

Houve na época, por fim, um aumento significativo de cursos universitários, de casas editoriais, de suplementos e revistas de cultura. E ainda surgiu, como elemento catalisador, a figura do agente literário, capaz de oferecer aos escritores contratos mais vantajosos e a possibilidade de viver exclusivamente do que produziam, sendo que em Barcelona despontou Carmen Balcells, espécie de protetora de García Márquez, Vargas Llosa e de outros nomes decisivos do boom.

IHU On-Line – Por que nos anos 1960 e 1970 a esquerda acolheu o livro?
Sergius Gonzaga – Exceção feita a alguns escritores invejosos e a alguns críticos rabugentos, o romance foi acolhido com entusiasmo em todas as áreas culturais e ideológicas, e não exclusivamente pela esquerda.

IHU On-Line – E hoje, qual a coloratura política do romance?
Sergius Gonzaga – Embora haja uma arguição social da febre bananeira, comandada por empresa americana, o romance não é político, pelo menos em seus estratos decisivos. É o romance de um universo condenado a desaparecer, um universo sacralizado, onde impera a explicação mítica das coisas, uma ordem histórica que furacão modernizador vivido pelo Ocidente – especialmente nos últimos 150 anos – aniquilou, em um processo que Max Weber designou como o de “desencantamento do mundo”.

IHU On-Line – Trata-se de um romance de moda ou ele tem um valor que resiste à passagem do tempo? Por quê?
Sergius Gonzaga – Hoje há algumas resistências ao livro, mas ele continua sendo lido – ou melhor, devorado – por milhões de leitores no mundo inteiro, enquanto os best sellers da época estão irremediavelmente esquecidos. O tempo é sempre o senhor da razão e, no caso da arte, é ele quem fixa o cânone.

IHU On-Line – Na época do lançamento de Cem anos de solidão, não era forte a ideia de uma unidade cultural latino-americana, algo que depois se consolidou. Como esta obra dialoga com a América Latina?
Sergius Gonzaga – Eu diria que é exatamente o contrário, nunca se falou tanto em América Latina como nos anos 1960 e 1970. A América Latina é uma invenção da Revolução Cubana e dos escritores do boom. Ninguém falava antes e, com certo exagero, pode-se dizer que ninguém dá mais importância hoje.

IHU On-Line – Leitores de diferentes matizes e formações apreciam a obra. O que lhe garante este espectro amplo?
Sergius Gonzaga – É um romance composto por vários estratos, que autorizam várias possibilidades interpretativas, vários tipos de leitura. Pode-se lê-lo por sua fabulação, por suas cenas de notável intensidade dramática, pelo tom humorístico, pelas surpresas que a cada página são oferecidas ao leitor e pela construção de um simulacro persuasivo da realidade, inclusive quando ela se torna mágica. Em um nível, quem sabe mais profundo, pela poesia da linguagem, pela noção trágica de fatalidade que persegue os indivíduos, pelo fracasso de todos eles em dar significado às empresas humanas.

IHU On-Line – Entre os gigantes latino-americanos das letras, qual o espaço ocupado por García Márquez?
Sergius Gonzaga – Está entre os dez maiores de todos os tempos: pôs de pé um mundo próprio, inconfundível e inimitável. Um concorrente de Deus, como disse Vargas Llosa.

IHU On-Line – Pode-se afirmar que García Márquez deu mais relevância mundial para a Colômbia?
Sergius Gonzaga – Como a América Latina, a Colômbia era uma abstração antes de García Márquez. Vargas Llosa afirmou que Cem anos de solidão “tem a virtude de poucas obras-primas: a capacidade de atrair um leitor exigente preocupado com a linguagem e, ao mesmo tempo, um leitor elementar que só quer seguir a história”. O que na obra fisga o leitor exigente? E o elementar?

IHU On-Line – Fale de sua experiência pessoal. Quando leu Cem anos de solidão pela primeira vez e qual foi a sensação?
Sergius Gonzaga – Li-a um ano depois de seu lançamento, no primeiro semestre de 1968, recomendado por um amigo argentino. Naquele tempo, tive uma sucessão de epifanias: Ficciones e El Aleph, de Borges; Grande sertão: veredas, de J. G. Rosa ; La ciudad y los perros e Conversación en la Catedral, de Vargas Llosa; El llano em llamas e Pedro Páramo, de Juan Rulfo; os Contos, de Juan Carlos Onetti; Rayuela e Las armas secretas, de Cortázar; La región más transparente e La muerte de Artemio Cruz, de Carlos Fuentes; El tunel e Sobre héroes y tumbas, de Sábato; e, é claro, Cien años de soledad e El coronel no tiene quien le escriba, de García Márquez. Só obras-primas. Esmagadoras. ■

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