Edição 513 | 16 Outubro 2017

A política de guerra da dívida

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado | Tradução: Vanise Dresch

Maurizio Lazzarato analisa como a “política da dívida” se tornou o imperativo biopolítico na era do homem endividado

Para o professor e pesquisador italiano Maurizio Lazzarato, a verdadeira biopolítica é a política da dívida. Sem meias palavras, ele vai ao ponto quando se trata de definir as categorias políticas que orientam a vida contemporânea. “Prefiro falar de política da dívida, por ser um termo mais exato no que se refere à nossa sociedade. A dívida, isto é, a moeda como capital financeiro, é uma abstração de ordem superior àquela do trabalho, da representação democrática e do poder político que se constituíram dentro do Estado-Nação”, destaca Lazzarato em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

De acordo com Lazzarato, esse modo de organização da vida a partir das dinâmicas da dívida produz um tipo muito particular de “liberdade”, em que a população fica à deriva dos humores do financeirismo. “Enquanto na fase expansiva da ‘valorização’ a governamentalidade insufla liberdades aos governados, no momento em que a crise impõe a necessidade de encontrar novas fontes de lucro, o capital entra numa fase de ‘desvalorização’, isto é, de destruição do capital constante e do capital variável (a população)”, explica.

Maurizio Lazzarato é sociólogo independente e filósofo italiano que vive em Paris, onde realiza pesquisas sobre trabalho imaterial, ontologia do trabalho, capitalismo cognitivo e movimentos pós-socialistas. É cofundador da revista Multitudes com o filósofo Antonio Negri. Escreve também sobre cinema, vídeo e as novas tecnologias de produção de imagem. Lazzarato participa de ações e reflexões sobre os “intermitentes do espetáculo” no âmbito da CIP-idf (Coordination dês Intermittents et Précaires d’Île-de-France), onde coordena uma importante “pesquisa-ação” sobre o estatuto dos trabalhadores e profissionais do espetáculo e do mundo das artes, além de outros trabalhadores precários. É autor de diversos livros, dos quais destacamos Experimental Politics: Work, Welfare, and Creativity in the Neoliberal Age (Massachusetts: MIT Press, 2017), e La fábrica del hombre endeudado: Ensayo sobre la condición neoliberal (Buenos Aires-Madrid: Amorrortu Editores/2013).

Em português, podem ser lidos os livros Trabalho Imaterial - Formas de Vida e Produção de Subjetividade (Belo Horizonte: Editora PUC Minas, 2004 - Escrito com Antonio Negri), Governo das Desigualdades Crítica da Insegurança Neoliberal (São Carlos: Editora Edufscar, 2012) e As Revoluções do Capitalismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, (2006) e Signos, Máquinas, Subjetividades (São Paulo: n-1 edições/Edições Sesc São Paulo, 2014).

O professor Maurizio Lazzarato apresenta a conferência A era do homem endividado. O evento ocorre na terça-feira, 17-10-2017, às 10h45, na sala Ignácio Ellacuría e Companheiros – IHU e integra a programação do IX Colóquio Internacional IHU. A Biopolítica como teorema da Bioética. Acesse programação completa.

A entrevista foi publicada nas Notícias do Dia de 12-10-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a Entrevista.

IHU On-Line – De que forma podemos compreender a estratégia biopolítica dos ciclos das crises financeiras na sua relação com a emergência do homem endividado?
Maurizio Lazzarato – A política da dívida afeta diferentemente todas as camadas sociais e todas as dimensões da vida. Ela atinge o emprego, a aposentadoria, os cuidados médicos, a formação, o auxílio à moradia, todas as políticas sociais etc. A política da dívida é a “verdadeira” biopolítica, ou seja, a modalidade de governamentalidade da sociedade contemporânea em seu conjunto.

IHU On-Line – De que ordem é a figura subjetiva do homem endividado?
Maurizio Lazzarato – O homem endividado é o objeto da biopolítica. Todo mundo está endividado por meio da dívida pública, mesmo que, pessoalmente, você não tenha contraído nenhuma dívida. Esse deslocamento da governamentalidade foi feito estrategicamente pelo capital financeiro a partir do início da década de 1970. Em Nascimento da biopolítica (São Paulo: Martins Fontes, 2008), Foucault não percebe a ação estratégica da finança, pois, em seu livro, a questão da moeda não é abordada. Ele trata da moeda apenas em 1971, referindo-se à origem desta na Grécia Antiga, e sua argumentação associa estreitamente a guerra civil, a moeda e a dívida. Penso que é necessário referir-se ao Foucault de 1971, pois a relação entre dívida, guerra e moeda constitui o fundamento da biopolítica contemporânea. A governamentalidade neoliberal é uma governamentalidade da “guerra civil”.

