Edição 514 | 30 Outubro 2017

É fundamental que governos e grandes corporações construam cenários para a Revolução 4.0

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Vitor Necchi

O economista João Roncati afirma que é preciso ter cuidado e projeta que as mudanças poderão ser rápidas, senão bruscas

A Revolução 4.0 afetará o mundo do trabalho “pelo deslocamento de funções, pela exigência de novas competências ‘técnicas ou relacionais’ e por uma possível extinção de empregos com alto índice de repetitividade”, afirma o economista João Roncati. Em relação às projeções de desemprego em decorrência das transformações decorrentes da indústria 4.0, Roncati acredita que “é difícil dizer se há exagero, mas é fundamental que tenhamos cuidado e que governos e grandes corporações construam cenários e troquem informações, pois tudo indica que a mudança poderá ser rápida, senão, brusca”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Roncati disse que o debate acerca da renda básica universal é necessário e urgente. “O deslocamento de empregos ou sua extinção exigirão que parte da população mundial tenha sua renda proveniente de formas diferentes das que conhecemos historicamente como emprego formal”, projeta.

Para as empresas não se tornarem obsoletas, em razão das rápidas transformações em curso, Roncati propõe que elas explorarem a enorme quantidade de informações disponíveis. “As empresas precisam estar atentas, refletirem, debaterem, repensarem suas estruturas básicas, e rápido”, recomenda.

João Roncati é diretor da People+Strategy Consultoria Empresarial, mestre em Planejamento Estratégico pela Universidade de São Paulo – USP e economista com Especialização em Finanças e Controladoria. Também cursou o MBA Executivo Internacional na USP.

Roncati esteve no IHU no último dia 13/10, proferindo a palestra A quarta Revolução Industrial e o futuro dos empregos. Saiba mais.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que define a quarta Revolução Industrial?
João Roncati – Como preconiza o Klaus Schwab , autor de referência no tema, é a revolução basicamente baseada na rápida digitalização, que promove uma convergência entre o digital, o biológico e o "mecânico".

IHU On-Line – De que maneira a quarta Revolução Industrial afeta o mundo do trabalho e, em particular, os empregos?
João Roncati – Afetará pelo deslocamento de funções, pela exigência de novas competências "técnicas ou relacionais" e por uma possível extinção de empregos com alto índice de repetitividade.

IHU On-Line – As projeções, muitas delas alarmantes, em relação ao desemprego provocado pela indústria 4.0 são exageradas? Por quê?
João Roncati – É bastante difícil afirmar, pois ainda são projeções e perspectivas. Existem estudiosos mais otimistas, que preconizam o deslocamento de mão de obra e a geração de valor de forma mais equitativa, e mais “pessimistas”, que falam da extinção maciça de postos de trabalho. É difícil dizer se há exagero, mas é fundamental que tenhamos cuidado e que governos e grandes corporações construam cenários e troquem informações, pois tudo indica que a mudança poderá ser rápida, senão brusca.

IHU On-Line – Se houver um expressivo desemprego, isso afetará o consumo e, em consequência, as empresas. De que forma o mundo empresarial está lidando com esse cenário?
João Roncati – O desemprego afetará o consumo no caso da pura extinção dos postos de trabalho. Mas se a quarta Revolução promover a geração de valor e estiver baseada em fontes muito baratas de energia limpa (como a solar), é possível que não ocorra a redução do consumo pela incapacidade individual (econômica), mas até porque alguns bens estariam disponíveis e não precisariam ser comprados. Poderá haver uma reconfiguração das bases da economia.

IHU On-Line – Quando se fala nos benefícios da tecnologia, destaca-se muito o ganho e a produtividade das empresas. A situação dos trabalhadores não deveria ser mais discutida?
João Roncati – A situação dos trabalhadores é tão importante e requer tanta atenção que o Fórum Econômico de Davos 2017 criou um comitê permanente para discutir os impactos sobre os empregos. Então a resposta é sim!

IHU On-Line – A renda básica universal costuma ser rechaçada, mas o debate acerca desse instrumento tem ganhado mais espaço, e empresários de projeção global passaram a defendê-la. Qual a sua opinião?
João Roncati – A minha opinião é que é um debate necessário e urgente. O deslocamento de empregos ou sua extinção exigirão que parte da população mundial tenha sua renda proveniente de formas diferentes das que conhecemos historicamente como emprego formal.

