Edição 210 | 05 Março 2007

Crises nas relações de gênero: a busca por uma outra sociedade

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IHU Online

O teólogo luterano André Sidnei Musskopf, professor no Instituto Ecumênico de Pós-Graduação da Escola Superior de Teologia (EST) de São Leopoldo, é um estudioso das relações de gênero. Ele escreveu um artigo especialmente para a IHU On-Line, a nosso pedido, no intuito de contribuir com a temática levantada na matéria de capa da edição desta semana.

André é também pesquisador na área de Teologias GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros), Teoria Queer, Estudos de Gênero e Masculinidade. Graduado em Teologia, pela EST, é mestre em Teologia, também pela EST, com dissertação intitulada Ministérios Ordenados e Teologia Gay - Retrospectiva e Prospectiva, sobre a ordenação de pessoas homossexuais, e doutorando em Teologia na EST. É autor de Uma brecha no armário - propostas para uma teologia gay. São Leopoldo: Sinodal, 2002 e organizador, juntamente com Marga J. Ströher e Wanda Deifelt, do livro, A flor da pele - Ensaios sobre gênero e corporeidade. São Leopoldo: Sinodal, EST, CEBI, 2004. A IHU On-Line realizou uma entrevista com o teólogo André Musskopf, sob o título Identidade masculina e corporeidade, publicada na 114ª edição, de 6 de setembro de 2004, e outra entrevista na edição número 121, de 1º de novembro de 2004, sobre o tema À meia luz: a emergência de uma Teologia Gay – seus dilemas e possibilidades, apresentado pelo professor André Musskopf no IHU Idéias de 4 de novembro daquele ano O texto está publicado no Cadernos IHU Idéias número 32, disponível para download no site do IHU (www.unisinos.br/ihu).   

Eis o artigo na sua  íntegra:

É impossível pensar a "condição da mulher" na atualidade sem considerar a história do Movimento Feminista, e de todos os "movimentos sociais de libertação" das últimas três décadas. Nos campos teórico e acadêmico, a reflexão feminista questionou epistemologias metafísicas ao introduzir o corpo e o cotidiano nas discussões, com todas as implicações práticas que esta abordagem pressupõe e implica. No campo do movimento social de mulheres, a luta política por reconhecimento e desenvolvimento de uma agenda de direitos e proteções garantiu um novo espaço de atuação para as mulheres. Isso revolucionou as formas de pensar e conviver nas relações de gênero.

No entanto, no decorrer da história do Movimento Feminista, mudanças e deslocamentos significativos foram influenciando tanto os desenvolvimentos teóricos quanto as perspectivas políticas assumidas pelo Movimento. Estas mudanças e deslocamentos certamente precisam ser compreendidos dentro de um contexto histórico-político-econômico-cultural-religioso amplo, que tanto foi influenciado quanto influencia seu desenvolvimento. É certo que temas como violência contra a mulher, direitos reprodutivos e acesso aos meios de produção e consumo continuam sendo relevantes para o Movimento Feminista, mas mesmo esses temas são alargados e ressignificados no diálogo com outros movimentos e a partir de contextos específicos.

“Condição feminina”

Um dos grandes perigos que sempre rondou (e ainda ronda) o Movimento de Mulheres foi a essencialização de algo como uma "condição feminina", à parte de outros elementos constituintes das identidades. Essa crítica, aliás, surgiu muito cedo no interior do próprio Movimento das mulheres que traziam elementos complicadores de um discurso simples sobre a perspectiva da mulher (como raça/etnia, classe social, orientação sexual etc.). Slogans como "ninguém nasce mulher, se torna mulher" ou "o pessoal é político", ofereceram abertura suficiente para que outros elementos da construção da identidade de mulheres entrassem no debate, articulando questões que o Movimento Feminista inicial talvez nem pudesse vislumbrar. Estes outros elementos, aliás, puderam emergir e passaram a fazer parte das discussões e perspectivas políticas por causa de movimentos paralelos que se organizaram neste período em torno de construções identitárias (como Movimento Negro, Movimento Homossexual, Grupos Indígenas) ou de enfrentamento político (como Movimento Antibélico nos Estados Unidos, grupos de resistência aos regimes ditatoriais latino-americanos, partidos políticos de esquerda etc.) e as alianças que se estabeleceram entre estes diferentes atores sociais.