IHU On-Line – Como as relações biopolíticas no neoliberalismo produzem a tripla desapropriação do poder político, enfraquecido pela democracia representativa, dos direitos conquistados em lutas históricas dos trabalhadores e a desapropriação do futuro?
Maurizio Lazzarato – A definição de biopolítica é demasiadamente geral, no meu entender. Prefiro falar de política da dívida, por ser um termo mais exato no que se refere à nossa sociedade. A dívida, isto é, a moeda como capital financeiro, é uma abstração de ordem superior àquela do trabalho, da representação democrática e do poder político que se constituíram dentro do Estado-Nação. A moeda/dívida promove a desterritorialização. A captura exercida pelo Capital não ocorre por isolamento, mas pela desterritorialização promovida pela moeda. Ela age além das fronteiras do Estado-Nação, utilizando-o, ao mesmo tempo, para reterritorializar suas políticas, uma vez que o controle do mercado de trabalho, do bem-estar social etc. continua sendo um objetivo do Estado.

IHU On-Line – O que significa ser livre na era do homem endividado? Estamos diante da “liberdade do súdito”, como diria Foucault?
Maurizio Lazzarato – As relações de poder requerem “liberdade” para os dois termos da relação. A governamentalidade somente pode funcionar se aos governados for reconhecida uma “liberdade”, uma possibilidade de “resistir”, de “fugir”, que, na realidade, é o modo de funcionamento da biopolítica.

Mas o conceito foucaultiano de liberdade é muito problemático. Os governados são “livres” porque gozam de uma liberdade fabricada, favorecida e incentivada pelos governantes (aquela do “trabalhador livre”, do “consumidor livre”, do “eleitor livre”), ou então porque se afirmam “livres” na luta e mediante a luta contra as “liberdades” liberais (luta dos operários, das mulheres, dos colonizados, dos estudantes, lutas dos anos 1950 e 1960 etc.). A primeira forma de liberdade é concedida, já a segunda é conquistada pela luta.

O capitalismo do New Deal e, depois dele, a Guerra Fria geraram novas formas de liberdade. As “liberdades” liberais, além de serem uma fabricação do capital, têm outra característica fundamental que nem os liberais nem Foucault evidenciaram: elas são estritamente indexadas pelo ciclo do capital. Sua existência e duração dependem das transformações de processos de valorização.

No capitalismo contemporâneo, o conceito de governamentalidade só é operacional se for compreendido como governo desse ciclo. Articula-se em governamentalidade micropolítica (gestão, empresa, educação, serviços para o bem-estar social etc.) e governamentalidade macroeconômica e macropolítica (gestão da moeda, da dívida etc.), produzindo ou destruindo liberdades conforme a dinâmica da desvalorização do capital.

Enquanto na fase expansiva da “valorização” a governamentalidade insufla liberdades aos governados, no momento em que a crise impõe a necessidade de encontrar novas fontes de lucro, o capital entra numa fase de “desvalorização”, isto é, de destruição do capital constante e do capital variável (a população). A destruição pode ir desde o desemprego até a queda do salário, da redução dos gastos sociais ao deslocamento da produção, à guerra civil e à guerra. É no exato momento de reversão do ciclo que a governamentalidade produz justamente o contrário da liberdade e da democracia. Ela gera o empobrecimento e neofascismos.

A sequência neoliberal ilustra perfeitamente essa mudança na governamentalidade. As novas “liberdades” das décadas de 1980 e 1990 reverteram-se em uma guerra contra populações, travada obstinadamente pelas elites liberais desde a “crise” financeira.

Quando a valorização do Capital encontra obstáculos, quando é bloqueada (até mesmo pela própria lógica interna da valorização) ou posta em perigo por uma “revolução”, a destruição da população e do “capital humano” se dá com um cinismo irrefreável. Sem falar do destino reservado aos “excedentes”. A intensidade da destruição é apenas proporcional à resistência política da população, sem nenhuma relação com sua “qualidade” e sua “ontologia”.

