Edição 210 | 05 Março 2007

As mulheres na origem da nova sociedade

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IHU Online

Falar sobre o papel das mulheres na sociedade contemporânea não é missão difícil para o sociólogo francês Alain Touraine, autor do livro Le Monde des Femmes. Paris: Fayard, 2006, no qual ele fala da “sociedade de mulheres” onde “o tema da sexualidade ocupa o lugar central, que era antes, na sociedade industrial, o trabalho”.  O desafio é “compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos”.

Segundo Touraine, “são as mulheres que inventaram uma sociedade situada além da separação dos homens e das mulheres”.  Por essa razão, IHU On-Line entrevistou, por e-mail, o renomado autor de Um novo paradigma para compreender o mundo de hoje (Petrópolis: Vozes, 2006).

Touraine tornou-se conhecido por ter sido o pai da expressão "sociedade pós-industrial". Ele acredita que a sociedade molda o seu futuro através de mecanismos estruturais e das suas próprias lutas sociais. O ponto de interesse vital da sua carreira tem sido o estudo dos movimentos sociais. Em seus escritos, Touraine aponta para as transformações pelas quais a sociedade moderna e industrial vem passando. Para Touraine, a sociedade pós-industrial, longe de acabar com os conflitos, generaliza-os. É autor de, entre outros, A sociedade pós-industrial (Lisboa: Moraes, 1970).

Eis a íntegra da entrevista exclusiva concedida à IHU On-Line.

IHU On-Line - Como se deu a evolução do movimento feminista através da história e qual foi o papel e a função do movimento de mulheres na atualidade?
Alain Touraine
- O movimento feminista foi inicialmente político, para obter o direito de voto para as mulheres. A Grã-Bretanha foi o centro mais ativo dessas lutas. Em seguida, o objetivo principal se tornou a liberdade cultural da mulher, em particular naquilo que concerne ao seu corpo. Os sucessos obtidos foram consideráveis, por exemplo, na França, com as leis Neuwirth, da contracepção, e Veil, do aborto. Mais recentemente, o tom se tornou mais pessimista com as campanhas contra a desigualdade e, sobretudo contra as violências sofridas pelas mulheres. Alguns economistas pensam mesmo que, em matéria profissional, a posição das mulheres recuou.
 
IHU On-Line - Quais são os principais impactos para a autonomia da mulher, como ser social, dos progressos da ciência e da tecnologia?
Alain Touraine
- As descobertas da biologia permitiram evidentemente o controle da fecundidade. No entanto, é cada vez menos por referência ao feminismo que se desenvolve o debate sobre essas tecnologias da reprodução. Basta mencionar a oposição extrema da Igreja Católica.
 
IHU On-Line - Quais são os maiores anseios da mulher contemporânea? O que ela deseja mais fortemente?
Alain Touraine
- Esta questão é bem-vinda, pois a gente não pode se satisfazer com uma visão puramente negativa, quer dizer, de uma luta contra os danos sofridos, que faz da mulher uma pura vítima. Os debates legislativos ou jurídicos não devem esconder o que me parece o essencial. As mulheres adquiriram hoje uma posição dominante numa nova posição da cultura. Elas já desfrutavam do papel principal no movimento por um desenvolvimento durável e na defesa do meio ambiente (Cf. M. Brundtland ). Mas, de maneira não-espetacular, porém durável, as mulheres desenvolvem uma nova visão para elas próprias e para os homens, à qual estes últimos não se opõem. Poder-se-ia falar de pós ou neofeminismo para falar destas mudanças que me parecem fundamentais. A sociedade dos homens tende a dar a prioridade à conquista do mundo. As mulheres envolvem totalmente a sociedade em direção a uma nova prioridade, a da construção de si própria. Mais precisamente, quando a sociedade masculina impulsionava ao máximo a polarização da sociedade entre uma elite e uma massa, as mulheres procuram reunificar os elementos que foram separados: vida pública e vida privada; sexualidade e espírito. É bem claro que são hoje as mulheres que tomam a palavra e que os homens, ou se calam, ou aprovam a linguagem das mulheres. O velho machismo desapareceu em grande parte, salvo em certos meios de alguns países, em particular da vida política.
 
IHU On-Line - Quais são as conseqüências sociais de uma mulher autônoma, independente do homem?
Alain Touraine
- As mudanças em curso, na família como na vida sexual, não são, provavelmente, efeitos antes de tudo do feminismo. Mais exatamente, observa-se a separação da sexualidade e da vida cultural em geral e a construção propriamente social  de um modelo de família e também de menor dominação masculina. Estamos apenas no início de uma evolução rápida que separará condutas sexuais sempre mais diversificadas e a construção da vida familiar, tomando, ela própria, formas muito diversificadas. A relativa facilidade com a qual se avança para o reconhecimento do casamento homossexual indica que as barreiras tradicionais se enfraqueceram consideravelmente.
 
IHU On-Line - Como se caracteriza a "sociedade de mulheres" da qual o senhor fala?
Alain Touraine
- Quando eu falo de sociedade de mulheres, eu não faço nenhuma referência a nenhuma "feminilidade" ou a nenhum caráter psicológico próprio das mulheres, e falar de feminização da sociedade me parece absurdo. Quando eu falo de uma sociedade de mulheres eu me refiro a um tipo de sociedade e de cultura caracterizada pelo desaparecimento acelerado de uma politização entre os dois sexos, com uma dominação masculina. Foram as mulheres que inventaram uma sociedade situada além da separação dos homens e das mulheres.
 
IHU On-Line - Qual é a contribuição do feminino para a sociologia contemporânea? O que há de diferente no "olhar" feminino sobre a vida?
Alain Touraine
- A sociologia das mulheres é, aos meus olhos, uma parte essencial de uma sociologia geral. Já agora, uma grande parte dos debates da filosofia política e social e da sociologia é construída sobre os problemas postos pela situação e a ação das mulheres. Nossas sociedades modernas são dominadas pelo recentramento sobre o indivíduo, considerado em todas as suas funções e em seus direitos. Pode-se, também, dizer que o tema da sexualidade ocupa aí o lugar central, que era antes o do trabalho na sociedade industrial  e são as mulheres que escrevem as obras mais essenciais neste domínio. Não é preciso deixar-se limitar aos problemas da desigualdade. É preciso eliminar toda referência mais ou menos psicológica ao feminino. Em troca, é preciso compreender por que as mulheres estão na origem da nova sociedade e da nova cultura que se forma sob nossos olhos.

 

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