IHU On-Line – E a taxação de robôs, funcionaria como compensação ao desemprego?
João Roncati – Eu não acredito, embora seja uma das teses defendidas. Seria como fechar o círculo de geração de custos/renda, e poderia desestimular em grande medida os ganhos com a revolução. Acho que seria melhor repensar a economia de consumo que ainda é relativamente rudimentar e que é a base de grande parte dos países que se autodenominam capitalistas.

IHU On-Line – O que as empresas precisam fazer para não se tornarem obsoletas, em razão das rápidas transformações em curso?
João Roncati – Explorarem o que nos beneficiou de forma quase totalmente democrática na era da mídia: a enorme quantidade de informações disponíveis. As empresas precisam estar atentas, refletirem, debaterem, repensarem suas estruturas básicas, e rápido.

IHU On-Line – E os trabalhadores?
João Roncati – Os trabalhadores do conhecimento, como Peter Drucker definia todos os que têm com grande valor sua força intelectual e/ou de compilação, análise de conhecimento e tomada de decisão, necessitam refletir, fugindo do encantamente fácil ou do alarmismo pessimista. Estarem atentos aos novos modelos de trabalho, geração de renda e, competição.

Os demais trabalhadores devem também ficar atentos, pois para eles também a informação está disponível, mas pode não ser "sensível". Assim, as organizaçòes de classe e as próprias corporações deveriam compartilhar seu conhecimento e informações.

IHU On-Line – Nem todas as pessoas detêm conhecimento e destreza para repensarem suas carreiras ou projetar seu papel em um cenário de profunda transformação tecnológica. A quem cabe fazer algo para incrementar a mentalidade do trabalhador? Governos? Entidades empresariais? Entidades de classe?
João Roncati – A resposta está na pergunta: todas as organizações que trabalham para o suporte e desenvolvimento dos trabalhadores, ou como é o caso do Governo, na regulação dos interesses dos diferentes agentes econômicos. Tambem as organizaçòes privadas com sensibilidade para a Responsabilidade Social de sua própria existência. As universidades pela capacidade de "livre pensar", enfim, todos que são sensíveis de alguma maneira para as relações na sociedade moderna e preocupados com o seu futuro.

IHU On-Line – Trabalhadores menos qualificados ou que desenvolvem atividades rudimentares são os mais vulneráveis, se levarmos em conta os impactos previstos para a revolução 4.0?
João Roncati – Sem dúvida.

IHU On-Line – Qual o papel da educação na preparação dos cidadãos e dos profissionais do futuro? As escolas não deveriam exercer também uma espécie de alfabetização para o mundo do trabalho?
João Roncati – As escolas deveriam exercer uma preparação para o mundo do trabalho, mas não pode ser o seu foco principal, pois é enorme o risco de ensinarem algo que será obsoleto no momento que seus alunos chegarem ao "mundo do trabalho". O seu papel vital é mobilizar as pessoas para uma formação sólida de valores, estimular sua capacidade reflexiva, pensamento sistêmico e criativo, estimular o apetite por ciência pura (sem o quê não existe conhecimento aplicado de alto nível) e ampliar o interesse por temas de caráter público e não apenas privado.

IHU On-Line – Conselho não se dá, mas, em tempos de previsões sombrias, que conselho o senhor daria para quem precisa pensar em sobrevivência e renda?
João Roncati – O conselho seria o de procurar compreender à sua maneira o que é esta Revolução, buscar desenvolver mais atividades/conhecimentos em campos que realmente lhe atraem e pensar que o trabalho é fundamental para a sobrevivência para a sociedade como foi concebida até agora. Não sabemos se será assim no futuro, então, cultivo de uma vida equilibrada, de respeito à diversidade das diversas expressões da própria vida e um profundo senso de coletivo (ecossistemas sustentáveis) será definidor da longevidade da raça humana e dos critérios que nortearão a profunda transformação que está por vir. ■

Leia mais

"Estamos voando às cegas”. Ritmo dos acontecimentos da Revolução 4.0 é vertiginoso. Reportagem publicada nas Notícias do Dia, de 25-10-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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