Edição 514 | 30 Outubro 2017

Lutero e Inácio de Loyola. A espiritualidade que vali além da polarização entre reforma e contrarreforma

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João Vitor Santos | Tradução: Luís Marcos Sander

Philip Endean analisa os pontos de encontro entre as perspectivas de Martinho Lutero e Inácio de Loyola

Numa rápida e apressada análise, é comum ouvirmos que a Companhia de Jesus, capitaneada por Inácio de Loyola, se constitui como um dos movimentos da Igreja Católica para frear a reforma tensionada por Martinho Lutero. “Lutero e seu movimento foram para o cisma; Inácio e os primeiros jesuítas, junto com muitas outras figuras reformadoras do catolicismo da modernidade incipiente, tentaram assumir os desafios de manter a tensão unida”, analisa o teólogo jesuíta Philip Endean. Entretanto, ele destaca que é reducionismo pensar na ideia de uma reforma e de um movimento que tenta sufocá-la, a contrarreforma. “É claro que há diferenças – eles são pessoas diferentes. Mas também há semelhanças marcantes”, destaca.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Endean explica que “para ambos, uma crise de culpa intensa, quase patológica, é aliviada subitamente por uma percepção de que é Deus que faz a obra real de nossa redenção, e que nosso desempenho moral não tem muito a ver com ela. Em ambos os casos, isso leva a uma transformação total da compreensão”. Assim, compreende que tanto Lutero quanto Inácio inauguram outras formas de ser cristão. “Há algo semelhante – uma qualidade da experiência de Deus que é inteiramente transformadora, e, de algum modo, definitiva de uma nova guinada na consciência religiosa entre os ocidentais no início da modernidade”, pontua. E completa: “se pudermos ver Lutero e Inácio como filhos de seu tempo, poderemos ficar livres para pensar de maneira nova e criativa sobre a nova missão para a qual podemos esperar que Deus já nos tenha consagrado”.

Philip Endean é britânico, jesuíta, formado em Filosofia e Teologia. Lecionou nas universidades de Londres e Oxford, e no Boston College, nos Estados Unidos. Atualmente é professor de espiritualidade nas Faculdades Jesuítas de Paris, Centre Sèvres. Ainda atuou como editor de The Way, um periódico inaciano de espiritualidade publicado pelos jesuítas britânicos. É autor do livro Karl Rahner and Ignatian Spirituality (Oxford, 2001), escrito a partir de sua tese de doutorado defendida em Campion Hall, Oxford.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No que as comemorações dos 500 anos da Reforma podem inspirar tanto católicos como luteranos?
Philip Endean – Até mesmo os luteranos, conscientes do caráter divisor do legado de Lutero, parecem bastante contentes em falar de comemoração e não de celebração. Mas é verdade que esse é o primeiro grande jubileu luterano desde que o ecumenismo criou raízes. Em 1917, o jubileu da Reforma ocorreu durante a 1ª Guerra Mundial. A memória de Lutero foi usada para incentivar o heroísmo militarista alemão de uma maneira que os historiadores hoje em dia acham bizarramente chocante.

Em 2017, é o caráter puramente divisor da herança que parece constrangedor, e até não cristão. Um sinal dos tempos é que a Federação Luterana Mundial, ao preparar a comemoração de 2017, trabalhou junto com o Vaticano, produzindo um importante documento intitulado Do conflito à comunhão . A maioria das pessoas cristãs atualmente vive fora da Europa, e muitas na África e na Ásia, em igrejas com menos de 100 anos de idade. Se essa é sua experiência, você não – para usar as palavras do documento conjunto – vê com facilidade os conflitos confessionais do século XVI como seus próprios conflitos. As questões que incomodam você tem a ver com a justiça, a necessidade aguda e o fato de viver em situações de pluralismo religioso. E essas questões as pessoas cristãs das igrejas históricas tentam enfrentar juntas – nós não fazemos as coisas separadamente a menos que tenhamos de fazê-las.

IHU On-Line – A partir dessa perspectiva, que relação podemos estabelecer entre Martinho Lutero e o fundador da Companhia de Jesus, Inácio de Loyola ?
Philip Endean – Para início de conversa, temos de ir além do que a segunda geração de jesuítas, no centro da resistência ao que eles viam como a heresia luterana, tinham condições de dizer. A experiência-chave de conversão de Inácio ocorreu em 1521, e seus seguidores não tardaram a estabelecer a conexão. Encontramos um deles escrevendo o seguinte: “Deus chamou nosso Padre Inácio mais ou menos no mesmo ano em que Lutero deixou seu convento e contraiu seu casamento escandaloso. [...] A partir desse fato entendemos de maneira especial como a Companhia foi criada para ajudar a igreja na Alemanha, na Índia ou onde quer que seja. E então: no mesmo ano em que Lutero foi chamado pelo diabo, Inácio foi chamado por Deus.” O documento que mencionei acima – Do conflito à comunhão – fala de um desafio com que todos e todas nós nos deparamos se quisermos avançar de modo sincero e seguro. Nós não podemos mudar o que aconteceu no passado. Mas podemos aprender a nos lembrar disso de maneira diferente.

IHU On-Line - Como podemos avançar nesse sentido?
Philip Endean – Podemos começar com a coincidência das datas: o início do século XVI, quando a imprensa estava começando realmente a moldar a cultura ocidental. Nós conhecemos a história de Inácio em seu leito de enfermo em Loyola, lendo livros e sonhando acordado, e dando-se gradativamente conta de como suas reflexões surgiam de um conflito – bastante sutil – entre Deus e sua própria resistência a Deus. O que não reconhecemos com tanta facilidade é que Inácio faz parte da primeira geração de pessoas fora de um monastério que está em uma posição de se queixar do fato de que os livros na estante não são muito interessantes. A situação é um pouco semelhante à nossa atualmente em relação ao wifi – embora essa tecnologia simplesmente não existisse há 20 anos, podemos facilmente nos pegar classificando e avaliando mentalmente os lugares aonde vamos para ficar em termos da qualidade da conexão que eles têm.

No início do século XVI, os livros estavam começando a ficar importantes. As pessoas instruídas e privilegiadas começavam a praticar seu cristianismo por livros e a reimaginar a religião de todas as demais pessoas como transmitindo o conteúdo desses livros por lições catequéticas. Isso é uma mudança enorme – que foi tão maciçamente influente que não a percebemos imediatamente –, mas em vez disso nos concentramos nos pontos da diferença. Tanto a história de Lutero quanto a de Inácio têm a ver com a leitura e com as mudanças produzidas pela leitura. Quando se começa a pensar nesses termos, elas parecem mais variações sobre um tema do que estar em desacordo.

IHU On-Line – Podemos falar em afinidade espiritual entre os dois?
Philip Endean – Isso é ir um pouco longe demais. Eles são de classes sociais diferentes e de culturas diferentes, e são figuras fundadoras de movimentos bastante diferentes. Mas há, não obstante, ao menos uma característica notável em suas histórias pessoais que eles parecem ter em comum. Olhando retrospectivamente no final de sua vida, Lutero se lembra de como, apesar de sua boa observância monástica, tinha uma “consciência extremamente perturbada” e não conseguia acreditar que Deus fosse aplacado por suas tentativas de viver corretamente. Mas então veio o alívio:

[...] pela misericórdia de Deus, meditando dia e noite [...] comecei a entender que a justiça de Deus é aquela pela qual a pessoa justa vive por um dom de Deus, a saber, pela fé [...] Aí senti que eu tinha renascido inteiramente e entrado no paraíso passando por portões abertos. Aí um rosto inteiramente diferente da Escritura toda se revelou a mim..

Isso não está muito distante do que Inácio nos conta sobre seu período formativo em Manresa. Ele confessava seus pecados, mas nunca saía satisfeito. Os escrúpulos ficavam voltando, cada vez mais fortes. De repente, entretanto, “o Senhor quis que ele despertasse como que do sono”. Ele reconhece que os escrúpulos provêm de um espírito maligno, não de Deus, e que o Deus o libertou por pura misericórdia. E isso leva a um relato de algumas experiências místicas vigorosas sobre como tudo se encaixa:

[...] os olhos de sua compreensão começaram a se abrir: não que ele tivesse visto alguma visão, mas compreendendo e sabendo muitas coisas, coisas espirituais e questões de fé e igualmente de erudição – e isso com um esclarecimento tão forte que todas as coisas pareciam novas para ele..

É claro que há diferenças – eles são pessoas diferentes. Mas também há semelhanças marcantes. Para ambos, uma crise de culpa intensa, quase patológica, é aliviada subitamente por uma percepção de que é Deus que faz a obra real de nossa redenção, e que nosso desempenho moral não tem muito a ver com ela. Em ambos os casos, isso leva a uma transformação total da compreensão. Para Inácio, todas as coisas parecem novas; para Lutero, um rosto totalmente diferente da Escritura toda se revela.

IHU On-Line – Como, então, podemos entender a mística de Lutero e de Inácio?
Philip Endean – Há uma geração, Karl Rahner escreveu um texto longo e apaixonado em que imaginava Inácio falando com um jesuíta contemporâneo. A uma certa altura, o Inácio de Rahner sugere de modo implicante que a experiência fundamental de Inácio estava muito mais próxima da de Lutero, e com efeito da de Descartes , do que os católicos eclesiais modernos geralmente imaginam. Isso seguramente está certo. Há algo semelhante – uma qualidade da experiência de Deus que é inteiramente transformadora, e, de algum modo, definitiva de uma nova guinada na consciência religiosa entre os ocidentais no início da modernidade. Não é coincidência que mesmo atualmente consideremos os acontecimentos do século XVI na história da igreja como particularmente significativos.

Mas há também uma diferença importante. A oração que Inácio nos incentiva a fazer no início de cada “exercício espiritual” pede “para que todas as minhas intenções, ações e operações sejam puramente ordenadas para serviço e louvor de sua divina majestade”. A intenção aqui está no mesmo nível de duas palavras diferentes que significam ação. Não estamos distantes da teoria aristotélica da virtude – nós criamos nossa identidade através do que fazemos. A fé e as obras estão estreitamente ligadas.

Em contraposição a isso, Lutero imagina a liberdade espiritual como uma união entre a alma e Deus que “nenhuma coisa externa” pode influenciar. Em si, essa diferença não é – como o trabalho ecumênico contemporâneo revelou – suficiente para justificar o fato de permanecermos divididos, e do ponto de vista histórico ela provavelmente não é suficiente para explicar por que, afinal, ocorreu a cisão. Mas Inácio e Lutero estão operando a partir de quadros bastante divergentes de como nossa identidade religiosa sob Deus e nosso comportamento no cotidiano afetam um ao outro.

Encontro entre Inácio e Lutero?
Inácio não nos deixou qualquer registro de um encontro com um luterano (embora houvesse muitos simpatizantes em Paris quando ele estava lá, e na verdade João Calvino ). Sua preocupação principal era simplesmente a ajuda das almas – ajudar as pessoas a se tornar cristãos melhores, e satisfazer necessidades da igreja que não se encaixavam dentro das estruturas-padrão. É só quando jesuítas começam a ir para a Alemanha – primeiro Pierre Favre por conta própria no início dos anos 1540 e depois grupos mais tarde – que há qualquer espécie de acentuação de contramedidas defensivas.

À sua própria maneira, de fato, ele foi um reformador (mas com “r” minúsculo) – há uma nota manuscrita de um dos principais cardeais da época em que os jesuítas chegaram pela primeira vez a Roma que os chama de os “preti reformati del Gesù”. Os primeiros jesuítas, naquela época tanto quanto atualmente, pareciam bastante suspeitos para algumas pessoas. A preocupação de Inácio de desprender os clérigos de um apego indevido ao dinheiro é bastante evidente a partir do texto dos Exercícios espirituais. A ideia de que os clérigos deveriam se entender em termos de seu relacionamento com Deus e com o povo de Deus, e não como possuidores de um benefício – de cujos frutos viveriam enquanto pagavam algum subordinado para rezar a missa no lugar respectivo – não está muito distante da polêmica de Lutero contra a venda manipulativa de indulgências.

IHU On-Line – Tanto Lutero quanto Inácio rompem com uma certa lógica hegemônica de seu tempo?
Philip Endean – Eu sou britânico, e como tal acho o termo “lógica hegemônica” um pouco abstrato e teórico demais. Mas suspeito – transpondo o hiato cultural – que basicamente eu responderia à pergunta afirmativamente. Eu voltaria ao efeito da leitura, à maneira como a imaginação das pessoas deve ter ficado – de formas que são difíceis de imaginar retrospectivamente – mais rica e mais complexa à medida que livros impressos se tornaram comparativamente disponíveis de maneira ampla. O resultado é que a autoridade externa da igreja tinha de coexistir de algum modo com o que se podia encontrar no texto do Evangelho e na mente e no coração de seus leitores e leitoras quando deixavam o texto operar dentro deles e delas. Lutero e seu movimento foram para o cisma; Inácio e os primeiros jesuítas, junto com muitas outras figuras reformadoras do catolicismo da modernidade incipiente, tentaram assumir os desafios de manter a tensão unida.

As respostas diferentes que eles deram às perguntas moldaram nossa mitologia, particularmente na medida em que reforçaram outros tipos de conflito entre grupos étnicos (penso, por exemplo, na história recente da Irlanda). Mas, falando em termos teológicos, o aspecto significativo talvez seja que eles estavam respondendo ao mesmo tipo de pergunta. Como se lida com os conflitos em potencial entre as diferentes formas pelas quais a palavra de Deus vem até nós? Esse tipo de pergunta adquiriu proeminência de uma forma inteiramente nova no início do século XVI. E ela ganhou novas formas à medida que a alfabetização e as comunicações continuaram a se desenvolver.

IHU On-Line – Como o senhor analisa a atual aproximação entre luteranos e católicos? E no que esses movimentos podem contribuir para ampliar o diálogo inter-religioso para além do cristianismo?
Philip Endean – O ecumenismo moderno – como destaca Do conflito à comunhão – vive em um mundo que de algumas formas é muito diferente do século XVI. Para mim, uma figura profética é o jesuíta Alfred Delp (1907-1945) , enforcado pelos nazistas por sua participação em um trabalho de resistência de pouca gravidade. Ele ficou na prisão pouco mais de seis meses, e durante parte do tempo teve condições de escrever. Uma das cartas que temos foi dirigida a um luterano comprometido, Eugen Gerstenmaier (1906-1986) , e começa com um agradecimento por um presente de Natal, qualquer que pudesse ele ter sido em 1944 sob condições de prisão:

E quando sairmos de novo, vamos mostrar que esse presente representava e representa mais do que um relacionamento pessoal. Teremos de continuar carregando o fardo das igrejas divididas como fardo e como herança. Mas isso nunca mais deveria desacreditar a Cristo. Eu tenho tão pouca crença como você em mixórdias idealistas. Mas o Cristo uno é indiviso, e onde o amor indiviso nos leva a ele, muita coisa ficará melhor para nós do que para nossos predecessores e contemporâneos querelantes. Assim como a missa, tenho o bendito sacramento permanentemente na cela, e muitas vezes falo com o Senhor sobre você. Ele está nos consagrando aqui para uma nova missão..

O nazismo e o que ele traz consigo marcam a passagem de um mundo em que as confissões cristãs podem operar separadamente. Agora nos deparamos com novos desafios – e em particular provavelmente precisamos reconhecer as limitações bem como os pontos fortes da modernidade ocidental para a qual Lutero e Inácio servem como símbolos religiosos complementares.

O que isso significa é algo que temos de descobrir juntos. Hesito em dizer demais aos latino-americanos sobre o colapso contemporâneo do consenso político na Europa e nos EUA – suspeita-se que o Brasil já tenha estado há várias gerações na extremidade errada dos excessos do capitalismo liberal. Mas a globalização e o estado de nossa ecologia certamente colocam desafios com os quais nossos paradigmas modernos não conseguem mais lidar. A necessidade de diálogo inter-religioso – o diálogo que honra nossas convicções de fé ao mesmo tempo que dá, de algum modo, espaço apropriado para as pessoas que creem de maneira diferente ou nem creem – também faz parte disso. Ao menos, se pudermos ver Lutero e Inácio como filhos de seu tempo, poderemos ficar livres para pensar de maneira nova e criativa sobre a nova missão para a qual podemos esperar que Deus já nos tenha consagrado. E para fazer isso juntos, para além das polaridades que serviram a qualquer propósito que alguma vez tiveram.■

Leia mais

- Inácio de Loyola em perspectiva luterana. Artigo de Philip Endean, reproduzido nas Notícias do Dia de 19-7-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Lutero e Inácio de Loyola mudaram o cristianismo do século XVI. Reportagem publicada em Notícias do Dia de 29-10-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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