O desafio da interlocução e diálogo

As interconexões entre estes diversos movimentos e construções identitárias estão longe de serem resolvidas e são centro de vários debates na atualidade. A busca por interlocução e diálogo está, em muitos casos, apenas iniciando e é o grande desafio não apenas de relações de gênero, mas das relações humanas em todas as esferas de interação. O próprio conceito de o que é uma mulher na atualidade foi sacudido pelos avanços tecnológicos e reivindicações de determinados grupos. Veja-se a recente discussão acalorada em torno da participação de pessoas trans (transexuais, transgênero e travestis) nos encontros e debates do Movimento Feminista Latino-Americano, e o surgimento de categorias como self-identified woman (pessoa que se auto-identifica como mulher). É fato que é impossível falar em qualquer forma de relação, ignorando as implicações de gênero que engendram de formas históricas e culturais de organizar as relações.

Relações de gênero
 
Assim sendo, é factível afirmar que as relações de gênero estão sob constante pressão, visto que todo tipo de mudança representa conflito e negociação constantes entre modelos antigos conhecidos e confortáveis e novos modelos em construção. Estas tensões também se materializam em formas renovadas, e às vezes intensificadas, de violência e policiamento. Isso é especialmente verdade para os homens, cujo interesse nas mudanças está diametralmente em oposição aos privilégios históricos aos quais se acostumaram. Estes privilégios, por mais desumanizantes e ilusórios que sejam (veja-se como exemplo a relativa baixa perspectiva de vida devido aos problemas de saúde associados a um determinado estilo de vida identificado como masculino), impedem a busca e a construção de modelos alternativos de masculinidade.
 
A “crise do macho”

Tenho argumentado que a tão falada "crise do macho" tem levado a um "maquiamento" de construções identitárias masculinas com elementos contemporâneos que supostamente tornam os homens "mais femininos", sem, no entanto, questionar o sistema de gênero hierárquico que estrutura as relações. Também mulheres empregam estas técnicas e estratégias na construção de suas identidades e na ocupação do espaço social, na medida em que se "masculinizam" (adotando características consideradas "masculinas") e participam deste sistema. Da mesma forma, outras construções identitárias (que envolvem questões de raça/etnia, classe social, orientação sexual, deficiências físicas) em certos casos conseguem ascender e ocupar posições sociais de destaque na Era do "politicamente correto", ainda quando milhões de pessoas seguem sendo excluídas, marginalizadas e violentadas por estarem fora de determinados padrões. Daí que surgem as comuns afirmações: "você pode ser... desde que...", ou, "ela é... mas trabalha muito bem". Desta forma se populariza a idéia de que vivemos numa democracia onde, afinal, todas as pessoas têm acesso aos meios de produção e reprodução (desde que e/ou apesar de).

Modelos alternativos de masculinidade

É muito recente a discussão em torno dos estudos sobre masculinidade desenvolvida pelos próprios homens. Com exceção do Movimento Homossexual, especialmente de homens gays envolvidos nesta reflexão, ainda são escassas as tentativas de construção de modelos alternativos de masculinidade. Ainda que cresça o número de "homens feministas", os questionamentos dos papéis de gênero desempenhados por homens são relativamente pouco problematizados, sendo difícil falar num movimento social que tenha uma agenda política "masculina" de construção de um novo sistema de gênero. Até porque um tal movimento precisaria criar estratégias diferentes do Movimento Feminista, uma vez que não se trata de resguardar ou garantir direitos básicos, mas de se envolver de maneira concreta na prática de novas relações, considerando a interseção com questões de raça/etnia, classe social, sexualidade, em todas as esferas de interação humana (política, economia, religião etc.).

A estrutura social das relações

O que está em jogo é a forma como organizamos e estruturamos socialmente as relações. Numa época em que se fala em pós-capitalismo, em que se assume a globalização como um fato, de idas e vindas entre reacionarismos de direita e avanços relativos de esquerda, o grande desafio é pensar e experimentar relações saudáveis e relevantes para todas as pessoas. Gênero, e as reivindicações do Movimento Feminista, sem dúvida são parte essencial deste projeto de uma outra sociedade, mas precisam estar articulados com uma discussão ampliada em torno da construção das identidades e seu papel social. Não é mais possível articular respostas simplistas para questões complexas, embora os movimentos sociais, como o Movimento Feminista, continuem necessitando articular reivindicações muito concretas para superar as diversas formas de violência a que mulheres e outros grupos são submetidos diariamente. Mas estas reivindicações precisam estar no contexto de uma proposta de uma outra sociedade.

 

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