Um Foucault um pouco mais aguerrido do que à época de sua aula sobre o liberalismo em 1979 enuncia, com muita clareza, alguns anos depois: “Se a população é sempre a instância pela qual o Estado vela em seu próprio interesse, fica claro que o Estado pode massacrá-la em caso de necessidade. A tanatopolítica é assim o reverso da biopolítica”.

A tanatopolítica pode visar tanto uma população analfabeta quanto uma população altamente qualificada, na medida em que não remete à ontologia do “capital humano”, mas, primeiramente, a relações estratégicas. A estratégia do capital pode revelar-se absolutamente indiferente à “qualidade” da população, principalmente quando o seu poder ou a sua rentabilidade estão em perigo.

IHU On-Line – Em um mundo cujas relações sociais são mediadas pela dívida, ainda faz sentido falar em democracia?
Maurizio Lazzarato – O capitalismo não precisa da “democracia”. A única democracia que os liberais conceberam foi a censitária, a democracia dos proprietários. A democracia “para todos” nunca foi um objetivo do capitalismo nem dos liberais. Ela foi imposta, começando pelo sufrágio universal, pelas lutas do movimento operário, no século XIX. O declínio deste, sob os assaltos da finança, provoca uma queda vertiginosa da “democratização”.

É preciso reconhecer que o funcionamento do poder a partir da liberdade democrática dos governados não é generalizável no capitalismo. Na China, como em grande parte da Ásia Oriental, o capitalismo pode funcionar precisamente a partir de uma nova elaboração do “modo de produção asiática”. Mesmo no Japão democrático, não é nem a liberdade, nem o individualismo que caracterizam o modelo governamental, mas uma máquina de guerra que consegue governar a população por “automatismos”, organizando os comportamentos de maneira mais estável e mais previsível do que na Europa ou nos Estados Unidos.

IHU On-Line – De que forma podemos compreender o trabalho imaterial na era da Revolução 4.0?
Maurizio Lazzarato – Abandonei o conceito de trabalho imaterial logo após tê-lo forjado. Penso que não é uma categoria útil, mas exigiria muito tempo explicar por quê.

IHU On-Line - Sobrará espaço para a subjetividade humana na era da massiva robotização do trabalho?
Maurizio Lazzarato – A robotização não exclui a subjetividade humana; pelo contrário, ela requer o seu deslocamento. Gilbert Simondon já havia explicado isso a respeito das máquinas automáticas cibernéticas (autorreguladoras). Se, a rigor, o “trabalho” chegasse ao absurdo de ser totalmente robotizado, toda a sociedade trabalharia para o seu funcionamento. Não existe nenhuma possibilidade de eliminar a subjetividade, uma vez que a máquina é sempre um agenciamento, um acoplamento do homem com a máquina.

IHU On-Line – Como subverter a máquina da dívida infinita?
Maurizio Lazzarato – Seria necessário começar pela distinção entre máquina técnica e máquina social (ou máquina de guerra). A dívida é uma máquina de guerra composta por automatismos financeiros, normas sociais e uma estratégia política. Precisaríamos pensar as relações entre máquinas técnicas, máquinas de guerra e estratégia, como tentou fazer Foucault entre 1971 e 1976. Em vez de abandonar a guerra enquanto modelo da relação de poder, como fez Foucault depois de 1976 com o conceito de governamentalidade, deveríamos pensar esta última como articulação de uma estratégia de guerra. Mas estamos longe disso. ■

Leia mais
- Capitalismo cognitivo e trabalho imaterial. Entrevista com Maurizio Lazzarato, publicada nas Notícias do Dia, de 6-12-2006, no sítio do Instituto Humanitas Unsinos – IHU.

- "Atualmente vigora um capitalismo social e do desejo". Entrevista com Maurizio Lazzarato, publicada nas Notícias do Dia, de 5-1-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.;

- Subverter a máquina da dívida infinita. Entrevista com Maurizio Lazzarato, publicada na Notícias do Dia, de 2-6-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- O “homem endividado” e o “deus” capital: uma dependência do nascimento à morte. Entrevista especial com Maurizio Lazzarato, publicada na revista IHU On-Line nº 468, de 29-6-2015.

Últimas edições

  • Edição 539

    Do ethos ao business em tempos de “Future-se”

    Ver edição
  • Edição 538

    Grande Sertão: Veredas. Travessias

    Ver edição
  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição